CAPA

O desafio financeiro: a era dos parasitas

Não estamos enfrentando apenas o Banco Master, e sim um sistema improdutivo de apropriação do excedente social voltado para pessoas ou grupos que podemos qualificar de parasitas, que não só enriquecem sem contribuir, como também deformam a governança e travam o desenvolvimento

“Simplesmente os interesses dos muito ricos não são os mesmos que os interesses da nação.”

George Monbiot, The Guardian, 2022

O escândalo do Banco Master anima muito o debate. Em ano eleitoral, tentar colar a etiqueta de corrupto no opositor político faz parte do tiroteio, em particular porque, para as pessoas desinformadas, a etiqueta permite substituir a informação e o raciocínio. Ao longo da minha vida de economista, me dei conta de que quando gritam “pega ladrão” em geral vale a pena olhar para quem está gritando. No caso presente, é evidente que, quando um governo combate a corrupção, ela vem à tona, porque é revelada, enquanto o governo corrupto que a gerou e tolerou fez o tema sumir do mapa.

Um segundo ponto é que não se trata de coisa nova. O caso Lemann, Sicupira e Telles, que também envolveu dezenas de bilhões de reais, sumiu do mapa. A fortuna de Jorge Paulo Lemann é hoje de R$ 88 bilhões; a de Carlos Alberto da Veiga Sicupira atingiu R$ 39,1 bilhões; a de Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, R$ 29,3 bilhões. Muito acima das Lojas Americanas, esse grupo pertence à 3G Capital, com sede em Luxemburgo, um paraíso fiscal, fora de alcance. Não é antigo: a Polícia Federal apontou que a fraude foi orquestrada pela antiga diretoria entre 2016 e 2022, resultando em operações contra ex-executivos. Foi o tempo ideal para as falcatruas, com Paulo Guedes e a autonomia do Banco Central. Foi também quando foi gerado o caso Master. Porém, aparece quando é combatido.

As fortunas continuam, mas as bandidagens em outra escala têm suficiente força para torná-las legais. Para as pessoas se darem conta da dimensão, os juros de 15% sobre a dívida pública (hoje 14,75%, como se fosse “técnico”) representam um gigantesco dreno sobre nossos impostos, da ordem de R$ 1 trilhão, cerca de sete vezes o Bolsa Família. Aqui, grupos financeiros que realizam o essencial das aplicações ganham dinheiro legal de mão no bolso. Pensem que R$ 1 bilhão aplicado nos títulos da dívida pública rende R$ 400 mil ao dia, sem precisar produzir nada. Em um ano, R$ 150 milhões. Vejam a quantidade de bilhões que têm os personagens vistos acima.

© Cris Vector

E é perfeitamente legal, pois os bancos conseguiram tirar o artigo 192 da Constituição, que caracterizava os juros acima de 12% ao ano como “crime de usura, punível nos termos da lei”. A bandidagem em alta escala tornou-se legal, não porque deixou de ser bandidagem, mas porque tiraram a lei que a qualificava como crime. Temos, inclusive, tradições. Quando Paulo Maluf assumiu a prefeitura de São Paulo nos anos 1990, ainda no prédio antigo do Parque Dom Pedro II, comentava-se que ele espantava os pombos que pousavam nas janelas porque ouvia seu piado: “Corrrrupto”. Adhemar de Barros tinha forte tradição. Por brincadeira, nos comícios, apontava para o bolso e clamava: “Neste bolso nunca entrou um tostão roubado”. O ato já estava combinado, e na base do palanque alguém gritava: “O governador está de calça nova!”. O povo ria. Temos tradições. Não estamos enfrentando apenas o Banco Master, e sim um sistema de descontrole financeiro generalizado.

Permitam-me ampliar o horizonte. Os Estados Unidos têm atualmente cerca de oitocentas bases militares espalhadas pelo planeta, e as pessoas se espantam de o Irã atacar países vizinhos quando na realidade está atacando as bases militares norte-americanas ao seu redor. Como são financiadas essas bases? Essencialmente por emissão monetária, dólares que hoje representam apenas informações nos computadores. Não causam inflação, pois são gastos no resto do mundo, que aceita dólares como reserva. Eu imprimir moeda seria crime; aqui se trata de emissões registradas como dívida pública, que nos Estados Unidos atinge hoje US$ 38 trilhões. O PIB norte-americano, como referência, é de US$ 32 trilhões. Não é à toa que a desdolarização em curso está gerando tanta tensão. Ken Zimmerman explica: “Essa característica está na essência da festa financeira gratuita (America’s free financial ride), uma taxa imposta à custa do globo”.[1] Trump se irritar com nosso modesto Pix é compreensível – estamos atingindo seu poder de emissão. Emitir dinheiro e enriquecer sem contrapartida produtiva correspondente é o quê?

Crédito com recursos livres

Taxas médias de juros (% a.a.) Variações mensais (p.p.)
Jan. 2026 Fev. 2026 Efeito taxa Efeito saldo Total
Pessoa física 61,0 62,0 0,0 1,0 1,0
Pessoa jurídica 25,0 24,9 –0,2 0,1 –0,1
Total 47,8 48,6 –0,1 0,9 0,8

Fonte: Banco Central do Brasil – Estatísticas Monetárias e de Crédito.

