O contágio da esperança: a análise do discurso do Papa Francisco

POPULISMO E CRISE

O contágio da esperança: a análise do discurso do Papa Francisco

por Grupo de Pesquisa Discurso
19 de outubro de 2020
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Este artigo faz parte da série “A análise dos discursos sobre a pandemia da Covid-19”, produzida pelo Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)”. Nesta segunda fase, nos detemos na análise dos principais porta-vozes nacionais e internacionais dos discursos negacionista e científico. No presente artigo trazemos a análise política de um dos principais porta-vozes internacionais do discurso científico sobre a pandemia: o Papa Francisco

O objetivo da pesquisa é promover a análise política das práticas discursivas – negacionista e científica – sobre o acontecimento pandemia Covid-19 partindo do olhar da teoria do discurso desenvolvida por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe[i]. Neste artigo são abordadas as práticas discursivas do Papa Francisco e de representantes da igreja católica, como padres e bispos. A partir de pronunciamentos, ações, missas, conferências virtuais, falas e diversas performances significativas produzidas nas atuais circunstâncias, se aponta como a Covid-19 mostrou o despreparo da sociedade e o quanto o contágio da esperança[ii] é essencial para enfrentar o acontecimento pandemia.

Papa Francisco: o líder global mais popular

O argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, é o papa da Igreja Católica, atual Chefe de Estado da Cidade Estado do Vaticano e o primeiro papa latino-americano. Possui uma abordagem menos formal que a de papas anteriores, é conhecido por sua simplicidade e visto como um religioso de mente aberta. Destaca-se por sua humildade, simpatia, pelas habilidades de comunicação e posicionamento claro, pela preocupação com os pobres e sua postura de igualdade entre todos os indivíduos. Além de usar sua visibilidade internacional para clamar soluções pacíficas para conflitos históricos, e de ter um compromisso com o diálogo inter-religioso – dialoga com outras religiões e evita guerras com motivação religiosa –, como recentemente demonstrado na conferência proposta pelo Alto Comitê para a Fraternidade Humana[iii], onde líderes de diversas religiões oraram para pedir o fim da pandemia do coronavírus.

A Igreja Católica é uma das mais antigas instituições do mundo e sua história é marcada pela separação com o Estado. Mas, desde o princípio teve uma estrutura com dupla representação, religiosa e política, comportando-se como um ator político e econômico fundamental. Sua história tem demonstrado o grande poder de influência na sociedade e, no passado recente, o seu papel contestador de regimes autoritários. Nos últimos anos, a Igreja Católica enfrenta um processo de descatolização, isto é, uma diminuição do número de fiéis católicos, principalmente entre os mais jovens.

Ao se tornar Chefe da Igreja Católica, Bergoglio simbolizava mudanças na estrutura da igreja, uma quebra de padrões e de rigidez, tendo adotado posições consideradas progressistas em temas que a Igreja Católica não mencionava, como aborto, orientação sexual e divórcio. Com uma grande facilidade de interação e aproximação com o povo, o Papa prefere comunicar-se com as massas e promover seus interesses a lidar com a burocracia do Vaticano.  A igreja está 200 anos atrasada[iv], disse o Pontífice. O mesmo defende reformas estruturais na igreja e a necessidade urgente de mudar a mentalidade pastoral, mas lida com opiniões contrárias de conservadores.

Francisco defende reformas como a descentralização do poder na Igreja, uma nova estrutura financeira e base para atuar, mudanças nos critérios de escolha dos bispos, novas estratégias de comunicação, permitir que divorciados possam comungar, lutar contra os abusos de menores, entre outras. Mas o Papa Francisco enfrenta lutas internas para promover reformas no Vaticano, a ala conservadora é um dos maiores obstáculos do seu papado, principalmente ao reformar a atuação do Vaticano perante denúncias e processos sobre casos de abusos sexuais praticados por pessoas do clero. Francisco revogou segredo pontifício em casos de abuso sexual cometido por clérigos, bem como a Santa Sé passou a considerar imagens e vídeos de menores de 18 anos ao crime de pornografia infantil, que anteriormente era de 14 anos.

