O PERDÃO QUE PADILHA NÃO MERECE

O MECANISMO

O perdão que Padilha não merece

por Giane Maria de Souza
20 de Maio de 2019
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O mecanismo que Padilha deveria denunciar, de fato, é o que mantém a Lava Jato como um instrumento de poder, torto, inconsistente, incompleto, irresponsável e sem compromisso com a história e a democracia do nosso país. Para mais, será preciso recriar o “guia pervertido da ideologia” do filósofo e sociólogo esloveno Slavoj Zizek, e, assim, analisar competentemente “O Mecanismo”.

As declarações públicas de José Padilha, para divulgar a segunda temporada de “O Mecanismo”, continuam extremamente controversas. Autocrítica e humildade não são, definitivamente, virtudes cultivadas pelo diretor. Em entrevista, justificou o injustificável, e disse não se arrepender da primeira temporada, mesmo após a eleição de Bolsonaro e a entrada de Sérgio Moro no governo.

A sua escolha pela parcialidade para tratar dos fenômenos do tempo presente causa indignação no campo intelectual e artístico. A primeira temporada de “O Mecanismo” alimentou o antipetismo em conjuntura eleitoral marcadamente polarizada em 2018, e o debate público sobre justiça e democracia foi severamente afetado pela série, redimensionando com veemência a disputa eleitoral. 

De fato, a questão não se concentra em Padilha defender uma posição política, mas em argumentar que esta é neutra e apartidária – notadamente, um problema sério de compreensão política. O véu da neutralidade e do apartidarismo encobre ações autoritárias e nefastas que perseguem a pluralidade de ideias, de organização social e de filiação política, pelo que, em tempos de polarização política e de autoritarismo vigente, não podemos nivelar tudo sob o mesmo parâmetro.

Já é sabido que liberdade de expressão supõe uma apropriação política da realidade, e, enquanto releituras, as expressões artísticas e culturais são instrumentos políticos e pedagógicos da realidade. Assim, determinados devaneios políticos, neste campo, colocam em risco nossos direitos fundamentais, além das próprias liberdades política, artística, de expressão, de gênero, de religião e de ideologia, uma vez que a arte é dotada, também, de responsabilidade histórica – e, por isso, é uma das linguagens mais combatidas pelo autoritarismo vigente.

Não obstante, Padilha aponta sua metralhadora giratória contra o sistema político partidário brasileiro e, novamente, apazigua e defende a postura política de Moro. Dizer que o “mecanismo é apartidário” e que “evidências são claras” ratifica desconhecimento ou controvérsia de análise?

Pois, Padilha afirma que o retrato de Moro foi “fiel”. Desconsiderou o fato de que agentes públicos são movidos por infinitos interesses e estão inseridos em múltiplas disputas ideológicas e espaços de poder. Diga-se, não existe, em política, uma verdade única, tampouco fidelidade no retrato de quem quer que seja. Tudo é passível de questionamento a partir das idiossincrasias mobilizadas. Escolher uma narrativa requer um posicionamento político, o que, invariavelmente, exclui outras possibilidades.

Por não menos, o sistema político brasileiro foi descredenciado e desqualificado por Moro e seus séquitos, ao mesmo tempo em que a escolha de estar do lado do governo eleito evidencia uma proximidade ideológica com o Estado atual.

Ora, a condenação de Lula obscureceu narrativas sobre o processo, o sistema político e o próprio judiciário brasileiro, quais foram ignorados pela Lava Jato e pela série televisiva. Não existiu contraponto histórico, narrativo e político. A justiça não considerou todos os lados da história, tampouco as muitas histórias silenciadas, adulteradas e apagadas nesse processo incongruente. Ou seja, evidências claras, apartidárias e fiéis são abordagens unilateriais. O processo histórico é antagônico por essência. Apartidarismos e neutralidades não existem em nenhum sistema político judiciário, como Padilha supõe existir.

O véu da neutralidade

O governo nunca esteve exclusivamente nas mãos do Lula ou da Dilma, tampouco a Lava Jato esteve unicamente nas mãos de Sergio Moro. Há uma série de negociações e tramas políticas nesses processos. Padilha, ao acusar Lula e contemporizar Moro, novamente, prejudica e acirra o debate público sobre os procedimentos éticos adotados no processo que inspirou a série, e que condenou o ex-presidente à prisão. Os abusos, a ilegalidade, a intolerância e o fundamentalismo do judiciário reforçaram a criminalização e o balcão de negócios da política brasileira, vindo a sedimentar o ódio a um único partido.

O debate em torno do tema democracia versus autoritarismo colocou todos numa vala comum, e Padilha mostrou-se contraditório ao não assumir seu posicionamento em heroificar e defender Sérgio Moro e a Operação Lava Jato como baluartes da justiça e da ética – ainda que, como é válido lembrar, a justiça, para Moro, sempre teve um lado.

