O impasse das políticas identitárias - Le Monde Diplomatique

DISPUTAS QUE DIVIDEM AS CLASSES POPULARES

O impasse das políticas identitárias

por Stéphane Beaud e Gérard Noiriel 
28 de dezembro de 2020
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Com raízes históricas longínquas, a linguagem identitária explodiu com as redes sociais e os canais de notícias 24 horas. Anteriormente reservada à direita, ela impregna cada vez mais os discursos de militantes e dirigentes políticos de todos os campos, a ponto de transformar a “raça” em uma variável gigantesca, que esmaga todas as outras 

A questão racial ressurgiu brutalmente no centro das notícias, em 25 de maio de 2020, quando as imagens do assassinato de George Floyd, filmadas por um transeunte com um smartphone, foram veiculadas em loop continuamente nas redes sociais e canais de notícias. O assassinato desse afro-americano por um policial branco em Minneapolis gerou uma grande onda de emoção e de protestos em todo o mundo. Uma multidão de atores – ativistas antirracistas, jornalistas, políticos, intelectuais, especialistas, artistas, escritores etc. – interveio nos Estados Unidos e em outros lugares para dar sua opinião sobre esse crime e seu significado político. 

Na França, nos últimos quinze anosa denúncia pública de crimes racistas ou de fatos que nutrem suspeitas de discriminação racial tem regularmente assumido na mídia a forma de questões raciais que se autoalimentam quase infinitamente. Após a petição intitulada Manifesto por uma República francesa antirracista e descolonializadaassinada por 57 intelectuais e divulgada pelo site Mediapart em 3 de julho de 2020, o semanário Marianne respondeu em 26 de julho de 2020 publicando um Apelo contra a racialização da questão social, assinado por mais de oitenta personalidades e vinte organizações. 

A comparação das duas petições mostra como funciona o que Pierre Bourdieu chamou de jogo das cegueiras cruzadas. As justificadas críticas à violência racista de certos policiais e ao racismo de Estado nas colônias francesas até o fim da Guerra da Argélia levaram os peticionários do Mediapart a defender um projeto político centrado nas questões raciais e decoloniais que obscureciam fatores sociais. Por outro lado, os autores do apelo publicado na Marianne relembram o papel central desempenhado pela classe social nas desigualdades que afetam a França hoje, mas sua própria luta pela identidade, resumida no slogan Nossa República laica e social, uma chance para todos!, os leva a afirmar que nosso país nunca conheceu segregação, afirmação que nenhum historiador nem sociólogo sério pode apoiar. Esses embates de identidade, em que cada campo mobiliza sua pequena tropa de intelectuais, colocam os pesquisadores que defendem a autonomia de seu trabalho em uma posição impossível. 

O discurso de identidade ajuda a acentuar as divisões nas classes populares, o que é objetivo dos conservadores desde 1980 (Thomas de Luze/Unsplash)
Americanização da vida pública

A racialização do discurso público foi amplamente alimentada pela revolução digital que eclodiu nos anos 2000. O extraordinário desenvolvimento da indústria midiática completou o que Jürgen Habermas chamou de a colonização do mundo vivido”.1 Essas enormes máquinas produtoras de informação são alimentadas 24 horas por dia por um combustível que explora os depósitos emocionais enterrados em cada um de nós e que nos fazem reagir instantânea e instintivamente diante das injustiças, humilhações e ataques. O desvio do noticiário político, nascido com a grande imprensa no final do século XIX, já atingiu seu paroxismo, substituindo cada vez mais a análise fundamentada dos problemas sociais pela denúncia dos culpados e pela reabilitação das vítimas. 

As empresas norte-americanas globalizadas que possuem redes sociais têm acelerado brutalmente esse processo, pois os bilhões de indivíduos atingidos por essas redes não são mais apenas receptores passivos dos discursos fabricados pela mídia, mas atores que participam de sua divulgação e até mesmo de sua elaboração. As redes sociais, assim, deram origem a um espaço público intermediário que vai além do quadro dos Estados nacionais, contribuindo fortemente para a americanização das polêmicas públicas, conforme ilustrado pela rapidez com que são importadas expressões como color-blind (cego para a cor), black lives matter (vidas negras importam), cancel culture (cultura do cancelamento) etc. 