Segundo uma pesquisa anual[v] da Gallup International Association, o Papa Francisco é considerado o líder global mais popular e positivamente melhor avaliado entre as lideranças mundiais. No ranking, somente o Pontífice, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron são os líderes com saldos positivos. O Papa conta com 53% de opiniões positivas e 23% negativas, resultando em um saldo favorável de 30%, o dobro da segunda colocada.

No entanto, o Papa recebe críticas sobre ter muitas propostas aprovadas que nunca foram implementadas, sobretudo por sua postura e ações em relação aos abusos e casos de pedofilia. Apoiadores do seu discurso ficaram inicialmente desapontados, pois ele desfez um tribunal para julgar esses casos e colocou em dúvida as acusações de encobrimento feitas por vítimas de abuso por um sacerdote em visita ao Chile. Contudo, após as investigações e depois de uma cuidadosa leitura das atas dessa missão especial[vi], Francisco mudou sua posição e propiciou a punição dos sacerdotes envolvidos em casos de abusos, aceitando a renúncia de diversos bispos chilenos. Em uma carta citou se sentir com dor e vergonha pelas conclusões das investigações e admitiu seu grave equívoco.

Outra crítica se dá pelo papel da mulher e pela falta de representação feminina. O líder católico é criticado por não escutar mulheres, mesmo com organizações religiosas que teriam com o que contribuir, além da restrição dos papéis de liderança da Igreja para homens e a subordinação feminina. Todavia, em uma carta sobre a preocupação com o avanço da pandemia, demonstrou interesse na visão da economista Mariana Mazzucato[vii]. Creio que ela ajuda a pensar o futuro econômico, apontou Francisco. Tal como Mazzucato, Papa Francisco propõe um sistema econômico mais justo e sustentável, assim, convocou diversos jovens especialistas para participar do encontro mundial Economia de Francisco[viii], a fim de debater e pensar uma economia diferente para o globo, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda.

No que tange a pandemia, inicialmente, a postura da Igreja Católica era a de defender a manutenção de igrejas abertas, afirmando que seguiria as novas medidas de prevenção orientadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Medidas drásticas nem sempre são boas, criticou o Papa Francisco sobre as ordens de lockdown com os primeiros casos do coronavírus. Com a propagação do número de casos e de mortes no mundo, a igreja mudou seu posicionamento a respeito da Covid-19 e precisou fazer diversas adaptações na agenda católica, além de se modernizar com os atuais meios de comunicação.

Restrições foram realizadas antes mesmo da orientação para o fechamento temporário de igrejas. Procissões, festas e eventos religiosos foram todos cancelados para evitar aglomerações. Padres foram orientados a evitar contato durante celebrações, as hóstias passaram a ser dadas aos fiéis na mão durante a comunhão, os espaços da igreja deveriam permanecer abertos e ventilados.

Enfrentar a cultura do descarte com a fraternidade humana

Papa Francisco fechou as igrejas provisoriamente, suspendeu missas e passou a realizar celebrações e conferências através de plataformas online, a orientar o isolamento social e todas as medidas preventivas, além de se manifestar a favor da preservação da vida, da união e solidariedade, e contra os governantes egoístas que não respeitam a medida de isolamento social devido à economia, que fazem guerras e provocam a desarmonia em tempos de pandemia; e dos falsos profetas, aproveitadores da fé e vulnerabilidade das pessoas nesse momento. No atual contexto, as pessoas deveriam se agarrar na fé e na esperança de tempos melhores. Há um forte antagonismo entre o “nós” e “eles”, principalmente, no que tange a solidariedade e a responsabilidade.

Durante a pandemia, Papa Francisco afirma que cuidar das pessoas é mais importante que a economia e teme por riscos piores, o risco de genocídio viral se a economia vir antes da preservação da vida e o da indiferença egoísta. A força da fé, a certeza da esperança e o fervor da caridade para enfrentar este acontecimento foram alguns dos conselhos do Papa aos fiéis. Para Francisco, também é essencial fazer uma reflexão para o mundo pós-pandemia, este tempo deve ser visto como uma oportunidade para preparar o amanhã de todos, e utilizado para remover as desigualdades. O Pontífice se posiciona a favor das recomendações das instituições de saúde e orienta as igrejas a seguirem esta posição, pede pela cooperação da comunidade científica para descobrir uma vacina que seja disponibilizada globalmente e crê que a Covid-19 possa ser derrotada em primeiro lugar com os anticorpos da solidariedade.

