O revide das pequenas editoras - Le Monde Diplomatique

MERCADO EDITORIAL

O revide das pequenas editoras

por André Schiffrin
6 de outubro de 2007
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Devido à enorme concentração do capital internacional, apenas cinco companhias controlam 80% dos livros destinados ao grande público. Mas, na contramão dessa tendência uniformizante, multiplicam-se as produções alternativas, com obras de real valor

Antes mesmo do ataque contra o Afeganistão, a secretária de Estado Condolezza Rice convocou os responsáveis pelas redes de televisão norte-americanas para comunicar que o governo não queria ver civis feridos na programação. Consciente da imensa influência que esse tipo de informação tivera na construção de um movimento de oposição à guerra do Vietnã, o governo George W. Bush quis estabelecer um sistema de autocensura. Isso funcionou perfeitamente nos dois primeiros anos da guerra, tanto que a imprensa aceitou as mentiras do governo.

Essa colaboração envolveu não somente os meios de comunicação, mas também o mundo editorial. Nenhuma das editoras pertencentes aos grandes grupos – os cinco mais importantes controlam 80% dos livros destinados ao grande público – lançou uma única obra crítica sobre a guerra e a política exterior de Bush. Se vários livros foram publicados, isso ocorreu sempre entre as pequenas editoras independentes – sendo a escolha editorial dos grandes grupos determinada mais por razões políticas do que comerciais. De fato, existia um imenso público anti-Bush. Assim, quando a modesta editora Seven Stories lançou o pequeno livro de Noam Chomsky, após o 11 de setembro, foram vendidos 300 mil exemplares, um recorde, em apenas algumas semanas.1

Quando a situação política começou a se deteriorar, os principais jornais e as grandes editoras finalmente decidiram publicar as inúmeras obras críticas que se tornaram best-sellers.

A importância de editoras e revistas independentes é clara. O modo como são criadas e se mantêm em atividade é menos evidente. Seu número aumentou de maneira impressionante nos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na França, um encontro recente reuniu dezenas de pequenas editoras alternativas, a maioria publicando literatura e poesia, mas também algumas editoras políticas.2 Estas últimas desempenham um papel cada vez mais importante, pela escolha de autores e temas que as grandes consideram muito arriscados.3 Elas foram assim as primeiras a publicar autores como Chomsky, o historiador norte-americano Howard Zinn (Agone) ou os teóricos da cultura Judith Butler e Stuart Hall (Amsterdam).

Eis agora um fato que diz muito sobre a indústria editorial francesa: ultimamente, várias obras indispensáveis tiveram de ser publicadas na Bélgica. Os leitores do Le Monde Diplomatique conhecem muito bem a saga de Eric Hobsbawn e sua história do século XX, A era dos extremos, cujo original publiquei nos Estados Unidos em 1990 e que havia sido traduzido em dezenas de línguas, menos em francês. As grandes editoras estavam convencidas de que não haveria lugar nas livrarias da França para o trabalho de um antigo comunista; na Gallimard, até mesmo Pierre Nora reconheceu isso. Foi somente após a intervenção do Diplo que uma editora belga, a Complexe, se interessou pelo livro e o transformou num best-seller.4 Uma história que se assemelha à da nossa recente reunião dos discursos de Chomsky, Understanding Power. Apesar da venda de quase 100 mil exemplares nos Estados Unidos, não estávamos conseguindo encontrar editora francesa, até que uma pequena independente belga, a Aden, finalmente se propôs a publicá-lo.5

Novas revistas de qualidade

Um sinal particularmente encorajador: neste final de ano, duas editoras francesas passam a publicar revistas. A Amsterdam publicará La Revue Internationale des Livres et des Idées, tentando assim uma versão francesa da London Review of Books. Por sua vez, a Les Arènes prepara uma revista em formato de livro que apresentará reportagens originais de vários jornalistas cujos órgãos não oferecem mais espaço para longos artigos de análise. Essas novas publicações encontrarão as mesmas dificuldades de distribuição e financiamento que todas as pequenas editoras, mas seu surgimento marca o início de uma etapa promissora.

