O filósofo e o nazismo - Le Monde Diplomatique

HISTÓRIA/MARCUSE O

O filósofo e o nazismo

por Raffaele Laudani
1 de outubro de 2000
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Contrariando a onda liberal da época, Marcuse defendia que totalitarismo e capitalismo não são termos contraditórios, pois o capitalismo é um sistema que regulamenta a totalidade das relações sociaisRaffaele Laudani

Num artigo de 1976, Herbert Marcuse anunciava o advento de uma nova ordem autoritária que havia encontrado nos Estados Unidos sua forma mais evoluída. Esta nova ordem é o que hoje é chamado de globalização: um sistema capaz de utilizar sabiamente sejam “as formas tradicionais da repressão política exercidas pelas forças da ordem” — como a violência, as sanções econômicas e a discriminação —, seja “um aparelho de doutrinação técnica e ideológica em constante aperfeiçoamento” — como os meios de comunicação, a escola etc, [1] formas de controle social que o filósofo alemão considerava típicos do mundo unidimensional do período pós-Segunda Guerra Mundial e que a nova ordem neoliberal tratava de intensificar. [2] É menos conhecido que — em dois ensaios datando de 1942, até hoje inéditos: State and Individual under National Socialism (O Estado e o Indivíduo sob o Nacional-Socialismo) e The New German Mentality (A Nova Mentalidade Alemã) [3] — Marcuse observou as mesmas características no regime nazista.

Desenvolvida nos anos de sua colaboração com os serviços secretos norte-americanos, a reflexão de Marcuse se inscreve no quadro do debate, então bastante animado, sobre a natureza e o sentido do regime nazista. Debate para o qual contribuíram amplamente intelectuais de origem judia recém-chegados aos Estados Unidos. O filósofo alemão era então um dos principais representantes da “Escola de Frankfurt”, uma das principais correntes marxistas heterodoxas que não se identificavam com a linha oficial da 3ª Internacional — para a qual o nazismo não passava de uma “ditadura aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro”. [4]

Debate sobre o totalitarismo

No interior do grupo de Frankfurt existiam, porém, posições divergentes. Sustentada por Max Horkheimer e Friedrich Pollock, uma primeira linha de interpretação descrevia o nazismo como uma forma de capitalismo de Estado, uma nova ordem que sucedia ao capitalismo no lugar do socialismo, invertendo a relação tradicional de dependência da política em relação à economia (um raciocínio que levaria Horkheimer, depois da guerra, a substituir a categoria marxista de “classe” pela de “racket”). A segunda, sustentada por Franz Neumann, Arkadij Gurland e Otto Kirchheimer, e mais conforme ao marxismo, preferia descrever o regime nazista como uma forma de “capitalismo monopolista totalitário”, sublinhando seu caráter de continuidade com a estrutura hierárquica da ordem capitalista. [5]

Igualmente emigrados para os Estados Unidos, outros intelectuais alemães, como Ernst Fraenkel, viam no nazismo a coexistência de um “Estado normativo” (necessário para garantir o funcionamento de uma economia que permanecia capitalista) e de um “Estado discricionário” (que operava em torno de um quadro jurídico insignificante, com base num puro critério de “oportunidade política” visando, em primeiro lugar, aos “inimigos” do regime) [6] Estas reflexões baseiam-se, em seguida, no debate sobre o totalitarismo, para o qual contribuiu de maneira fundamental uma outra exilada alemã de origem judia, Hannah Arendt.

