O que as “batalhas culturais” não são - Le Monde Diplomatique

BASTAM IDEIAS PARA MUDAR O MUNDO?

O que as “batalhas culturais” não são

por Razmig Keucheyan
Março 2, 2018
Imagem por Tulipa Ruiz
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Nos anos 1980 e 1990, a ideia de que não existia alternativa às democracias de mercado resultou em uma forma de fatalismo. No entanto, a reascensão dos protestos nos últimos vinte anos recolocou os enfrentamentos ideológicos em primeiro plano, a ponto, muitas vezes, de se atribuir à batalha das ideias um papel e um poder que ela não possui

Em um artigo publicado em janeiro de 2018, Najat Vallaud-Belkacem, ex-ministra da Educação da França, repetiu, depois de muitos outros, que o Partido Socialista perdeu a “batalha cultural” – expressão que aparece quatro vezes no texto.1 Quando François Hollande venceu a eleição presidencial de 2012, o Partido Socialista detinha, no entanto, todas as rédeas do poder: o Palácio do Eliseu, Matignon (residência do primeiro-ministro), a Assembleia Nacional, o Senado e 21 regiões em 22. Nada parecia impedir a aplicação da política de esquerda que Vallaud-Belkacem, no governo durante toda a duração do quinquênio (2012-2017), defendeu retrospectivamente. O motivo? Ventos contrários sopravam, ao que parece com muita força. A batalha cultural, esse gênio misterioso que refreia o ardor de sucessivos governos de esquerda, estava perdida.

No seio da esquerda – de todos os matizes –, circulam agora ideias que parecem politicamente adequadas, mas se revelam perigosas. Uma delas é o argumento dos “99%”.2 Apoiando-se em estatísticas estabelecidas pelos economistas Emmanuel Saez e Thomas Piketty, o movimento Occupy Wall Street disseminou em 2011 a noção de que a humanidade se divide em dois grupos: um, o 1%, são os mais ricos, que açambarcam quase todos os benefícios do crescimento; o outro, os 99%, sofre de desigualdades cada vez mais gritantes. O argumento se mostrou eficaz por algum tempo, suscitando mobilizações em diversos países. Mas um problema logo surgiu: os 99% formam um conjunto extremamente díspar. Essa categoria inclui tanto os habitantes das favelas de Nova Déli e do Rio de Janeiro quanto os prósperos residentes de Neuilly-sur-Seine e de Manhattan que não são ricos o suficiente para integrar o 1%. É difícil imaginar que os interesses dessas populações sejam os mesmos ou que elas venham a constituir, no futuro, um grupo político coerente.

O argumento da batalha cultural sofre de um defeito análogo. Não é a bem dizer falso, mas aponta para uma estratégia política problemática. Encontramo-lo frequentemente na esquerda, do Partido Socialista à França Insubmissa [France Insoumise], mas também na direita, sobretudo nas correntes que se dizem herdeiras da “nova direita”. O argumento vem de uma leitura apressada de Antonio Gramsci e seu conceito de hegemonia. A ideia é simples: a política repousa, em última instância, na cultura. Aplicar uma política supõe, primeiro, que o vocabulário e a “visão de mundo” sobre as quais ela se apoia sejam impostos ao maior número de pessoas. Não é que os governos não apliquem seu programa porque lhes falta coragem e ambição ou porque se recusam a defender os interesses daqueles que os elegeram: eles não o fazem porque o “clima” político se opõe à sua aplicação. Seria, assim, necessário modificar a atmosfera para tornar concebível essa política.

Na era do Facebook e do Twitter, é fácil entender o apelo desse argumento. Subscrevendo-o, podemos fazer política confortavelmente em casa, diante da tela do computador. Deixar um comentário num site ou escrever um tuíte odiento são agora atos políticos por excelência. É o mesmo que publicar petições ou libelos vingativos nas colunas dos jornais já quase sem leitores, alimentando a esperança de que “caiam na net”.

Identificar os vetores da mudança

A batalha cultural tem, sem dúvida, sua importância. A China, por exemplo, leva hoje muito a sério o desafio de seu soft power. Trata-se de um conceito elaborado pelo cientista político norte-americano Joseph Nye, que foi consultor de várias administrações democratas desde Jimmy Carter. Segundo Nye, no século XXI o poder de um país se mede menos por seu hard power, isto é, seu poderio militar, do que por sua capacidade de influenciar a esfera pública global, dando uma imagem positiva de si mesmo.

