O interminável ciclo de golpes no Brasil - Le Monde Diplomatique

Da República à democracia

O interminável ciclo de golpes no Brasil

por Frederico Rochaferreira
23 de julho de 2019
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Os golpes sempre fizeram parte da História do Brasil. Começando em 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca derrubou o imperador Pedro II, até 2016 quando um complô político-militar-judiciário derrubou a presidente Dilma Rousseff e prendeu o ex-presidente Lula.

O Brasil iniciou o ciclo de golpes de Estado em 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca derrubou o imperador Pedro II. A partir dessa desobediência constitucional consolidou-se a tradição dos golpes, que de tempos em tempos assola este país, que trabalha duro para não dar certo.

Com o fim da escravidão, os grandes latifundiários fecharam acordo com o movimento republicano para trazer imigrantes europeus para trabalharem nas fazendas, ao mesmo tempo que urdiam, como vingança, o fim do Império, que viria acontecer um ano e seis meses depois com o golpe militar comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que derrubou Pedro II em 15 novembro de 1889 e que ficou na História como Proclamação da República.

Todavia, a República brasileira nasce órfã de todos os bons princípios. Gerada e gerida por grupos de indivíduos que se dividem em partidos políticos comprometidos apenas com seus próprios interesses, sempre que um grupo tem seus interesses contrariados, um novo golpe é parido.

O próprio Deodoro da Fonseca, dois anos após derrubar Pedro II, dá o segundo golpe em 1891, dissolvendo o Congresso e instaurando o Estado de Sítio no país, que durou apenas vinte dias. Forçado a renunciar sob pressão da Marinha, que ameaçou bombardear a cidade do Rio de Janeiro, o Marechal deixou o Poder.

Floriano Peixoto, vice de Deodoro, se encarrega de dar o terceiro golpe de Estado. Ele deveria convocar novas eleições de acordo com a Constituição, mas não convoca, se agarra ao Poder com mão de ferro. Um grupo de altos oficiais da Marinha reage e faz um manifesto assinado pelo Contra-Almirante Custódio de Melo, dizendo que Floriano Peixoto “iludiu a nação com uma política de suborno e corrupção” e em 1893, a Marinha dá um ultimato a Floriano, ameaçando novamente bombardear a capital brasileira, caso permanecesse no Poder. Floriano não cede às ameaças
e adquiri alguns navios de guerra americanos repletos de mercenários ianques e depois de sangrentas batalhas, sai vencedor.

São Paulo – manifestação contra impeachment na Avenida Paulista (Rovena Rovena Rosa/Agência Brasil)

A partir do governo Campos Sales, (1898-1902) as oligarquias paulista e mineira tomaram conta da República, se alternando no Poder com a política do “café com leite”, ora governava um paulista, ora um mineiro, o que aconteceu até 1930, quando essa regra foi quebrada por São Paulo, com imediata reação de Minas Gerais, que passa a apoiar o oposicionista Getúlio Vargas e o golpe contra o presidente Washington Luiz, que ocorreria no final de 1930. Nesse mesmo ano, Vargas assume o governo provisório, revoga a Constituição de 1891 e passa a governar por decretos, quatro anos depois, era eleito indiretamente presidente do Brasil.

Três anos depois, em 1937, Getúlio Vargas desfere o quinto golpe na República. A justificativa foi um suposto plano comunista para a tomada do Poder (Plano Cohen), que mais tarde ficaria provado ser uma farsa para a implantação da ditadura do Estado Novo. Getúlio fecha o Congresso, cancela as eleições presidenciais de 1938 e fica no poder até 1945, quando é deposto por militares de sua confiança, no sexto golpe contra a República. Assume temporariamente a presidência, José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, com a missão de presidir as eleições de dezembro de 1945, entre o brigadeiro Eduardo Gomes e o marechal Eurico Dutra, que vence as eleições.

Em 1950, Getúlio vence as eleições e, em 1954, se mata ante a iminência do sétimo golpe de Estado, pronto para ser desferido pelas Forças Armadas. Em 1955, Juscelino Kubitschek é
eleito presidente, mas sofre resistência do presidente em exercício, Café Filho e do presidente da Câmara, Carlos Luz. Ambos tentam impedir a posse de Juscelino, quando o general Henrique Lott, dá o oitavo golpe, implanta o Estado de Sítio, impede Carlos Luz e Café Filho de assumirem a presidência e garante a posse de Juscelino e seu vice João Goulart.

Menos de uma década depois, em 1964, os militares carimbam o nono golpe, derrubando o presidente João Goulart e instituindo uma ditadura militar que vai até 1985.

O décimo golpe de Estado na combalida República do Brasil. foi desferido por um complô político-militar-judiciário em 2016, que derrubou a presidente Dilma Rousseff e prendeu o ex-presidente Lula, numa grande farsa jurídica encabeçada pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro e uma trupe de procuradores federais, com a cumplicidade das instâncias superiores, notadamente pressionadas pelas Forças Armadas.

Esse é o roteiro da constante desconstrução do que poderia ser uma grande nação.



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