O sequestro do último adeus - Le Monde Diplomatique Brasil

Luto

O sequestro do último adeus

por Jason de Lima e Silva
24 de abril de 2020
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Velado o corpo, basta enterrá-lo. Isso, claro, se tudo vai bem. Quando a normalidade vinga, a exceção da morte é rapidamente resolvida. Em uma sociedade moderna e capitalista como a nossa, os seguros cobrem tudo: a preparação do corpo e a cerimônia de adeus são terceirizadas.

“Se, sob o sol, nada mais velho e vil que a morte, quem viu, na vida, novidade em estar vivo?”

Belchior, Até mais ver, 1993

A morte é uma ruptura para quem fica. Para quem vai, pouco se sabe. O mistério grava o coração das diferentes culturas: aparece na poesia, no canto sertanejo, longe da retórica enfadonha dos pastores. A ruptura da morte significa, por um lado, a impossibilidade de se reencontrar a pessoa, ao menos em carne e osso, aqui na Terra. Por outro lado, significa a fatalidade de o morto já não ser outro além de tudo o que pôde ter sido. Mesmo que saibamos possuir um limite finito de vida, imposto pela natureza, nem sempre é bem-vinda a ideia de que a nossa hora chega e, algumas vezes, traumática a consciência de que se foi para sempre alguém que amamos. Pode, sem dúvida, conceder a morte o devido descanso a uma pessoa, como se costuma dizer, “não morreu, descansou”, como forma frequentemente de aliviar mais a nossa alma do que a dos mortos.

Os sofrimentos que nos inflige a vida suscitam, em certos momentos, a impressão de que a morte seja uma libertação, um repouso, um alento ao que deixa de fazer sentido, sobretudo quando a dor se torna a regra, e não a exceção, durante a existência. Requiescat in pace: repouse em paz, diz o epitáfio latino. Isso contudo não retira a tristeza de quem fica, a sensação de que lhe foi roubada do horizonte da existência uma companhia, ainda que para o vivo possa também representar um alento, quando é o caso, por exemplo, de se ver livre das responsabilidades e dos sacrifícios em relação àquele que regularmente sofria. Mas ao contrário de resignação e alívio, pode a morte exigir a ação de quem permanece neste mundo, pela revolta contra uma injustiça, a exemplo de Hamlet, ao ouvir do fantasma de seu pai que sua morte foi planejada, um complô homicida, para lhe tomar o trono. As composições do rapper Sabotage traduzem, em várias passagens, a revolta e a perplexidade do que significou a partida dos amigos e irmãos do Canão, sua comunidade: “até o Loquinho não se despediu de mim, deixou sozinho, parte do Canão Deus levou.” (País da fome). Sabotage também não se despede dos amigos, é assassinado. Ao crente ou ao cético, o absurdo é posto a nu quando ceifada toda a promessa de vida na flor da idade: “notícia ruim, tive que ser forte, trouxe-me saudade a imortalidade” (País da fome, 2016). Para isso serve fundamentalmente o luto: uma demora para o espanto que permanece, e se modifica. O luto é o tempo necessário de reconciliação com o mundo, porque é justamente o mundo, como diz Freud, que no luto “se tornou pobre e vazio” (Luto e melancolia, 1917). Os rituais fúnebres são, na maior parte das vezes, apenas um breve caminho de uma longa despedida. Qual o sentido do luto, aliás, senão justamente o de sopesar as diferentes impressões afetivas e metafísicas para quem fica sobre quem foi, a propósito de tudo o que há e o que deixa de ser? 

Duas histórias de nossa cultura são emblemáticas a respeito do direito e do dever dos ritos fúnebres. Elas nos chegam dos gregos. A história de Antígona de Tebas, filha de Édipo, e a história de Príamo, rei de Tróia, mais precisamente a cena de seu encontro com Aquiles, seu inimigo. Antígona é um drama trágico escrito por Sófocles, representado em 442 a.C.. Príamo, pai de Heitor, aparece na Ilíada de Homero, o poema épico do século VIII a.C. Comecemos por Antígona: a lei de Creonte, rei de Tebas, não é persuasiva o bastante para impedir o ímpeto de Antígona de prestar as honras fúnebres a seu irmão, Polinices. Nem sua irmã, Ismene, consegue demovê-la, assim como Hémon, filho do rei, não consegue convencer o pai de suspender o edito e a condenação. A esse drama antecede a história de Polinices e Etéocles, irmãos de Antígona. Polinices se junta a cidade de Argos e entra em guerra contra Tebas, após ser traído pelo irmão Etéocles, que não lhe cede o trono, segundo um acordo de alternância no governo da cidade. Ambos morrem no combate, um pela mão do outro. Para Creonte, novo rei de Tebas, Polinices é um inimigo da pátria, por isso a proibição de sepultá-lo, sob pena de morte: “não receba sepulcro nem lágrimas”, determina o rei. Para Antígona, antes de qualquer coisa, Polinices é seu irmão, a lei de Creonte é apenas um decreto, e as leis às quais a jovem deve obediência, em contrapartida, não são propriamente leis escritas, fadadas à contingência do tempo e às urgências da cidade: “não são (leis) de hoje, nem de ontem”, diz Antígona, “mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram”: são uma imposição sobretudo das divindades subterrâneas, leis portanto, divinas. Se um irmão atacava Tebas e o outro a defendia, como diz Creonte, a lei dos mortos, responde Antígona, é igual para todas e para todos. Além do que, Antígona se diz não gerada para odiar, mas para amar. A heroína é flagrada pelos guardas do rei em prantos diante de Polinices: verte três vezes vinho sobre seu corpo, como forma de libação, e lança sobre ele um punhado de pó ressequido da terra. Cumpre, portanto, os ritos elementares de despedida e é por essa razão presa e condenada pelo rei. Valer ler a tragédia.