O governo chinês organiza assim a atuação dos netizens (contração de net e citizens, “internet” e “cidadãos”), pessoas que entram na rede para defender os interesses de seu país.3 Como sugeriu o presidente Xi Jinping em discurso ao 19º Congresso do Partido Comunista Chinês em outubro de 2017, o importante é “contar a história da China e construir seu soft power” difundindo na rede uma “energia positiva”. Sim, mas… por trás dos batalhões de netizens chineses está uma das grandes potências mundiais. A China não ocupa seu posto nas relações internacionais por causa do soft power ou de uma batalha cultural, e sim em razão da força econômica, que o dirigente pretende transformar em força militar.

A expressão “batalha cultural” deve parte de seu sucesso à hipótese segundo a qual, no curso das últimas décadas, a direita teria imposto suas ideias, dando nascença à mistura de neoliberalismo econômico e conservadorismo moral em que estamos desde então.

No entanto, para começar, a direita não precisou realmente vencer a batalha cultural, pois suas categorias fundadoras, como a propriedade privada dos meios de produção e a economia de mercado, não são seriamente contestadas desde meados dos anos 1970. Mesmo a impressão de que 1968 representou uma “idade de ouro” para a esquerda, isto é, de que suas ideias eram então hegemônicas, não passa, em grande parte, de uma ilusão retrospectiva: na França, a direita ocupou o poder sem descontinuidade durante todo o período. As políticas redistributivas e de reconhecimento dos direitos das mulheres que ela concedeu foram introduzidas menos em consequência de uma “batalha de ideias” do que da pressão do Bloco do Leste e de vigorosos movimentos sociais.

Nem mesmo se pode dizer que o racismo, cuja recrudescência é às vezes apresentada como sintoma de uma “direitização” da sociedade atual, se agravou, embora tenha mudado de forma. A sociedade francesa dos anos 1960 e 1970 não era decerto menos racista que a atual.4 A partir da década de 1970, o capitalismo sofreu profundas transformações: financeirização, desmoronamento do Bloco do Leste e sua integração à economia mundial, virada capitalista da China, desindustrialização dos antigos centros, crise do movimento operário, construção neoliberal da Europa… No contexto de crise e reestruturação do sistema, a direita se mantinha alerta para aproveitar todas as oportunidades. E ela o fez, enviando ao debate público ideias coerentes na esfera política e econômica. Entretanto, a nova hegemonia neoliberal só emergiu após abalos estruturais que enfraqueceram objetivamente as forças progressistas. Esperar que vencer a “batalha das ideias” basta para modificar o sistema é se expor a desilusões.

O argumento dos 99% e o da batalha cultural provêm de uma mesma concepção do mundo social: a que considera a sociedade um corpo homogêneo, um espaço “fluido” capaz de ser influenciado num sentido ou em outro por meio de discursos. As teorias de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, fontes de inspiração do Podemos5 e da França Insubmissa, são exemplos dessa concepção.

Os adeptos do movimento dirigido por Jean-Luc Mélenchon criaram no início do ano um canal de TV batizado de Le Média e fundaram uma escola de formação. No dizer de seus apresentadores, esses dispositivos visam travar a batalha cultural, preparando o terreno para outras políticas.6 Desse modo, a França Insubmissa se inspira, atualizando-as, em instituições social-democratas e comunistas: o jornal operário e a escola de formação de quadros, que permitiriam a difusão, entre os militantes e no seio de sua base social, de uma visão coerente do mundo.

Falta, porém, um elemento essencial: quais classes sociais ou coalizões de classes serão os vetores da mudança? A quem se dirigem prioritariamente o Le Média e a escola de formação? Os comunistas tinham por ponto de apoio a classe operária e as classes aliadas (o campesinato e frações dominadas das classes médias, principalmente). O “bloco social” visado pelo jornal operário e a escola de quadros era esse. Mas e no caso da França Insubmissa? Uma “visão de mundo” só se torna politicamente eficaz quando é a de uma coalizão de classes que se opõem a outras classes. Resta, pois, imaginar os contornos de um “bloco social” futuro.