As performances mais significativas são a das próprias celebrações de missas e audiências virtuais do Vaticano, com diversos pronunciamentos do Papa Francisco. No dia 27 de março, na Praça de São Pedro em frente à Basílica Vaticana absolutamente vazia, o Papa realizou a tradicional benção Urbi et Orbi[ix], concedendo a indulgência plenária – perdão de pecados a todos os católicos -, orou só pelo fim da pandemia e pediu para os fiéis não terem medo e sim esperança e fé.

 

Papa Francisco realizando a benção Urbi et Orbi diante da Basílica Vaticana com a Praça de São Pedro vazia. (Crédito: VaticanNews)

 

Na benção, o Papa ressalta que mesmo com a crise do coronavírus e os efeitos de desaceleração global provenientes da doença, não se devem esquecer as urgências que o mundo está passando. Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Na mensagem, o Papa enfatiza a crise humanitária da Ásia e África, a conjuntura crítica da Venezuela e as inúmeras mortes de migrantes na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. Todavia, podem-se acrescentar guerras, seca, fome, pobreza, violência, crises políticas, preconceitos, lutas contra o racismo e protestos antifascistas que ocorrem mundialmente.

Em maio, a editora oficial do Vaticano lançou o livro Vida após a pandemia, que reúne mensagens escritas ou faladas com reflexões do Papa sobre a pandemia e a visão de nascimento de um novo mundo após a crise sanitária, baseado nas relações interpessoais e na solidariedade. Francisco aposta veementemente na reconstrução de um mundo melhor que possa nascer desta crise da humanidade. No mesmo mês aconteceu o movimento #RezemosJuntos, organizado pelo Alto Comitê para a Fraternidade Humana, para promover a fraternidade e a convivência diante de uma emergência de saúde global.

No Brasil, o movimento nacional #FormouEsperança também foi significativo, o Cristo Redentor recebeu uma projeção de jaleco representando todos os profissionais da área da saúde e com agradecimentos em várias línguas demonstrando o combate universal contra o coronavírus. Além da homenagem, foi realizado o ato de consagração do Brasil pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, respeitando todas as medidas preventivas. O Papa também doou respiradores para ajudar o país, demonstrou preocupação em ligações realizadas com arcebispos e enviou mensagens especiais para os brasileiros.

O país governado por Jair Bolsonaro enfrenta uma crise política em conjunto com a crise sanitária. Com quase 5 milhões de pessoas infectadas e mais de 147 mil mortes, a atuação negacionista do presidente em relação a pandemia apostou em remédios sem comprovação de eficácia, em pedir reabertura do comércio enquanto os casos de Covid-19 se intensificavam e em culpabilizar a imprensa, governadores e prefeitos. Devido esta conduta, 152 bispos católicos brasileiros – um terço dos bispos presentes na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – assinaram uma carta com críticas ao presidente, intitulada como Carta ao Povo de Deus[x].

A carta evidencia a incapacidade e a incompetência do Governo Federal. Os bispos destacam que o governo se baseia em uma economia que mata e não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, além de utilizar a religião para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. A carta foi enviada ao Papa Francisco e ao Dom João Braz de Avis, cardeal brasileiro que congloba a Congregação para o Clero, e já teve a adesão de instituições católicas como a Família Franciscana[xi].

No Dia Mundial do Meio Ambiente, o Chefe da Igreja Católica enviou uma carta ao presidente da Colômbia, Iván Duque Márquez, que dizia: Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós[xii]. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o surto de coronavírus é reflexo da degradação ambiental, o que salienta a reflexão sobre os impactos da pandemia sobre o meio ambiente. Para Francisco, não há futuro para nós se destruirmos o meio ambiente que nos sustenta. Em recente celebração, o líder católico manifestou grande apreensão com a Amazônia e os povos indígenas e fez um apelo especial: dê luz e força à Igreja e à sociedade na Amazônia.

A visão ampla do Pontífice coloca as pessoas em primeiro. Na pandemia, os pobres e a periferia, as mulheres e o risco de violência doméstica, os idosos e a solidão com o confinamento, as famílias da Reforma Agrária, os profissionais mais vulneráveis, a proteção de refugiados e imigrantes, foram algumas das preocupações mencionadas em seu discurso. O vírus não faz distinção de pessoas, todos estão expostos e suscetíveis à doença. Logo, não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos, Francisco aponta para a importância em construir uma cultura da vida que proteja a dignidade de todos.