Por ser o racismo hoje um dos temas políticos mais capazes de mobilizar as emoções dos cidadãos, é compreensível que sua denúncia ocupe um lugar cada vez mais central nos meios de comunicação. Constatar esse fato não é – devemos lembrá-lo? – negar ou minimizar a realidade do problema, e isso de forma alguma impede que se constate, ao mesmo tempo, que expressões de formas descomplexadas de racismo também estão se multiplicando na mídia.2 Pessoas oriundas da imigração pós-colonial (região do Magreb e da África subsaariana) – a maioria das quais pertencente às classes trabalhadoras3 – foram as primeiras vítimas dos efeitos da crise econômica a partir dos anos 1980. Elas têm sofrido múltiplas formas de segregação, seja no acesso à habitação, ao emprego ou em suas relações com os agentes do Estado (controles de identidade feitos pela polícia com base na aparência). Além disso, essas gerações sociais tiveram de enfrentar politicamente o colapso das esperanças coletivas defendidas no século XX pelo movimento operário e comunista. 

Dada a importância assumida pelas polêmicas identitárias no debate público, não é de surpreender que alguns desses jovens possam expressar sua rejeição a uma sociedade que não lhes abre espaço privilegiando os elementos de sua identidade pessoal, que são a religião, a origem ou a raça (definida pela cor da pele). Infelizmente, os mais pobres entre eles são privados, por razões socioeconômicas, dos recursos que lhes permitiriam diversificar seus pertencimentos e afiliações. Isso explica por que eles podem representar para si mesmos o mundo social de forma binária e etnizada: o nós (da cidade, dos jovens negros ou árabes, dos excluídos, mas também cada vez mais, ao que parece, o nós muçulmanosversus o eles (burgueses, francesesgauleses, brancos ou ateus etc.). Se queremos levar a luta contra o racismo até o fim, devemos também combater esse confinamento de identidade, porque ele impede que esses jovens rebeldes percebam que sua existência social é profundamente determinada pelo pertencimento às classes populares. 

A linguagem racializante que apresenta a cor da pele como a variável determinante do conjunto das práticas econômicas, sociais e culturais de nossos concidadãos esmaga a complexidade e a sutileza dos relacionamentos sociais e das relações de poder. Todos os levantamentos sociológicos, estatísticos ou etnográficos mostram, no entanto, que as variáveis sociais e étnicas sempre atuam em conjunto e com intensidades diferentes. Se toda a arte das ciências sociais consiste em desembaraçar finamente, de acordo com os contextos (geográfico, histórico, interacional), o jogo das diferentes variáveis de atuação, permanece o fato de que nada poderemos compreender no mundo em que vivemos se esquecermos que a classe social de pertencimento (medida pelo volume do capital econômico e do capital cultural) continua sendo, não importa o que se diga, o fator determinante em torno do qual se apoiam as outras dimensões da identidade das pessoas. 

A melhor prova é dada por aqueles que se beneficiaram da mobilidade social que lhes permitiu chegar às classes médias (professores, educadores, assistentes sociais, trabalhadores do entretenimento etc.) ou mesmo às classes altas (jornalistas de televisão ou de rádio, escritores, estrelas da música ou do cinema etc.). Quase todos esses desertores de classe, como se costuma dizer, aproveitam os recursos que sua ascensão social lhes oferece para diversificar seus laços afetivos, profissionais ou culturais, pois sabem muito bem que é um caminho para mais liberdade. Por que deveriam os descendentes de imigrações pós-coloniais, que ainda fazem parte das classes trabalhadoras, serem constantemente reduzidos à sua condição de vítimas e privados dos meios que lhes permitem ter também acesso a essa emancipação? 

Ao obscurecerem as relações de poder que estruturam nossas sociedades, esses discursos de identidade ajudam a acentuar as divisões dentro das classes populares, o que tem sido o objetivo das forças conservadoras desde os anos 1980 para quebrar a hegemonia da esquerda. Colocar a luta política no plano racial, apresentando todos os brancos como privilegiados, é incitar estes últimos a se defenderem com o mesmo tipo de argumento. Dado que na França os brancos são maioria, os não brancos estão condenados a permanecer em minoria para sempre. Acreditar que atos de contrição à la Jeff Bezos4 poderiam levar indivíduos definidos como brancos a renunciar a seus privilégios é reduzir a política a lições de moral – o que é comum nos Estados Unidos e tende a se tornar assim na França. 