Trump prefere naturalmente que façamos compras pagando com Visa, MasterCard, American Express, que geram imensos lucros para os Estados Unidos. Pagando um café da manhã na padaria com meu cartão Visa, na modalidade crédito, 5% do que pago vai para a empresa norte-americana, e isso atinge no mundo bilhões de operações diárias com cartões. Como a padaria vai receber, com prazos, 5% a menos, é obrigada a elevar os preços, que nós pagamos. Chama-se profit-inflation. É um imposto privado que gera – no caso da Visa, por exemplo – uma taxa média de lucro de 55% ao ano. Apenas computadores e algoritmos, sem precisar produzir nada. O Pix é de graça.

E quem é a Visa? A Wikipédia (em inglês) apresenta: “A Visa é essencialmente propriedade de investidores institucionais, que são donos de mais de 95% das ações”. Esses investidores são, entre outros, Vanguard Group, BlackRock, State Street Corporation, Fidelity e alguns mais. Assim, saindo da padaria, no meu modesto café da manhã, contribuí um pouquinho para o núcleo central do poder financeiro do planeta. Pouquinho, mas atingindo bilhões de pessoas e trilhões de dólares. A era do dinheiro imaterial permite microdrenagem em escala planetária. Não é fraude, é “intermediação financeira”.

Estamos aqui no topo da pirâmide do mundo do dólar. A BlackRock administra em 2026 US$ 14 trilhões (AUM, Assets Under Management). O orçamento federal dos Estados Unidos, administrado por Trump (“administrado”, no caso dele, é um exagero) é de US$ 7 trilhões; o PIB do Brasil é de US$ 2,3 trilhões.[2] Não se trata apenas de um dreno. Quando se privatiza a Vale, a extração da riqueza do solo brasileiro é parcialmente desnacionalizada: a BlackRock e outras compram ações, influenciam diretamente a política da empresa e maximizam os dividendos pagos. Entre as empresas parcialmente controladas pela BlackRock no Brasil estão: Vale, Petrobras, Itaú, Bradesco, Ambev, B3, Eletrobras, WEG, Banco do Brasil, Gerdau, Localiza, Suzano, Rumo, Telefônica, Ultra, JBS, Equatorial, Hapvida, Cosan, Renner, Santander, CPFL, BTG Pactual, Atacadão, Totvs, CSN, Assaí, CCR, Vibra, Rede D’Or, Cemig, Magalu, RaiaDrogasil, Sabesp, Klabin, TIM, entre outras.[3]

O dreno, por meio de dividendos, atinge a nata das empresas brasileiras, em particular o sistema financeiro, por meio do Itaú, Bradesco e outros. Wilton da Cruz comenta: “Em relação ao número de empresas nas quais os ‘Big Three’ possuem ações, os fundos da Vanguard Group estão em 164 posições acionárias (82%, 96 estrangeiras e 68 brasileiras) e os fundos da BlackRock estão em 115 empresas (58%, 64 estrangeiras e 51 brasileiras). Os fundos da State Street estão menos presentes, ao integrarem 23 posições acionárias (12%, 20 estrangeiras e 3 brasileiras). Conjuntamente, os ‘Big Three’ são acionistas em 169 empresas (85%, sendo 97 estrangeiras e 72 brasileiras)”.[4] A privatização desnacionaliza.

Estamos nesta máquina internacional. De acordo com o Corporate Research Project sobre as “companhias mais admiradas no mundo” da Fortune, “no conjunto, essas cinquenta empresas acumularam milhares de instâncias de desvios de comportamento (misconduct) e bilhões de dólares de penalidades por uma ampla gama de atividades que incluem equipamento médico defeituoso, fraude dos consumidores, insegurança do ambiente de trabalho, suborno estrangeiro, violações ambientais e submissão de faturas falsas sobre contratos governamentais”.[5] Os grandes escritórios de advocacia agradecem.

Nós, claramente, não ficamos atrás: “A soma dos lucros dos bancos Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander atingiu um recorde em 2021, chegando à faixa dos R$ 81,632 bilhões, uma diferença de 32,5% em relação ao ano anterior” (Carta Capital, 16 fev. 2022). Um lucro desse porte é extorsão, basicamente um pedágio que temos de pagar, porque nosso dinheiro, de nossos depósitos, está na mão deles. O Banco Central apresenta a taxa de juros efetivamente cobrada no mercado: 62% para empréstimo para pessoa física, 24,9% para pessoa jurídica. Isso é média, mas, por exemplo, o rotativo no cartão atinge 450% – a Visa (e semelhantes) agradece.

