Prostituição: o corpo da mulher como elemento de manifestação de poder

Feminismos transnacionais

O corpo da mulher como elemento privilegiado de manifestação de poder

por Ana Luísa Rocha Martins
9 de outubro de 2020
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Artigo da série especial Feminismos transnacionais trata do tema da prostituição e as formas de percorrer esse caminho. “São muitas as variáveis que interferem na experiência humana. Um único caminho com inúmeras possibilidades, sensações e perspectivas. Apesar disso, o relativismo não é absoluto: é situado em determinado espaço e tempo.”

O trabalho que envolve corpos, desejos e mistérios femininos figura-se como tema cuja amplitude não caberia nos limites do presente texto. A ideia é tão somente trazer à tona uma forma peculiar de prostituição com a qual tive contato na pesquisa de campo com mulheres acolhidas em uma comunidade terapêutica no interior do Maranhão. Essas mulheres estavam ali abstinentes, tentando lidar com o uso problemático de drogas lícitas e ilícitas – sobretudo o crack – e com todas as implicações sociais que decorrem dessa realidade. Ao serem questionadas se haveria distinção na experiência de uso abusivo de drogas entre homens e mulheres, o tema da prostituição veio à tona.

Prostituição1 é o caminho. Infinitas são as formas de percorrê-lo. São muitas as variáveis que interferem na experiência humana. Um único caminho com inúmeras possibilidades, sensações e perspectivas. Apesar disso, o relativismo não é absoluto: é situado em determinado espaço e tempo. São inúmeros quanto à forma de percebê-los, mas o caminho ainda é único em algum sentido de existência, seja ele qual for. Por isso, qualquer descrição do caminho só importa na medida em que também descreve as condições em que o trajeto foi percorrido, sobretudo se pretendemos falar em experiências humanas. É o tipo de conclusão com ar de obviedade, mas que precisa ser discernida quando tratamos de diferentes mulheres, de feminismos, com a tentativa de ir além de uma visão monolítica e endógena.

Distrito Vermelho na Holanda, região conhecida pela prostituição. (Crédito Unsplash)
Porque a prostituição parece um caminho mais óbvio do que a criminalidade?

Pelas entrevistas que realizei, tive acesso à seguinte associação: para conseguir drogas ilícitas em quantidade compatível com o uso intenso, os homens (geralmente) se envolvem na criminalidade, enquanto as mulheres têm uma alternativa a mais: elas se prostituem. Tal distinção de gênero foi relatada por Margarida2, para justificar sua impressão de que a experiência dos homens “é pior” do que a das mulheres. Sua resposta veio como uma afronta ao meu sentimento feminista midiático, branco e de classe média. Eu tinha noção de que a prostituição era uma prática recorrente naquele meio, o que me intrigou foi a conclusão de que isso seria um privilégio das mulheres em relação aos homens. Era difícil enxergar algum tipo de vantagem para as mulheres em uma sociedade patriarcal, principalmente naquelas circunstâncias. “An?” – repeti a pergunta e ela logo explicou:

Já para os homens eu acho que se torna mais difícil, porquê? Porque é 100% crime […] eles logo vão roubar, vão traficar, vão matar e ali eles vivem uma vida de cadeia; Lá na cadeia piora tudo porque sai pior, entendeu? É difícil de se regenerar, já sai e em meio às facções, já sai mais revoltado, passou sete anos aprontando, vegetando na rua […] escravo das drogas, passa sete anos de cadeia; Pô, paralisou a vida do cara. Quando sai vai fazer o quê? Vai roubar, aprontar de novo entendeu? Ali o cara apanha, o cara passa fome, o cara passa um bagulho doido. Então, os homens, eu creio que se torna muito mais dificultoso, é muito pior; a sociedade não abre a porta, ninguém confia, ninguém dá emprego nem nada entendeu? […] por que tem medo, fica mais apreensivo por ser homem… e assim não confia; […] Para homem é mais difícil, porque o homem é 100% crime […] a mulher não, ela faz um corre bem ali, vai e fuma um bagulhozinho de boa;”