Como a experiência norte-americana hoje é constantemente mobilizada quando se trata de evocar a questão racial, é útil relembrar a análise recentemente apresentada pelo filósofo Michael Walzer para explicar o fracasso relativo do movimento antirracista negro norte-americano, um fracasso que por sua vez explica por que o racismo continua a ser um problema central nos Estados Unidos. Ele que foi, no início dos anos 1960, um estudante totalmente comprometido com a luta pelos direitos civis liderada pelos negros norte-americanos, retornou, cinquenta anos depois, a esse momento fundador de seu engajamento político. Ele lembra a força dos laços forjados no sul entre estudantes das grandes universidades do nordeste (Harvard, Brandeis), em particular estudantes judeus como ele, e pastores e ativistas negros. 

Na avaliação que faz retrospectivamente, ele levanta a questão essencial das alianças políticas a serem forjadas no campo das forças progressistas: Pensávamos que o nacionalismo negro, ainda que compreensível, era um erro político: para serem ouvidas, as minorias devem se engajar em políticas de coalizão; os judeus aprenderam isso há muito tempo. Você não pode ficar isolado quando representa 10% ou 20% da população. Você precisa de aliados e deve desenvolver políticas que promovam alianças. Foi isso que o nacionalismo negro recusou e foi isso que o levou, creio eu, a um impasse. […] As políticas de identidade assumiram o controle na vida política norte-americana e levaram a movimentos separados: negros, hispânicos, mulheres, gays. Não houve solidariedade entre essas diferentes formas de luta por reconhecimento. Black lives matter, por exemplo, é uma expressão fundamental da raiva legítima dos negros, ligada sobretudo ao comportamento da polícia. Mas os latinos não são mais bem tratados; não há, que eu saiba, um Hispanic lives matter e nenhum esforço coordenado para a criação de uma coalizão de grupos étnicos para uma reforma da polícia.5 

Dada a americanização de nossa vida pública, infelizmente podemos temer que a constatação de Walzer esteja se verificando também na França. É claro que muitas vozes se fazem ouvir regularmente, pleiteando a convergência de lutas. Porém, aquelas e aqueles que fazem campanha nessa direção devem agora atuar dentro do novo sistema de comunicação que se impôs com a revolução digital dos anos 2000. Antes, para promover uma causa no espaço público, estprecisava ser definida e defendida coletivamente por organizações que reunissem um grande número de ativistas. Hoje, basta que alguns ativistas – que se colocam como porta-vozes de determinada demanda, sem terem recebido um mandato para isso – atraiam a atenção da mídia. Daí a proliferação de ações espetaculares, como as de ativistas que proíbem peças de teatro em nome da luta antirracista. A complacência dos jornalistas com esse tipo de ação alimenta polêmicas que dividem constantemente as forças progressistas. Embora a liberdade de expressão e o antirracismo sempre tenham sido associados até agora à esquerda, esses golpes ultraminoritários acabam colocando-oum contra o outro, o que abre uma verdadeira avenida para os conservadores.  

 

*Stéphane Beaud e Gérard Noiriel são, respectivamente, sociólogo e historiador. Autores de Race et sciences sociales. Essai sur les usages publics d’une catégorie [Raça e ciências sociais. Ensaio sobre os usos públicos de uma categoria], Agone, a ser lançado em 21 de janeiro de 2021. O presente texto foi extraído desse livro. 

 

1 Jürgen Habermas, Théorie de l’agir communicationnel [Teoria do agir comunicativo], Fayard, Paris, 1987 (1ed. 1981). 

2 Gérard Noiriel, Le Venin dans la plume. Édouard Drumont, Éric Zemmour et la part sombre de la République [O veneno na caneta. Édouard Drumont, Éric Zemmour e o lado sombrio da República], La Découverte, Paris, 2019. 

3 Isso também explica, de forma direta, sua representação exagerada nos diversos fatos relatados pela imprensa local, os atos de delinquência e a população carcerária.  

4 Referência ao tuíte da Amazon em reação ao assassinato de George Floyd: “O tratamento injusto e brutal dispensado aos negros em nosso país deve acabar” (31 maio 2020). 

5 Michael Walzer e Astrid von Busekist, Penser la justice [Pensar a justiça], Albin Michel, Paris, 2020. 

 

 



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