A segunda história, o encontro do rei Príamo com Aquiles, é contada no 24° canto da Ilíada. Aquiles já havia vencido Heitor, filho do rei troiano. Já havia ultrajado seu corpo, ao arrastá-lo inúmeras vezes amarrado em seu carro, para que Heitor não pudesse ser reconhecido e glorificado como herói em Tróia. Aquiles faz essa barbaridade toda para vingar Pátroclo, seu íntimo amigo, que havia morrido pelas mãos de Heitor. O fantasma de Pátroclo, aliás, aparece a Aquiles para lhe pedir um funeral menos apressado, sem o qual não conseguiria se juntar às almas dos mortos. Que o fogo, portanto, consuma de vez meu cadáver sobre a pira e que meus ossos sejam guardados em urna, e que junto a essa urna estejam os teus ossos, Aquiles, quando morreres: para que sejamos juntos sepultados. Eis o desejo de Pátroclo. No 24° canto da Ilíada, Aquiles recebe Príamo à noite em sua tenda, no acampamento próximo ao palácio. O rei se prostra diante do inimigo, abraça seus joelhos, em sinal de súplica, “beija as mãos assassinas que tantos filhos lhe mataram”, no verso de Homero. Príamo invoca a lembrança do pai de Aquiles, que em terras distantes sente falta do filho, sofre por ele. Ambos choram. Príamo por seu filho. Aquiles por seu pai, mas também por Pátroclo. Por fim, Aquiles restitui o cadáver de Heitor ao rei troiano, dentro de um esquife, para ser recebido pelos seus conterrâneos nas honras fúnebres. São episódios emblemáticos de nossa cultura, porque lembram o valor de um corpo cuja presença já nos deixou. Era comum entre os gregos, vale acrescentar, colocar uma moeda entre os dentes do falecido, um óbolo, antes de ser cremado ou enterrado. A moeda servia de pagamento a Caronte, o barqueiro que conduzia as almas por um rio divisor de águas, entre os vivos e os mortos, até a margem oposta, templo de Hades. Luciano de Samósata, no século II de nossa era, já julga supérfluas, e um tanto ridículas, as cerimônias fúnebres: lavar e untar o corpo com os melhores perfumes, depois os gemidos, as lamentações, os murros no peito, as libações com vinho puro, a opulência dos túmulos, tudo isso é excessivo por uma razão evidente: a maioria considera a morte “o maior dos males” (Luciano de Samósata, Os funerais, c.185 d.C.). Embora possa haver caprichos, e mesmo exageros, o ritual é apenas uma preparação para o luto que continua e se transforma no coração de quem fica.

Velado o corpo, basta enterrá-lo. Isso, claro, se tudo vai bem. Quando a normalidade vinga, a exceção da morte é rapidamente resolvida. Em uma sociedade moderna e capitalista como a nossa, os seguros cobrem tudo: a preparação do corpo e a cerimônia de adeus são terceirizadas. Quem pode pagar, mantém a visão das coisas fúnebres à distância. Assim como os velhos são mantidos à distância, porque fatalmente invocam aquilo com o que, em geral, a nossa sociedade não quer se comprometer. Um livro vale a pena ser lembrado, publicado em 1982. A solidão dos moribundos, de Norbert Elias, título pelo qual o problema já se explicita: os vivos, cada vez mais, pressentem a morte como coisa “contagiosa e ameaçadora”. Mas quando, ao contrário da normalidade, é a exceção que vinga? Nem o destino dos mortos parece garantido. 

