RACISMO

O grito do homem negro amarrado

Um homem negro grita enquanto é carregado. Nós não vemos seu rosto em nenhum momento. Sabemos que passa fome e que dorme na calçada. Para nós, chega o seu grito de dor, que não podemos ignorar

Um homem negro grita enquanto é carregado, amarrado pelos pés e pelas mãos às costas. Uma imagem que atravessa os séculos. Poderia ser uma gravura colonial, do período da escravidão legalizada no Brasil. Porém, é um um vídeo de celular em uma unidade de pronto atendimento na cidade de São Paulo, em 6 de junho de 2023.

O desespero do homem – em uma posição semelhante a um pau de arara invertido – contrasta com a postura dos policiais, que se comportam como se carregassem um saco de batatas. É assim que o corpo negro é jogado em uma maca, o que nos lembra que aquele lugar deveria ser um espaço de cuidado. Em seguida, ele é levado ao porta malas de uma viatura. O policial informa de maneira indireta, falando com outra agente, que a pessoa que grava a cena será levada à delegacia como “testemunha”.

Depois das imagens circularem nas redes sociais e chegarem à televisão, mais uma vez a Polícia Militar promete investigar a atuação e diz que não concorda com a conduta dos próprios agentes. Ao mesmo tempo, o comunicado público tenta justificar a ação contra o homem acusado de furtar duas caixas de chocolate de um mercado. O suspeito teria “reagido”, desarmado e descalço, contra o grupo de policiais, esses muito bem armados e protegidos por coletes à prova de balas.

Nós não vemos o rosto desse homem negro em nenhum momento. Não sabemos o seu nome. Desconhecemos a melodia da sua voz quando canta ou o desenho dos lábios ao sorrir. Sabemos que passa fome e que dorme na calçada, o que não é pouco. Para nós, chega o seu grito de dor, que não podemos ignorar.

Não podemos fingir que acreditamos que é um caso de má conduta de dois ou três policiais. Quando o homem chega carregado à garagem, os outros militares que estão ali não se espantam. Não esboçam reação, porque aquilo é comum, é o cotidiano da Polícia Militar torturar as pessoas pretas e pobres em São Paulo e, sabemos, em todo o país. 

Aqui, seria o momento de citar mais outros vídeos, da semana passada, do mês retrasado, de janeiro, de julho, que mostram cenas semelhantes. Em seguida, poderíamos nos lembrar das autoridades “lamentando o fato”, para, no momento seguinte, mandar novamente que os policiais fizessem a mesma coisa. 

Essas ordens não são dadas a portas fechadas ou em terrenos baldios na madrugada. São gritadas em palanques para multidões de câmeras e microfones, como quando o então candidato ao governo, Tarcísio de Freitas, disse que ia tirar as câmeras das fardas dos policiais. Pegou mal. Por isso, para ganhar a eleição, ele recuou (lamentar e recuar são verbos importantes nesse ramo). Manteve as câmeras. 

E mesmo diante das câmeras, aumentaram em 8% as mortes causadas pela polícia no estado de São Paulo nos primeiros quatro meses de 2023. São 151 pessoas que não cantam e não sorriem mais. Fora os que são torturados e agredidos, como aquela senhora de 70 anos que levou um soco no rosto no fim de maio.

O governador disse que não podia admitir um policial que não agisse de acordo com a “tradição da instituição”, dessa corporação que levava homens amarrados pelo pescoço. Como na foto, de 1982, que deu o Prêmio Esso a Luiz Morier. Alguém poderia contestar, lembrar que isso aconteceu no Rio de Janeiro. Em São Paulo, o caso é outro. Faz uns dois anos, um homem foi algemado e arrastado por uma moto da PM.

A necessidade de prender e bater nas pessoas que passam fome nas ruas parece ser tão grande que a prefeitura de São Paulo vem há anos criando a própria versão da polícia para maltratar. A Guarda Civil Metropolitana (GCM), que deveria se dedicar à preservação do patrimônio público, agora tem fuzis e não poupa bombas de gás e cacetadas contra pessoas em situação de rua. Não é para economizar munição que eventualmente chutam pessoas nas calçadas ou estrangulam homens negros na Cracolândia, é uma forma de afirmação da autoridade de morte. 

A asfixia chega aos comerciantes da região central de São Paulo, que pagam até R$ 5 mil por mês para que a GCM do prefeito Ricardo Nunes não jogue multidões de esfomeados dentro de suas lojas. Para os guardas corruptos identificados na TV, Nunes pediu prisão. Assim como havia prometido prender os traficantes, dando ordem para violentar a população preta e desprotegida socialmente.

Para enfrentar essa violência tão antiga, talvez seja mesmo o caminho atacar as origens. O bandeirante, concreto em chamas, seria um símbolo disso. Fazer o fogo atravessar os mesmos séculos por onde viajam cordas e algemas, para queimar os navios negreiros do século 21.

Daniel Mello é jornalista, poeta e documentarista. Atua como repórter em São Paulo desde 2009, cobrindo temas relacionados a políticas públicas e direitos humanos. É militante contra a violência policial na região da Cracolândia desde 2017, onde atua com coletivo A Craco Resiste e a Associação Birico. Em 2019, lançou o livro Gargalhando Vitória: poemas da Cracolândia pela Editora Elefante.

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