O fenômeno Obama - Le Monde Diplomatique

CAPA

O fenômeno Obama

por Argemiro Ferreira
4 de março de 2008
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Ele fala nos prejuízos causados pelo vício americano com o petróleo importado. Defende a rápida redução da emissão de gases que causam o efeito estufa. E o investimento de bilhões de dólares em biodiesel, energia solar e energia eólica. Em relação à crise dos empréstimos hipotecários, ela advoga medidas imediatas, destinadas a por fim aos abusos praticados pelos bancos.

Barack Hussein Obama era o “fenômeno Osama” quando roubou a cena com seu discurso na convenção nacional democrata de 2004. Eleito depois senador, hoje, por sua formação singular, por sua história de vida, pelo conhecimento dos problemas do país, pelas viagens internacionais, reúne as credenciais necessárias para mudar os rumos impostos à maior potência do mundo nos últimos oito anos.

Tanto no legislativo estadual como no Senado em Washington, onde os novos vão para o final da fila (as regras de seniority privilegiam os mais antigos), seu ritmo de trabalho surpreendeu os demais. O produto desse empenho aparece em destaque. Menos explicável é a facilidade com que eletriza platéias – em reuniões e comícios comparados pelos adversários a “cultos religiosos”.

Já foi dito que – ao contrário de outros candidatos, como a adversária democrata Hillary Clinton, que se sentem mais à vontade nas conversas com pouca gente – Obama fica tímido em grupos reduzidos, mas se transforma frente às multidões, em espetáculos contagiantes de entusiasmo. Os candidatos ortodoxos não exibem a mesma vocação, receita de sucesso nos eventos de massa.

Se tem essa capacidade de atrair e cativar o público, inspirando confiança e credibilidade, é inegável serem sua vida e trajetória política responsáveis em parte pelo fascínio que exerce.

No início da campanha, alguns questionaram o tipo de novidade que ele representa. Observaram que Hillary o superava nos votos dos eleitores negros. De fato, era dela, inicialmente, a vantagem naqueles dias. O senador Joe Biden – ainda candidato na ocasião, além de mais alta autoridade do partido em política externa – estranhou aquela singularidade dele, distanciada dos estereótipos. Alguns não o achavam “suficientemente negro” 1. Num título de sua coluna no Daily News de Nova York, o jornalista Stanley Crouch afirmou então: “O que Obama não é: preto como eu” 2.

Era diferente, sem dúvida. Mas quem percebia a diferença pelo lado negativo, acabaria forçado a uma reavaliação. Pois Obama contou sua história de forma tão viva, franca e sensível nos livros Dreams of my father, de 1995, e The audacity of hope, de 2006, que Joe Klein, um analista exigente da revista Time, concluiu ser este último “o livro de memórias melhor escrito de um político americano” 3.

Ele está fora dos padrões. Não é pobre nem descendente de escravos. Seu pai, africano do Quênia cujo nome herdou, morreu em um desastre em 1982, após voltar a seu país. Fizera cursos na Universidade do Havaí e em Harvard, retornando para trabalhar no governo. A mãe, figura dominante em sua formação, americana branca de Wichita, Kansas, coração dos EUA, morreu de câncer em 1995.

A mãe do pré-candidato, Stanley Ann Dunham (que tinha o nome masculino de seu pai porque este queria ter um filho e não uma filha) e o pai, o queniano Barack Hussein Obama, conheceram-se na Universidade do Havaí. Mais velho, carismático, com uma autoconfiança que beirava a arrogância, o africano encantou-se pela caloura ativa, questionadora, rebelde, de espírito avançado. O casamento, em 1960, não era desejado pela família dela e nem pela dele, mas aconteceu.

O pai de Ann, também chamado Stanley, vendedor de móveis, e sua mulher, Madelyn Dunham, que trabalhava em banco, sempre organizaram a vida de forma a garantir a educação da filha. Fora assim ao mudarem do Kansas para Mercer Island, no estado de Washington. E também na mudança para o Havaí 4.

Obama nasceu em 1961, mas a união dos pais foi breve. Disposto a obter seu PhD em Harvard e voltar à África, o pai viajou para os EUA, depois para o Quênia. A distância forçou o divórcio. E Ann casou-se dois anos depois com outro estudante estrangeiro, o indonésio Lolo Soetoro. A família, ampliada pelo nascimento de Maya, foi em 1967 para a Indonésia, onde Lolo tinha emprego em companhia de petróleo.