Das duas, uma: ou o velório, ou o sepultamento, não são mais possíveis. A despedida é interrompida, não se pode ver nem velar a imagem da pessoa, de um irmão, de uma mãe. Ou ainda, não se tem como, nem onde, enterrar seu corpo, ou alguém para fazê-lo. Isso aconteceu na Itália, em razão do coronavírus: proibição e multa por participação em velórios, cadáveres em casas e apartamentos, a angústia de seus parentes para encaminhá-los à cremação ou ao cemitério. Isso aconteceu na maior cidade do Equador, Guayaquil, com o colapso de seus hospitais e necrotérios, a fratura do sistema público e sanitário, a falta de caixões e de coveiros. Nada disso à toa. A política de austeridade implantada pelo presidente Lenín Moreno, submisso ao FMI, não dá suporte à saúde pública, perverte os dados alarmantes, militariza a província de Guayas e a declara, fim de março, Zona de Segurança Nacional, quando efetivamente o governo já perdia a conta dos óbitos em razão do inimigo sem pátria que, por sua vez, é capaz de ampliar a subcidadania dos vivos aos mortos. Se o corpo não permanece em casa por dias a fio, ele encontra seu leito na familiaridade da rua, na calçada em frente, infectado e interditado do sepultamento. Sem direito à cova, o quinhão que não falta sequer ao pobre, em tempos normais: “É de bom tamanho, nem largo nem fundo, É a parte que te cabe deste latifúndio” (João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina, 1955).

Esse é um dos lugares de perplexidade no qual nós nos encontramos durante uma pandemia: a ausência do velório, o sepultamento interditado. Não apenas em uma pandemia, mas no olho do furacão de um governo do lado da morte, o que torna o desafio de viver duplamente perigoso. Paisagem já devastada por nosso necroliberalismo tropical: cada um por si e ninguém por todos. E ainda temos de lutar contra as informações falsas reproduzidas e enviadas pelo exército mercenário de robôs, mentiras creditadas e propagadas por seus fiéis, como uma tecnologia ideológica de edição de imagens e discursos, capaz de usurpar os dados da realidade, mais catastrófica para a civilização do que o vírus para a natureza. Culpa-se o comunismo chinês pela difusão da doença e não se pergunta por que vangloriam um país, como os Estados Unidos, no qual uma massa de gente vende o pouco que tem para pagar o leito de um hospital, por que no nosso país se cortam bolsas de pesquisa da universidade, por que se paga mal as enfermeiras e falta segurança e equipamentos para o trabalho, por que perdura uma emenda constitucional que congela o investimento público da saúde, por que foram dispensados os médicos cubanos: por que são médicos ou por que são cubanos? Guayaquil é aqui, só não queremos ainda ver. O novo ministro da saúde, para piorar a cena, considera não haver muito sentido o investimento em respiradores pulmonares. “O que se vai fazer com isso depois?”.

O Exército já consulta as prefeituras sobre o número de covas e cemitérios, no mesmo momento em que muitas cidades e estados brasileiros reabrem shoppings e igrejas. Manaus recém adotou o sistema de trincheiras para o enterro em valas coletivas. Que faremos? “Vamos às atividades do dia: lavar os copos, contar os corpos e sorrir a essa morna rebeldia”. (Criolo, Lion Man, 2011). Vemos em contrapartida a política na sua pulsação originária, os movimentos sociais no comprometimento solidário e educativo, como os sem-terra e os sem-teto, a auto-organização das comunidades periféricas, como Paraisópolis. Uma das coisas que nos humaniza é a consciência da morte, a morte contra a qual resistimos, individual e coletivamente: por isso a invenção das artes e coletivamente: por isso a invenção das artes e ciências, por um lado, e a da política e justiça, por outro. A percepção da beleza e a busca do conhecimento precisam de uma medida a partir da qual a comunidade humana minimamente se entenda para, primeiro, sobreviver, e que assim encontre e compartilhe, se possível, a alegria de viver entre outros seres. Humanos ou não humanos, vivos ou mortos. Não somos os únicos nem os últimos seres deste planeta. E talvez a nossa vontade e a nossa soberba, o fascínio de nossa produção e de nosso consumo, o ruído de nossas máquinas e o esgotamento das fontes naturais, seja tudo isso o que menos importa para o mundo continuar não apenas a girar, mas a produzir significados, no campo ou na cidade. Coisa que somente a cultura pode fazê-lo, como eco de um passado que expande sentidos estéticos e comunitários: no alimento recolhido da terra, no canto religioso africano, na língua indígena ou no vernáculo latino da prosa de um violeiro. “Deixemos de coisas, cuidemos da vida, Senão chega a morte ou coisa parecida, E nos arrasta moço sem ter visto a vida” (Belchior, Na hora do almoço, 1974).

Jason de Lima e Silva é professor de Filosofia  do Centro de Ciências da Educação/UFSC



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