A grande vantagem dessas pequenas editoras é que elas não precisam de um grande capital. Talvez os grupos poderosos tenham acesso a somas milionárias, mas um ótimo catálogo pode ser viabilizado com apenas alguns milhares de euros. Bastam mil ou 2 mil euros para imprimir uma pequena tiragem, que com um pouco de sorte será rentabilizada em um período relativamente curto. Durante séculos, a edição de livros foi principalmente artesanal, e ainda pode funcionar dessa maneira.

A maioria das pequenas editoras sobrevive remunerando mal sua equipe — todos os empregados da Agone recebem o Smic (salário-mínimo) — ou deixando de pagar o editor ou chefe de redação — é o caso da editora dos meus primeiros livros traduzidos na França, La Fabrique. Essa situação evidentemente não é a ideal e não poder durar para sempre. Mas isso significa também que o auxílio de que uma editora independente necessita pode ser relativamente modesto.

Vários modelos foram experimentados pelo mundo afora. O mais conhecido talvez seja o da Raisons d’Agir, criada por Pierre Bourdieu quando suas pesquisas sobre o mundo editorial revelaram que as grandes editoras impunham sérios limites à própria produção política e intelectual. No começo, Bourdieu instalou a pequena editora em seu escritório no Collège de France, a equipe inteira sendo constituída de apenas um assistente e ele mesmo. Apesar disso, muitos livros que publicou venderam bem, alguns até centenas de milhares de exemplares. A utilização do espaço universitário – e de um salário de professor – foi igualmente aplicada em outros lugares com excelentes resultados.

Quando criamos a The New Press, nos ofereceram escritórios em um dos prédios mais decrépitos da New York University, o que possibilitava a economia de centenas de milhares de dólares de um aluguel que não poderíamos pagar. Não há qualquer razão para que outras universidades não possam compartilhar seu espaço da mesma maneira. Até mesmo em algumas cidades pequenas houve a doação de prédios escolares desafetados para editoras, mostrando assim que as municipalidades progressistas podem fazer sua parte mesmo quando o governo nacional não está disposto.

Em Estocolmo, Ordfront propõe um outro modelo interessante. Esse grupo organizou uma cooperativa de leitores de aproximadamente 30 mil membros, que pagam uma modesta cota anual de vinte euros. Isso lhes dá direito à assinatura de uma das melhores revistas suecas, possibilitando à editora Ordfront a publicação de dezenas de títulos a cada ano. Basta que 10% dos membros comprem um livro para que os custos sejam amortizados. Essa experiência se revelou bem mais convincente que as cooperativas de a
utores experimentadas na Suécia e na Alemanha, que acabaram em meio a rivalidades e ciúmes.

Um último modelo possível é o que seguimos quando deixei a Pantheon Books, editora que dirigi por aproximadamente trinta anos, em Nova York. Diante das crescentes exigências de rentabilidade por parte do novo grupo proprietário, decidi que uma editora sem fins lucrativos seria a única maneira de continuar sem comprometer a qualidade intelectual.6 Na realidade, criamos o equivalente a uma editora universitária sem universidade, o que nos permitiu visar um público mais amplo. Este ano, a The New Press comemora seu décimo quinto aniversário, com cerca de oitenta títulos publicados por ano. Muitos foram os que, no meio editorial nova-iorquino, previram um fracasso… Mas contamos com o excepcional apoio da maioria dos autores da casa e com uma ajuda substancial de um grande número de fundações norte-americanas mais esclarecidas. Estas há muito tempo compreenderam que, nos Estados Unidos, a atividade cultural, a música, a dança, o teatro e até mesmo a televisão inteligente não poderiam sobreviver num contexto capitalista, e quiseram estender essa lógica ao mundo editorial.

O que é possível nos Estados Unidos nem sempre é possível em outro lugar. No entanto, esse gênero de financiamento já auxilia alguns dos melhores jornais europeus. Na Inglaterra, o The Guardian e sua edição dominical, The Observer, pertenceram por muito tempo a uma fundação (The Scott Trust), bem como o alemão Frankfurter Algemeine Zeitung e a maior parte dos jornais dinamarqueses.