Dos 6 aos 10 anos, o filho estudou na Indonésia – não em madrassas islâmicas, mas numa escola católica e, depois, em instituição do governo. Criado como muçulmano, Obama pai dizia-se ateu ao conhecer Ann, que, por sua vez, sempre se manteve, como Stanley e Madelyn, alheia a religiões. Em 1971, ela preferiu que o filho fosse morar com os avós no Havaí, para onde também seguiria posteriormente.

Em Honolulu, o filho recebeu a visita do pai – o último encontro dos dois. Os efeitos emocionais da longa separação, que tentou superar mais tarde ao visitar os parentes (inclusive meio-irmãos mais jovens) no Quênia, foram contados com emoção nas memórias – juntamente com os momentos difíceis no Occidental College de Los Angeles, onde se envolveu com bebidas e drogas.

Na fase seguinte, no Columbia College da Universidade de Columbia, em Nova York, concluiu curso de Ciências Políticas, trabalhou um ano e iniciou a primeira experiência prática em Chicago – como organizador comunitário de um projeto habitacional no complexo South Side. Voltando-se para a religião, entrou na Trinity United Church of Christ, onde se ligou ao pastor Jeremiah Wright.

No retorno da visita ao Quênia, Obama passou a se dedicar ao curso da Escola de Direito da Universidade de Harvard. Ali seria, em 1990, centro das atenções da comunidade acadêmica, ao se tornar o primeiro presidente negro nos 104 anos da Harvard Law Review – a mais alta posição dada a um estudante da escola, cuja revista é a mais respeitada do gênero no país.

Obama estava claramente preparado para a carreira política. Ativo organizador comunitário, professor na Universidade de Chicago, advogado atuante em ações contra discriminação, elegeu-se em 1996 para o legislativo estadual. Em 2004, ganhou a cadeira de Illinois no Senado com a maior vitória registrada na história do estado: 70% dos votos contra apenas 27% do segundo colocado.

De qualquer modo, um avanço histórico

Qualquer que seja o resultado da eleição em novembro, uma coisa é certa: o confronto preliminar entre os democratas Obama e Hillary já representou um avanço histórico. Depois da convenção nacional do partido, de 25 a 28 de agosto, em Denver, Colorado, ele ainda poderá perder, por ser negro; ou ela, por ser mulher. Mas uma etapa terá sido vencida. Nunca um negro ou uma mulher concorreram à Casa Branca com chance.

Em princípio, um e outro estão suficientemente capacitados para a tarefa, embora a longa batalha preliminar – com primárias, reuniões partidárias e convenção nacional – possa desgastá-los ainda antes da fase final. Apesar de, no passado, Hilary ter dito “sim” à guerra e Obama “não”, os dois se declaram, agora, a favor da retirada das tropas do Iraque. Ambos enfatizam a gravidade dos problemas econômicos que poderão herdar do governo Bush. E destacam a necessidade de restaurar na economia o senso de justiça. “Temos de por fim aos cortes de impostos que Bush promoveu em favor dos ricos, e beneficiar com isenções os americanos de classe média e os trabalhadores, que realmente precisam”, destacou Obama.

Ele fala nos prejuízos causados pelo vício americano com o petróleo importado. Defende a rápida redução da emissão de gases que causam o efeito estufa. E o investimento de bilhões de dólares em biodiesel, energia solar e energia eólica. Em relação à crise dos empréstimos hipotecários, ela advoga medidas imediatas, destinadas a por fim aos abusos praticados pelos bancos.

Os dois encaram ainda de maneira semelhante a imigração. Evitam promessas de regularização automática dos ilegais – hoje um tema sensível, devido a campanhas conservadoras que lançam o americano comum contra o imigrante. Mas temperam o patrulhamento das fronteiras, destinado a deter o fluxo de ilegais, com discursos tolerantes. E recomendam entendimentos com o governo do México.

Inferiorizada no número de vitórias e na conquista de delegados, Hillary passou a repetir nos debates que há diferenças substantivas entre ela e Obama. E que sua vida pública ao longo dos últimos 35 anos a autoriza a distinguir entre a “mera conversa”, supostamente a especialidade do adversário, ainda muito jovem, e a “ações”, que ela própria teria a oferecer com base na experiência passada. Na resposta, Obama fez um breve resumo de sua atividade nos últimos 20 anos, em favor da assistência à saúde, de isenções fiscais para famílias necessitadas, da reforma do sistema penal. “Isso não é conversa”, observou. E foi adiante:
“Ao dizer ‘vamos ser realistas’, ela sugere que as pessoas estão sendo enganadas e acabarão por ver a realidade das coisas. Mas todos sabem a realidade de Washington, onde não se trabalha em conjunto e não se buscam soluções porque os ‘interesses especiais’ predominam. Precisamos de palavras para inspirar as pessoas contra isso”.