A Campanha da Fraternidade – iniciativa da Igreja Católica brasileira por meio da CNBB – de 2020 tem como tema Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso e o lema bíblico Viu, sentiu compaixão e cuidou dele. Padre Antônio Aparecido Alves, em artigo[xiii] para a Diocese de São José dos Campos, cita vencer o vírus da indiferença egoísta como objetivo da Campanha. Segundo Antônio, e até mesmo para o próprio Papa Francisco, esta indiferença é tão letal quanto o novo vírus, porque conspira contra a vida das pessoas e agride o planeta.

 

Tuítes do Papa Francisco. Fonte: Twitter @Pontifex_pt (Reprodução)

 

O Papa soma mais de 40 milhões de seguidores em suas contas no Twitter, disponibilizada em 9 línguas. Nessa rede social, costuma publicar mensagens de fé, da Palavra de Deus, e nos tuítes destacados, o Pontífice aconselha como enfrentar a crise e aponta a assistência humanitária e o propósito de um futuro de paz em um cenário pós-pandemia, com a perseverança e a visão de conjunto. Há ajuda humanitária no mundo inteiro feita pelas igrejas, capelas e fiéis, bem como bênçãos do líder católico destinadas para os arcebispos dos lugares mais afetados pela pandemia e para toda população.

Francisco presidiu diversas missas na Casa Santa Marta e audiências na Biblioteca do Palácio Apostólico, orando para o povo ser consolado pelo Deus da proximidade, da verdade e da esperança. Pediu para que cresça o amor nas famílias, porque onde há rigidez não se encontra o Espírito de Deus. Clamou para os políticos buscarem o bem das populações e não do seu partido, pensou na oportunidade que nos é oferecida pelo silêncio deste período: No tempo atual há muito silêncio. Também o silêncio pode ser ouvido. Que este silêncio, que de certo modo é novo em nossos hábitos, nos ensine a ouvir, nos faça crescer na capacidade de ouvir. Rezemos por isso. Sempre ressaltando a importância da fé:

A fé é um grito, a falta de fé é sufocar aquele grito, é como um silêncio. A fé é um protesto contra uma condição dolorosa da qual não entendemos o motivo; a falta de fé é aceitar viver uma situação à qual nos adaptamos. A fé é esperança de ser salvo; a falta de fé é habituar-se ao mal que nos oprime[xiv].

 No dia 3 de outubro, Papa Francisco assinou a encíclica Fratelli tutti (Todos irmãos)[xv], um documento sobre a fraternidade e amizade social, nela pede o fim do dogma neoliberal, uma nova ética nas relações internacionais e defende a fraternidade com atos e não apenas com palavras. Segundo o líder católico, o diálogo é o elemento chave para derrotar o vírus do individualismo radical – o qual o Papa considera o vírus mais difícil de derrotar -, bem como devemos realizar a cultura do encontro, com proximidade, incluindo a população que não está nas regiões centrais, sem isolar ninguém. Nesta parte da encíclica há uma citação da letra da música “Samba da Bênção” de Vinicius de Moraes: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

A análise do discurso do Papa Francisco e da Igreja Católica

O discurso do Papa Francisco e da Igreja Católica será analisado articulando a abordagem e conceitos da teoria do discurso de Laclau e Mouffe, com a proposta do enquadramento (frame analysis) implementada por Errejón Galván, onde os marcos específicos do discurso são: marco do diagnóstico, do prognóstico e de motivação[xvi]. O tom do discurso é emocional, esperançoso e motivacional. Com uma abordagem inclusiva, o discurso do Papa Francisco na pandemia se baseia no contágio do amor e da esperança, desafiando todos a fazerem o bem e acreditando em uma humanidade melhor no futuro.

Mesmo com a redução de casos da Covid-19 na Itália, o líder católico mantém a cautela e pede aos fiéis para não comemorarem o fim da pandemia antes da hora, e que permaneçam seguindo as prescrições dadas pelas autoridades responsáveis, mas sem perder a esperança. O problema do discurso se potencializa quando a questão da economia vem antes da preservação da vida, principalmente quando essa visão vem de governantes, o que leva à irresponsabilidade e ao desrespeito às medidas de prevenção por parte da população.

