O mundo em torno das verdinhas - Le Monde Diplomatique

CINEMA / TURQUIA O

O mundo em torno das verdinhas

por Gönül Dönmez-Colin
1 de agosto de 2000
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Quando Selim volta do trabalho, sua filha lhe pergunta se ele ganhou muito dinheiro, seu pai quer saber se depositou sua pensão, sua mulher lhe lembra sem parar de pagar as prestações das compras. O dinheiro acaba alterando o cotidiano de SelimGönül Dönmez-Colin

Zeki Demirkubuz, uma das figuras de proa do cinema turco, coloca em cena em seu último filme, Üçüncü Sayfa (“A Terceira Página” [1]), dois mafiosos perseguindo um figurante de televisão a fim de roubar-lhe 50 dólares. Para salvar a pele do pobre homem, sua vizinha Meryem, uma faxineira anatoliana, se oferece para pagar. Não dominando a linguagem da nova economia, ela se propõe a pagar em liras turcas. Os malandros são pegos desprevinidos: “— Quanto está o dólar hoje? “, “— Preço de compra ou de venda? “. Eles tiram um telefone celular do bolso e uma máquina de calcular. Consultam seu chefe. A taxa de troca do dia é confirmada e o dinheiro, pago.

Se o Estado rouba…

A dolarização da economia turca também aparece em Kaç Para Kaç (“Corrida do dinheiro” [2]), de Reha Erdem. Se o dólar não é o herói desse filme de sucesso, é certamente seu elemento mais visível. A primeira imagem mostra uma nota verde voando no ar. Segue-se uma cena numa caixa de areia de parquinho, onde três crianças desenterram uma nota de 100 dólares. Dois dos pais dos garotos vão ao banco para trocar o dinheiro. O terceiro, um pai de família tranqüilo chamado Selim, renuncia à sua parte. No entanto, quando encontra um saco cheio de dólares, tem dificuldade em devolver: são 500 mil dólares roubados por um empregado de banco esquecidos num táxi. De um personagem, cansado da inflação: “O Estado rouba o cidadão, o que o cidadão pode fazer? Faz a mesma coisa, só que a lira não é forte o bastante!”

A obsessão por dinheiro

Selim leva uma vida monótona vendendo camisas para homens na loja de sua família. Quando volta do trabalho, sua filha lhe pergunta se ele ganhou muito dinheiro; seu pai, aposentado, quer saber se ele depositou sua pensão no banco para capitalizar os juros; sua mulher lhe lembra sem parar de pagar as prestações das compras que fizeram. Todo mundo à sua volta fala de dinheiro ou tenta dar um jeito de ficar rico.

O dinheiro altera o cotidiano de Selim. Ele se torna desconfiado, se afasta dos amigos, vive numa paranóia constante e procura a tranqüilidade comprando uma casa, um carro, jóias, uma nova televisão e gastando em jantares em restaurantes luxuosos. O dinheiro lhe dá o poder de tornar sua família feliz. No entanto, os valores humanos, substituídos pelo dinheiro, vão se perdendo, um a um. Selim mente, engana e calunia. Marido fiel, sempre constrangido pelo assédio de sua jovem vizinha, é pego com ela por sua família. Com os bolsos cheios de dólares, Selim foge pela varanda.

A satisfação do FMI e do Bird

A indexação do dólar na economia turca, apesar de uma taxa de inflação elevada, da burocracia, do estado deplorável da infraestrutura e da amplitude da corrupção, parece contentar os observadores. James Wolfenson, presidente do Banco Mundial, e Carlo Cottarelli, responsável pela Turquia no Fundo Monetário Internacional, visitaram o país no fim de maio e declararam-se satisfeitos. Um empréstimo de US$ 795,6 milhões foi concedido pelo Banco Mundial com o objetivo de incentivar a reforma nos gastos públicos, a reestruturação da seguridade social, setores da agricultura, das telecomunicações e da energia, e para acelerar a privatização. Enquanto a mídia pró-governo proclama esses “sucessos”, a população se preocupa com o estado da agricultura, com o aumento das importações, com a baixa das exportações e com a crise no setor bancário, ameaçado por uma privatização que causará necessariamente a perda de mil



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