Constatação semelhante foi publicada pela revista da Rede de Enfermagem do Nordeste, em 2014, no artigo “Vivências de mulheres que consomem crack”. De acordo com os relatos das entrevistadas no âmbito dessa pesquisa, a “venda do corpo” foi simbolizada como uma estratégia que lhes proporcionava autonomia, poder e algumas vantagens frente aos homens, sobretudo, para aquisição de drogas. Constam no referido artigo trechos das falas das entrevistadas:

O homem eles veem como um lixo e a mulher eles tiram proveito. Para mulher é mais fácil usar a droga, é só transar ou vender o corpo, já o homem, se ele não levar dinheiro ou não traficar, ele não ganha (E5). Jamais eu vendi meu corpo por menos de 50,00 e sempre digo assim não troco meu corpo por pedra nenhuma. Eu faço isso para me sustentar, eu tenho meu vício, mas não é para isso que eu uso meu corpo (E6). Se eu tivesse um serviço eu não estaria na batalha (prostituição), eu quero sair, eu quero um serviço, se eu conseguir eu paro com tudo (substâncias psicoativas) (E7)”

 

O mesmo estudo elucida que a prostituição, nesse contexto, pode ser entendida como uma medida de proteção das mulheres contra o envolvimento no crime, explicitando o domínio que apresentam sobre seu corpo que é vendido a fim de obter o que necessitam. Nessa perspectiva, o corpo aparece como um elemento privilegiado de manifestação de poder, configurando uma prática da autonomia da mulher em relação aos homens.

Seria então um privilégio, em relação aos homens na mesma condição, possuir um corpo feminino com potencial comercializável?

A lógica do ‘se é meu posso vender’ decorre de uma noção de propriedade, forjada em um modelo de sociedade, no qual ter algo autoriza sua negociação. O valor “desse algo” é quantificado matematicamente, para que seja convertido em dinheiro. Não está claro sob o que incide esse valor: coisas, pessoas… Aparentemente, tudo pode ser avaliado do ponto de vista monetário. Tratar coisas como pessoas e pessoas como coisas. Haveria uma forma apropriada de valorar cada um desses itens e tratá-los de maneira apropriadamente distinta? Tratar coisas como coisas e pessoas como pessoas. Qual é o valor de uma pessoa? Se são as pessoas que produzem as coisas, devem se sobrepor a elas. Mas a ordem econômica não respeita essa lógica. Poucos são os que produzem as coisas das quais precisamos para existirmos enquanto pessoas. O dinheiro é o passaporte. É a forma mais prática de acesso às coisas… e às pessoas, quando quem se vende encontra quem quer e pode comprar. A necessidade de acesso às coisas aciona essa lógica.

Segundo Margarida: “[…] primeiro você empenha as suas coisas, depois você vai lá e troca, depois você vende tudo que tem; depois você se vende! […] Aí quando vê que não… nem se vende mais, está num estado tão louco, está num estado físico lamentável, está num estado tão louco, aí vai roubar, aí é onde é o final de tudo, entendeu?”. Dentro da cadeia de alterativas descrita pela entrevistada a prostituição aparece como um meio eficiente para satisfação da necessidade de consumo de drogas, proveniente de um estado de uso abusivo. Se fazer consumível pela necessidade de consumo. No caso das mulheres entrevistadas, essa necessidade de consumo envolvida substâncias psicoativas cuja ausência lhes causava sofrimento. A sensação foi descrita por Margarida como “minhas carnes tremem”. A urgência em atender tal demanda exigia ponderar sobre as alterativas disponíveis.

Como elas poderiam escolher entre as alterativas em meio ao uso intenso de substâncias psicoativas?

Se a prostituição era uma alternativa, não significa dizer que era uma escolha livre. O relato de Margarida permite a compreensão de que ela foi levada a isso (ou não). Ela relata que teve um companheiro que conheceu “em onda de prostituição”, e que esteve com ele “mais pela necessidade”. Seria possível fazer uma escolha racional com as carnes tremendo? Para ela, comercializar seus desejos era uma forma mais segura, tendo em vista a experiência criminosa dos homens que conhecia. Após nossa conversa, fui falar com Gardênia. Ela me disse: “Minha irmã, eu sou mais antes me vender, do que roubar os outros, né?”. Respondendo-a mencionei que tinha ouvido falar que a prostituição era a forma mais segura de conseguir dinheiro. Ela logo me corrigiu: “Mais segura entre aspas, que não era. Era arriscado pegar uma doença, qualquer coisa, que às vezes a gente não se prevenia, nem com todo mundo eu me prevenia, eu me prevenia sim, mas eu poderia ter um HIV hoje.”

