O dia em que participei de um evento ecumênico em um centro islâmico
Por que é tão difícil existir encontros ecumênicos, principalmente envolvendo religiões e comunidades do Oriente Médio?
No dia 29 de abril de 2022, mais precisamente no dia que os muçulmanos celebram o “Dia de Jerusalém”, ou Dia de Al Quds, na última sexta-feira do Ramadã, tive o enorme privilégio e a honra de participar de um encontro ecumênico no Centro Islâmico Fatima Zahra. O evento foi agendado à noite, a partir das 19 horas. Para a comunidade muçulmana, o Dia de Al Quds é uma data político-religiosa instituída em 1979 pelo Aiatolá Khomeini e visa expressar apoio aos direitos palestinos à cidade sagrada de Jerusalém.
Confesso que resisti a comparecer, pois tenho medo de ir sozinha ao local. Em uma das vezes que estava a caminho do Centro Islâmico da Penha, ao sair da estação Vila Matilde do metrô, fui seguida por um homem que estava na passarela da estação. Por sorte, eu consegui me desvencilhar dele ao me abrigar em uma padaria próxima. Desde então, fico apavorada, principalmente de ir à noite. Contudo, além de ter sido convidada pelo sheikh Rodrigo, o evento, amplamente divulgado nas redes sociais, já sinalizava a sua relevância política e religiosa. Então eu fui mesmo com medo.
O flyer de divulgação estampava uma foto do sheikh Rodrigo, junto a outros dois líderes religiosos: o padre Júlio Lancelotti e um professor universitário com um Kippah, Pietro Nardella Dellova. Quando me deparei com o material fiquei imaginando a reação de fundamentalistas sobre esse evento. Uma celebração ecumênica que reuniria um sheikh muçulmano, um padre católico e um professor universitário judeu dentro de um centro islâmico xiita tinha grandes chances de ser desdenhado e difamado nas redes e entre as comunidades muçulmanas de São Paulo.
Quando, finalmente, cheguei ao centro islâmico, Rodrigo abriu o portão e me recebeu pessoalmente com um sorriso no rosto. Estava visivelmente feliz. E, assim que entrei, eu entendi por que ele estava sorrindo, o centro islâmico estava cheio, à ponto de algumas pessoas permanecerem em pé. Fiquei sabendo, mais tarde, que nesse mesmo dia, houve outro evento em celebração ao Dia de Jerusalém na Mesquita do Brás. Porém, diferentemente da proposta ecumênica do centro islâmico, o evento na mesquita ocorreu a portas fechadas, direcionada, exclusivamente à uma elite da comunidade libanesa.
Ao entrar no centro islâmico, tirei os meus sapatos e me dirigi ao espaço de orações onde algumas pessoas já estavam acomodadas nos sofás. No centro, uma mesa adornada com uma toalha e flores. Os microfones já estavam postos para os palestrantes da noite e, ao lado dos microfones havia garrafas d’água.
Além do local estar cheio, o público presente era muito diverso, formado por muçulmanos brasileiros, pais de santo, pastores evangélicos e estudantes universitários. Perto do portão de entrada do centro havia outra mesa com pães, bolos, tâmaras, sucos e refrigerantes. Por se tratar do mês do Ramadã, os muçulmanos presentes aproveitaram o ensejo para quebrar o jejum, em um Iftar conjunto, antes do início do evento.
Eu me sentei ao lado das mulheres. Em eventos nas mesquitas e nos centros islâmicos prevalece uma segregação entre os gêneros, ao qual já estou acostumada por frequentar os locais do Islã há muito tempo. Mulheres de um lado e os homens de outros. Mas todos muito próximos, pois o espaço é bem pequeno.

stratageme2015/Pixabay
Estava esperando para assistir as palestras. O combinado era que cada um manifestasse o significado de Jerusalém para as respectivas religiões representada na mesa. Após, foi debatida a influência do conflito entre Israel e os palestinos na região, inclusive dentro da cidade sagrada. Nesse ponto, muito foi discutido sobre as violações de Direitos Humanos e as restrições impostas aos palestinos – cristãos e muçulmanos – de acessarem aos templos religiosos da cidade. A partir de então e, sob esse mesmo viés, a situação brasileira passou a ser debatida. Os líderes religiosos presentes lembraram sobre os contínuos ataques à democracia brasileira, o aumento da população de rua e a violência policial cometida contra pessoas pretas, travestis e pessoas trans.
Eu que nunca havia imaginado que um dia participaria de um evento ecumênico em um centro islâmico xiita, estava dentro do Centro Islâmico da Penha ouvindo diversos líderes religiosos falarem sobre violência de gênero e sobre as violações contra as populações LGBTQIA+, sobretudo direcionada aos travestis e as pessoas trans em situação de rua. Fiquei encantada e, ao mesmo tempo orgulhosa por se tratar de uma experiência brasileira. Diante do aumento do ultranacionalismo no mundo eu, pessoalmente, duvido muito que, eventos dessa natureza, aconteçam em outros países ocidentais.
