O fogo oculto das periferias francesas - Le Monde Diplomatique

REVOLTAS SOCIAIS

O fogo oculto das periferias francesas

por Denis Duclos
1 de setembro de 2006
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Nove meses após as explosões de 2005, uma reflexão contesta análises preconceituosas da direita e da esquerda e sugere: o levante dos jovens pode ser caminho para uma integração social menos hipócritaDenis Duclos

Sempre marcadas por uma espécie de cegueira voluntária, as conclusões sobre os “acontecimentos das periferias” de novembro de 2005 na França parecem ter sido tiradas ? pela esquerda e pela direita ? de uma maneira apressada e pouco fundamentada. Essas conclusões pouco levaram em conta os inúmeros estudos aprofundados sobre a questão [1] e não analisaram os acontecimentos, sob uma perspectiva que levasse em conta a época e o contexto comparativo internacional. Assim, é necessário retomar essa questão de maneira efetiva, já que, na ausência de explicações mais sólidas, serão as tais conclusões precipitadas que acabarão servindo de ponto de apoio para as decisões futuras.

As diversas análises francesas e estrangeiras apontam três proposições. A primeira sustenta que as rebeliões das periferias estariam associadas às conseqüências étnicas, culturais e religiosas de imigrações sucessivas, que sempre encontram dificuldades de integração (pontos de vista de Alain Finkielkraut [2] ou de Hélène Carrère d?Encausse [3], contra o de Olivier Todd [4]). A segunda defende que as tais rebeliões derivariam de um “desastre familiar”, que implica retomar o pulso — em termos morais, pedagógicos e disciplinares — sobre os jovens e de seus pais. E a terceira afirma que elas resultariam de uma exclusão maciça dos empregos oferecidos aos jovens das ZUS (Zonas Urbanas Sensíveis) e, mais amplamente, do estado de crise sócio-econômica no qual encontram-se as áreas onde há maior concentração desses jovens.

Mas, ao comparar o perfil da crise das periferias com o de fenômenos análogos no mundo, cada uma dessas proposições pode ser especificada, relativizada, ou mesmo contradita. Relacionando a crise ao panorama internacional das agitações urbanas e das outras “revoltas”, percebe-se que sua própria especificidade (sua “excepcionalidade francesa”) permite uma esperança que raramente pode ser encontrada em outros lugares.

Primeiro mito: um conflito de culturas

Nessa perspectiva, pode-se dizer que a revolta das periferias foi relativamente impermeável aos antagonismos raciais, culturais e religiosos – o que explica, em parte, o fato dela ter sido benigna (pouquíssimas pessoas atingidas fisicamente). Revoltas urbanas verdadeiras, desencadeadas pelo ódio de uma religião contra outra, acarretam milhares de mortes (como na Índia, por causa do confronto entre muçulmanos e hindus em Bombaim, em 1992 e 1993). Essas revoltas, que opõem uma nação e uma “raça” a outras, em um mesmo bairro, chegam a ocasionar centenas de mortes: como é o caso dos urbans riots norte-americanos, entre 1960 e 1990, particularmente em Los Angeles.

Em outras situações ? imersas em contextos políticos dos quais elas se tornam os joguetes ? as hostilidades locais podem acarretar sofrimentos constantes. Estes podem ter uma longa duração (Palestina, Irlanda do Norte [5], etc.) ou, de repente, mudar radicalmente de natureza e de escala, transformando-se em conflitos civis (Beirute, no fim dos anos 1970) ou genocidários (Ruanda, em 1994) ? sobretudo em casos de manobras desestabilizadoras exteriores.

Esses exemplos nos lembram que a mais extrema violência urbana pode vir à tona quando a população “problemática” (isto é, sempre a minoritária) não é estrangeira, mas sim oriunda do mesmo país, há séculos (negros norte-americanos, muçulmanos indianos, católicos na Irlanda do Norte, etc.). Sendo que ? em termos sociais análogos ? seus hábitos e costumes estão muito próximos dos de seus “inimigos”, com exceção dos respectivos rituais religiosos. Assim, não se pode identificar as turbulências civis apenas com o choque de culturas causado por imigrações recentes ? como se tem feito, negligentemente, em relação à situação francesa.

A agitação sóciopolítica dos jovens na França diz respeito, evidentemente, a jovens cujos pais são de origem estrangeira, mas ela não foi recuperada (ainda?) pelos fanáticos, e nem pode ser inserida numa separação rígida de identidades. Assim como frisaram os próprios policiais, os líderes fundamentalistas muçulmanos não procuraram cercar num aquário os jovens rebeldes. Talvez, por já estarem marcados demais pelas influências igualitárias e anti-estatistas, e assim mais próximos da reivindicação republicana (até mesmo a versão “anarquista”) do que da defesa da pureza.

