ELEIÇÕES 2026

Onde estão os votos que decidem a democracia no Brasil

Relatórios ajudam a indicar quem são esses eleitores, quantos são e o que seria necessário para conquistá-los

O Brasil chega ao último domingo de outubro, mais uma vez, em compasso de espera. Em 2022, a democracia sobreviveu nas urnas e, poucos dias depois da posse, resistiu ao ataque às sedes dos Três Poderes. Em 2025, o país viu o que parecia impensável em sua história: o Supremo Tribunal Federal condenou um ex-presidente, Jair Bolsonaro, a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar a trama para impedir a posse de quem o derrotou. Com ele, foram condenados generais do Exército e um ex-comandante da Marinha, algo sem precedente num país em que golpes e tentativas de golpe costumavam terminar sem punição para os militares envolvidos. Agora é o filho, Flávio Bolsonaro, quem disputa o Planalto. Mais do que escolher entre dois programas de governo, o eleitor decide no domingo se as regras que tornaram aquela condenação possível continuarão de pé e, com elas, a própria possibilidade de escolher no futuro.

O resultado está longe de definido. Para ter uma ideia aproximada da distância entre os dois candidatos, reuni os relatórios das oito pesquisas nacionais divulgadas nesta reta final: Datafolha, Quaest, AtlasIntel/Bloomberg, IPESPE/Abrapel, CNT/MDA, Meio/Ideia, PoderData e Nexus. Elas usam métodos, amostras e períodos de coleta diferentes, e por isso não se somam como se fossem uma só medida; juntas, indicam uma direção. Sete delas registram Flávio numericamente à frente, por margens estreitas, entre 0,6 e 2,4 pontos dos votos válidos; a mais recente, do Datafolha, aponta empate de 50% × 50%. Na maioria, a diferença está dentro da margem de erro. Tomada com essa cautela, a média fica em torno de 1,4 ponto, algo próximo de 1,7 milhão de votos, considerando cerca de 120 milhões de votos válidos.

É uma distância que pode ser percorrida, mas não por inércia. Nenhum desses votos chega sozinho: é preciso saber onde estão os eleitores ainda em disputa e ir até eles. Por isso vale olhar além do placar. Os relatórios ajudam a indicar quem são esses eleitores, quantos são e o que seria necessário para conquistá-los.

 

Uma disputa que se fecha

De antemão, é importante destacar que o dado mais relevante das pesquisas não é a fotografia, é o movimento. As seis que têm mais de uma rodada depois do 1º turno mostram, todas, a distância caindo nos votos válidos. Na AtlasIntel, ela foi de 5,6 para 2,2 pontos. Na IPESPE/Abrapel, de 5,4 para 2,4. Na PoderData, de 4 para 2. Na Quaest, de 2,2 para 1,1. Na Nexus, de 3,2 para 0,6.

O Datafolha, divulgado na quinta-feira (22), reforça o quadro: na rodada de 20 a 22 de outubro, Flávio e Lula aparecem empatados, com 50% × 50% dos votos válidos, depois de 51% a 49% na semana anterior.

Há outro sinal na mesma direção. Na Quaest, a rejeição a Lula caiu de 53% para 47% em uma semana, abaixo de 50% pela primeira vez desde o início do 2º turno, e a distância para a rejeição de Flávio (52%) aumentou. Na IPESPE/Abrapel, o potencial de voto de Lula subiu de 49% para 51%.

No Datafolha, a rejeição também se inverteu. Há duas semanas, Lula era o mais rejeitado; agora, 46% dizem que não votariam de jeito nenhum em Flávio, e 45%, em Lula. Somados os que rejeitam os dois, a rejeição de ambos empata em 48%. Isso acontece mesmo com a avaliação do governo ainda mais negativa (39%) do que positiva (36%), sinal de que, nesta eleição, o voto não se resume ao julgamento do governo.

O gráfico abaixo resume a diferença registrada em cada pesquisa, convertida de forma aproximada em votos.