No final das apresentações e dos debates, o padre Júlio Lancellotti, de modo espontâneo, se manifestou, disse que apesar de a mesa tratar de temas altamente relevantes, a mesa “estava muito patriarcal”, sem um ponto de vista feminino sobre todos esses assuntos. De repente, o sheikh Rodrigo Jalloul, pegou o microfone e anunciou, para todos os presentes, que havia uma professora, “entre nós”, “especialista em Oriente Médio” e que poderia compor a mesa! Fui nominalmente convidada a sentar ao lado do padre Júlio! Fiquei feliz e apreensiva, afinal eu não havia me preparado para falar sobre Jerusalém naquela noite.
Contudo, a emoção foi mais forte que a apreensão. Imediatamente lembrei de algumas conversas que tive com amigos palestinos e libaneses, de São Paulo, sobre a frustração por não conhecerem Jerusalém. Me diziam que os seus pais e avós foram impedidos de retornarem à cidade após a guerra de junho de 1967. Lugar onde costumavam passar as férias de verão. Um desses amigos, inclusive, me confidenciou que no dia que a proibição à entrada de cidadãos libaneses em Jerusalém foi anunciada pelo rádio, foi a primeira vez que viu o seu pai chorar.
Comecei a minha fala afirmando que Jerusalém é uma cidade linda e cheia de contradições. Um lugar de paz, fé, oração e união e, ao mesmo tempo, de violência, segregação, estresse e de muito sofrimento. É difícil, para mim, dentro de um espaço de privilégios, compreender como alguns povos que sofrem, ou sofreram, tantas violências e restrições, sejam capazes de reproduzir praticamente as mesmas ações de discriminação, racismo e preconceitos em outros tempos e espaços. As contradições de Jerusalém refletem as contradições de populações migrantes e diaspóricas.
Por que é tão difícil existir encontros ecumênicos, principalmente envolvendo religiões e comunidades do Oriente Médio?
As atuais barreiras entre judeus e muçulmanos são reflexos dos conflitos no Oriente Médio. As dificuldades em aproximar judeus e muçulmanos são perceptíveis em praticamente todas as nações do mundo. Embora grande parte dos judeus da diáspora não sejam responsáveis pelas políticas israelenses, muitos judeus do Brasil e do mundo, são associados às piores atrocidades cometidas pelo atual governo israelense. Contudo, quais são as barreiras entre a comunidade árabe muçulmana e os brasileiros? E, quais são as barreiras entre os muçulmanos estrangeiros – imigrantes e refugiados – em coexistir com a pluralidade étnica, religiosa e de gênero da sociedade brasileira? Por que eventos como esse são uma exceção e não uma regra?
A tolerância religiosa no Brasil se manifesta de múltiplas formas e em muitas camadas. Nesse relato pessoal eu conseguir apenas expor o sectarismo entre os nascidos muçulmanos e os convertidos e entre os nascidos muçulmanos e as demais religiões, principalmente as religiões afrobrasileiras. A inauguração do Centro Islâmico Fatima Zahra é, inclusive, fruto da falta de acolhimento de brasileiros interessados pelo Islã.
No Brasil o problema é grave e complexo. Não se trata apenas de “intolerância religiosa”, mas de racismo religioso e de preconceito de classes.
A celebração ecumênica do dia 29 de abril de 2022 me fez ter esse olhar. Neste evento fui capaz de compreender o real sentido de comunidade e de religião. O verdadeiro encontro ecumênico não é, tão somente, o encontro entre líderes religioso em uma fotografia. É muito mais que isso. É o encontro entre comunidades, entre diversidade e pluralidade nos espaços, nas conversas e nas orações. Aprendi que o verdadeiro sentido da religião é o acolhimento e não o julgamento.
A tolerância religiosa deve ser preservada nos encontros, desencontros, nas conversas e nas discordâncias. As ações de combate a intolerância devem prevalecer de forma ampla, sem ocultar as práticas discriminatórias e racistas reproduzidas no Brasil por parte de algumas comunidades que, em outras realidades, são perseguidas. O olhar sobre a intolerância religiosa no Brasil deve ser amplo e generoso, ao contrário não passará de pura hipocrisia.
Luciana Garcia de Oliveira é doutoranda no Programa de Letras Estrangeiras e Tradução da Letras USP. Mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do departamento de Letras Orientais (DLO-USP). Contato: [email protected].


Que experiência interessante. Fui professora universitária e, certa vez, atendendo a um pedido de alunos/as e professores/as, ajudei a organizar uma celebração ecumênica para a recepção de calouros. Tive dificuldade em conseguir representantes de diferentes tradições religiosas (muitos não se sentiam acolhidos na universidade) e também recebi críticas de que a iniciativa feriria a laicidade institucional.
A gestão, juntamente com o grupo organizador, via a proposta como uma forma de acolhimento à diversidade e de abertura ao diálogo (até como oportunidade de mostrar que o diálogo entre religião e ciência pode ser frutífero). Ainda assim, houve boicotes de diferentes naturezas: docentes que não admitiam o ecumenismo, estudantes que preferiam uma recepção mais festiva, e leituras políticas que interpretaram a proposta como forma de doutrinação.
A experiência me marcou justamente por evidenciar como o diálogo entre visões de mundo distintas ainda é um desafio, inclusive em ambientes que se pretendem plurais. Talvez iniciativas como a relatada por você possam contribuir para ampliar esses espaços de escuta mútua e convivência.
Parabéns pelo relato, Luciana, e a todos que tornaram o evento possível.