As diferenças programáticas entre Obama e Hillary são pouco significativas, o que torna mais difícil para ela virar pelo avesso a tendência do eleitorado. Isso a levou a intensificar os ataques, ainda que apenas para acusá-lo, em tom agressivo, de gerar falsas expectativas falsas (o “conto de fadas” de que falou o ex-presidente Clinton). Em meados de fevereiro, uma análise do New York Times descreveu como quase de desespero o clima na campanha de Hillary ante a dificuldade de reverter o momentum de Obama. E correspondentes do Sunday Telegraph, de Londres, também reportaram o movimento de assessores dela em estado de pânico, a conspirar para forçar líderes democratas no Congresso a “conter as ambições de Obama”. O plano é dobrar superdelegados (dirigentes partidários e parlamentares) para que ignorem a manifestação dos eleitores e dêem a vitória à pré-candidata.

A aposta belicista de McCain

Os republicanos têm boas razões para festejar o acirramento da disputa entre os democratas, no momento em que McCain, com as desistências de Giuliani e Romney, está com a indicação praticamente assegurada. De qualquer forma, Obama e Hillary estão conscientes de que o democrata indicado na convenção ainda terá um árduo caminho a percorrer em setembro e outubro.

No passado recente, os republicanos criaram uma imagem para Hillary: ambiciosa, sem escrúpulos, lésbica, puta e até assassina (do ex-sócio Vince Foster, que se matou em crise de depressão em 1993, conforme quatro investigações, uma delas do FBI). A imagem negativa de Obama ainda virá. Gente como Rush Limbaugh, rei do “talk-show” no rádio, e a loura desbocada Ann Coulter, dedicam-se a isso. “É chocante”, disse Coulter à Fox News. “Ele [Obama] provavelmente será nosso presidente. Presidente Hussein”. Na fantasia republicana, o pré-candidato é “Hussein” e “Osama”. Portanto, “terrorista muçulmano” e “agente inimigo”. Ou o “candidato da Manchúria”, ficção política de Richard Condon, na qual um agente sleeper é “plantado” para um dia ser acionado e tomar o poder.

Ironicamente, os competidores republicanos mais afinados com os oito anos de Bush – como o ex-prefeito Rudy Giuliani e o ex-governador George Romney – foram incapazes de impor no debate eleitoral do partido deles a retórica belicista dos neoconservadores que justifica tanto as guerras pós-11 de Setembro como a linha retrô do “conservadorismo social” que entusiasma evangélicos do Sul e Meio-Oeste.

Primeiro favorito republicano nas pesquisas, o novaiorquino Giuliani – elevado à condição de mártir, além de “homem do ano” de 2001 pela revista Time, por ter sido sua cidade o alvo maior do 11 de Setembro – estava pronto para faturar com a política do medo e da guerra. Mas naufragou antes mesmo da disputa inicial, repudiado pelos “social-conservadores”. Romney, que apostava nestes, não conseguiu decolar.

O beneficiário dos tropeços múltiplos dos candidatos potenciais republicanos foi o senador John McCain, dado como fora do páreo antes de agosto do ano passado. McCain conhece bem a máquina republicana de destruição de reputações. Foi alvo dela depois de bater Bush nas primárias de New Hampshire em 2000, quando sofreu ataques impiedosos, marcados pela difamação e pelo baixo nível.

Ao contrário de Bush, esse ex-piloto da Marinha serviu de fato no Vietnã. Seu avião foi derrubado ao bombardear alvo civil (uma usina termelétrica de Hanói, capital norte-vietnamita). Filho e neto de almirantes de quatro estrelas, só não foi libertado por ter rejeitado o privilégio (“outros esperavam há mais tempo”, disse). Saiu cinco anos e meio depois, sofrendo torturas e até assinando uma “confissão”.

Nos seus 22 anos como oficial da Marinha, McCain recebeu as mais altas condecorações – Silver Star, Bronze Star, Purple Heart, Distinguished Flying Cross, Legion of Merit. Na política desde 1982 (deputado e depois senador), construiu reputação de reformista independente. Mas, na atual campanha, só superou os rivais no partido por causa da retórica belicista de reforçar a presença militar norte-americana em território iraquiano.

