O desaparecimento do debate - Le Monde Diplomatique Brasil

NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM VERDADE, NÃO HÁ VERDADE SEM DIÁLOGO

O desaparecimento do debate

por Anne-Cécile Robert
1 de abril de 2021
compartilhar
visualização

A proliferação de fake news ilustra a invasão do espaço público pela mentira. Seria simples incriminar as redes sociais e os mentirosos que perturbam a vida pública. No entanto, sufocando a livre e racional troca de ideias sobre a “comunicação”, nossas democracias destroem o sentido das palavras e impedem que a verdade surja

A evolução das mentalidades e o progresso das ideias redesenham, em cada época, os contornos daquilo que a sociedade escolhe para si mesma como sendo o Bem. Existe, portanto, uma parte necessária de indeterminação no interesse geral. Por exemplo, a lenta conquista dos direitos sociais a partir do século XVIII e, sobretudo, do XIX ilustra o caráter ao mesmo tempo contingente e evolutivo do interesse geral. Com a democratização, este deve se aproximar dos anseios do povo e, para esse fim, submeter-se a uma deliberação pública sancionada pelo sufrágio universal. Uma democracia viva, de cidadãos atuantes e atentos aos negócios públicos, em princípio demonstra a extensão dos possíveis, desvela as opções existentes e fornece uma visão mais ampla e, assim, mais justa, mais verdadeira da realidade. Aqui, a verdade desempenha um papel crucial porque, sem ela, a determinação do interesse geral não passa de um disfarce dos interesses particulares. Ele é, de algum modo, falso.

A verdade está ligada à obrigação de “transparência” dos poderes públicos, mas não se resume a isso. Ora, desde os anos 1990, a fronteira entre ambas vem ficando cada vez mais fluida. Um poder autoritário pode muito bem defender os interesses de casta com a maior transparência. O cinismo que rompe com a linguagem oficial afetada, como o do ex-presidente norte-americano Donald Trump, pode se passar por uma transparência habilmente elaborada. Não se trata aqui de verdade, pois essa atitude é intrinsecamente unilateral e exclui toda partilha genuína do espaço social e intelectual. Um governo transparente pode, portanto, ser um governo falso. Os programas de ajuste estrutural, impostos aos países do Sul pelas instituições financeiras internacionais, preconizavam ao mesmo tempo medidas econômicas e regras de “boa governança”, situando em primeiro lugar uma gestão transparente dos poderes públicos (manutenção rigorosa das contas públicas sob a supervisão dos órgãos de controle). Os países que seguiram essas prescrições ao pé da letra viram abrir-se um abismo entre as instituições e as populações, além de sofrerem golpes de Estado e violências pós-eleitorais (Costa do Marfim, Quênia, Mali, para só citar países africanos). A ordem social, caracterizada pela extrema desigualdade, podia estar apoiada em uma gestão transparente, mas não se adequava às realidades da vida cotidiana dos habitantes. É, pois, necessário que se garanta a liberdade de expressão e de deliberação pública para abrir espaço à determinação da verdade pelos cidadãos esclarecidos.

Entre as funções da política, a de dar nome às coisas é uma das mais delicadas e essenciais, já que permite determinar os pontos de referência e distinguir elementos a priori confusos, qualificando-os. Arte da palavra e do ordenamento do real, a política designa os objetos, as funções, as situações; desse modo, atribui posições, estabelece hierarquias e confere sentido à realidade. Por exemplo, qualificar de “encargos” as “cotizações sociais” é revelador da escolha de uma ordem social. Segundo suas convicções, os responsáveis políticos empregam uma ou outra expressão. Evocar, como fez a jornalista Béatrice Schönberg, o “assassinato de Luís XVI” e não sua “execução” significa que a assembleia que julgou a monarquia deposta era ilegítima e, na realidade, cometeu um crime.1 Os exemplos são numerosos.

Como exercem uma função pública, representativa, os dirigentes conferem às suas palavras uma autoridade inigualável. Os governantes podem não deter o poder de dar nomes, mas ocupam um lugar essencial, que consiste em selar o consenso estabelecido na sociedade. As reivindicações dos cidadãos, das associações e dos partidos se traduzem também por escolhas terminológicas que exprimem sua análise do mundo ou de uma realidade específica. O objetivo consiste, então, em dar a conhecer essas escolhas e impô-las como símbolo de aquiescência da sociedade. Os movimentos feministas, por exemplo, lutam a fim de inserir no código penal o termo “feminicídio”, para que as violências perpetradas contra as mulheres sejam reconhecidas em sua especificidade. Os poderes públicos hesitam em efetuar essa distinção e consideram que o termo “homicídio” se aplica a todos, não importa o sexo.[2]

 

Tagarelice incessante

A recusa em dar nomes, rejeitando uma palavra ou guardando silêncio, tende evidentemente a ignorar um fenômeno prejudicial, a minimizar ou justificar uma política ou uma ausência de ação política. O presidente francês, Emmanuel Macron, deu a esse respeito um exemplo impressionante quando se recusou a evocar o caráter “penoso” do trabalho a pretexto de que isso daria a “impressão” de que o trabalho é… penoso. Os relatórios da medicina especializada ou as pesquisas sociológicas, no entanto, já demonstraram à saciedade que o trabalho, físico ou psíquico, é sofrido.[3] O chefe de Estado intervinha em um debate público, em 4 de outubro de 2019, em Rodez, quando o movimento dos “coletes amarelos” trazia à luz as injustiças sociais e do mundo do emprego. Uma atitude semelhante à do presidente francês foi a de seu ministro do Interior, que se recusou a empregar a expressão “violências policiais”, afirmando que “sufocava” quando a ouvia.[4] Esse fenômeno não existiria, segundo Gérald Darmanin, caso os comportamentos culpáveis fossem puramente individuais e desligados da organização da manutenção da ordem. Podemos, com razão, ver nessas recusas uma nova demonstração do “desconhecimento ideológico da ideologia”, tão bem analisado por Claude Lefort,[5] com as classes dirigentes, presas a determinadas escolhas filosóficas, procurando eliminar suas consequências concretas pela rejeição das palavras que as designam.

Para que exista “pós-verdade”, é preciso que exista “verdade”, isto é, um espaço público de discussão “livre e racional” no sentido que lhe dava Condorcet – a qual permitisse não apenas descrever o real, mas também pô-lo em discussão. Ora, uma situação dessa não existe mais, pois os espaços de discussão desaparecem em proveito de uma tagarelice incessante, superficial. Alguns recusam o debate; outros fingem aceitá-lo, mas substituindo-o por uma forma de diálogo mais próxima da invectiva. As sociedades modernas padecem de uma dolorosa carência de política, aliada à gestão leviana das reivindicações particulares, ao policiamento do espaço público e à adoção dos imperativos contábeis a serviço de projetos muitas vezes improvisados ou mal concebidos. Daí a constatação, amplamente disseminada, de que as “palavras” já não têm “sentido”. O recurso aos elementos de linguagem constitui a forma acabada de um desprezo absoluto pela verdade e a expressão de uma institucionalização cínica da mentira. Essa evolução está bem perto de um autêntico suicídio da política, que naufraga com mau tempo. A capacidade de dar nomes não é um atributo monárquico unilateral que confere à autoridade pública um poder de reconhecimento arbitrário. É por delegação da coletividade e sob seu controle que designamos as coisas e os fatos. Ora, a coletividade não pode exprimir verdades sem admitir o debate e as diferenças de pontos de vista. Do contrário, a verdade social não pode aparecer.

 

*Anne-Cécile Robert é jornalista do Le Monde Diplomatique e autora do recém-publicado Dernières nouvelles du mensonge [Últimas notícias da mentira], de onde este texto foi tirado.

 

1 “Prise directe” [Contato direto], France 2, 25 jan. 2011.

2 Eles invocam também argumentos mais práticos, como a dificuldade extra ocasionada pela necessidade de demonstrar o caráter propriamente antifeminino de um assassinato.

3 Christophe Dejours, Souffrance en France. La banalisation de l’injustice sociale [Sofrimento na França. A banalização da injustiça social], Points, Paris, 2014.

4 Commission des Lois de l’Assemblée Nationale, Paris, 28 jul. 2020.

5 Claude Lefort, “L’ère de l’idéologie” [A era da ideologia], Encyclopaedia Universalis, Symposium – Les Enjeux, tome 2, Paris, 1994.

 



Artigos Relacionados

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Descolonize o sistema, liberte o futuro

Online | Mundo
por Paloma Costa, Samela Sataré Mawé, Marcelo Rocha e Gabriel Mantelli
CIDADES DO AMANHÃ

Mudanças climáticas: lutar contra quem?

por Rodrigo Faria G. Iacovini e Victor H. Argentino de M. Vieira
Guilhotina

Guilhotina #135 – Tiago Muniz Cavalcanti

CÂNONE DA LITERATURA PELA MARGEM

Exposição apresenta o projeto literário da escritora Carolina Maria de Jesus

Online | Brasil
por Bianca Pyl
GRITO DOS EXCLUÍDOS – III

A moradia é a porta de entrada para todos os outros direitos

Online | Brasil
por Graça Xavier
GRITO DOS EXCLUÍDOS – II

Bolsonaro e o golpe

Online | Brasil
por Frei Betto
GRITO DOS EXCLUÍDOS – I

Mais 590 mil mortes, consciência ética e lutas contra o bolsonarismo em São Paulo

Online | Brasil
por Samantha Freitas
FRATURAS EXPOSTAS PELA PANDEMIA

Saúde: inovar é preciso, produzir também

Online | Brasil
por Alexandre Padilha e Jandira Feghali