A postura dos aprendizes de feiticeiros

Porém, o real pacifismo cívico de diversas autoridades religiosas não deve ser mal interpretado: uma vez ancorada na população de crentes, a identidade separatista é potencialmente bem mais perigosa ? e bem mais durável ? do que a rajada da reatividade juvenil. Assim, pode-se dizer que os governantes e os intelectuais, ao se apoiarem no retorno dos enquadramentos étnico-religiosos, assumem o papel de “aprendizes de feiticeiro”. Agindo assim, apenas ajudam a incitar o clima de confrontação religiosa e racial, em movimento de expansão no norte da Europa (“islamofobia” na Bélgica flamenga, Holanda, Dinamarca, etc.).

Essa tentação seria ainda mais regressiva, não somente por não haver mais na França confronto entre populações, mas ainda por não existirem grupos nascionalistas fascistas com mínima capacidade de provocar os “estrangeiros” em seus “guetos” (como é o caso do National Front no Reino Unido, responsável pelo desencadeamento dos eventos de Oldham e Bradford, nos quais se manifestou a cólera de jovens paquistaneses e bangladeshianos, em 2001).

Tendo em vista esses fatos, seria necessário colocar a seguinte questão: uma vez que se trata de uma sociedade como a francesa – tão laica e tão aberta às diferenças de “raça”, de cultura e de religião [6] – e que nenhum grupo religioso ou político tenha motivações suficientes para insultar os jovens de determinada população, como é possível surgir nesses últimos tal “raiva” explosiva e transmissiva?

A resposta parece clara: somente o Estado tem a possibilidade de criar e limitar o confronto. É essencialmente o que se demonstrou na França: os governos de direita colaboraram negativamente com sua teimosia em demolir todos os “corta-fogos” ? materiais e simbólicos ? instalados pelos seus predecessores socialistas, como os empregos-jovens (emplois-jeunes), que haviam contribuído para diminuir a tensão social nesses setores.

Num país como a França, somente o governo ainda tem a capacidade de incitar os funcionários a assumirem posturas hostis ou agressivas. É a elite política e governamental que sustenta um antagonismo popular ausente. E assim, aproveita a situação para tirar inúmeros benefícios secundários, particularmente o de posar como a asseguradora da ordem (apesar de contribuir, justamente, para a desordem).

Papel provocador do Estado francês

Por um lado, trata-se de um comportamento político perigoso. Mas, por outro, assemelha-se a uma espécie de última resistência, como uma última barreira (falou-se de “muro de Berlim das periferias”), antes de enfrentar, obrigatoriamente, o reconhecimento do Outro. Este não poderá mais ser negado por muito tempo, já que sua negação deflagra desígnios inquietantes, que devem ser entendidos como referentes a toda sociedade [7].

Assim, a causa fundamental e permanente das revoltas urbanas ? inclusive as mais juvenis ? encontra-se bem mais perto do que se pensava: ela se apóia, quase que por completo, no “desrespeito” ou no “não-reconhecimento” do indivíduo e, sobretudo, do jovem como sujeito cultural e político. O que se deve a atos ? quase que exclusivamente de responsabilidade dos representantes da própria República ? que se traduzem em indiferença, desconfiança implícita, espírito de superioridade, pressão policial e administrativa, ou limitação orquestrada em todas as ocasiões de contato e de emprego.

Aqui, há um ponto de similaridade com os acontecimentos análogos nos Estados Unidos: sabe-se que um clima de desprezo institucional desemboca, automaticamente, num “evento desencadeador”. Este é sempre o mesmo, com poucas variantes (de Rodney King, morto em 1991 pelos policiais de Los Angeles, aos jovens eletrocutados pelo transformador de Clichy-sous-Bois, passando por vários outros casos, em diversos países): uma pessoa da minoria tida como “difícil” é perseguida, julgada ou presa injustamente, espancada e ferida, ao longo da operação policial.

A situação da vítima é, rapidamente, informada aos seus amigos, depois (via câmeras portáteis, Internet e celulares) ao seu meio ? já extremamente inflamável ?, cujos elementos mais jovens acabam reagindo de forma combativa e nada “’politicamente correta”, apesar de estarem mais voltados contra símbolos políticos da autoridade tutelar e do poder econômico, do que contra pessoas e grupos. Se, em geral, são considerados os estragos materiais, vê-se que são raros os feridos gravemente e os mortos, exceto quando a polícia busca o confronto na lógica da “última palavra é sempre a da lei”, ou na da intimidação explícita.