 

Quadro de marcos interpretativos do discurso (Elaboração própria)

No marco de diagnóstico do discurso científico do Papa Francisco e da Igreja Católica, o principal problema identificado reside no próprio acontecimento da pandemia da Covid-19 e a irresponsabilidade e desrespeito às medidas de prevenção, da economia vir antes da preservação da vida, uma crítica à cultura do descarte adotada no mundo das finanças, onde o sacrifício é normal. Além da questão da incoerência, ganância e hipocrisia de alguns governantes que estão desrespeitando as orientações da OMS ou não acreditam na gravidade da doença. Um dos pontos nodais identificados no contexto da pandemia é de que o vírus é grave, por isso, devemos diminuir a propagação do vírus, incentivar o isolamento social como forma de minimizar o contágio e preservar a vida. A vida é tratada como prioridade no âmbito do catolicismo, em conjunto com a visão de conjunto, solidariedade, fé e união para enfrentar a pandemia.

No marco do prognóstico, se explicita como solução do problema que, para vencer a pandemia, não haver o risco de genocídio viral e reajustar a rota da vida rumo ao Senhor, é preciso que a vida esteja antes da economia. Há também o apelo à fé, abraçar o Senhor para abraçar a esperança, os fiéis não precisam ter medo e não podem perder a esperança de que tudo vai passar, a solidariedade é fundamental para a existência de um novo mundo. O traçado de fronteira delimita o “eles”, que significam a pandemia da irresponsabilidade, os governantes preocupados apenas com a economia dos países, o charlatanismo de falsos profetas que prometem a imunização ao coronavírus, pessoas que provocam a desunião neste momento e a mídia criadora de caos.

No marco da motivação, além da ideologização da fronteira, destaca-se a oposição entre “nós” – o bem – e “eles” – o mal –, simbolizados pelo contágio da esperança versus a pandemia da irresponsabilidade. No processo de reconstrução histórica, social e política, a intenção é motivar seus seguidores. O discurso da Igreja Católica aponta que o mundo já enfrentou diversas tempestades e continua se mantendo firme. A força da fé é superior a qualquer medo e o nascimento de um novo mundo após a pandemia só acontecera com a esperança e os anticorpos da solidariedade.

O programa de ação, ainda no marco da motivação, é tudo aquilo que o Papa e a Igreja Católica ao redor do mundo propuseram a fazer durante a crise sanitária. Para não deixar de levar a palavra aos fiéis, a Igreja Católica transmitiu virtualmente missas e audiências, além de convocar dias de oração. O Pontífice formou uma Comissão especial[xvii] para a Covid-19, com 5 grupos de trabalho para combater os atuais desafios e futuros do pós-pandemia. Assim, igrejas foram abertas para hospedar pessoas que não podem viver a quarentena em sua própria casa, conventos se transformaram em ateliês para a confecção de máscaras, foram distribuídas cestas básicas para moradores de rua e famílias pobres, respiradores foram doados a hospitais e financiamentos de projetos foram feitos através da Fundação Populorum Progressio[xviii], como por exemplo, na América Latina e Caribe.

Foi criado, pelo Papa, um Fundo Covid-19 para as áreas de missão afetadas pelo vírus e demonstrar que ninguém está sozinho nesta crise. O Fundo Covid-19 socorreu populações africanas, como no Níger, Gâmbia, Zâmbia, Chade, Quênia, Benin, Madagáscar e Senegal. No Brasil, a Missão Paz de São Paulo arrecada doações e colabora com até 50 cestas básicas e kits de higiene por dia em apoio a imigrantes. No discurso do Papa e da Igreja Católica, a preservação ambiental aparece como uma grande preocupação para um futuro pós-pandemia. Na Uganda, um banco católico financia a instalação de sistemas fotovoltaicos, isto é, um sistema que gera energia elétrica por meio de radiação solar, com o objetivo de gerar oportunidades de desenvolvimento nas áreas mais remotas do país.

