AMAZÔNIA

Ordem e progresso?

Amazônia: genocídio indígena, desmatamento, agropecuária predatória, extração de minérios, garimpo ilegal, poluição dos rios etc.

Na Biennal de Pensament de Barcelona de outubro de 2024, Eliane Brum proferiu para uma numerosa plateia a conferência “A Amazônia, centro do mundo”. Começou defendendo a floresta tropical mais vibrante do planeta, para terminar acusando os catalães, com o dedo em riste, de estarem contribuindo para o desmatamento ao se servirem de jamón crudo alimentado com soja da Amazônia. A plateia intelectual e seleta desta irreverente cidade a aplaudiu em pé por minutos a fio – por muito mais tempo, de longe, do que nas demais apresentações do evento, com duração de cinco dias e intensa programação.

Falei com uns amigos sobre a hipocrisia da plateia que, depois de ovacionar a Eliane, saiu para os bares da cidade para terminar a noite em volta de mesas guarnecidas com presunto cru. Meus amigos responderam – “pero el jamón crudo es una institución catalana muy antigua!” E eu me dei conta de que estava falando com as paredes.

Em O cerco, Marina Rossi analisa a legislação fundiária e, entremeando conversas com moradores locais, discorre sobre o contraste entre o milionário agronegócio e a pobreza da população que o cerca, a violência, a escravidão e os massacres de trabalhadores – para enfim denunciar a transfiguração da maior floresta tropical do mundo em pasto e o impacto do avanço da pecuária na Amazônia.

Na qualidade de vegetariano, não consumo jamón, nem carne de boi. Enganam-se os onívoros que acreditam que os vegetarianos vivem à base da indigesta soja, que contém os nove aminoácidos essenciais ao corpo humano. A proteína largamente utilizada pelos vegetarianos, assim como pela população pobre que não tem recursos suficientes para comer carne diariamente, deriva do consumo concomitante de leguminosas e cereais – no caso brasileiro, feijão com arroz.

Na Amazônia, o Ciclo da Borracha, na passagem dos séculos XIX para o XX, é lembrado como uma idade de ouro, seguida por forte depressão e decadência.  As elites foram logo tratando de dar o fora; mas o grosso da população pobre e segregada, incluindo o exército de seringueiros mal pagos e escravizados por endividamentos fraudulentos, que alimentou a riqueza das nações e transformou Manaus em um centro urbano aristocrático em plena selva tropical, a Paris dos Trópicos, nunca usufruiu das benesses da Belle Époque e continua até hoje, como sempre, pobre e segregada.

Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Em relação ao atual genocídio indígena, desmatamento, agropecuária predatória, extração de minérios, garimpo ilegal, poluição dos rios etc., pouco adianta responsabilizar a direita e os adeptos da família Bolsonaro e mesmo a Ditadura Militar da Transamazônica, que se empenhou em garantir que as “terras devolutas”, habitadas por indígenas, ribeirinhos e sertanejos sem títulos de propriedade, fossem distribuídas para as grandes empresas, que alavancariam o progresso e o desenvolvimento.

Neste país em busca de sua identidade, nos anos 1950, o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek prometia 50 anos em 5 e o lema de seu polo industrial era “São Paulo não pode parar”. O projeto de ocupação das terras do Centro-Oeste e da Bacia Amazônica foi inaugurado com a mudança da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central, com a construção de um museu futurista a céu aberto. As populações indígenas que habitavam a região, consideradas primitivas e retrógradas, foram, mais uma vez, exterminadas ou expulsas de suas terras para dar lugar ao almejado desenvolvimento.

A doutrina do progresso e do desenvolvimento é um engodo. A mercadoria sempre justifica o progresso técnico, escondendo-se atrás do dever de atender às necessidades dos pobres, eternamente mantidos pobres para que continuem justificando o progresso. O destino dos pobres é passar necessidades básicas em meio à opulência e ao desperdício dos ricos, que vivem cercados por uma parafernália de novos produtos supérfluos de última geração. Estamos atravessando a Era da Distopia, uma sociedade do espetáculo, do consumo, do desperdício e da produção de lixo que convive com uma população que revira o lixo das grandes cidades em busca de alimentos e de materiais recicláveis para revenda.

Juntos com Ailton Krenak, nos empenhamos em garantir um futuro ancestral. Faço votos para que possamos nos reintegrar à terra, às plantas, aos animais e à vida comunitária; faço votos para que possamos todos aprender com esses “primitivos” a nos desfazer do peso e dos grilhões da mercadoria.

 

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Amazônia, nação indígena.

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