O dia em que eu não vi Miles Davis... - Le Monde Diplomatique Brasil

Jazz

O dia em que eu não vi Miles Davis…

por Helcio Kovaleski
13 de Janeiro de 2020
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… mas assisti aos shows de Nina Simone, Diane Schuur, John Lurie, Oscar Castro Neves, Ron Carter, Yellow Jackets, Modern Quartet Jazz…

Setembro de 1988. Eu tinha 23 anos, cursava o segundo ano de Artes Cênicas, do então convênio PUC-PR/Fundação Teatro Guaíra, em Curitiba, trabalhava numa escola de inglês que ficava na praça Osório, no coração da cidade, e morava numa quitinete da XV, quase esquina com a Ubaldino do Amaral.

Havia tempo que eu ansiava assistir a um show de jazz, que tinha descoberto alguns anos antes. Sim, sim, eu fui um pós-aborrecente de sorte. Logo, insuportável. E a idolatria pelo gênio Miles Davis nasceu quase ao mesmo tempo em que descobri o jazz. Não só por ele. Também por Louis Armstrong, John Coltrane, Charlie Parker e Billie Holiday – ou seja, o “crème de la crème”. Muito tempo depois, vieram as descobertas de Ella Fitzgerald, Dave Brubeck, Betty Carter, do chamado “jazz New Orleans” e do Dixieland. Filé.

Foi assim. Eu tinha 19 anos quando assisti a um programa na TV (provavelmente era a Cultura, não me lembro bem; não há nada mais movediço do que a memória) que exibiu a clássica apresentação do Satchmo à frente da sua banda cantando e tocando “When the saints go marching in”. Foi uma epifania. Pirei. A melodia e a voz grave de Armstrong colaram no meu cérebro por semanas a fio. A partir daí, minha vida nunca mais foi a mesma. No mesmo ano, na casa de um saudoso amigo que colecionava discos de vinil, ouvi “Autumn leaves”, do Miles. Pronto. Decidi que, doravante, a trilha sonora da minha vida só teria as canções do Chico Buarque (que descobri bem mais cedo), as sinfonias 29, 35 e 40 de Mozart (eu só descobriria Gustav Mahler e a “Música Nova” muito tempo depois) e jazz. Pouco pretensioso o garoto.

Era 1984. Decididamente, um ano utópico.

Voltando a 1988. Foi em abril que eu soube que nada menos que Miles Davis, o próprio, estaria no Brasil para um show no Free Jazz Festival. Ele se apresentaria tanto no Rio de Janeiro, no mítico Hotel Nacional, quanto em São Paulo, no saudoso Parque Anhembi.

Não cheguei a pensar uma vez e meia. Negociei minhas férias na empresa para setembro (tinha recém-completado um ano de firma), comprei um blazer supimpa e uma gravata trancham, economizei uns caraminguás, o suficiente para ir a São Paulo, e, claro, para comprar o ingresso. Telefonei para uma amiga que, na época, morava no bairro da Aclimação, próximo à estação São Joaquim do metrô, e perguntei se poderia me dar hospedagem. Ela topou na hora. Fazia tempo que não nos víamos. Também comprei uma mala de viagem Ika, cuja fábrica ficava no bairro do Seminário, e desabalei com destino ao Planeta Miles Davis, de ônibus da Cometa, daqueles que tinham poltronas vermelhas. Um clássico. Me sentia dentro daquela estação espacial de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”.

A programação do festival era, digamos, muito mais do que respeitável. Além de Miles, haveria shows de Almir Sater, Antonio Adolfo, Banda Zil, Cama de Gato, Courtney Pine Band, Diane Schuur, Gilson Peranzzeta, John Lurie & The Lounge Lizards, Michael Brecker Band, Modern Jazz Quartet, Nico Assumpção, Nina Simone, Oscar Castro Neves, Pixinga, Ron Carter, Sebastião Tapajós, Stephane Grapelli, Tony Willians Trio e Yellow Jackets. (Não se iluda, caro/a leitor/a. Apenas alguns desses nomes me vieram agora à memória. Foi “São Google” que me salvou de um eventual vexame). Por óbvio que, se eu tivesse condições, veria todos os shows. Mas, naquelas circunstâncias, privilegiei o Miles. E quem não privilegiaria?

Cartaz Free Jazz Festival (Reprodução)
Cartaz Free Jazz Festival (Reprodução)

Na manhã seguinte à minha chegada a São Paulo, uma sexta-feira, fui até um dos locais em que vendiam os ingressos, o Hotel Maksoud Plaza, na Espírito Santo do Pinhal, uma rua paralela à avenida Paulista. Fiquei meio desconcertado naquele ambiente chique e um tanto cafona. Subi até o primeiro andar, onde ficava o guichê, e comprei um ingresso de cor amarela, cujo valor cabia nas minhas parcas economias e que me colocava no primeiro balcão, logo acima da plateia – um espaço pra lá de vip, com ingresso vermelho, que custava quatro vezes o que eu tinha gastado pra ver o show.

O show do Miles seria na noite de sábado. Não precisa nem dizer que fiquei num estado em que não me aguentava, a dois passos do surto total, contando os segundos para chegar a hora de sair do apartamento. Pouco mais de uma hora antes do show, me aprontei. Coloquei o blazer e a gravata, borrifei um Quasar na fachada, chamei um táxi e lá fui eu rumo ao Anhembi. Mais tenso do que cachorro em bote, no meio do rio.