 

Quadro “nós” versus “eles” (Elaboração própria)

 

No quadro de caracterização das identidades antagônicas, o “nós” é o ponto nodal deste discurso que é o contágio da esperança, a preservação da vida faz parte da cadeia de equivalências junto com Igreja Católica, a figura do Papa, bispos, padres e fiéis, a OMS, os cientistas, profissionais da área da saúde, a imprensa que arrisca a própria vida para informar a população e entregar a verdade, pessoas e empresas que respeitam o isolamento social e todas as medidas de prevenção, a esperança, fé, responsabilidade e caridade.

As demandas principais são as de preservar a vida, resguardar a saúde, a reconstrução de um mundo melhor pós-pandemia, com mais união e solidariedade. Preocupam-se mais com a vida do que com a economia, alerta para risco de genocídio viral se for ao contrário e o perigo do vírus da indiferença egoísta. O Papa em todos os seus pronunciamentos clama por solidariedade global, diminuir a desigualdade social, e parar de poluir e depredar o planeta. Segundo Francisco, não há futuro para nós se destruirmos o meio ambiente que nos sustenta.

 

Cadeia de equivalências do “nós” (Elaboração própria)

 

O “eles” é tudo aquilo que simboliza a pandemia da irresponsabilidade, seu ponto nodal. A cadeia de equivalências é conformada pela economia em primeiro lugar, que engloba os governantes, empresários e economistas preocupados apenas com a economia, a imprensa que gera pânico, o charlatanismo dos falsos profetas, como de alguns pastores pentecostais que prometem curas milagrosas e se aproveitam da fé das pessoas, onde há a diminuição do vírus, irresponsabilidade com a preservação da vida, a cultura do descarte adotada no mundo das finanças, a desarmonia, o egoísmo e o desrespeito às orientações da OMS por ganância.

 

Cadeia de equivalências do “eles” (Elaboração própria)

 

O apelo do discurso na disputa pela hegemonia

Os apoiadores do discurso do Papa Francisco e da Igreja Católica são os fiéis católicos, pessoas que acreditam em Deus mesmo não seguindo nenhuma religião específica e simpatizantes do Papa. Segundo os dados do Censo de 2010[xix], o perfil dos católicos no Brasil é de 65,5% para homens e 63,8% para mulheres, maior entre as pessoas com mais de 40 anos, chegando a 75,2% no grupo com 80 anos ou mais. No que tange a cor da pele, 48,8% deles se declaram brancos, 43,0% pardos, 6,8% pretos, 1,0% amarelos e 0,3% indígenas. O porquê de apoiar as lideranças católicas se resume na fé na palavra de Deus. Os padres, bispos e o papa são enviados por Jesus, o Criador. O Papa Francisco tornou-se um fenômeno e vem sendo admirado mundo afora, não apenas por católicos, devido sua simpatia e simplicidade, além de tocar em assuntos críticos que antes a igreja não se pronunciava.

O perfil da maioria dos aderentes é de pessoas de outras religiões ou sem nenhuma religião. Evangélicos são 22,2% da população brasileira, sem religião 8,0%, espíritas 2,0% e da umbanda e do candomblé 0,3%. Grande parte deste grupo são mulheres, com a cor de pele parda ou preta, e na faixa etária de crianças e adolescentes.

Em abril, uma pesquisa[xx] realizada pelo Datafolha permitiu realizar comparações comportamentais entre católicos e evangélicos de todas as regiões do país em relação ao coronavírus e a atuação do governo. Muitos católicos e evangélicos já acreditavam que a pandemia ocasionaria muitas mortes, em relação ao temor de serem infectados com o vírus, os evangélicos se sentiam mais seguros que os católicos. Outro número interessante é que 22% dos entrevistados católicos se arrependeram em ter votado em Bolsonaro na última eleição presidencial. Entretanto, os evangélicos relativizam mais a pandemia e se aproximam do discurso e ideias do presidente na opinião sobre a volta ao trabalho para as pessoas não pertencentes ao grupo de risco e no que tange a adesão ao isolamento social.