Votos válidos publicados por cada instituto – conversão em votos aproximada (120 milhões de válidos) – campo de 13 a 22/10/2026

O Datafolha aparece sem barra porque, nele, a diferença entre os dois candidatos é zero: Flávio e Lula estão empatados com 50% × 50%. Em quatro das oito pesquisas (Datafolha, Nexus, CNT/MDA e Quaest), a diferença é de 1 ponto ou menos; nas outras quatro, perto de 2 pontos. Em qualquer dos casos, ela é menor do que o contingente de eleitores que ainda pode se mover. Esses eleitores estão distribuídos em quatro grupos, que vale examinar um a um.[1]

 

Primeiro foco: quem ainda hesita

Os indecisos ainda são poucos, de 2% a 3% do eleitorado, mas o grupo voltou a crescer. Na Quaest, dobrou em uma semana, de 1% para 2%. Na Nexus, que acompanha a disputa semanalmente, passou de 1,4% no fim de setembro para 2,3% em 13 de outubro e 2,9% na rodada de 16 a 18 de outubro, o maior patamar de toda a série, iniciada em março. São variações dentro da margem de erro, mas apontam na mesma direção: parte do eleitorado voltou a hesitar na reta final. Na Quaest, esses novos indecisos vieram, em proporções parecidas, de quem votou em Lula e de quem votou em Flávio no 1º turno, o que os torna eleitores abertos à conversa. Somam-se a eles os que dizem que vão votar em branco ou anular, de 3% a 5% na maioria das pesquisas. Num placar tão apertado, esse grupo pequeno pode decidir.

No Datafolha, a tendência se repete: na pergunta espontânea, em que os nomes não são apresentados, os indecisos passaram de 3% para 4% em uma semana.

É também o eleitor mais disposto a rever a decisão: entre 21% (CNT/MDA) e 25% (Nexus) de quem hoje declara branco ou nulo admitem mudar até domingo. Nas pesquisas em que a distância é de cerca de 1 ponto, bastaria que metade de quem pensa em anular decidisse votar e que Lula ficasse com 56% a 59% desses votos e dos indecisos. No Datafolha, que aponta empate, bastaria vencer nesse grupo. Não é pouco, mas está longe de ser impossível.

Para esse eleitor, o argumento não precisa ser de entusiasmo por um candidato. Anular é um direito, e é justamente por isso que convém pensar no que está em jogo. Num 2º turno decidido por margem mínima, o voto nulo não é neutro: transfere a escolha para os outros, inclusive a escolha sobre as instituições que garantem o próprio direito de votar. E a escolha, desta vez, é sobre entregar o país ao filho de um ex-presidente que cumpre pena por tentativa de golpe, um candidato que chega à reta final cercado de suspeitas que envolvem mais de R$ 100 milhões, parte delas já sob investigação. Em 2022, a democracia brasileira mostrou que sobrevive, mas também que não se defende sozinha. Com ela, haverá muitas eleições pela frente para discordar de programas de governo. Para isso, é preciso que continue havendo democracia.

 

Segundo foco: quem pode mudar de ideia

Há também o eleitor que hoje declara voto em Flávio, mas admite rever a escolha. É o caminho mais difícil e, ao mesmo tempo, o de maior peso: quando alguém muda de lado, a distância encolhe nas duas pontas ao mesmo tempo. A conta foi lembrada pelo cientista político Jairo Nicolau em seu boletim Política & Dados. Para desfazer uma diferença próxima de 1,7 milhão de votos, portanto, não seria preciso convencer 1,7 milhão de pessoas, mas a metade disso, cerca de 850 mil. E esse eleitor existe: entre 4,7% (Nexus) e 7% (Quaest) dos que votam em Flávio dizem que ainda podem mudar, algo entre 3 e 4 milhões de pessoas.