Logo na entrada, recebi o programa do festival e duas carteiras de Free – que, gentilmente, doei a um casal que encontrei na fila. Quando já estava para entrar no auditório, uma menina de uns doze anos me chamou a atenção. “Moço, será que daria pra você trocar de ingresso comigo? É que eu quero ficar com meus tios, lá em cima, e não quero ficar sozinha”. Olhei para seu ingresso: era vermelho. Ih! Olhei para a direção do dedo indicador da menina, e seus tios me acenavam. “Bem que eu gostaria, mas eu não tenho dinheiro pra pagar a diferença”, resmunguei. “Tudo bem, não tem problema. É que eu quero ficar com eles”, me respondeu ela, entre sorridente e ansiosa. Fiquei meio sem jeito e, ao olhar de novo para seus tios, fiz o clássico gesto de esfregar o indicador no polegar e recebi de volta outros, de dois polegares virados pra cima. Era o meu salvo-conduto. Olhei de novo para a menina e fiquei admirado com o fato de que alguém daquela idade gostasse de jazz. Meio encabulado, fiz a troca com a garota, que saiu saltitante rumo ao primeiro balcão. Qual não foi minha surpresa quando, ao visualizar melhor o ingresso, percebi que ele me instalava na quarta fila do auditório. Quarta fila! Rá! Fiquei faceiro que nem ganso novo, com o coração a 220 Volts e dois mil Watts de potência. Sentei-me na poltrona e ajeitei a gravata.

Parecia que eu era alguém importante na fila do pão.

Alguns dias antes, eu tinha lido na Folha de S. Paulo que era provável que Miles não viesse ao Brasil por problemas de saúde. Mas que isso ainda não era certeza. Quando o mestre-de-cerimônias subiu ao palco para dar as boas-vindas, já pressenti que Miles poderia ter dado uma de Tim Maia. Bingo! Foi a notícia-decepção da noite. Da década. Do milênio. O “MC” pediu zilhões de desculpas e anunciou que, em compensação, naquela noite iriam se apresentar quase todos os outros artistas do festival. (…) Vou repetir: naquela noite, iriam se apresentar quase todos os outros artistas do festival.

Sabe aquelas horas em que você fica catatônico, sem ter a menor noção de tempo e de espaço? Então. Intermináveis três segundos depois, retomei os sentidos e, enfim, concluí que havia perdido uma noite inesquecível, mas acabei ganhando outra quase na mesma proporção.

Lá vai. Vi, em sequência, as apresentações de Nina Simone, Diane Schuur, Oscar Castro Neves, Cama de Gato (que voltei a ver em 1991, no Mistura Fina, no Rio) e Modern Quartet Jazz. Foi uma das únicas vezes na minha vida em que fiquei completamente embriagado sem ter tomado uma gota de álcool. Ver aquela potência sonora chamada Nina Simone ao piano foi resplandecente. Diane Schuur, comovente. E as big bands? Catártico.

Mas o frisson maior – vejam só! – ficou por conta de ter assistido ao show de John Lurie e sua incrível banda The Lounge Lizards. O motivo era simples: o filme “Daunbailó1” estava em cartaz no Cine Bristol, em Curitiba, havia pelo menos um ano. Trata-se de uma comédia cult impagável do Jim Jarmusch com Lurie, Tom Waits e Roberto Benigni (muitos anos antes daquela presepada chamada “A Vida é Bela”) nos papéis de vagabundos que se conhecem na cadeia. Antes de ir ao Free Jazz, eu tinha visto o filme umas dez vezes. Depois que retornei a Curitiba, vi mais umas vinte! E ainda paguei dos meus colegas de Artes Cênicas, parceiros fiéis da fileira do gargarejo nas maratonas cinematográficas. “Eu vi o cara distante uns cinco metros, vocês não acreditam!”. Alguns perguntavam: “E ele faz, mesmo, aquele bico com a boca?” “Sim, faz, e o cara parece que tem uns dois metros de altura!”. Como nada é perfeito neste mundo, só ficou faltando, mesmo, ter visto o show do Tom Waits. Mas, aí, já seria pedir demais.

Quanto a Miles Davis, bem… Realmente, nada é perfeito neste mundo. Desde então, me persegue uma sensação de ter me esforçado tanto pra ficar a apenas quatro fileiras do Olimpo. Pra compensar, ultimamente tenho recorrido a outro santo, o “YouTube de Aquino”, pelo qual ouço, de vez em quando, o álbum “Kind of Blue” – cujo lançamento completou 50 anos em 17 de agosto passado.

Há uns dois anos, vi, na TV, “A Vida de Miles Davis2”, um filme digno, com ótima interpretação de Don Cheadle, que também o dirigiu. Claro, ri sozinho ao me lembrar do Free Jazz de 1988. E me emocionei com o turbilhão de lembranças causadas por essa improvável Madeleine jazzística.

Helcio Kovaleski é jornalista, roteirista e crítico de cinema, TV e teatro. É autor do livro “Festival Crítico – Dez Anos escrevendo Sobre o Fenata (Festival Nacional de Teatro)”.

1 “Down by Law”, 1986, EUA/Alemanha Ocidental. Direção: Jim Jarmusch. Com Tom Waits, John Lurie, Roberto Benigni, Ellen Barkin e Nicoletta Braschi.

2  “Miles Ahead”, 2016, EUA. Direção: Don Cheadle. Com Don Cheadle, Ewan McGregor e Emayatzy Corinealdi.



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