A pesquisa mostra que os católicos aparecem mais alinhados ao pensamento do Vaticano e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em relação ao isolamento social, igrejas fechadas e transmissões de missas online para evitar o contágio. Dom Walmor, arcebispo católico de Belo Horizonte e presidente da CNBB, por exemplo, repudiou pronunciamentos de Bolsonaro negando a pandemia e atribuiu que o mesmo minimiza o que deve ser tratado com responsabilidade por todos. Uma matéria[xxi] divulgada pelo Estadão apontava que TVs católicas estariam oferecendo apoio a Bolsonaro em troca de verbas e solução de problemas afeitos à comunicação, o que acarretou em uma nota de repúdio da CNBB sobre tal proposta. A Igreja Católica não faz barganhas.

A maioria das críticas à Igreja Católica é feita pelas suspeitas de corrupção, de padres que se afastaram de suas missões espirituais, com casos de assédio, pedofilia e abusos relacionados à igreja, e pelo histórico cruel de colonização. Como mostra os dados do Censo de 2010, houve uma diminuição do número de católicos no Brasil e um aumento no número de evangélicos, espíritas e sem religião, o país passou de 73,6% de católicos em 2000 para 64,6% em 2010. Segundo o sociólogo Flávio Sofiati para a Rádio França Internacional[xxii], tal fenômeno é recente e pode ser explicado por algumas questões, como: desinstitucionalização do religioso, onde os fiéis não deixam de acreditar em Deus, mas não frequentam e praticam os dogmas da instituição assiduamente; inúmeros casos de pedofilia e abusos sexuais envolvendo o clero; e a crise da própria estrutura das paróquias e da organização das dioceses.

No entanto, em relação à pandemia, o Papa Francisco se manifestou preocupado com a gravidade do vírus, com os pobres e países sem recursos e infraestruturas para lidar com a crise, pediu união e solidariedade global e ordenou que as igrejas seguissem as medidas da OMS. Dessa forma, ganhou admiração de pessoas que compartilham desse pensamento e indiferença daqueles que são mais negacionistas, que acreditam que a Igreja Católica está infestada pela esquerda, com o argumento de que o papa argentino é comunista. Inclusive, em missa na Casa Santa Marta, o Pontífice afirmou que defender os pobres não é ser comunista, é o centro do Evangelho.

A solidariedade é o caminho da pós-pandemia

No discurso do Papa e da Igreja Católica, valores como a solidariedade, união, esperança, caridade, fraternidade e amizade em tempos de coronavírus são reforçados para todo o globo, estes se antagonizam com o egoísmo, a segregação, histeria, desigualdade social e preconceitos, em especial, aos estrangeiros e mais vulneráveis. O discurso da igreja na Covid-19 possui uma abordagem médico-científica, gira em torno da preservação da vida, semelhante ao da OMS, e se antagoniza com o discurso de governantes e empresários preocupados apenas com a esfera econômica, pessoas que minimizam o vírus, colocam a economia em primeiro lugar e não se importam com as medidas para frear o contágio representam a irresponsabilidade da pandemia, o Papa Francisco personifica o contágio da esperança para derrotar o coronavírus, com a preservação da vida à frente.

Neste momento de pandemia, o Papa Francisco doou kits de testes para diagnóstico da Covid-19, respiradores para emergências e doações para diversos países que enfrentam o coronavírus. Alertou para a pandemia da fome e da solidão, com preocupação aos pobres e idosos, além de expressar gratidão aos profissionais da saúde em quase todos seus pronunciamentos e pedir luz e força para enfrentar a pandemia. Se adequando aos meios de comunicação para não deixar seus fiéis só, sempre orando, confiando a humanidade à proteção divina e pensando em um futuro de paz, um amanhã melhor para todos.

Paixão e razão caminham juntas neste discurso. O Papa utiliza elementos emocionais em todo seu discurso sobre a pandemia, apelando pela preservação da vida e pela razão científica ao incentivar as orientações da OMS. Com o objetivo de que toda humanidade fique em paz, apesar do momento conturbado. Proporcionando a colaboração internacional e a solidariedade, agarrando-se na imaginação de que tudo será diferente após a pandemia. Dessa forma, a atuação do Papa e da Igreja Católica na pandemia que atravessou fronteiras é vista de forma positiva, pois fomenta a solidariedade e união em tempos difíceis. Segundo Francisco, é diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, todos estão sofrendo, por isso a necessidade de manter-se unidos para enfrentar a pandemia e assim, com Jesus, podemos nos imunizar contra a tristeza.

