O renascimento do falso darwinismo social - Le Monde Diplomatique

VOLTA AO PASSADO

O renascimento do falso darwinismo social

por Luiz Fernando Leal Padulla
18 de maio de 2022
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Não causa estranheza que no Brasil pós-golpe de 2016 e com a ascensão do bolsonarismo retornem discursos eugênicos, amparados pela única – e falsa – visão científica que acreditam: o darwinismo social

Cinquenta anos em cinco. Esse foi o lema do governo de Juscelino Kubitschek, promovendo avanços ao Brasil. Hoje vivemos algo parecido, mas ao contrário. Foi isso o que o atual desgoverno conseguiu, destruindo conquistas significativas no campo econômico, social e ambiental.

Regredimos aos tempos em que perdíamos a noção dos preços das coisas. Talvez os mais novos não saibam o que eram os funcionários de mercados disputando espaço com consumidores nos corredores para remarcar os preços diariamente. Época em que o salário não valia nada. Alimentos, energia, combustível batendo recordes de preços. Poder de compra reduzido. Desvalorização do salário dos trabalhadores e a maior inflação dos últimos 26 anos.1

(Há quem diga que logo estaremos abandonando os carros, plantando nossa própria comida para termos condições de sobreviver, tentando conciliar a exploração do trabalho – quando o desemprego de 14 milhões não nos atinge – com tudo isso. Ou seja, não está fácil viver!)

Políticas públicas, inclusão social e preservação do ambiente foram jogadas no lixo. Ao mesmo tempo que fabricantes de armas, reis do agronegócio e dos garimpos seguem rindo à toa. Sem falar, claro, do favorecimento aos militares e seus capangas, beneficiados com a portaria editada pelo presidente, permitindo furar o teto constitucional, o que beneficia o próprio presidente, o vice-presidente Hamilton Mourão, ministros militares e um grupo com cerca de mil servidores federais2 – enquanto o povo sente no bolso a queda de seu salário.

Soma-se a isso a negação da ciência, mortes evitáveis durante a pandemia e discursos nazifascistas.3 Esse é o retrato do Brasil pós-golpe de 2016 e a ascensão do bolsonarismo. Não causa estranheza que, junto a esse combo, retornem discursos eugênicos, amparados pela única – e falsa – visão científica que acreditam: o darwinismo social.

Deturpando as ideias de Darwin (e Wallace), seu meio-primo Francis Galton aproveitou das ideias da seleção natural para defender a asquerosa eugenia.4 É bom que se diga que no século em que foi propagada com mais afinco era tratada como a salvação da humanidade. Em sua segunda obra mais famosa (A origem do homem e seleção sexual),5 Darwin apresenta levantamentos misóginos e racistas, flertando com ideias que abasteceram os supremacistas.

O presidente da República, Jair Bolsonaro e o ministro da economia, Paulo Guedes (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

No entanto, ao mesmo tempo em que busca uma explicação científica, deixa explícita sua aversão e crítica à escravidão, inclusive mostrando-se surpreso com a escravidão no Brasil quando aqui esteve:

“Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de 6 ou 7 anos de idade foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva… E essas são coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que Sua vontade seja feita na terra! O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte ao pensarmos que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, fomos e somos culpados desse enorme crime”.6

Comprometido com a Ciência, Darwin analisa a evolução em um contexto mais amplo, chegando até mesmo a dizer que “selvagens” teriam algumas vantagens em relação aos “europeus civilizados”, ainda que estes fossem apontados como seres mais aptos à sobrevivência. A própria medicina, e assistência aos doentes, viciados e debilitados, na visão fria de suas análises, seria o motivo de salvação dos “membros fracos da sociedade”, o que “pode ser altamente prejudicial à raça do homem”, ainda que seja intrínseco ao ser humano essa necessidade de ajudar os mais necessitados.

Importante citar, no entanto, sem qualquer outro tipo de avaliação, que Darwin fazia suas análises justamente sob uma ótica calculista sobre o processo evolutivo. Como diz Secord, citado no brilhante artigo de Carlos & Prestes,7 “sua interpretação depende da compreensão das posições políticas e das bases ideológicas dos diferentes grupos de pesquisadores de dada época e não de um contexto comum partilhado pela ‘intelligentsia’ do campo”.

O que os defensores do “darwinismo social” omitem e até negam é que Darwin, ao mesmo tempo em que aponta suas visões evolutivas e críticas, também reforça que é da natureza humana a compaixão, o respeito e cuidado ao próximo, valorizando não apenas o seu interesse próprio de sobrevivência, mas do coletivo/social:

“Para nós, porém, os elementos que mais interessam são o amor e aquele sentimento paralelo denominado solidariedade. Os animais dotados de instintos sociais sentem prazer na companhia de seus pares, protegem-se mutuamente dos perigos, defendem-se e se ajudam de diversas maneiras. […] Graças a essa sua capacidade mental, o homem não pode evitar olhar para trás e comparar suas impressões dos atos e eventos passados. Ao mesmo tempo, ele sempre olha para frente. Daí, depois de algum desejo ou paixão temporária dominar seus instintos sociais, ele irá refletir e comparar as impressões agora esmaecidas que esse mesmo impulso outrora provocou, com a que agora afeta seu instinto social, sentindo então a insatisfação que, quando reprimimos, os instintos deixam atrás de si. Isso feito, ele decide agir doravante de maneira diferente – eis em que consiste a consciência”.5

É Darwin que, classificando-nos como animais dentro de um processo evolutivo, também diz que a “solidariedade, embora adquirida como instinto, é reforçada pelo exercício ou pelo hábito”.

Não se pode negar igualmente, que a defesa da seleção natural, sob essa visão, favorecia humanos mais aptos financeiramente, abastecendo ainda mais as ideias de Galton e, traduzidas para nossa realidade como a falaciosa meritocracia. Surge, assim, o termo eugenia, fazendo a defesa de “raças ou linhagens de sangue mais adequadas, melhor chance de prevalecer rapidamente sobre as menos adequadas”.9

Hoje, tal ideia abjeta e falsa, nada mais é do que uma tentativa de normalização do preconceito e do racismo. Menosprezam a vida, promovem extermínio das minorias (que são maioria!), seja pela bala perdida que sempre encontra o pobre, o preto, o miserável, seja pela fome proposital causada pelas ingerências políticas que atendem interesses do capital. Sem esquecer, obviamente, do etnocídio contra indígenas e povos tradicionais. Tudo isso com a conivência do Estado aparelhado.

Higienização social, internações compulsórias, limpeza étnica, nutricídio. Políticas adotadas por um Estado eugênico que, de forma camuflada, trabalha para o melhoramento da raça e preservação da degeneração biológica, como diria Galton. Mais fácil atacar as consequências do que investir no combate ao que causa tudo isso.

(Em tempo: só queria entender como esses canalhas acreditam que são superiores e que sobreviverão se ao mesmo tempo contaminam o ambiente com apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária, destruindo diariamente os biomas, incendiando matas, intoxicando a água, os alimentos, causando o caos no mesmo ambiente em que estão inseridos!)

Ainda que camuflem seu racismo, preconceito e desumanidade, sua ignorância é real, sem qualquer pudor ou vergonha na cara. E se, em pleno século XXI ainda lutamos contra essa barbárie, é porque não atingimos tamanho grau de civilidade. Afinal, viver em sociedade é o que garante a sobrevivência das espécies de forma mais adequada. Empatia, justiça, amor ao próximo. Ainda que estejamos longe de tamanhas conquistas práticas, se estamos aqui, é porque estamos aptos à luta. E lutaremos!

E, tal como a evolução (evoluir: mudar), ainda temos muito o que fazer e alterar em nossa sociedade. O próprio uso do termo “raça” para distinguir humanos e que era utilizado para tirar conclusões sobre organização hierárquica e geográfica dos seres humanos, é algo descabido nos dias atuais, sendo usado como subterfúgio pelo discurso pró-racista.9 Enterrar de vez todas as formas de preconceitos é uma dessas etapas. Destruir o racismo estrutural, açoitar o nazifascismo é urgente. Acabar com o negacionismo científico é necessário.

Só assim romperemos de vez com essa equivocada ideia do determinismo científico que, sob alegações falsas desses asseclas, tenta justificar o injustificável, ignorando a verdadeira causa de todo o problema: o capitalismo e sua desigualdade, estes sim responsáveis pelo abismo social entre as pessoas, favorecendo aqueles que exploram trabalhadores com a mais valia e a acumulação de bens e riquezas. Para esses, a vida em sociedade é uma afronta ao processo evolutivo.

 

Luiz Fernando Leal Padulla é professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências e especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do blog e do canal no Youtube “Biólogo Socialista” e do podcast “PadullaCast”. Recentemente publicou pela editora Dialética, o livro Um irritante necessário. Instagram: @BiologoSocialista.

 

Referências bibliográficas

1 Bolsonaro será o 1º presidente desde o Real a deixar salário mínimo menor. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2022/05/5006532-bolsonaro-sera-o-1-presidente-desde-o-real-a-deixar-salario-minimo-menor.html.

2 Portaria faz generais do governo ganharem até R$ 350 mil a mais ao ano. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/portaria-faz-generais-do-governo-ganharem-ate-r-350-mil-a-mais-ao-ano.

3 Relembre outras vezes que Bolsonaro fez falas racistas. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/relembre-outras-vezes-que-bolsonaro-fez-falas-racistas.

4 GALTON, F. Hereditary Genius [1869]. Londres: MacMillan, 1892. Disponível em: https://galton.org/books/hereditary-genius/pdf/genius-1.pdf.

5 DARWIN, C. A origem do homem e a seleção sexual. Belo Horizonte-MG: Garnier. 524p. 2019.

6 DARWIN, C. A viagem do Beagle. 2009. São Paulo: EDUSP. 194p.

7 CARLOS, A.R; PRESTES, M.E. 2021. Contextualizando The descent of man, de Charles Darwin: debates calorosos persistem após 150 anos de sua publicação. Filosofia e História da Biologia, 16 (2): 131-171. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/fhb/article/view/fhb-v16-n2-01/fhb-v16-n2-01.

8 GALTON, F. Inquiries into human faculty and its development. Londres: J. M. Dent & Company, 1883. Disponível em: https://galton.org/books/human-faculty/text/galton-1883-human-faculty-v4.pdf.

9 YUDEL, M; ROBERTS, D.; DESALLE, R; TISHKOFF, S. 2016. Taking race out of human genetics. Science, 351(6273): 564-565. Disponível em: https://www.science.org/doi/full/10.1126/science.aac4951.



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