O desafio de fazer o Estado acompanhar o garimpo
Reduzir a mineração ilegal exige mais do que operações de fiscalização na Amazônia. Exige um Estado que seja capaz de acompanhar uma atividade econômica que se desloca, se fragmenta e atravessa fronteiras
Há uma dificuldade particular em combater atividades ilegais em territórios tão extensos quanto a Amazônia: o Estado precisa encontrar algo que não permanece parado. Uma área de garimpo pode ser identificada por satélite, uma operação pode retirar equipamentos e os invasores podem abandonar o local. Ela pode mudar de rota, reduzir sua escala, deslocar-se para outra área ou reconstruir sua logística. Essa capacidade de adaptação faz com que o problema ultrapasse a dimensão de uma fiscalização pontual e exija políticas capazes de acompanhar sua transformação.
A Terra Indígena Yanomami e Ye’kwana oferece um exemplo particularmente importante. Dados do Monitoring of the Andes Amazon Program (MAAP), com informações até dezembro de 2025, estimam em 5.564 hectares a área total impactada pelo garimpo no território. A expansão de novas áreas apresentou uma queda acentuada: de aproximadamente 1.800 hectares em 2022 para 330 hectares em 2023, 84 hectares em 2024 e 45,2 hectares em 2025.
Esses números indicam que a presença do Estado pode alterar significativamente a dinâmica da mineração ilegal. Mas eles não autorizam a conclusão de que o problema tenha sido eliminado. Em 2025, o MAAP identificou 121 novos polígonos de mineração na Terra Indígena Yanomami com menos de um hectare. O monitoramento também apontou fragmentação das novas áreas e sinais de deslocamento para regiões próximas à fronteira com a Venezuela, onde estruturas logísticas podem estar fora do alcance direto da fiscalização brasileira.
A redução da atividade e sua persistência mostram que uma política pública pode alterar a escala de um problema, mas ao mesmo tempo enfrentar dificuldades para impedir sua reorganização e adaptação como é o caso do garimpo ilegal na T.I. Mundukuru. Quanto mais uma atividade consegue modificar seus métodos e deslocar suas operações, maior é a exigência de informação, coordenação e capacidade de adaptação por parte das instituições públicas para conseguir combater essa atividade.

É nesse sentido que o garimpo ilegal constitui um problema público complexo, pois a sua dimensão ambiental é inseparável de questões territoriais, econômicas, sanitárias e de segurança. A exploração depende de uma infraestrutura que inclui transporte, combustível, equipamentos, financiamento e comercialização. O ouro não permanece necessariamente próximo ao local onde foi extraído, diferente do dano que permanece na floresta. Ele pode percorrer diferentes circuitos comerciais antes de chegar ao mercado formal. E é justamente essa característica que ajuda a explicar por que o combate ao garimpo não pode ser pensado apenas como uma sucessão de operações de apreensão e destruição de equipamentos.
O Estado precisa mobilizar diferentes capacidades para identificar a atividade, interrompê-la, investigar suas redes e acompanhar seus efeitos. Trata-se de um problema que atravessa competências administrativas e escalas territoriais distintas, o que torna a coordenação institucional uma condição importante para a implementação da política. Aqui capacidades podem ser entendidas como condições institucionais, técnicas, administrativas e relacionais que permitem ao Estado formular e implementar políticas públicas.
Na Amazônia, compreender que apenas mobilizar recursos humanos e administrativos é importante, pois o Brasil possui órgãos ambientais, instituições responsáveis pela proteção dos povos indígenas, forças policiais, estruturas de defesa, sistemas de monitoramento e instrumentos de investigação. O desafio não é simplesmente criar mais uma instituição, mas fazer com que recursos e competências existentes sejam articulados diante de problemas que se adaptam e mudam de localidade.
A própria resposta adotada na Terra Yanomami ilustra essa lógica, pois as ações coordenadas pela Casa de Governo em Roraima envolveram Ministério dos Povos Indígenas, Funai, Polícia Federal, Força Nacional, Abin, Polícia Rodoviária Federal, ICMBio, órgãos de transporte e energia e as Forças Armadas. Segundo o Governo Federal, as operações combinaram fiscalização em campo, inteligência, controle do espaço aéreo e fluvial e bloqueio de rotas logísticas.
Contudo, essa articulação também precisa ultrapassar as fronteiras nacionais, pois o deslocamento de estruturas de mineração para regiões próximas à Venezuela, por exemplo, demonstra que alterações na distribuição territorial da atividade podem reduzir a eficácia de uma resposta exclusivamente nacional. Quando fornecedores, rotas ou pontos de apoio estão em diferentes países, a proteção ambiental passa a depender também de intercâmbio de informações e cooperação entre Estados amazônicos.
Há uma fonte de informação que pode ampliar a capacidade de resposta: os próprios povos indígenas. Na Terra Indígena Yanomami, o sistema de alertas Wãnori reúne informações produzidas pelas comunidades sobre ameaças ambientais e territoriais e as encaminha às autoridades. Em uma região onde a presença física permanente do Estado é difícil e custosa, incorporar conhecimento produzido no território pode ampliar a capacidade de detecção e resposta.