Nota-se então um efeito mecânico assegurado: quanto mais o Estado repressor obedece a uma lógica ? consciente ou inconsciente ? de vingança, maior é o número de mortos. Até aqui, é necessário admitir que o Estado francês ainda não ultrapassou o nível de provocação que conduziria ao confronto mortal e maciço e, conseqüentemente, à intervenção dos “mais velhos”, os possuidores do maior número de armas que circulam nas periferias. Talvez por causa da lembrança de maio de 1968, ou do caso Malek Oussekine de 1986, ou também pela compreensão mais aguçada do que realmente está em jogo, por parte dos dirigentes.

Pode-se dizer ainda que quanto mais o Estado autorizar os educadores, os assistentes sociais e, sobretudo, os policiais (ou, de agora em diante, os militares) a argumentar em termos de “controle de população”, mais se multiplicarão as situações de humilhação que envolvem, inevitavelmente, os “eventos desencadeadores” das revoltas urbanas. Uma política do pior que sustenta, oficialmente, sob sua responsabilidade, a ocupação armada dos bairros acaba levando, exatamente, ao que ela pretende querer evitar: uma guerra civil.

As características especiais da periferia francesa

Antes de desejar a destruição de todas as barreiras (em termos de estratégia “civil e militar” de organização do território), lembremos de três fatos (de acordo com Loïc Wacquant [8] e outros observadores):

1. A distribuição imposta dos apartamentos torna difícil a transformação desses bairros em guetos étnicos ou religiosos (apesar do que dizem certos sociólogos). O caráter united colors dos grupos de jovens já fora abordado pelo cineasta Mathieu Kassovitz [9]. Trata-se de uma realidade sociológica bem sucedida, no sentido de que ela é um verdadeiro ponto de encontro da diversidade. O que nunca existiu no Reino Unido dos pobres brancos “anti-paki”, nem na Austrália dos “anglo-celtas” que querem proibir suas praias aos jovens libaneses. Muito menos nos Estados Unidos, ainda supersegregados e envolvidos no medo de outra minoria [10].

Exemplo disso são as revoltas de 1992 em South Central, periferia pobre de Los Angeles, que estiveram em parte ligadas ao conflito permanente entre três comunidades “raciais” (latinos, asiáticos, afro-americanos) [11], ocasionando uma média de 300 mortos por ano, até o fim dos anos 1990. Notemos também que, como reflexo da exclusão racial dos pobres, os guetos “dourados” norte-americanos (comunidades ditas “asseguradas”) são também “etnicamente” excludentes e conflituosas [12]. A sua multiplicação inclusive acaba agravando o ódio inter-racial que a França, praticamente, ainda não conhece.

2. O fato de as áreas da periferia serem construídas como fortalezas verticais dificulta o controle policial, mas também é obstáculo à provocação das milícias ou dos partidos nacionalistas (como a que originou os confrontos com os paquistaneses ocupantes de pequenos imóveis, em velhos centros, no Reino Unido) e, mais ainda, os ataques dissimulados contra casas (o que ocorreu contra os turcos, na Alemanha). Sua visibilidade não permite esconder os “escravos” albaneses nas malocas dispersas (como na Grécia ou na Itália) ou mantê-los a serviço de uma população nacional sob um regime ameaçador.

3. Ao contrário dos habitantes clandestinos dos centros de cidades, sempre subjugados à miséria dos migrantes sem documento, o acesso a essas áreas da periferia está, amplamente, reservado a uma população legalizada, e que teve que demonstrar capacidade econômica mínima. É evidente que, nesses lugares, a renda média é um terço menor e a taxa de desemprego dos jovens é duas ou três vezes mais elevada [13]. Como também é claro que inúmeras pessoas que querem trabalhar são obrigadas a se exilar, a dirigir veículos sem carta e sem assistência até às distantes oportunidades de emprego. Mas ajudas, subsídios e iniciativas diversas (zonas de re-dinamização social, zonas francas, administrações de bairros, várias redes associativas, etc.) vêm em apoio, sem falar da real economia “nem tão clandestina assim”. Não se morre de fome nas periferias.

A vida que o preconceito não enxerga

Logo, o estado de degradação, às vezes deslocado das cidades, não resulta mecanicamente de um problema econômico (real). Ele é efeito de uma tendência cultural. Provém, essencialmente, de uma cólera impotente que também é suscitada em jovens residentes em bairros periféricos. O que remete ao problema específico do reconhecimento. As noções de “delinqüência”, de “não civilidade”, ou ainda a de “desintegração cultural” não permitem compreender o fenômeno. Empurram, ao contrário, à cegueira.