Declarações como a de que as tropas dos EUA devem ficar cem anos no Iraque atrelaram sua candidatura aos desdobramentos da guerra: McCain depende deles. Eventos traumáticos, ou o descumprimento pelas autoridades iraquianas do calendário de marcos fixados em Washington na busca da chamada “estabilização”, poderão ser riscos de efeito imprevisível para sua campanha.

McCain conta, no entanto, com a simpatia da mídia corporativa. A conduta, os discursos e os escorregões – passados e presentes – de Obama e Hillary sofrem escrutínio rigoroso nos jornais e na TV, mas os de McCain, tido como cruzado e reformista, são encarados com complacência. Ao contrário dos dois democratas, ele é retratado como honesto, coerente e de posições firmes.

A exceção foi a reportagem do New York Times de 21 de fevereiro, referindo-se não só a possíveis impropriedades nas relações dele com lobistas – e uma lobista em especial, com a qual se sugeria um romance extraconjugal5 –  mas ainda ao fato de ter sido, há 20 anos, um dos “Cinco de Keating”, os senadores acusados de corrupção e ligações com o banqueiro falido Charles Keating Jr. 6.

Sobre este caso (cujo buraco superou US$1 trilhão), McCain fez mea culpa, mas ajusta e muda posições ao sabor do vento, acobertado pela mídia, que prefere poupá-lo. Condenava os gastos de campanha e o papel dos “interesses especiais”; mas desistiu do financiamento público que defendia. Votou contra os cortes de impostos de Bush; hoje é a favor.

Ele é vulnerável no fundamento de sua campanha. “Os extremistas islâmicos radicais são o desafio transcendente do século 21”, disse. “Extremismo”, para ele, está acima de tudo – do declínio da posição econômica global dos EUA, do novo papel da China e da Índia, da resistência à influência americana na Europa, da perda de partes significativas da América Latina, dos distúrbios e pobreza na África.

Ao fazer análise nesse sentido, o colunista E. J. Dionne Jr, do Washington Post, observou que McCain ainda terá de explicar o que realmente quer dizer com ‘desafio transcendente”. Significa que, em 2100, os americanos vão olhar para trás e afirmar que tudo o mais que aconteceu no século é menor, em comparação com a guerra ao terrorismo declarada por George W. Bush? 7

Soa mais como ponto frágil do candidato. Mesmo tendo sido crítico freqüente de Bush – em especial das falhas do Pentágono no planejamento da invasão do Iraque –, McCain opta agora por fazer da guerra sua causa. Talvez tenha ido mais ao Iraque do que qualquer parlamentar, enaltecendo a dedicação e o sacrifício das tropas, sem repetir as restrições que fazia antes aos erros das autoridades civis da Defesa.

Figurões conspícuos da aventura criticados por McCain – o secretário Donald Rumsfeld, seu adjunto Paul Wolfowitz, o ex-subsecretário Douglas Feith, o ex-chefe de gabinete do vice-presidente, Lewis “Scooter” Libby – deixaram o palco enquanto a guerra derrubava os índices de aprovação do governo, punido na eleição de 2006 com a perda da maioria nas duas casas do Congresso. Mas a causa de McCain, com o pretexto do “desafio transcendente do século 21”, passou a ser a guerra.

No entanto, os militares do Exército, Marinha e Força Aérea preferem o candidato Ron Paul, único republicano contrário à guerra. Segundo o Center for Responsive Politics, de Washington, Paul recebeu US$ 212 mil em contribuições deles. O segundo na preferência é Obama (US$94 mil). McCain está em terceiro lugar 8.

Se os militares, que lutam na guerra, preferem os que se opõem a ela e defendem a retirada das tropas, o candidato republicano já praticamente indicado, sem qualquer apetite para os dados da economia, não tem outra bandeira além da guerra e quer as tropas cem anos no Iraque. Este é o amplo espaço a ser ocupado pela oposição democrata depois das atuais escaramuças entre Obama e Hillary.

A trajetória rumo à Presidência ainda está sujeita a perturbações tão graves como as que, em 2004, impediram a vitória oposicionista de John Kerry, herói militar transformado em vilão e traidor pela campanha do rival George W. Bush, fugitivo do serviço militar que fingia ser herói de guerra. Mas o confronto preliminar entre os democratas Barack Obama e Hillary Clinton já abriu uma página nova na história recente dos Estados Unidos.

 

*Argemiro Ferreira é jornalista. Trabalhou 14 anos como correspondente em Nova York e cobriu quatro eleições presidenciais. Escreveu Caça às bruxas – uma tragédia americana (L&PM, 1989) e O império contra-ataca – as guerras de George W. Bush antes e depois do 11 de setemebro (Paz e Terra, 2004).



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