BARRETÃO AJUDOU A PROVAR QUE O TALENTO BRASILEIRO É CAPAZ DE CONQUISTAR O MUNDO

O legado de Barretão é também uma defesa das leis de incentivo

As leis de incentivo não representam apenas um mecanismo de renúncia fiscal, mas uma política pública capaz de impulsionar atividade econômica, emprego, renda e arrecadação

A morte de Luiz Carlos Barreto, o Barretão, marca o fim da trajetória de um dos maiores produtores da história do cinema brasileiro. Mas seu legado ultrapassa as telas e reforça uma visão que permanece indispensável para o futuro da cultura brasileira. Mais do que deixar uma filmografia que ajudou a moldar a identidade do audiovisual nacional, ele deixa uma lição que continua extremamente atual: nenhuma indústria cultural prospera apenas pelo talento de seus profissionais. Ela precisa de um ambiente capaz de conectar criatividade, investimento privado e políticas públicas consistentes

Quando o cinema brasileiro enfrentou uma de suas maiores crises, no início da década de 1990, reconstruir o setor exigiu muito mais do que criatividade. Era preciso restabelecer a confiança dos produtores, criar mecanismos para atrair investidores e oferecer condições para que novas histórias voltassem a ser produzidas. A consolidação da Lei do Audiovisual e o fortalecimento das políticas de incentivo foram decisivos nesse processo. Barretão compreendeu desde cedo que uma indústria cultural forte não se sustenta apenas pelo talento de seus profissionais, mas também pela existência de instrumentos capazes de garantir continuidade, planejamento e segurança para quem investe.

Sua própria trajetória comprova isso. Produções como Dona Flor e Seus Dois MaridosO QuatrilhoO Que É Isso, Companheiro? e Lula, o Filho do Brasil ajudaram a projetar o cinema nacional dentro e fora do país, demonstrando que criatividade, quando encontra um ambiente favorável ao investimento, é capaz de transformar histórias brasileiras em patrimônio cultural e ativo econômico.

Os resultados dessa visão podem ser percebidos até hoje. O audiovisual brasileiro ampliou sua capacidade de produção, conquistou reconhecimento internacional e consolidou uma cadeia produtiva que movimenta milhares de profissionais e empresas. Cada filme ou série mobiliza roteiristas, diretores, atores, técnicos, empresas de tecnologia, estúdios, transportadoras, hotéis, restaurantes e inúmeros fornecedores. Trata-se de um setor que gera emprego, renda, inovação e desenvolvimento regional.

Não por acaso, a economia criativa já representa cerca de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan. Em 2023, o setor respondeu por R$ 393,3 bilhões do PIB nacional e contabilizou aproximadamente 1,26 milhão de profissionais formalmente empregados, além de movimentar uma ampla cadeia de atividades econômicas. Esses números evidenciam que a cultura deixou há muito tempo de ser apenas expressão artística para se consolidar como uma importante atividade econômica. Trata-se de uma participação superior à de diversos segmentos tradicionais da economia, demonstrando que investir em cultura também significa estimular crescimento, competitividade e geração de oportunidades.

Foto: Garapa/Coletivo Multimídia

Essa capacidade de gerar riqueza também pode ser medida pelo retorno dos investimentos. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que, para cada R$ 1 investido por meio da Lei Rouanet, R$ 7,59 retornam para a economia e para a sociedade, além da geração de R$ 1,39 em arrecadação tributária. Os números reforçam que as leis de incentivo não representam apenas um mecanismo de renúncia fiscal, mas uma política pública capaz de impulsionar atividade econômica, emprego, renda e arrecadação.

Ainda assim, é comum que as leis de incentivo sejam vistas apenas sob a ótica da renúncia fiscal. Essa leitura simplifica um instrumento de desenvolvimento econômico a uma mera discussão tributária. O debate frequentemente se concentra no imposto que deixa de ser arrecadado, mas ignora os empregos criados, a renda movimentada, a arrecadação indireta e o efeito multiplicador que projetos culturais exercem sobre diversos setores da economia.

Acompanhamos diariamente organizações que descobrem, muitas vezes pela primeira vez, que investir por meio das leis de incentivo vai muito além do apoio a um projeto cultural. Significa participar da formação de uma cadeia produtiva, incentivar inovação, fortalecer territórios, ampliar o acesso da população à cultura e associar suas marcas a iniciativas que geram impacto positivo para a sociedade. Cada vez mais, esse investimento também integra estratégias de responsabilidade social, ESG, reputação e relacionamento com comunidades, demonstrando que desenvolvimento econômico e impacto social podem caminhar juntos, e, dessa forma, o investimento deixa de ser visto como obrigação fiscal.

O legado de Barretão também nos lembra que políticas públicas eficientes precisam caminhar ao lado da segurança jurídica e da previsibilidade. Projetos culturais exigem planejamento de longo prazo, equipes multidisciplinares e confiança para mobilizar recursos privados. Produzir cultura é investir em projetos complexos, que envolvem financiamento, logística, tecnologia, profissionais especializados e cadeias produtivas inteiras. Sem previsibilidade, empresas e produtores reduzem investimentos, talentos encontram menos oportunidades e o país perde competitividade em um mercado global cada vez mais disputado.  Quanto maior a estabilidade dos mecanismos de incentivo, maior será a capacidade do Brasil de atrair investimentos, estimular novos talentos e fortalecer sua economia criativa.

Em um cenário marcado pela expansão das plataformas digitais, pela internacionalização do conteúdo e pela crescente valorização da economia criativa, o Brasil reúne todas as condições para ampliar sua presença global. O consumo de conteúdo audiovisual nunca foi tão internacional, e as plataformas de streaming ampliaram a demanda por histórias locais com potencial global. O Brasil possui diversidade cultural, criatividade reconhecida internacionalmente e profissionais altamente qualificados. Transformar esse potencial em vantagem competitiva, porém, depende da existência de um ambiente estável para investimentos. Para isso, será fundamental preservar e aperfeiçoar instrumentos que já demonstraram sua capacidade de conectar empresas, produtores, artistas e sociedade em torno de objetivos comuns.

Se Barretão ajudou a provar que o talento brasileiro é capaz de conquistar o mundo, seu maior legado talvez seja outro: mostrar que nenhuma indústria cultural cresce sem um ambiente que incentive o investimento. Preservar e fortalecer as leis de incentivo não significa olhar para o passado.  Significa garantir que as próximas gerações de artistas, produtores e empreendedores culturais tenham as mesmas oportunidades de transformar talento em desenvolvimento, cultura em riqueza e criatividade em legado para o Brasil.

 

Vanessa Pires é CEO da BRADA.

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