A questão seguinte é como avaliar os resultados dessa atuação. O número de operações, equipamentos inutilizados ou áreas fiscalizadas é relevante para medir o esforço estatal, mas não permite, sozinho, determinar a efetividade da política. Uma ação pode interromper uma frente de exploração e não alterar as condições que permitem sua reconstrução em outro local. Da mesma forma, uma redução expressiva da área minerada constitui um resultado importante, mas precisa ser acompanhada para verificar se novas frentes aparecem, se as rotas se modificam e se os fluxos econômicos permanecem ativos.
O sucesso de uma política não deve ser reduzido a uma classificação binária entre sucesso e fracasso, pois diferentes dimensões de uma mesma política podem apresentar resultados distintos. Para o combate ao garimpo, a consequência é clara: reduzir a abertura de novas áreas é um resultado relevante, mas não equivale necessariamente a eliminar a capacidade econômica e logística de reprodução da atividade.
Por isso, a avaliação precisa acompanhar a trajetória do problema. O monitoramento identifica alterações no território; a fiscalização intervém diretamente; a inteligência procura compreender redes; a investigação financeira busca os recursos que sustentam a exploração; a proteção territorial reduz a vulnerabilidade das comunidades; e a rastreabilidade procura acompanhar o minério para além do local de extração. A efetividade depende da conexão entre essas dimensões e da capacidade de transformá-las em uma resposta pública contínua.
Esse desafio é ainda maior porque o garimpo ilegal possui incentivos econômicos para persistir. Uma operação pode aumentar os custos de exploração em determinada região e induzir os grupos envolvidos a procurar alternativas. É justamente por isso que a informação produzida durante as operações possui valor que ultrapassa o momento da fiscalização. A identificação de rotas, equipamentos, áreas de concentração e formas de adaptação pode melhorar o planejamento das ações seguintes e permitir que a política passe de uma resposta predominantemente reativa para uma atuação mais preventiva.
A experiência recente na Terra Indígena Yanomami mostra duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, a ação coordenada do Estado foi acompanhada por uma redução expressiva da atividade mineradora, tanto na expansão anual de novas áreas quanto na área de garimpo ativo registrada pelas autoridades. De outro, a permanência de novos polígonos e os sinais de deslocamento da atividade indicam que a redução não encerra o problema. A efetividade da política precisa ser observada justamente nessa tensão entre os resultados já alcançados e a capacidade de sustentá-los a longo prazo.
É nesse ponto que a política amazônica precisa avançar, pois a capacidade de reação é indispensável, sobretudo diante de situações de emergência. Mas ela precisa ser acompanhada por mecanismos de prevenção, monitoramento e aprendizagem institucional. O objetivo não é apenas chegar novamente ao local onde o garimpo apareceu, mas compreender por que ele surgiu ali, quais estruturas o sustentaram e para onde poderá se deslocar.
O garimpo ilegal não é apenas uma ferida dentro da floresta. É uma atividade econômica apoiada por redes de transporte, financiamento, informação e comercialização. E é também um problema territorial que envolve populações indígenas, fronteiras e diferentes órgãos do Estado. Enfrentá-lo exige que as políticas públicas acompanhem essa mesma complexidade.
A pergunta decisiva não é somente quanto garimpo o Estado conseguiu retirar de determinado território dragas, acampamentos ou apreendeu quilos de ouro. É saber se conseguiu reduzir a capacidade de a atividade se reorganizar. Essa diferença muda o horizonte da política pública. No primeiro caso, o objetivo é interromper uma ocorrência. No segundo, é alterar as condições que permitem que ela volte a acontecer. A política pública precisa ser capaz de perceber essas mudanças antes que elas se transformem novamente em uma nova frente de destruição.
Alana Tenório é graduada em Relações Internacionais (UNIFAP) e mestranda em Segurança Internacional e Defesa (ESG) e membro do Observatório de Segurança e Defesa da Escola Superior de Guerra.
Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Pós-doutorando em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN). Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel). Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.
Referencias
FINER, Matt. MAAP #242: Mineração ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami (norte da Amazônia brasileira). Monitoring of the Andean Amazon Project (MAAP), 22 maio 2026. Disponível em: https://www.maapprogram.org/pt-br/gold-mining-brazil-yanomami/.
G1 PARÁ. Garimpo ilegal na TI Munduruku: estudo expõe impactos e como atividade ilegal persiste mesmo após ações federais no Pará. G1, 12 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/05/12/garimpo-ilegal-na-ti-munduruku-estudo-expoe-impactos-e-como-atividade-ilegal-persiste-mesmo-apos-acoes-federais-no-para.ghtml.
G1 RORAIMA. Operação contra garimpos na Terra Yanomami destrói 80 pistas e mapeia rotas para Venezuela. G1, 19 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/03/19/operacao-contra-garimpos-na-terra-yanomami-destroi-80-pistas-e-mapeia-rotas-para-venezuela.ghtml.
REVISTA CENARIUM. Relatório alerta para nova estratégia de garimpeiros no território Yanomami. Revista Cenarium, 22 maio 2026. Disponível em: https://revistacenarium.com.br/relatorio-alerta-para-nova-estrategia-de-garimpeiros-no-territorio-yanomami/.

