RESENHA

O poema em prosa com novos contornos em ‘Para a nascente correm todos os rios’

O novo livor de Henrique Bezerra Martins, Para a nascente correm todos os rios, publicado pela Editora Nauta, surge como novidade para quem acompanha a cena poética dos anos recentes  

Crédito: Divulgação

A narrativa poética não é recente na literatura brasileira; na verdade, ela é bem datada: do romantismo e sua exposição do “Eu” com a acentuação na modernidade do século XX, o foco em primeira pessoa se modifica. Os romances simbolistas de 1900 influenciaram o itinerário interno do sujeito, desdobrando-o não para reivindicar um novo mundo externo, mas as oscilações íntimas, fazendo desse mesmo “Eu” seu objeto principal e, com ele, bastando a observação do espaço ao redor. Títulos como Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar; Água Viva, de Clarice Lispector; e Nossos Olhos, de Marcelino Freire, são exemplos em que narrador, protagonista, espaço e tempo coexistem com ritmo, sonoridade, estrutura e estilo próprios da poesia.  

Ao longo das últimas décadas, esse gênero híbrido se transformou através de procedimentos, debates nos muros das universidades e fora delas, venda de livros em disparada diante dos novos arranjos de quem enuncia e os motivos pelos quais se realiza no interior do texto. 

No entanto, o poema em prosa, ou narrativa poética que enfatiza o gênero lírico, não é comum em nossas estantes, o que não retira de forma alguma o seu potencial para ser trabalhado.  

Diante disso, o novo livor de Henrique Bezerra Martins, Para a nascente correm todos os rios, publicado pela Editora Nauta neste ano, surge como novidade para quem acompanha a cena poética dos anos recentes. Seus textos abordam o eu lírico “Henri” desde os primeiros anos de vida em meio a conflitos familiares, abuso de substâncias (em especial o álcool), o cotidiano na cidade e a vida universitária. A reconstrução do passado é permeada, também, por figuras abstratas, a exemplo do personagem “Mordomo”, podendo significar outra temática bastante presente na obra de Martins: a morte e a onipotência humana sobre ela. Dividido em duas partes, sem contar os epílogos, o leitor se depara com a atmosfera de um iminente colapso mental, para não dizer ético. 

“Sim, ele estava, Henri”, responde o padre em um dos primeiros poemas. No contexto, a expressão lírica do narrador-protagonista se manifesta diante das inquietações pelo fascínio da ambivalência de Deus em suas decisões, como se fosse uma inevitabilidade histórica e filosófica. O eu lírico compartilha a dor diante de um acidente televisionado, levando uma mulher a óbito, o que me faz encarar o percurso do livro inserido na estrutura típica de um romance, ou seja, as ações, mesmo que em alguns momentos sofram quebra cronológica, resultam na mudança de contextos e desenvolvimento dos demais personagens ao longo dos textos. Não à toa, as poesias estão divididas em duas partes, como se fossem capítulos das provocações do ritmo lento e frenético de Henri: o amor em suspensão por Maria, o pai e a figura da violência, a mãe e seus sonhos abortados e a entrada no curso de Filosofia pelo financiamento do ProUni. Enfim, temos aqui quase um bildungsroman, que por questões dos ossos do ofício, prefiro dizer que há ecos do romance de formação. 

Ainda sobre o eu lírico e narrador Henri, chama atenção o nome próprio, uma vez que é difícil não encarar semelhanças na autoria, por mais que seja necessária sua diferenciação. A escrita de si parece mais adequada para nomear o processo criativo do escritor – tanto poeta quanto romancista, talvez – ao mobiliar encadeamentos sobre o experienciar e a adaptação das lembranças, ora sólidas, ora em fissuras. 

Em três delimitações com seus respectivos personagens centrais (o pai, o irmão mais novo, Arthur, e a mãe), é possível costurar um fio cujo encaixe se produz diálogos, sendo importantes para a história. “Continuava a desenhar casas no campo/Quem sabe fosse o júbilo momentâneo/ao acreditar em si, por nosso contágio,/que o fizesse crer que estávamos a morar/ lar de seus desenhos”; “Arthur era redenção em vida/Fazia dos restos mortos/tempo vivo de sua infância.”; “O lar que lhe fora privado na infância/era negado novamente/no matrimônio,/sua última tentativa/de refúgio.”. Há um desenvolvimento psicológico considerável em cada arco, resultando na alteração das perspectivas do narrador-protagonista, que se encontra em sofrimento psíquico e espiritual, assumindo um retorno que diria se tratar de uma identidade perdida, ou talvez nunca acessada por ele. Logo, as estratégias textuais deslocam a imagem dessa criança curiosa e ao mesmo tempo assustada para o lugar no qual sua função é de mero “administrador de conflitos” dos outros. No livro de Martins, o duplo espelhamento ganha novos contornos por se tratar de uma narrativa propriamente dita, flertando com o macabro, o familiar, o delicado e universal de todos nós.  

Por mais que possa ser contraditório de minha parte – uma autora cuja primeira obra foi analisada pela perspectiva do gênero literário que aqui coloco em problemática –, não encaro os tantos duplos como se fosse uma grande celebração de nossos tempos como certos críticos, autores e leitores almejam. É difícil, e até mesmo tedioso a depender, a tentativa de dissecar a infinitude de lamúrias e reconstruções de um sujeito tão fragmentado que se apresenta na literatura contemporânea. Nada mais (pós) moderno do que essa específica manifestação artística. A morte do autor nunca esteve tão distante de nossa época. Mas o que quero dizer com esse falatório, afinal? que “Para a nascente correm todos os rios” chega como uma boa surpresa por acomodar personagens, ainda mais em um livro híbrido, em que a fabulação e seus limites autorais são tensionados com equilíbrio, em particular nos primeiros “capítulos” por assim dizer. 

 

Lorraine Ramos Assis (1996) é redatora, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais quais Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ). 

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