Pessoas ficam amedrontadas e em pânico ao passar por crises sanitárias, tragédias e pandemias mundiais, principalmente como a da Covid-19. Dito isso, o alto número de infectados e mortos em escala global, a modificação do modo de vida dos povos e por ainda ser desconhecida uma vacina, cura ou o término da doença, leva os fiéis a refletirem: será este o fim do mundo? Estamos vivendo em um Apocalipse ou ele está próximo?

Tais questionamentos são reforçados por alguns falsos profetas do Juízo Final com leituras incorretas sobre o Livro do Apocalipse, que prejudicam a saúde psicológica de mentes vazias de pessoas desesperadas com o novo vírus. De acordo com a passagem sobre o fim dos tempos em Mateus 24:36 na Bíblia: Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai. Por fim, o que resta são as palavras mais mencionadas no discurso estudado: a fé e o contágio da esperança.

 

Vanessa Barroso Barreto, Jorge O. Romano, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza, Juana dos Santos Pereira, Larissa Rodrigues Ferreira, Myriam Martinez dos Santos, Pamella Silvestre de Assumpção, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Paulo Augusto André Balthazar, Annagesse de Carvalho Feitosa, Eduardo Britto Santos, Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Daniel S.S. Borges, Juanita Cuellar Benavídez, Renan Alfenas de Mattos e Ricardo Dias são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil

 

 

[i] LACLAU, E.; MOUFFE, C. Hegemonía y estrategia socialista: hacia una radicalización de la democracia. Madrid: Siglo XXI, 1987. LACLAU, E. A Razão Populista Ed. Três Estrelas, São Paulo, 2013.

[ii] Metodologicamente, ao longo do texto, colocamos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos atores como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[iii] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-05/alto-comite-fraternidade-humana-rezar-humanidade.html

[iv] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-12/papa-francisco-diz-que-igreja-esta-atrasada-e-pede-reformas

[v] Disponível em: https://www.gallup-international.com/wp-content/uploads/2020/02/EOY_2019_Full_TextandGraphs.pdf

[vi] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/11/internacional/1523471006_820365.html

[vii] Mariana Mazzucato é professora de Economia da Inovação na University College London, no Reino Unido. Ela defende uma mudança radical do capitalismo para o mundo pós-pandemia.

[viii] A Economia de Francisco é um movimento de jovens que se move e vive em todo o mundo por uma economia mais justa, inclusiva e sustentável. O encontro internacional será realizado on-line de 19 a 21 de novembro de 2020.

[ix] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/27/papa-reza-so-e-concede-indulgencia-plenaria-por-pandemia-de-coronavirus.ghtml

[x] Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/07/27/em-carta-ao-povo-de-deus-152-bispos-criticam-incapacidade-de-jair-bolsonaro

[xi] Disponível em: https://cffb.org.br/nota-de-adesao-da-familia-franciscana-a-carta-dos-bispos-catolicos-ao-povo-de-deus/

[xii] Disponível em: https://noticias.cancaonova.com/mundo/nao-podemos-ser-saudaveis-num-mundo-doente-escreve-papa/

[xiii] Disponível em: https://diocese-sjc.org.br/campanha-da-fraternidade-2020-vencer-o-virus-da-indiferenca/

[xiv] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-05/papa-francisco-audiencia-geral-oracao-respiro-fe.html

[xv] Disponível em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

[xvi] GALVÁN, I. E.: La lucha por la hegemonía durante el primer gobierno del MAS en Bolivia (2006-2009): un análisis discursivo. Madrid: Universidad Complutense, tesis de doctorado, 2012.

[xvii] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-04/papa-francisco-covid-19-turkson-dicasterios.html

[xviii] A Fundação Populorum Progressio tem como objetivo ajudar a promoção dos camponeses, indígenas e afroamericanos mais abandonados da América Latina e do Caribe, através de pequenos projetos. Disponível em: populorumprogressio.org

[xix] Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?id=3&idnoticia=2170&view=noticia

[xx] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/presidente-se-afasta-de-bolsonaristas-catolicos-ao-minimizar-pandemia.shtml

[xxi] Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,por-verbas-tvs-catolicas-oferecem-a-bolsonaro-apoio-ao-governo,70003326526

[xxii] Disponível em: https://www.rfi.fr/br/brasil/20190331-rfi-convida-flavio-sofiati



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