As pesquisas ainda não registram essa migração: a troca direta entre os dois candidatos é nula ou se anula em todas elas. Mas indicam onde esse eleitor está. Na IPESPE/Abrapel, 42% dos brasileiros querem mudar apenas “o que não está bom”, e não romper com tudo; nesse grupo, Lula lidera por 54% a 39%. Na Nexus, entre os que rejeitam Lula e Bolsonaro ao mesmo tempo, Lula tem 47,7% contra 36,3%. E mesmo entre quem vê o bolsonarismo apenas como alternativa, e não como convicção, Lula ainda reúne 21%. É um eleitor moderado, que não se move por ataques nem por lealdade partidária. É nesse espaço que se pode decidir a eleição, e é nele que a lembrança do que aconteceu depois de 2022 pode pesar.

O debate da Band, no domingo (18), mostrou o risco de ignorar esse eleitor. O encontro foi criticado como excessivamente agressivo, marcado pela insistência de Flávio em não responder às perguntas e em acossar fisicamente Lula no palco. Como lembrou a Folha ao divulgar o Datafolha, analistas observam que indecisos e eleitores pendulares tendem a se afastar de quem se mostra mais agressivo.

Memorial com imagens e objetos destruídos do STF é montado na entrada do plenário.
Entre os itens expostos, há a Constituição queimada (Foto), pedras portuguesas e bolas de gude usadas na destruição das vidraças, vidros estilhaçados e um vaso histórico português quebrado. ‘Eles não conseguiram destruir o espírito da democracia’’, disse Rosa Weber ao abrir a sessão’.
Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

Terceiro foco: quem votou em outro candidato

Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e os demais derrotados do 1º turno somaram 9,3 milhões de votos. É o maior reservatório, e hoje ele pende para o lado errado: no conjunto, Flávio fica com mais desses eleitores do que Lula. A Quaest registra 43% contra 37%; a Nexus, 50,5% contra 32,4%.

Mas o grupo não é homogêneo. O eleitor de Caiado vai em peso para Flávio em todas as sondagens. O de Augusto Cury, não: Quaest, AtlasIntel e Meio/Ideia o colocam mais perto de Lula, e na AtlasIntel ele dá 52% ao presidente contra 42% ao adversário. O eleitor de Renan Santos se divide quase ao meio na AtlasIntel, embora as demais pesquisas o coloquem mais perto de Flávio. É aí, em um campo que não se identifica com nenhum dos polos, que um argumento sobre estabilidade institucional pode pesar mais do que a disputa entre governo e oposição.

O objetivo realista não é vencer nesse grupo, é reduzir a perda. Cada ponto a menos de vantagem de Flávio entre esses 9,3 milhões de eleitores vale quase 100 mil votos.

 

Quarto foco: quem ficou em casa

A abstenção foi de 21,1% no 1º turno. Entre quem não votou e agora declara voto, Lula aparece à frente na AtlasIntel (56% a 40%) e na Nexus (49% a 44%); a PoderData, na rodada de 16 a 18 de outubro, apontava o contrário.

O Datafolha mostra por que esse grupo importa tanto para Lula. Entre os que foram às urnas em 4 de outubro, Flávio fica com 51% dos votos válidos, e Lula, com 49%; o empate no conjunto depende, portanto, de quem faltou no 1º turno voltar às urnas. E Lula vence por 51% a 43% entre os que dizem morar longe do local de votação ou em outra cidade, eleitores para quem votar custa mais.

É um reservatório grande, mas pouco elástico. Quem falta no 1º turno costuma faltar também no 2º, e a abstenção no Brasil varia pouco de uma votação para outra. Mesmo com Lula à frente nesse grupo, cada milhão de faltosos que volte às urnas rende a ele, no saldo, entre 50 mil e 160 mil votos, a depender da pesquisa. Ajuda, mas não decide sozinho.

O comparecimento importa mais como defesa. Na IPESPE/Abrapel, 92% dos eleitores de Flávio dizem ter certeza de que vão votar, contra 88% dos de Lula, e entre quem tem certeza de comparecer Flávio fica 4 pontos à frente. É um recorte que poucas pesquisas fazem. Tomara que os institutos avancem no uso de modelos de eleitor provável, os chamados likely voter models, e calibrem suas amostras pela chance real de comparecimento: só assim a abstenção e outras distorções deixarão de pesar sobre o retrato que chega ao eleitor na reta final. Cada eleitor de Lula que deixar de votar no domingo é um voto que nenhuma outra frente consegue repor.