Padilha e Moro são próximos em suas avaliações. Negam seus posicionamentos e advogam para si uma neutralidade e um partidarismo. Os interesses e posicionamentos explícitos no trabalho de ambos evidenciam os campos sociais em que estão inseridos. “O Mecanismo”, dirigido por um e inspirado no outro, desprestigia e criminaliza o sistema político brasileiro, e não auxilia no seu aprimoramento e na sua qualificação – quiçá, na sua reinvenção.

Assim, em tempos de polarização e de risco à democracia e aos direitos humanos, a neutralidade sempre se coloca do lado opressor e auxilia no subjugamento do lado oprimido, confirmando a necessidade de se desconfiar de alguém que se autointitula apolítico e apartidário.

Quer dizer, se tudo possui lastro político, a educação é política, a arte é política, a justiça é política, a religião é política.  Os posicionamentos, as leituras, os estudos, as narrativas e as ações sobre o político são políticos. E Padilha e Moro são políticos profissionais. Como agentes políticos em potencial buscam e disputam interesses, expectadores, admiradores, seguidores e retorno financeiro nas suas intervenções e atuações profissionais. 

Indo além, um artigo de opinião, escrito por Padilha, sugere que Moro abandone o governo Bolsonaro. Ora, Moro sabe o que é o governo Bolsonaro. Agiu consciente para sua eleição e o defende ideologicamente. Moro sabe o que são as milícias, sabe o que é corrupção e conhece muito bem os partidos, inclusive com relações muito próximas com alguns deles. Sempre houve uma escolha ideológica por trás das suas ações.

Moro não deve abandonar o barco. Ele deve permanecer com Bolsonaro até o final. É a sua identidade. Estratégico e ambicioso, sempre soube onde queria chegar e como chegaria. Na história da Lava Jato, articulou todos os mecanismos e forças sob o seu controle, inclusive infringindo a própria Constituição Federal. E diga-se: em outra situação, já estaria condenado.

Autoritarismo escancarado

Diante de todo esse contexto, não há como perdoar Padilha. A exibição da série corroborou e corrobora para desqualificar o debate e disseminar ainda mais o ódio e o antipetismo aflorado pelas ações parciais conduzidas pela Lava Jato. Amigos e familiares meus, a exemplo, mostravam-se indignados com Lula e com o PT, e passaram a defender ardorosamente golpe militar, silenciamento e eliminação dos petistas. Muitos citavam como fonte de informação “O Mecanismo”.

Como diria Goebbels, uma mentira repetida torna-se verdade – e a melhor maneira de propagar dissimulações da realidade é pela comunicação. A mídia mainstream foi, portanto, junto aos seus instrumentos e profissionais, responsável pela promoção do ódio que sofremos diariamente por esse governo. De tal modo que nos recordemos de que o chefe nazista, na Alemanha, ensinou que, para enganar uma população, é preciso alavancar um nacionalismo e uma ideologia de raça, credo, religião e política que subjugue todos que se mostram contrários. Existem tristes receituários na história da humanidade de como enganar uma população e ascender um governo desumano e ditatorial, promovendo o ódio e cometendo crimes contra a humanidade utilizando os próprios meios democráticos.

Os heróis e os vilões forjados pela Lava Jato nos legaram um monstro perigoso. Entregar o país nas mãos inescrupulosas de uma justiça que condena sem provas, mas por convicção, nos levou para o mundo do abismo, das trevas, dos milicianos e do autoritarismo escancarado com um verniz de democracia.

Por isso, o mecanismo que Padilha deveria denunciar, de fato, é o que mantém a Lava Jato como um instrumento de poder, torto, inconsistente, incompleto, irresponsável e sem compromisso com a história e a democracia do nosso país. Para mais, será preciso recriar o “guia pervertido da ideologia” do filósofo e sociólogo esloveno Slavoj Zizek, e, assim, analisar competentemente “O Mecanismo”.

Enfim, a série televisiva auxiliou a promover o ódio e a morte da democracia e da justiça. Se não, por que são os artistas, os intelectuais, os estudantes, os professores, os jornalistas, os ativistas e os fiscais públicos os alvos preferidos deste governo? Inimigos, agora, são outros. Nomeiam-se educação, cultura, ciência e arte.

Giane Maria de Souza:  Historiadora, mestre em Educação pela UNICAMP. Doutoranda  em História pela UFSC – Linha de Pesquisa Sociedade, Política e Cultura no Mundo Contemporâneo e bolsista do Programa UNIEDU/SC. É autora do livro A cidade onde se trabalha – a propagação do autoritarismo estadonovista em Joinville/SC pela Editora Maria do Cais, 2008.



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