O fato de que jornais e editoras de livros pertençam a fundações independentes, sem fins lucrativos, ou a cooperativas, pode se revelar o meio mais promissor de preservar a autonomia política e cultural. Essa solução poderia ter evitado que importantes editoras como Le Seuil e Einaudi fossem vendidas a conglomerados cujo principal objetivo é o aumento da rentabilidade (durante séculos, o meio editorial ocidental conheceu uma taxa de lucro anual de 3% a 4%; os grandes conglomerados desejam pelo menos 10%, ou até mesmo 15%, o que altera completamente a natureza do que pode ser publicado).7

Resgate da ação estatal

O filósofo alemão Jürgen Habermas escreveu recentemente um texto em que propôs estender essa solução ao mundo da imprensa.8 Observando que o mais importante jornal alemão de centro-esquerda, o Süddeutsche Zeitung, poderia ser vendido a um conglomerado, ele defende a idéia do resgate por uma fundação estatal. Essa perspectiva aparentemente não foi aceita na Alemanha, país que guarda tristes recordações do controle de Estado. Mas os exemplos bem-sucedidos da tevê ARTE (com a Alemanha) e da rádio France Culture ilustram bem a possibilidade de se pôr em prática um apoio governamental para os meios de comunicação. Da mesma forma, na França, a indústria cinematográfica e vários cinemas se beneficiaram durante anos de subvenções consideráveis, sem, por isso, terem sofrido qualquer censura.

Nos países ocidentais, o rádio e a televisão foram em um primeiro momento considerados como tendo um importante papel intelectual e cultural a desempenhar. Nos Estados Unidos, até mesmo um presidente conservador como Herbert Hoover decidiu que todas as estações de rádio deveriam ser instaladas em universidades, para evitar o controle comercial. A receita da BBC advém de uma taxa sobre todos os aparelhos de rádio (e agora de televisão) que vai diretamente para seus cofres – um curto-circuito na ingerência governamental. Essa quantia representa atualmente cerca de duzentos euros por domicílio. Por que tais métodos não poderiam ser aplicados para sustentar jornais e editoras independentes? Uma taxa sobre as receitas publicitárias ou outras poderia ser estabelecida para garantir a estabilidade econômica dos meios de comunicação que tentam existir sem publicidade

Habermas defende com eloqüência que a vitalidade do debate democrático depende da capacidade de intervenção do governo para garantir que uma pluralidade de opiniões seja acessível a um público amplo. Mesmo nos Estados Unidos, tais questões podem mobilizar a opinião pública. No âmbito de uma campanha conduzida por organizações não-governamentais tanto de esquerda como de direita, mais de 3 milhões de cartas foram enviadas ao Congresso para protestar contra os planos de Bush, que queria dar mais poder aos grandes conglomerados.

As diversas pequenas editoras de livros e revistas aqui citadas lutam de forma corajosa contra situações econômicas difíceis, que poderiam muito bem, a longo prazo, obrigar um certo número delas a abandonar a luta. Por que essas empresas com recursos tão limitados não poderiam ser mantidas por uma ação legislativa?

O Estado francês ajuda as novas empresas responsabilizando-se pela metade dos empréstimos necessários para que elas iniciem as atividades. No momento, esse apoio não se aplica nem às cooperativas, nem às fundações. Mas nenhuma editora se recusaria a ser adquirida por um proprietário desse gênero, sem fins lucrativos, que lhe permitiria prosperar tranqüilamente. Tal possibilidade teria proporcionado aos diretores da Seuil uma outra escolha; o mesmo vale para os acionistas do jornal alemão Süddeutsche9 (nos dois casos, trata-se de empresas familiares, o que é muito comum no mundo editorial).

O controle cada vez maior dos meios de comunicação pelos conglomerados tem conseqüências políticas e intelectuais perigosas. Ainda é tempo de monitorar e reverter essa ameaça global.

 

*André Schiffrin é diretor da editora sem fins lucrativos The New Press (Nova York). Autor, entre outros, de Allers/Retours (Paris, Liana Levi, 2007).



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