 

O que se decide no domingo

Nenhum desses focos, sozinho, garante a vitória. Se a distância real for de cerca de 1 ponto, como em quatro das oito pesquisas, os indecisos e quem pensa em anular podem bastar. Se for de 2 pontos, como nas outras quatro, será preciso também convencer uma fração de quem hoje vota em Flávio. Em qualquer caso, nenhum eleitor de Lula pode ficar em casa.

O que as pesquisas dizem, em conjunto, é que a eleição não está decidida e que a tendência das últimas semanas é de aproximação. Os votos que faltam existem e podem ser contados nos dedos de cada bairro: o vizinho que votou em Cury, a tia que pensa em anular, o colega que não foi votar no dia 4.

Há, ainda, um movimento que merece atenção. Na Quaest, a desaprovação ao governo Lula caiu rodada após rodada desde o fim de setembro, de 50% para 47%, o menor patamar desde agosto, e hoje está a apenas um ponto da aprovação (46%). Mas o sinal mais eloquente está na pergunta sobre o que dá mais medo. Na véspera do 1º turno, mais brasileiros temiam um novo governo Lula (43%) do que a volta da família Bolsonaro ao poder (40%). Em três semanas, a posição se inverteu: hoje, 44% temem mais a volta dos Bolsonaro, e 42%, mais um governo Lula. Cada número, isolado, cabe na margem de erro. Juntos, desenham uma onda que ainda está se formando, impulsionada pela mobilização nas redes e nas ruas, e que só chega à urna se houver quem a carregue até lá.

Dois fatos novos nesta reta final que as pesquisas ainda captam só em parte. O primeiro é o acúmulo de denúncias contra o candidato do PL, que só agora ganham espaço nas manchetes. O Estado de S. Paulo revelou um procedimento sigiloso no STF que apura suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, numa holding em que Flávio aparece como “usuário master”. A Polícia Federal conduz inquérito sobre os cerca de R$ 134 milhões negociados com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark Horse, dos quais metade teria ido para um fundo nos Estados Unidos. Reportagem da Agência Pública descreve a influência de Flávio sobre os hospitais federais do Rio durante a pandemia, onde auditorias do TCU e da CGU apontaram sobrepreço. O jogador Richarlison o acusa de interesse numa ilha em Angra dos Reis que diz ter perdido para uma empresa ligada a Tomaz. Há reportagens que mostraram que os dois maiores doadores pessoas físicas de sua campanha no 2º turno, que somam R$ 3,1 milhões, têm histórico de investigação por contrabando e por pagamento de propina a um juiz.

Parte da grande imprensa fez, durante boa parte da campanha, a escolha editorial de tratar essas suspeitas como nota de rodapé. Felizmente, parte dela começa, ainda que tardiamente, a mudar de direção, e as manchetes que agora chegam ao eleitor trazem informações que a opinião pública já deveria conhecer muito antes. Num 2º turno decidido por margem tão estreita, o tempo perdido não é um detalhe: é informação que deixou de chegar a quem precisava dela para decidir.

Os sinais vieram de vários lados. Horas antes de sua sabatina no Jornal Nacional, em 16 de outubro, Flávio almoçou na sede da Globo com o presidente do grupo, João Roberto Marinho. Lula não recebeu convite semelhante, segundo auxiliares ouvidos pelo colunista Igor Gadelha. A emissora afirma que nenhum dirigente do jornalismo estava presente e que encontros assim são de praxe. A entrevista que se seguiu foi, a meu ver, condescendente com afirmações que não resistiam à checagem. No debate da Band, dois dias depois, a Agência Lupa classificou como falsas 8 das 23 falas de Flávio que verificou, e só 2 como verdadeiras; de Lula, foram 2 falsas em 17. Em rede nacional, o candidato do bolsonarismo pôde repetir informações sem base sem que isso lhe custasse nada. Jornais como a Folha e o Estadão, mesmo tendo publicado parte das revelações citadas aqui, também dividem essa responsabilidade: dedicaram ao presidente uma cobertura crítica sistemática que não encontrou equivalente diante das suspeitas que cercam Flávio e, sobretudo, diante do fato de ele ser o candidato do campo que tentou o golpe. A história vai cobrar essa conta.