A racionalidade da eficiência e da precisão

Em sua obra, o campo de extermínio, como lugar de suspensão do direito e como lugar de desestruturação e de reconstrução do humano, torna-se a metáfora emblemática de uma forma política inédita, mas profundamente enraizada no construtivismo racionalista moderno, convencido que tudo pode ser modificado pela ideologia, compreendendo aí a “condição humana”. [7]

Em relação a estas contribuições, a posição de Marcuse inscreve-se transversalmente à perspectiva marxista, embora com raízes nela. Contrariamente à onda liberal, [8] totalitarismo e capitalismo não são, para ele, termos contraditórios, pois o capitalismo é um sistema que regulamenta a totalidade das relações sociais. Ao longo do século XX, esse caráter inveterado do capital aparece manifesto, e o sistema torna-se, segundo Marcuse, totalitário. As palavras “monopolista” e “totalitário” (e, mais tarde, “unidimensional”) são assim quase sinônimos, e representam as duas faces de um mesmo fenômeno, no qual “a sociedade em sua totalidade se levanta contra os interesses particulares” através de uma nova forma de racionalidade: a racionalidade técnica, baseada sobre os critérios da eficiência e da precisão.

Uma forma de tecnocracia

A expressão “totalitarismo” é para Marcuse, portanto, um conceito genérico que serve para explicar a nova tendência do capitalismo como sistema, tendência essa que se manifesta sob formas históricas diversas, em personificações da totalidade (nazi-fascismo, comunismo soviético e Estado de bem-estar social) que, não obstante sua especificidade, são frutos do desenvolvimento do capital monopolista.

O estudo do modelo nacional-socialista representa, para Marcuse, a primeira tentativa de analisar estas formas históricas da totalidade, às quais sucederão as contribuições mais conhecidas sobre o marxismo soviético e sobre as democracias liberais ocidentais. [9] O filósofo alemão visa em particular ao repúdio das teses opostas, mas simétricas, que descrevem o nazismo simplesmente como uma revolução ou como uma restauração da ordem alemã tradicional. O regime nazista não modificou as relações de produção, nem, muito menos, ultrapassou a contradição fundamental entre capital e trabalho. Não obstante isso, o Estado nazista tem pouco em comum com a estrutura do velho Reich e produziu uma inegável modernização técnica do país. O nazismo — explica Marcuse — é uma forma de tecnocracia: “As considerações técnicas da eficiência imperialista e da racionalidade extrema substituem os critérios tradicionais de rentabilidade e bem-estar geral”. [10]

Opressão totalitária e penúria

O reino do terror, na Alemanha nazista, não foi sustentado exclusivamente pela força bruta, mas também “pela manipulação engenhosa do poder inerente à tecnologia: a intensificação do trabalho, a propaganda, a formação dos jovens e dos trabalhadores, a organização da burocracia governamental, industrial e de partido — todos instrumentos de terror cotidiano do nazismo — se conformam às diretrizes da máxima eficiência tecnológica”. [11] A realidade nacional-socialista é aquela de um Estado-máquina que parece se mover em virtude de sua própria necessidade, a da expansão econômica e da produção de massa. Com o advento da racionalidade tecnológica, o livre sujeito econômico torna-se “objeto de uma organização e coordenação em grande escala e a realização das capacidades individuais transforma-se em eficiência padronizada”.

“A racionalidade tecnológica — explica Marcuse — é, ao mesmo tempo, a padronização e a concentração monopolista.” A tecnologia é “um modo de produção”, “uma maneira de organizar e de perpetuar (ou transformar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos hábitos dominantes, um instrumento para o controle e a dominação”. O nacional-socialismo, neste sentido, representa “um exemplo evidente das modalidades com as quais uma economia altamente racionalizada e mecanizada — e que possui o máximo de eficiência produtiva — pode operar no interesse da opressão totalitária e perpetuar um regime de penúria”. [12]

A “mobilização total”

O sistema nacional-socialista é, portanto, uma resposta capitalista e autoritária às transformações econômicas e sociais que ocorreram ao longo do século XX. Ao comentar um discurso de Adolf Hitler aos industriais, de 1932, Marcuse destaca como os interesses da grande indústria são ainda aqueles em torno dos quais é construída a organização econômica do III Reich. Esses interesses, no entanto, se sujeitam à nova fase monopolista de acumulação de capital que, para sustentar o crescimento da competição no mercado mundial, impõe uma “transformação das relações econômicas em relações políticas”. A dominação e a expansão políticas devem não somente suplementar, mas ultrapassar a dominação e a expansão econômicas.