Contrariamente ao que alguns intérpretes lhe atribuem, Gramsci jamais pretendeu fazer da batalha cultural o cerne da luta de classes. Citando a evolução do marxismo em sua época, ele afirma que “a fase mais recente de seu desenvolvimento consiste justamente na reivindicação do momento da hegemonia como dado essencial de sua concepção de Estado e na ‘valorização’ do fato cultural, da atividade cultural, da necessidade de uma frente cultural ao lado das frentes puramente econômicas e políticas”.7 Articular uma “frente cultural” com as frentes econômica e política já existentes: eis sua grande ideia. Isso não supõe, em nenhum caso, uma preeminência da “frente cultural” sobre as outras. Nem que essa frente se torne apanágio de militantes que operam na esfera das ideias. Para Gramsci, o sindicalismo quase sempre se antepõe à “frente cultural”. Nas lutas que ele organiza, permite que evoluam as relações de forças e deixa entrever, assim, a possibilidade de um outro mundo. “Cultura”, para Gramsci, é coisa bem diferente daquilo que em geral designamos com esse termo. A noção de “hegemonia cultural” não designa a peroração sem fim de intelectuais ou dirigentes contestadores nas mídias dominantes, mas a capacidade de um partido de forjar e conduzir um bloco social amplificado, para despertar a consciência de classe. Exemplos não faltam, nem em sua época nem hoje.

Em dezembro de 2017, os empregados da firma de limpeza Onet, na área de Paris, obtiveram uma vitória importante.8 Esses terceirizados da Société Nationale des Chemins de Fer (SNCF) [Empresa Nacional das Ferrovias] encarregados da faxina das estações reivindicavam sua entrada para a convenção coletiva da manutenção ferroviária da SNCF, a retirada de uma cláusula de mobilidade que os obrigava a fazer longos deslocamentos, o aumento do auxílio-alimentação e a regularização dos colegas sem carteira assinada. Ao fim de uma greve de 45 dias, tiveram suas principais reivindicações atendidas. Essa luta parecia improvável pelo fato de ser dirigida por imigrantes recentes, no seio de uma empresa subcontratada e num setor em que a interrupção do trabalho não tem grande impacto sobre o andamento da vida social. Paralisar uma refinaria é paralisar o país; mas deixar de limpar uma estação periférica em Seine-Saint-Denis…?

Contudo, à força de perseverança, os grevistas e seus delegados sindicais levaram a melhor. As transformações estruturais do capitalismo, desde os anos 1970, mudaram a classe operária. Ela não desapareceu, é claro, mas se tornou mais diversificada social, étnica e espacialmente. Travar a “batalha das ideias” consiste em politizar essas novas classes populares por meio de lutas semelhantes à empreendida pelos empregados da Onet. Sua vitória mostra que o improvável continua possível. A “frente cultural”, articulada às frentes econômica e política, é exatamente isso. Talvez sem saber, os grevistas da Onet sejam os legítimos herdeiros de Gramsci.

 

*Razmig Keucheyan é professor de Sociologia da Universidade de Bordeaux, França.

 

1 Najat Vallaud-Belkacem, “Éloge de l’imperfection en politique” [Elogio da imperfeição em política], Le Nouveau Magazine Littéraire, Paris, jan. 2018.

2 Ver Serge Halimi, “A falácia dos 99%”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2017.

3 Cf. Yuan Yang, “China’s Communist party raises army of nationalist trolls” [Partido Comunista da China mobiliza um exército de trolls nacionalistas], Financial Times, Londres, 29 dez. 2017.

4 Cf., por exemplo, Yvan Gastaut, “La flambée raciste de 1973 en France” [A escalada racista de 1973 na França], Revue Européenne des Migrations Internationales, Poitiers, v.9, n.2, 1993. Ver igualmente Benoît Bréville, “Integração, a grande obsessão”, Le Monde Diplomatique Brasil, fev. 2018.

5 Ver Razmig Keucheyan e Renaud Lambert, “Ernesto Laclau, inspirador do Podemos”, Le Monde Diplomatique Brasil, set. 2015.

6 Cf. Laure Beaudonnet, “Aude Lancelin, auteure de ‘La Pensée en otage’: ‘Tout le circuit de l’information est pollué’” [Aude Lancelin, autora de O pensamento refém: “O circuito inteiro da informação está poluído”], 20 Minutes, Paris, 10 jan. 2018.

7 Cf. Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position [Guerra de movimento e guerra de posição], textos escolhidos e apresentados por Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012.

8 Cf. Cécile Manchette, “Onet. Victoire éclatante des grévistes du nettoyage des gares franciliennes” [Onet. Vitória estrondosa dos grevistas da limpeza das estações de trem da região de Paris], Révolution Permanente, 15 dez. 2017.



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