Flávio nega todas as acusações, diz não ser investigado no STF e afirma que o dinheiro do filme foi patrocínio privado, sem contrapartida. Que nenhum desses casos tenha, até aqui, condenação não significa que tenham sido esclarecidos. As denúncias se acumulam a cada semana, e parte delas nunca chegou a ser julgada porque foi barrada pela própria Justiça: o caso das rachadinhas no gabinete de Flávio na Assembleia do Rio, em que o Ministério Público chegou a denunciá-lo por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro, foi encerrado sem análise do mérito depois que tribunais superiores anularam as provas. Juntas, essas suspeitas são graves e desenham um padrão que não pode ser ignorado por quem vai entregar ao candidato o comando do país. Para o eleitor moderado, aquele que ainda pode mudar de ideia, a pergunta deixa de ser ideológica e passa a ser sobre confiança.

Há um caso que não cabe em nenhuma planilha. Em 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, brincava com uma boneca na calçada de casa, no Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida no peito por um tiro de fuzil. Foi socorrida numa viatura da polícia e não resistiu. O Ministério Público denunciou o então cabo da PM Bruno Dias Delaroli por homicídio com dolo eventual, por ter assumido o risco de matar ao atirar numa rua residencial, e a Justiça do Rio decidiu que ele deveria ir a júri popular. Flávio Bolsonaro, advogado inscrito na OAB, assinou o recurso ao Superior Tribunal de Justiça que tentou impedir esse julgamento. O STJ rejeitou o pedido, mas o tempo já tinha passado: mais de cinco anos depois, o júri não aconteceu, e o policial responde ao processo em liberdade. Cobrado por Lula no debate da Band, Flávio respondeu que não se deve criminalizar a advocacia. Todo acusado tem direito a defesa, e é bom que seja assim. A pergunta que fica é outra, e é difícil fazê-la sem tristeza: por que um senador que hoje pede ao país a Presidência da República escolheu emprestar o próprio nome à tentativa de evitar que a morte de uma menina de 5 anos chegasse, ao menos, a julgamento? A família de Ana Clara ainda espera por ele.

O segundo fato novo é a mobilização. Logo depois do 1º turno, o canal “Exército do Lula”, do deputado André Janones no WhatsApp, saltou de algumas dezenas de milhares para 1,8 milhão de inscritos em poucos dias e passou a distribuir “missões” de postagem coordenada. Comunidades de fãs de música pop e k-pop cederam seus perfis. Voluntários do Vira-Voto Brasil levam a conversa para o trabalho, a escola e a vizinhança. Para Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, “o que o Janones está fazendo não tem precedente no Brasil, especialmente vindo da esquerda”.

Hoje, sexta-feira, o canal está próximo de 9 milhões de usuários. A resposta do bolsonarismo veio nos mesmos moldes: os “bloquinhos do Nikolas”, atos de rua convocados nas redes pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). A disputa pelas ruas e pelas telas, desta vez, tem dois lados.

E as redes viraram rua, e as ruas fizeram as redes crescer, num movimento democrático que se retroalimenta nesta fase final da campanha. Em 11 de outubro, um ato ocupou 12 quarteirões da Avenida Paulista. No dia 18, houve atos em capitais de todas as regiões, de Brasília a Porto Alegre, com a UNE no centro do Rio, Caetano Veloso em Copacabana e Gilberto Gil em Salvador. A rua produz imagens que voltam para as redes, e as redes convocam a próxima rua. A pesquisa IPESPE/Abrapel já registra o efeito: a vantagem de Flávio na avaliação da campanha nas redes caiu de 15 para 8 pontos, e na campanha de rua os dois empatam em 41%.