Entretanto, observa-se que se propagam, entre as pessoas mais distintas, certos discursos infundados sobre as “incompatibilidades entre as maneiras de viver” e os fenômenos de “aculturação”, que seriam resultantes da “transplantação” — sobretudo, entre os mais jovens. Sem nos alongarmos sobre o problema, lembremos que a grande liberdade concedida aos pré-adolescentes na África e a incitação a se organizarem em “grupos”, por sexo e geração, não indica uma dissolução do controle familiar, mas sim a experiência precoce da vida fora do casulo [14], e atende às práticas ancestrais de proibição do incesto.

É claro que há uma dificuldade de adaptação, quando o controle caloroso da aldeia é substituído pelo frio enquadramento da vigilância social européia. Mas, isso também deveria nos fazer refletir sobre a anomia e a solidão, às quais conduz o nosso próprio sistema, que se auto-intitula superior.

A avalanche de termos utilizados para descrever a periferia como um verdadeiro inferno — onde só se pode conhecer a decadência mental e moral — corresponde apenas em parte à realidade material e ainda mais insuficiente para expressar a maneira com que os jovens percebem seu próprio mundo. Com relação a muitos dos desvios semânticos preconceituosos, trata-se de termos depreciativos que as classes favorecidas não param de infligir aos lugares onde vivem classes populares de origem longínqua (como antigamente, se desconfiava das áreas de “Bougnats”, em Paris). Afirma-se que, além de dura, a vida nas periferias é sufocante, afligida, imobilizada no horror de sua própria condição e aterrorizada pelos vizinhos. Esquece-se que o bairro é freqüentemente a única coisa que seus jovens habitantes possuem em comum, tanto para se lamentar quanto para rir, para defendê-lo, e para operar pequenos tráficos. Certamente, os jovens sonham em sair desses locais (mas, na verdade, qualquer jovem sonha em abandonar o meio da sua infância), e todo um romantismo rap expressa esse sonho sempre frustrado que reforça, no fundo, a solidariedade que lá se construiu.

Se a segregação é incomparavelmente mais real nos Estados Unidos do que na França, notemos que, da mesma forma, ela foi ideologicamente exagerada a partir do exterior. Até hoje em Watt (bairro de Los Angeles, onde se dizia que bastava passear por suas ruas para ser assassinado), pode-se viver, normalmente, e levar as crianças, tranqüilamente, para a escola.

Não se avaliou suficientemente o efeito desta desvalorização automática na destruição das solidariedades civis e na sua redução ao espírito de “grupos” isolados, como base de um grande jogo de antagonismos e de uma revolta mais geral (mas sem resultar, em seu seio, na constituição de gangues mafiosas, que sustentariam a necessidade de comércios ilícitos [15]).

Quando o popular incomoda o intelectual

A agitação dos grupos pode ser insuportável. Mas o melhor a fazer seria separar o que se destaca de uma rebelião cotidiana e o que é, simplesmente, o impulso explosivo da geração nova. A verdadeira alegria de viver de todos os jovens pode ser explosiva, mas não é maior do que em lares burgueses, onde sete ou oito crianças correm em torno de uma doméstica cristã exausta, como ainda é o caso em algumas “periferias de Versalhes”. Também é normal que os mais jovens não estejam obcecados, como seus irmãos mais velhos, pelo problema do emprego, ou ainda do trabalho. O que, aliás, deveria ser considerado como um fator da questão do “respeito” e do acolhimento, e não o inverso. Sendo que, às vezes, é exatamente essa alegria de vida (chamada de “hiper-tonicidade” ou “falta de inibição”, na linguagem “psico-policial”) que atrai a repressão institucional e o mau-humor residual de cada cidadão, desencadeando assim o mecanismo do ódio [16].

Mas o que incomoda certos intelectuais é o fato dessa vitalidade explosiva, e às vezes mortal, acabar se expressando na criação de uma cultura expansiva, muito mais “transmissível” do que aquela que eles reproduzem nos meios artísticos já estabelecidos. Implicitamente, eles não deploram a falta de integração ou a destruição das referências, mas o fato de grande parte da juventude fascinada e das mídias massificantes terem ampliado a onda do hip-hop, oriundo das periferias através de várias gerações, e por terem feito dele um fator de integração, talvez ainda mais poderoso (tendo tido seus empréstimos internacionais) do que as culturas operárias, que ele substituiu parcialmente.