É importante mencionar que a taxa de juros anual para pessoa física nos países da OCDE é da ordem de 4% a 6%, e 3% a 4% para pessoa jurídica. No Brasil foi apresentada como positiva a disponibilização do Crédito do Trabalhador, cobrando um juro mensal de 3,67%. Isso representa 54,1% ao ano. Na Europa, o limite para um empréstimo ser qualificado de crime de usura é da ordem de 9% ao ano. No Brasil, como os bancos tiraram em 2003 o artigo 192 da Constituição, aparecem duas dimensões: primeiro, que os banqueiros conseguiram mudar com facilidade a própria Constituição, um artigo central que caracterizava como usura (agiotagem) juros anuais acima de 12%, ou seja, o crime continua, mas o artigo sumiu. Segundo, é essencial se dar conta de que o fato de tantos políticos terem aceitado legalizar a agiotagem, votando pela retirada do artigo, implica uma mudança política profunda: grande parte dos políticos, por exemplo, aplica suas poupanças em títulos da dívida pública e tem todo interesse em reforçar o dreno financeiro, que beneficia essa parcela. Usar a máquina política para benefício próprio é o quê?

Recebem salários pagos por nossos impostos e ganham juros da dívida pública que constituem um desvio de nossos impostos. É a própria máquina de gestão do dinheiro público que se deforma. Estamos falando de quem faz as leis. Estou trazendo aqui o fato de que a corrupção, a partir de certo nível, torna-se sistêmica. Muito além da etiqueta usada para desqualificar um político, são engrenagens difíceis de enfrentar, justamente porque envolvem uma articulação do político e do privado. As empresas que compram ou financiam os políticos são mais limpas?

Jean de Maillard, em seu livro Un monde sans loi [Um mundo sem lei], apresenta a “hierarquia do crime”: do roubo na base da escala social, evoluindo para fraude, desvio de função, otimização fiscal até a plena legalidade. Mas continuando a assegurar ganhos monumentais a quem não produz, aprofundando a fratura entre a maximização de lucros no topo e os interesses da sociedade. Para o Brasil, disponibilizei um pequeno livro, Os estranhos caminhos do nosso dinheiro, que ajuda a entender como os mecanismos estão entrelaçados. Contudo, o essencial, neste campo, é que, quanto mais ricos os personagens, mais eles têm espaço para enriquecer e, inclusive, para se sentir acima da lei. E, no topo, têm suficiente força para adaptar a lei a seus interesses.

Muito além do caso Master, portanto, ou dos casos semelhantes anteriores, o que nos desafia é o sistema improdutivo de apropriação do excedente social, daquilo que a sociedade produz, por pessoas ou grupos que podemos qualificar de parasitas, que não só enriquecem sem contribuir, como também deformam a governança e travam o desenvolvimento. Peter Mares: “A desigualdade excessiva prejudica a economia porque os ricos acumulam a maior parte de suas riquezas. Se mais dinheiro deles fosse redistribuído para pessoas de renda mais baixa, elas teriam muito mais chances de gastá-lo em bens e serviços, aumentando a demanda, criando empregos, reduzindo a pobreza e suavizando a volatilidade econômica. Malleson argumenta que sociedades mais igualitárias ‘crescem mais rápido e de forma mais sustentável do que as menos iguais’ e têm maior mobilidade social”.[6]

Não há como não lembrar que no relatório anual da UBS, o Global Wealth Report 2025, o Brasil aparece como o país mais desigual do planeta em termos de riqueza. Na lista dos trezentos bilionários da Forbes, contam-se nos dedos os que fazem algo útil. Drenam. Mas de preferência de forma legal. E ficam chocados quando alguém ultrapassa a linha.

 

*Ladislau Dowbor é professor titular da PUC-SP, consultor de várias agências das Nações Unidas e autor de numerosos livros e estudos técnicos, disponíveis on-line gratuitamente (Creative Commons) no site https://dowbor.org.Ver, em particular, Resgatar a função social da economia e Os estranhos caminhos do nosso dinheiro.

 

[1] Ken Zimmerman, “Super Imperialism: The Origins and Fundamentals of U.S World Dominance” [Superimperialismo: origens e fundamentos da dominação mundial dos EUA], Real World Economics Review, 16 fev. 2022.

[2] Peter Phillips, Titans of Capital: how concentrated wealth threatens humanity [Titãs do capital: como a renda concentrada ameaça a humanidade], The Censored Press, Fair Oaks, 2024, p.50.

[3] João Peres, “No Brasil, maior gestora de fundos do planeta tem investimento três vezes mais poluidor que na Europa e nos EUA”, O Joio e o Trigo, 18 maio 2024. Ver também Alexandre Versignassi e Camila Barros, “Donos do mundo: os fundos que mandam nas maiores empresas da Terra”, VC S/A, 6 nov. 2025.

[4] Wilton Vicente Gonçalves da Cruz, A financeirização no Brasil: fundos de investimentos, intermediários e inovações financeiras, Tese (Doutorado em Engenharia de Produção), Universidade Federal de São Carlos, 2025.

[5] Neil Gordon, “The Dark Side of the ‘World’s Most Admired’ Companies” [O lado sombrio da companhias “mais admiradas do mundo”], POGO, 26 jan. 2018.

[6] Peter Mares, “The case for banning billionaires” [O caso para banimento dos bilionários], Inequality.org, 29 abr. 2024.

 

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