O rock n’roll na conquista espacial - Le Monde Diplomatique

Música

O rock n’roll na conquista espacial

por Evelyne Pieiller
5 de julho de 2009
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O imaginário nascido dos rastros de foguetes e cosmonautas não fez nada além de acentuar certos temas presentes na atmosfera juvenil, levando ao questionamento dos limites espaço-temporais. Mas a música e a cena que nasceriam daí são notadamente singulares e, por vezes, perturbadoras

Um jornalista exibindo seu topete e uma capa impermeável de plástico ridícula se aproxima de Jimi Hendrix. “Sou do The New York Times”, diz ao músico. Hendrix retribui com um sorriso cansado e responde: “Prazer. E eu sou de Marte”1. A brincadeira carrega alguma verdade. Durante os primeiros 15 anos das grandes expedições espaciais, o rock sonhou com “contatos” e mergulhos intersiderais, vibrou entre o misticismo e a zombaria e entrou numa fantasia galáctica. Nada surpreendente: essa é a relação dupla e dual que os ocidentais estabelecem com os mistérios dos céus. Porém, o rock exagera. Eletrifica e amplia, dramatiza e ironiza.

Para expressar tudo numa frase, a música nasceu tradicionalmente ligada à representação do cosmos. O Espaço sempre “cantou”, mesmo se apenas alguns escolhidos eram capazes de perceber o eco sonoro: já no sexto século antes da nossa era, Pitágoras afirmava que os astros em rotação ao redor da Terra imóvel formavam uma escala musical completa, em harmonia perfeita. Ele inventou a “música das esferas”, que durante muito tempo obcecou os sonhadores. Em seguida, foi a imaterial e inefável voz dos anjos que se estendeu sobre essas mesmas regiões. As esferas harmônicas do divino encobriram com suavidade nosso imaginário e a música permaneceria como uma voz suntuosa em direção ao infinito.

Nos anos de 1960 e 1970, porém, o céu muda: são os zunidos dos Sputniks. Os humanos estão prontos para saltitar nas estrelas. Os roqueiros meditam. O que vamos buscar, o que vamos encontrar no Espaço? O extraterrestre, aquele que em inglês dizemos “alien”, o estrangeiro, tão próximo da alienação, será tão diferente de nós? Será que também conhece a melancolia? Em 1969, quando o homem chega à Lua e Stanley Kubrick lança 2001, uma odisséia no Espaço, David Bowie inventa o “Major Tom”, um cosmonauta que prefere não voltar à Terra antes de encarnar, reluzente e frágil, Ziggy Stardust, um Ziggy Pó de Estrelas, com roupas prateadas e botas vermelhas de plataforma, um círculo dourado no meio da fronte, acompanhado por suas Aranhas de Marte.2 Ziggy é um alienígena ao cubo: extraterrestre, rock star e andrógino.

Nesse período, os anjos tornaram-se sensuais e infelizes. E como a existência é sempre um exílio de onde viemos, resta o consolo de cantar. O mar de estrelas não leva a um mundo radicalmente novo, mas convida a dissolver algumas fronteiras: aquelas que separam a normalidade da anormalidade, o masculino do feminino… Ziggy faz um sucesso estrondoso. Trinta anos mais tarde, ele ainda é o herói-arauto da “diferença”, ferido e triunfante.

A epopeia espacial permite questionar, intrepidamente, o próprio lugar do homem no universo. Os hippies buscavam uma religiosidade volúvel, baseada em clichês que irradiavam ingenuidade, incenso e odes ao amor universal e ao Sol. Tentavam “sintonizar-se” com as vibrações cósmicas, notadamente pelo uso de substâncias alucinógenas. Desde 1967, o musical Hair canta a Era de Aquário, mas se a ideia é ascender a um nível superior de percepção, a uma espiritualidade mais ampla, então gurus e sons indianos se somam à empreitada – fluida, mas obstinada – de uma emancipação coletiva por meio da cultura alternativa.

Para que o encontro entre micro e macrocosmos ganhasse forma, seria preciso esperar até o aparecimento da “música ambiente” nos anos 1970 – da qual seria derivada o rock progressivo, o new age e mais tarde o chill out, entre outras. Grosso modo, surgiu concomitante a certo refluxo de esperança política. Novos instrumentos, como teclados elétricos e pedais, produziriam os efeitos sonoros distorcidos e harmônicos das “viagens” de iniciação. Nessa nova geração, o eletrônico frequentemente se mistura ao exotismo e convida ao transe, ao êxtase, ao “sair de si”. Os britânicos Pink Floyd e Soft Machine já experimentavam visões e delírios estelares e o novo imaginário oferecido pelas aventuras galácticas suscitava uma música ainda mais livre e aventurosa. Porém, são principalmente grupos alemães, como Tangerine Dream e Can, que consolidam a identidade do “rock espacial”.

Vertigem e maus espíritos

O homem, sobretudo em sua versão lamentavelmente ocidental, deve escutar o chamado do cosmos e se esforçar para se desprender de tudo aquilo que o encerra em seu ego. A música o auxilia a realizar essa viagem que conduz à abertura do “eu”, à vertigem da comunhão astral. Essa corrente complexa e difusa, à qual se pode relacionar a música repetitiva e certas composições de jazz rock, conhecerá um sucesso quase planetário, pelo menos em suas manifestações menos radicais: Jean-Michel Jarre e seu “oxigênio” invadem os supermercados. O cinema também se mostrará um apreciador desses sons “eletro-celestes”, com camadas de sintetizador e ondas sonoras3 que serão em seguida degeneradas pela música new age, o rock valium.

A odisseia espacial, no entanto, também suscita fortes demonstrações de “maus espíritos”. No rock pesado, imagens e nomes artísticos estão nas origens de um “cosmo-kitsch” excessivamente paródico: do grupo sueco Hypocrisy ao álbum Ziltoid the Omniscient de Devin Townsend, passando por UFO e Kiss, entre tantos outros, o alienígena se transforma em adolescente ou mestre de procedimentos esotéricos. Em outra vertente, o resistente Rocky Horror Picture Show eleva a comédia musical a uma nova versão de Frankenstein e transforma o reencontro do rock com os mistérios do espaço em celebração debochada das forças do desejo. O extraterrestre aqui é um charmoso transexual que antes de voltar ao seu planeta de origem se propõe a guiar um jovem casal de americanos pelos caminhos da libertação – sexual e outras – por meio de sua criação: um belo jovem feito em laboratório. Esse personagem, chamado Frank’n’Furter, bagunça os modelos e dissemina uma feliz desordem. Todos os clichês são transfigurados e as complicações da vida ficam no espaço sideral. Resta apenas o rock’n’roll.4

A partir desses exemplos, o imaginário rock nascido dos rastros de foguetes e cosmonautas não fez nada além de acentuar certos temas presentes na atmosfera juvenil, levando ao questionamento dos limites espaço-temporais. Mas a música e a cena que nasceriam desse imaginário são notadamente singulares e, por vezes, perturbadoras. Pois é a convicção de que o homem ainda não terminou de cumprir sua humanidade que se manifesta. O E.T. e as estrelas estão em nós: é a música que nos faz escutar seus chamados para uma revolução íntima. Ziggy plays guitar…

 

*Evelyne Pieiller é jornalista.



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