Se o valor dos raps é desigual (como ocorre com todas as músicas), é freqüente que eles tenham análises políticas ou filosóficas, traços poéticos que os afastam dos elementos enfraquecidos da cultura escolar. A integração se acentua… mas em outro sentido. São os jovens das regiões rurais mais longínquas que escutam, na rádio local, as desgraças do Diams, as lições de Doc Gyneco (“N?oublie jamais d?où tu viens [Nunca se esqueça de onde você vem]”), os apelos de Diziz la Peste, de 113, de Busta Flex, ou da Brigade, sem falar das retomadas de obras de “antigos” (de NTM a MC. Solaar, de Passy a Assassin, Menelik ou IAM), para quem a raiva já se transformava em arte/política.

Que os jovens da periferia não falem o mesmo francês que os convidados da “France Culture” não chega a ser uma novidade. Mas a cultura, sobretudo em momentos de grande provação, não corresponde necessariamente a uma “coisa dada”: ela pode também ressurgir, e até mesmo renascer. Não nos esqueçamos de casos extremos de destruição de cultura “de origem”, como no tráfico negreiro nas Antilhas. Nos quais, sempre as crianças ? o que é atestado por especialistas [17] ? acabam construindo línguas e culturas crioulas, a partir de fragmentos e de misturas forçadas, de empréstimos “furtados” das trocas entre brancos, que apenas se dirigiam a seus escravos como se estivessem se dirigindo a cães e os proibiam de falar sua língua de origem.

Ora, nós nos encontramos bem distantes dessa situação: a escola republicana continua ocupando a linha de frente do confronto entre opostos, as mídias envolvem e transpassam essa população tanto como os outros franceses, e o nível de aprimoramento tecnológico dos jovens da periferia (Internet, celulares, etc.) já conseguiu impressionar… os policiais encarregados de prever os agrupamentos combativos e, às vezes, desarmados pelo que se deve chamar de cultura de organização!

O lado muito positivo do levante

Aceitemos, então, não mais desprezar adultos, jovens e crianças que estão produzindo uma parte dinâmica da cultura francesa, a partir da sua situação e, às vezes, na defesa de seus corpos, nesse processo de passagem “da cultura atávica à cultura composta” que acompanha a “mundialização”, de acordo com Edouard Glissant[ Sobre essa formulação, ler: Traité du Tout-Monde, Gallimard 1997, e La Cohée du lamentin, Gallimard, Paris, 2005.]].

Podemos, portanto, considerar que os fatores das reviravoltas de outubro/novembro de 2005 (certamente desagradáveis aos donos de 28 mil veículos queimados e aos contribuintes “proprietários” dos serviços públicos saqueados) não como as revoltas, nem como agentes de um vasto tumulto infantil, mas, sobretudo, como os protagonistas de uma “crise da integração dos jovens franceses de camadas populares”. Crise esta, no sentido de crise adolescente, no processo de iniciação do indivíduo. A “exceção francesa” da crise referente aos jovens nos aparecerá como a de um laboratório de vanguarda (tanto que ela não é atingida pelas regressões ao conflito interétnico e inter-religioso), onde emerge da tensão uma via original, que se abre para a solidariedade social.

Nessa perspectiva, os discursos enérgicos de enquadramento e de militarização do esquema habitual não têm nenhum sentido. Eles apenas prolongam a derrota, não das políticas de integração, mas sim dos recuos face às exigências inelutáveis de uma osmose já em curso. A derrota de uma obstinação em rebaixar o Estado a “Estado incendiário” [18].

Porém, o êxito de uma verdadeira política pública de integração ? a única capaz de efeitos rápidos e em longo prazo sobre os manos [19] que brincam de Robin Hood com policiais e bombeiros ? depende de duas condições.

Primeiro, essa política deve se situar no interior de uma mudança radical de atitude, descartando toda forma de paternalismo ou de preconceito inconsciente, e reconhecendo que o Outro tem o direito de tomar o lugar ao nosso lado, nesse mundo em unificação. Assim como nós exigimos a mesma coisa, quando emigramos para o Marrocos ou para perto das praias africanas ou de outros países receptores, a fim de vivermos nossas aposentadorias com um melhor poder aquisitivo.

A segunda condição não se refere especificamente aos jovens das “periferias”. Não se pode querer que a escola republicana seja apreciada por todos e propor, ao mesmo tempo, rebaixar salários e condições de trabalho aos níveis

Denis Duclos é antropólogo e diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS, na França. Autor de Éloge de la pluralité – Conversion entre cultures et continuation de l’humanité, Bibliothéque de la Revue du Mass permanente, Paris, 2012.



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