O contrafactual que não vamos conseguir estimar
Boa parte da nossa socialização, expressão política e consumo de informação, hoje, acontece no ambiente online
Poucas visualizações nos stories do Instagram com conteúdo político – e, quando repostados, queda de visualizações. Debates que ninguém comentou no dia seguinte – ou que simplesmente não aconteceram. Se tem algo que marcou a campanha das eleições de 2026, antes do primeiro turno, foi a apatia. Houve até quem a descrevesse como a “menos engajada desde a volta de democracia”. No Brasil, mesmo o voto obrigatório não foi capaz de mobilizar 33,4 milhões de brasileiros e brasileiras a irem às urnas, uma abstenção recorde desde 1998. Mas estávamos mesmo indiferentes ou sendo influenciados a parecer indiferentes? Numa realidade filtrada por algoritmos, a segunda hipótese é razoável de se levantar. O problema é que talvez nunca consigamos prová-la.

Comecemos pelo óbvio: nunca estivemos tão conectados. Dados da PNAD Contínua de 2025, mostram que mais de 90% da população acima de 10 anos está conectada à internet. Boa parte da nossa socialização, expressão política e consumo de informação, hoje, acontece no ambiente online. Além disso, o Brasil é um dos poucos países em que o uso de redes sociais como fonte de notícias é maior do que o de qualquer outra fonte – 53% da população brasileira se informa por meio delas, contra 40% no Reino Unido e 25% no Japão. Ou seja, a vida política no Brasil ocorre, sobretudo, em uma arena mediada – as redes sociais.
A mediação ocorre por meio de algoritmos, cuja parametrização define como cada conteúdo é curado e distribuído. Um grupo de pesquisadores de alto prestígio da Escola de Economia de Paris (PSE) encontrou, inclusive, evidências de que essa escolha algorítmica de distribuição em redes sociais pode ter efeitos políticos. O artigo, que foi publicado na revista Nature, em 2026, consistiu em um experimento de campo com 4.965 usuários ativos do X, nos Estados Unidos, em 2023, que foram sorteados aleatoriamente para um feed algorítmico ou cronológico – o sorteio é justamente o que permite isolar metodologicamente o efeito do algoritmo de qualquer outra causa. Após sete semanas, os que passaram ao feed algorítmico apresentam tmabém opiniões mais conservadoras, sobretudo em relação às prioridades de políticas públicas, à percepção de investigações criminais contra Trump e às visões sobre a guerra na Ucrânia.
Os autores mostraram, cientificamente, que o algoritmo promove conteúdo conservador e rebaixa publicações do jornalismo profissional, e que os usuários expostos a ele passaram a seguir perfis de ativistas conservadores e continuaram a segui-los mesmo após desligá-lo. Embora não haja estudos idênticos em outras plataformas, a pesquisa é informativa sobre como a distribuição algorítmica pode estar alinhada à visão política dos proprietários de plataformas digitais. Nesse caso, Elon Musk, que havia recentemente comprado o X, antigo Twitter, pouco antes do experimento.
Mais do que nunca, os donos das maiores plataformas digitais do mundo estão completamente alinhados à política de Donald Trump. A presença dos líderes da Meta, Amazon, Google, Apple, TikTok e X na posse de Trump, em janeiro de 2025, tornou esse alinhamento explícito. O vídeo de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que quebrou a internet duas semanas antes da posse de Trump em 2025, ao anunciar o fim do programa de checagem de fatos, selou seu compromisso com a veiculação de conteúdos que possam apresentar descolamento factual ou simplesmente serem moralmente inaceitáveis. Dias depois, segundo o jornal The New York Times, publicações de fornecedores de pílulas abortivas foram ocultadas, bloqueadas ou removidas.
E se os donos das plataformas estão alinhados a Trump, importa saber o que Trump quer do Brasil. O presidente americano tem sido acusado de tentar interferir na eleição brasileira. A Polícia Federal arquivou o pedido da AGU para investigar o caso, mas os sinais se acumulam: a designação do PCC e do CV como organizações terroristas, a foto de Trump ao lado de Flávio Bolsonaro no dia do anúncio do tarifaço, a tentativa de envio de oficiais para questionar as urnas brasileiras, a reunião organizada pelo consulado dos EUA com influenciadores bolsonaristas, além do fechamento de consulados americanos no país dias antes da votação, interpretado por críticos como forma de alimentar uma narrativa de insegurança. Mas essa tentativa de ingerência também passou pelas redes?
É tentador não ligar os pontos. Não precisa ser cientista social para hipotetizar que as redes sociais possam ter contribuído para “apatizar” a população, desmobilizar e desengajar. Da mesma forma como as redes já foram acusadas de radicalizar usuários e acirrar a polarização em troca de engajamento e o crescimento do seu modelo de negócio, pode também estar – hoje – por trás dessa apatia. Tecnicamente, bastam poucos ajustes para reduzir o alcance de conteúdo político num feed. E, como os algoritmos não são auditáveis, dificilmente alguém de fora perceberia.
Há também indícios anedóticos, que inclusive levaram o TSE a formalizar um questionamento à Meta sob suspeita de seletividade algorítmica e manipulação na entrega de conteúdos. A campanha de Lula havia solicitado explicações da Meta após a suspensão de sua página de anúncios. Outros candidatos de esquerda, como o deputado eleito Jones Manoel afirmou que a Meta seguia restringindo sua conta mesmo depois de uma liminar determinar o fim das restrições. Até a influenciadora Gabriela Prioli denunciou um erro na contagem de visualizações de um vídeo que havia publicado em apoio à campanha de Lula. Apontou que, inicialmente, apresentava uma dúzia de milhões e, poucas horas depois, contava com pouco mais de um milhão de visualizações. A Meta chegou a admitir falha na contagem de visualizações em vídeos no Instagram, mas alegou tratar-se de um problema global. Ou seja, seria mera coincidência que problemas ligados a contas de pessoas tão expostas politicamente, durante as eleições de em um país para onde o mundo tem seus olhos voltados. Casos isolados não provam um padrão, mas mostram por que a pergunta merece resposta.
Em economia, é muito comum falarmos em “contrafactual”. O contrafactual é aquele fato ou situação que teria acontecido caso uma reforma uma política ou o que se quer analisar não tivesse acontecido. Por definição, esse cenário não pode ser observado, apenas estimado. Foi, por exemplo, o sorteio entre feeds no estudo da Nature, que permitiu aos pesquisadores estimar o contrafactual – e com isso, constatar o efeito da distribuição do feed algorítmico. Para sabermos, então, se as plataformas digitais efetivamente limitaram o alcance de conteúdo político nesta eleição, precisaríamos de um contrafactual – isto é, como as eleições teriam transcorrido caso os feeds fossem neutros, os donos das plataformas fossem apartidários e o governo de Trump não estivesse tentando influenciar as eleições brasileiras.
Teriam sido, as campanhas, menos apáticas? Quais candidatos teriam ganhado ou perdido alcance? Responder a estas perguntas requer acesso a elementos internos e dados que, hoje, as plataformas não disponibilizam. Enquanto os algoritmos forem caixas-pretas e o Brasil não exigir, como já faz a União Europeia, que as plataformas abram seus dados a pesquisadores, não conseguiremos estimar se a “apatia” observada nas eleições de 2026 foi apenas uma escolha do eleitor ou dos que controlam o feed.
Felipe Lauritzen é pesquisador, pós-doutor em Economia na Berlin School of Economics e está finalizando o PhD em Economia pela Sciences Po Paris, com projetos na área de economia da mídia e economia política.