A novidade não é usar a internet para pedir votos, o que é rotina desde 2018. É o campo democrático ter encontrado um circuito em que o engajamento digital vira presença física e a presença física alimenta de volta o engajamento. É um marco nesta campanha, e é por esse circuito que passam os focos descritos acima: o vizinho, a tia, o colega. Democracias raramente acabam de uma vez. Elas se desgastam quando quem tentou romper as regras volta ao poder sem que nada aconteça. O 2º turno de 2026 pode ser decidido por uma margem que cabe numa conversa.

E há algo mais em jogo no domingo. Esta é, muito provavelmente, a última dança de Lula, como tanto se fala. Do metalúrgico preso em 1980 por liderar greves contra a ditadura ao constituinte de 1988, do presidente que tirou milhões de brasileiros da fome ao líder que voltou ao Planalto para reconstruir o que havia sido desmontado, sua trajetória se confunde com a da própria democracia brasileira. Nunca deixou de se atualizar, de olhar para o Brasil e para o mundo, e nunca perdeu o hábito, raro entre os poderosos, de estar fisicamente perto das pessoas. Poucos líderes vivos carregam tanta história. Num momento em que a democracia é desafiada aqui e lá fora, é ele quem hoje reúne as condições de segurar a mão do Brasil. O país e Lula merecem dançar juntos essa última música.

 

Carolina Botelho é doutora em ciência política e pesquisadora associada do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública (Doxa) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

 

Pesquisas usadas: Datafolha (Folha/TV Globo), Quaest/Globo, Nexus, PoderData/Aya, Meio/Ideia, AtlasIntel/Bloomberg, IPESPE/Abrapel e CNT/MDA. Sobre a condenação e a execução da pena de Jair Bolsonaro: Congresso em Foco, 25/11/2025.

Reportagens citadas: Gazeta da Amazônia, sobre as investigações envolvendo Willer Tomaz e Vorcaro, com base em Estado de S. Paulo, BBC News Brasil e O Globo; Agência GBC, sobre a reportagem da Agência Pública a respeito dos hospitais federais do Rio; Intercept Brasil, sobre os doadores; Revista Fórum, sobre Richarlison; Brasil de Fato, sobre o “Exército do Lula”; Diario de Pernambuco, com a avaliação da Quaest; O Tempo, sobre os atos de 18 de outubro; Folha de S.Paulo, sobre o Datafolha de 22 de outubro e o debate da Band; Metrópoles, sobre o almoço na Globo; Agência Lupa, sobre a checagem do debate da Band; A Tarde e Jovem Pan, sobre o caso Ana Clara.

[1] Uma ressalva de método. As contas acima são um exercício de extrapolação, não uma previsão. Reuni oito pesquisas feitas em datas e com métodos diferentes: o Datafolha, a Quaest e a CNT/MDA entrevistaram eleitores pessoalmente, entre 20 e 22, entre 17 e 20 e entre 13 e 15 de outubro, respectivamente; a Nexus ouviu eleitores por telefone entre 16 e 18 de outubro, e a Meio/Ideia, também por telefone, entre 15 e 19 de outubro; a PoderData usou ligações automáticas entre 19 e 21 de outubro; a AtlasIntel coletou respostas pela internet entre 13 e 18 de outubro; e a IPESPE/Abrapel foi a campo entre 13 e 15 de outubro. Cada uma tem amostra, ponderação e forma de perguntar próprios, e algumas captam momentos da campanha que outras ainda não alcançaram. Tirar a média simples entre elas ajuda a enxergar a direção comum, mas não produz um número mais preciso do que cada pesquisa isoladamente. Há outros limites. Para converter pontos percentuais em votos, considerei cerca de 120 milhões de votos válidos, proporção coerente com o 1º turno, mas o comparecimento real só será conhecido no domingo. Os “válidos” das pesquisas excluem brancos, nulos e indecisos, mas não quem deixará de votar. E os cruzamentos por voto no 1º turno, como o destino dos eleitores de Cury ou de Caiado, se apoiam em poucas dezenas de entrevistas, com grandes margens de erro. Devem ser lidos como sinal de direção, não como medida.

Leia mais sobre o tema: