O fortalecimento da identidade negra em um clube do RJ

RENASCENÇA CLUBE

O fortalecimento da identidade negra em um clube do RJ

por Eric Monteiro
14 de dezembro de 2019
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Um clube fundado por negros e para negros que com o passar do tempo conquistou um espaço privilegiado no cenário cultural do Rio de Janeiro, tornando-se referência histórica dos movimentos de autoafirmação da negritude.

 

Durante os anos de 1940 e 1950, a sociedade brasileira viveu uma onda de democracia, que permitiu uma abertura ao debate e a liberdade de expressão. De acordo com o historiador José Murilo de Carvalho, o contexto dos anos 1940 iriam se caracterizar como a primeira experiência democrática, na qual a presença e a participação da população na política iria se fazer notar nas eleições e também na ação política organizada, tanto em partidos políticos, sindicatos, ligas camponesas e diversas associações. Na perspectiva do autor: “A Constituição de 1946 manteve as conquistas sociais, do período anterior e garantiu os tradicionais direitos civis e políticos, até 1964, houve liberdade de imprensa e organização política.” ( 2004:p. 127).

O Rio de Janeiro da década de 1950 vivia uma efervescência cultural e política, o Brasil estava em um importante momento histórico de expansão industrial, urbana e demográfica. Fazendo este recorte epistemológico, podemos refletir sobre qual seria o lugar do negro dentro destas transformações econômicas, políticas sociais e culturais, que estariam sendo experimentadas e vivenciadas pelo conjunto da sociedade do então Distrito Federal.

Analisando a composição étnica da população do Rio de Janeiro, seguindo o caminho de Costa  Pinto, em seu livro “O Negro no Rio de Janeiro”:

“Estamos fortemente inclinados a tomar como bem fundada a hipótese de que nessas migrações do interior e se dirigem para a área metropolitana do Distrito Federal [Rio de Janeiro] é relativamente elevada a quota de habitantes de cor. Disto existem circunstâncias seguras, o serviço doméstico, no qual as mulheres de cor constituem a maioria, a indústria têxtil, que representa uma numerosa ocupação feminina no Distrito Federal e na qual as operárias de cor comparecem com índices elevados e por fim as oportunidades abertas ao trabalho feminino pelos serviços, pelos escritórios e pelas repartições públicas são fatores inerentes ao público urbano que influem no modo decisivo no atrair da população de cor. Por outro lado o caráter mais impessoal das relações sociais na vida urbana é o fator que contribui, ao lado dos demais, para que muitas pessoas de cor procurem numa comunidade maior meios de ascender em uma escala social.” (p.76)

Costa Pinto nos apresenta a situação racial e o cenário em que o negro no Rio de Janeiro estaria vivenciando. Problemas como educação, ascensão social, qualidade de vida se estabelecem por meio de um conflito social, imposto sobretudo pela segregação espacial, racial, econômica e social existente entre brancos e negros.

Cabe ressaltar aqui uma questão fundamental para nortear o entendimento sobre a questão: esta camada de classe média de origem negra estaria dentro das já mencionadas transformações da década de 1950; como consequência, ela teria então as oportunidades (no que se refere ao conjunto da sociedade) para exercer seu direito ao lazer e à cultura. A criação e transformação do Renascença Clube, tem elevada importância dentro dos movimentos sociais de cunho étnico-social.  Com a criação do Clube Renascença seus fundadores – mesmo sem ter essa intenção inicial – colocaram no centro do tecido social do Rio de Janeiro o homem sem representatividade, sem vez e sem recursos. Junto com a evolução do Clube, podemos acompanhar um pouco da evolução dos movimentos de afirmação da negritude e da valorização da autoestima dessa população.

O estudo das organizações negras, neste contexto, é fundamental. A insatisfação dos afro-brasileiros com o conjunto da sociedade brasileira se expandia para além do Rio de janeiro, fazendo surgir novas associações e grupos. É um momento de mudanças e transformações, principalmente, no que se refere às relações raciais.

Diante disso, podemos entender que é um movimento de tomada de consciência por um grupo que certamente não está satisfeito com a ordem e necessita de um espaço crítico e reivindicatório. A partir desta situação teremos o surgimento de diversas formas de associação.

Costa Pinto irá classificar as associações negras em dois tipos principais: as “associações tradicionais” e as de um “novo tipo”. É necessário compreendermos cada categoria para que possamos entender a criação do Renascença Clube. Segundo Costa Pinto, o que fomenta a diretriz de uma associação tradicional é o continuísmo, apesar das mudanças ocorridas na sociedade. As associações religiosas, como as Irmandades Católicas Negras (destacam-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos) e os terreiros das religiões afro-brasileiras (perseguidos pela polícia), e ainda as associações recreativas, como as escolas de samba, grupos de capoeira e de congada. Dentro deste cenário de mudanças nasceram novas organizações que buscavam status, ascensão social e formação de uma identidade própria.

O Renascença Clube

A classe média do Rio de Janeiro frequentava os clubes sociais, espaços voltados para o lazer e a sociabilidade desse segmento da população. Apesar de não estar efetivamente explícito em seus estatutos e regulamentos, o acesso aos clubes pelos negros era muito difícil. “O motivo principal para tal iniciativa [criação do Renascença Clube] se deveu à discriminação imposta pelos demais clubes cariocas. Neste contexto, o segmento em foco decidiu criar um espaço social próprio, tendo em vista que, em vários clubes do Rio de Janeiro havia rejeição e veto aos mesmos como associados” (Silva, 2000).

Clube Renascença (Divulgação)
Clube Renascença (Divulgação)

O Renascença Clube atualmente se localiza no bairro do Andaraí, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. No período de sua inauguração, situava-se na rua Pedro de Carvalho, no bairro do Méier. Esta agremiação foi fundada em 17 de fevereiro de 1951 por um grupo de negros pertencentes à classe média. “À época de sua criação, o Renascença Clube contava com um núcleo de 29 sócios fundadores, todos negros (cf. registros e depoimentos). É marcante a presença feminina neste momento de criação e estruturação do Clube, já que elas eram 18 no grupo fundador – e 11 homens – e duas na primeira diretoria, que tinha também quatro homens. Embora a composição da diretoria não refletisse a maioria feminina entre os sócios, ainda assim é pouco provável que qualquer outro clube social no início dos anos 50, fosse formado majoritariamente por negros”(Giacomini, Sônia,2006: 31).

O Renascença Clube pode ser analisado basicamente em quatro fases a partir de sua inauguração, a saber: a primeira, que compreende o período da fundação do clube e início de suas atividades voltadas para os associados e suas famílias, na década de 50; a segunda, marcada pela mudança da sede para o bairro do Andaraí e que coincide com a participação de representantes do Renascença em concursos de beleza, no final da década de 1950 e na década de 1960.

A terceira fase surge na década de 1970 com a decisão da diretoria em trazer diversas manifestações culturais negras, através da promoção das rodas de samba e da importação do Soul Music, “ritmo em voga nos Estados Unidos, que exportava para o mundo a consciência racial negra através da música e da dança.” (Silva, 2000, p.93). A quarta fase compreende o período pós-reformas ocorridas nas décadas de 1980 e 1990 até os dias de hoje. Os eventos e concursos de beleza começam a dar forma e visibilidade a esta nova fase do clube.

Mudanças na estrutura

A partir da década de 1960, uma série de transformações iria acontecer na estrutura e nas atividades do clube. Se em uma primeira fase havia preocupação com a etnicidade, neste momento iria se privilegiar o reconhecimento, a inclusão e aceitação nas camadas médias brancas. Emerge, aos poucos, um novo projeto: agora é o próprio clube, literalmente, que receberá – como anfitrião – os ricos e famosos, a intelectualidade, o pessoal da Zona Sul, que se espreme na disputa pelo acesso aos eventos como rodas de samba e shows. Em alguns casos, inclusive, esses recém-chegados se tornam sócios.

O início dessa trajetória apresenta-se no ano de 1959, com Dirce Machado sendo a primeira representante do Renascença Clube a se apresentar como miss no ginásio Gilberto Cardoso, o Maracanãzinho. A partir deste momento, pela importância e repercussão deste evento, em todos os concursos a agremiação apresentava uma candidata com a finalidade de valorizar a mulher negra e propagar os ideários do clube (SILVA, 2000). Em 1963, Aizita Nascimento, ganhou expressão não apenas entre a plateia do Maracanãzinho, mas também, na mídia como modelo e a seguir como atriz. Entendemos que o momento político e econômico, sobretudo a redemocratização após a ditadura de Getúlio Vargas, proporcionou o aparecimento de diversas instituições de origem negra.

Em fins dos anos 1990 uma nova diretoria foi formada a fim de aglutinar os antigos sócios e retomar as atividades para não impedir o encerramento total de um clube que outrora foi representado por grandes nomes da música. Atualmente, a agremiação promove, com ressonância junto ao público em geral, o “Samba do Trabalhador”, na sede do clube, todas as tardes de segunda-feira, evento este que continua revelando grandes nomes do samba e que já rendeu um CD, lançado ao final do ano de 2006. Essas rodas de samba não deixam de constituir uma importante referência cultural reconhecida pela mídia.

Havia uma diferença significativa entre a inferioridade atribuída aos negros e uma crescente ascensão social, principalmente deste segmento da classe média negra, e que procurava ultrapassar barreiras sociais e políticas, visando uma verdadeira inclusão social. Era necessário que os negros se reunissem em torno de questões totalmente identificadas com os seus anseios e desejos. O surgimento do Renascença Clube na cidade do Rio de Janeiro deveu-se à exclusão dos negros, principalmente os de classe média. Deste modo, vislumbraram um espaço próprio, já que os sócios fundadores foram rejeitados em outros clubes.

“Esta trajetória parece reunir e resumir as possibilidades que a sociedade brasileira oferece aos negros, em particular os da classe média. Afinal a ambiguidade em que operam as identidades sucessivamente acionadas – de classe – de nação – de etnia/raça – não constituem as mesmas uma denúncia de discriminação e opressão a que estão submetidos os negros em nossa sociedade.” (Giacomini, Sônia, 2006 p.267)O Renascença Clube é uma história de sucesso. Estando voltado para as questões étnicas de seu tempo, atravessou décadas e ofereceu alternativas aos desafios do seu tempo, onde negros viviam aboletados em favelas e cortiços, com empregos sem qualificação, e até mesmo voltados para marginalidade, onde o principal obstáculo era a quase impossível a inclusão social deste segmento.

Através de suas manifestações culturais, seus ideais e esforços para reunir uma identidade étnica dentro de uma sociedade conservadora, o Renascença Clube tem um importante papel como um símbolo da resistência negra na cidade do Rio de Janeiro.

Eric Monteiro é professor de História da rede Estadual do Rio de Janeiro

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

COSTA PINTO, Luiz Aguiar da. O negro no Rio de Janeiro. Relações de raças numa sociedade em mudança. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.

GIACOMINI, Sonia Maria. A Alma da Festa: Família, etnicidade e projetos num clube social da Zona Norte do Rio de Janeiro – O Renascença Clube. Belo Horizonte: UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2006.



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