De fato, “segura” não era exatamente a melhor palavra. Várias entrevistadas relataram situações de violência, abuso e estupro. Após lamentar uma consumação e duas tentativas de estupro que sofrera, Gardênia contextualizou: “[…] a droga leva a pessoa em qualquer lugar, basta o cara, o cara mostrou a droga, que a pessoa vai pro canto que ele quiser.” Íris relatou que em seu período de uso contínuo, quando estava na rua, um homem a acolheu, mas pedia favores sexuais em troca das coisas mais simples, até de um balde de água para tomar banho. Ela lamentou dizendo “E aquilo foi me moendo, eu fui secando da noite pro dia mulher, fiquei magrinha…” São alguns dos contextos em que a prostituição de mulheres em uso abusivo de drogas ocorre. Em meio à vulnerabilidade que a ausência das substâncias psicoativas acarreta, o corpo feminino se faz explorável.

Seria a prostituição uma forma menos violenta do que o crime? Ou um risco a mais de sujeição a toda sorte de violência, principalmente sexual?

Aparentemente, ambas as situações oferecem riscos, em diferentes níveis. A violência do roubo e do tráfico aciona uma rede pública de controle estatal. A violência sexual e psicológica restringe os envolvidos e a vítima é uma só. Estaríamos diante daquela velha lógica que associa o masculino ao público e o feminino ao privado? Ter uma resposta a essa pergunta faz alguma diferença? Ambas envolvem vulnerabilidades, sofrimento e reprovação moral. Então porque as mulheres se prostituem enquanto os homens furtam, roubam e traficam? Seria o mundo do crime ‘muito machista’ para recebê-las? Ou estariam esses corpos femininos já violados, pelos contextos de onde essas mulheres vieram?

Seria precipitado oferecer todas as respostas. De qualquer forma, preciso mencionar as mulheres que entrevistei eram em maioria pretas e pardas, oriundas de famílias com situação econômica desfavorecida, com pouca qualificação profissional. Tal perfil se assemelha ao das mulheres entrevistadas no artigo “Vivências de mulheres que consomem crack”. Elas eram, em sua maioria, pretas ou pardas, possuíam entre 19 e 48 anos de idade, encontravam-se em situação social e econômica desfavorecida, trabalhavam de forma informal, possuíam companheiro e pelo menos 1 filho.

Não é possível afirmar que a experiência de mulheres com outras características seria igual ou diferente. Tive notícias de uma bacharel em direito de classe média que passou pela comunidade terapêutica pesquisada, de outra senhora branca de classe média, mas ainda não consegui conversar com elas. Elas foram mencionadas como figuras estranhas, até pela modalidade de acesso gratuito da comunidade. O fato é que a intersecção entre gênero, raça e classe se opera de maneira muito veemente e faz parte da descrição do caminho e das condições em que o trajeto da prostituição foi percorrido.

Situações de vulnerabilidade podem suscitar os mais profundos questionamentos. A prostituição de mulheres em uso abusivo de substâncias ilícitas se traduz como um sinal de autonomia ou de submissão? É o meio mais seguro ou o mais violento de financiamento do consumo? Mesmo sem todas as respostas, tais inquietações devem ecoar, de modo que a realidade dessas mulheres de alguma forma faça parte, já que inexiste em tantos outros meios.

Ana Luísa Rocha Martins é graduada em Direito e mestranda em Sociologia, ambos pela UFMA. Tem como área de interesse Drogas, Comunidades Terapêuticas e Gênero.

1 Falo de prostituição do corpo feminino, embora não seja necessário o esclarecimento em uma sociedade insistentemente machista.

2 Nome fictício para preservar a identidade das mulheres.

3 Disponível em: < >. Acesso em 29/09/2020.

 



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