O Estado torna-se assim o agente executivo da economia, que organiza e coordena a “mobilização total” da nação em direção ao objetivo imperativo da expansão econômica. A conseqüência necessária desta transformação é a instauração de um sistema abertamente autoritário: o nazismo “tende a abolir qualquer separação entre Estado e sociedade através da transferência das funções públicas aos grupos sociais atualmente no poder”. O sistema tende, em outras palavras, “à autonomia do governo direto e imediato dos grupos sociais dominantes sobre o resto da população”.

Um instrumento para a opressão

O fim da separação entre esfera pública e privada, típico da era liberal do capitalismo, repercute no plano individual com a supressão da privacidade e a abolição sub-reptícia de tabus tradicionais sobre o sexo e a moral cristã. O efeito disso não é, porém, a liberação das faculdades individuais, mas seu consumo pela massa, o que intensifica a fragmentação e o isolamento recíproco. Pois a massa não é unida por uma consciência e interesse comuns, mas é composta de indivíduos “perseguindo cada um seus próprios interesses primitivos, que são unificados pela redução deste interesse ao mero instinto de auto-conservação, idêntico para cada um deles”. A perda da independência necessária à mobilização integral da força de trabalho é recompensada por uma nova segurança econômica e uma nova liberdade de costumes. “O nacional-socialismo — escreve Marcuse — transforma o sujeito livre em sujeito economicamente estável; a realidade da segurança econômica eclipsa o perigoso ideal da liberdade.”

Além do recurso à mitologia ancestral e violenta, consideradas por Marcuse como aspectos superficiais e ainda imperfeitos do sistema, o nazismo compartilha os traços fundamentais da nova ordem descrita em sua obra O Homem unidimensional (“uma ordem que conseguiu coordenar também as zonas escondidas mais perigosas da sociedade individualista”) e, graças ao bem-estar assegurado pelo pleno emprego, “induz cada indivíduo a apreciar e a perpetuar um mundo que se serve dele como de um instrumento para a opressão”.

Um aparente conflito de opiniões

Competitividade, eficiência, segurança são elementos que funcionam como palavras de ordem também para a nova ordem globalitária. [13] O conteúdo dado a estes conceitos é, porém, diferente: se, para Marcuse, a abolição da distinção entre Estado e sociedade — requerida pelas exigências de eficiência e competitividade mundiais — se manifestava pela saída da política de seus domínios tradicionais — via a intervenção do Estado na economia — hoje estas mesmas exigências se manifestam de maneira oposta, pelo recuo da esfera pública em proveito dos mercados, que ocupam, sem contestação, o campo das decisões políticas. O tema da segurança também mudou de sentido: com a difusão do empobrecimento maciço mesmo nas sociedades tecnologicamente avançadas, a segurança perde seu significado econômico e retoma seu sentido policial de “tolerância zero”, de enclausuramento e reclusão dos homens e mulheres que sitiam a fortaleza empobrecida.

Um sistema repressivo que perdeu, portanto, até a última justificativa racional de sua perpetuação, que abre espaço à crítica e talvez a perspectivas de uma verdadeira renovação. Mas que, do mesmo modo, parece mais forte e incontestável do que nunca. O sucesso dos adversários do neoliberalismo dependerá de sua capacidade em resolver este aparente conflito de opiniões entre força inusitada e ausência de legitimação, sem cair em uma reprodução simplista das receitas do passado.

Contra-educação, a arma principal

Como dizia o próprio Herbert Marcuse: “Contra o espectro do fascismo à americana, a esquerda, enfraquecida por suas divisões, sem organização eficaz, trava um combate desigual. Sua arma principal permanece sendo a educação política — a contr



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