Os adolescentes se despem na internet - Le Monde Diplomatique

Comportamento

Os adolescentes se despem na internet

por Alejandro Margulis
5 de agosto de 2009
compartilhar
visualização

Para alguns, a realidade de uma juventude que se expõe ao mundo em fotos sensuais e vídeos de sexo explícito representa a perda “do pudor”. Para outros, o temor maior é que o novo costume atraia os pedófilos. Quem adota essa prática, porém, está apenas preocupado em obter uma audiência maior para a sua vida privada

A tendência se expressa por meio de centenas, milhares de blogs e fotologs, páginas pessoais, chats e telefones celulares. Desde que começou, há vários anos, inundou os grandes meios de comunicação com notas e artigos alarmistas, que aventavam um tipo de relação perturbadora e sórdida. Vulgarizado como “sexting” (neologismo do jornalismo americano que une o vocábulo “sex” com “texting”, “enviar mensagens”), o costume dos adolescentes de se mostrar em poses sensuais no mundo digital é considerado uma provocação e um perigo. Para alguns, a possibilidade de fazer isso “à vista de todos” é prejudicial, porque a juventude teria perdido “o sentido do pudor”. Para outros, o temor maior é que o novo costume gere um vínculo nocivo, abusivo e equivocado entre as crianças e um conjunto de seres obscuros – sempre à espreita –, que a crônica jornalística se ocupa de colocar em foco, confirmando a existência de um dos mais aberrantes e difundidos pesadelos atuais: a pedofilia.

Os adolescentes que já utilizaram o suporte digital como plataforma para divulgar retratos insinuantes ou praticar jogos sexuais – particularmente orais – são hoje alvo de incontáveis críticas nos meios de comunicação. As garotas que aparecem com ares provocantes – na maior parte das vezes fotografadas por elas mesmas, à distância focal do próprio braço estendido – são duramente censuradas: de forma direta ou indireta, sua conduta é levianamente associada à prostituição. Há também aquelas meninas – geralmente alunas de colégios privados – que posam nas redes sociais, como o Facebook, adotando uma postura felina, como a de modelos em propaganda. Geralmente, as fotos são feitas por seus parceiros.

Pior ainda é o que ocorre com os garotos: ao que tudo indica, eles socializam compulsivamente suas façanhas de iniciação sexual com uma namorada ou amiga, quase sempre tão disposta quanto eles a compartilhar a imagem de sua ginástica amorosa com seus conhecidos ou com as centenas de milhares de eventuais expectadores anônimos da rede. Uma quantidade surpreendente de pesquisadores do comportamento social contemporâneo considera esses jovens um “fenômeno problemático” que deve ser discutido e encarado de maneira equivalente aos estupradores ou molestadores em série.

Vanguarda e carisma

Um relatório recente da United Press International informou, com preocupação, como os adolescentes se fotografam ou gravam vídeos com seus celulares e câmeras digitais enquanto praticam relações sexuais. Em seguida, os enviam por bluetooth para outros telefones e os carregam no YouTube, Facebook, Fotolog e MySpace. Com isso, o “o ato íntimo” passa a ser supostamente visto por milhões de pessoas, conhecidas e desconhecidas.

Por toda parte, colégios privados que “pegaram em flagrante” seus alunos decidiram aplicar sanções disciplinares severas. No Chile, uma menina de 14 anos chamada Naty ficou famosa por praticar sexo oral em um colega de uma escola católica de Santiago, enquanto seus amigos filmavam e a incentivavam, aos gritos de “Boa, Naty, dá-lhe!”. Quando o Ministério da Educação criticou a medida adotada, os donos do colégio disseram que a menina não havia sido expulsa, mas sim separada da sua turma, “para sua própria proteção”.

Algo similar ocorreu em Paraná, província de Entre Ríos, Argentina, em diversas oportunidades. Dois garotos gravaram suas namoradas praticando relações sexuais com eles e as imagens circularam via telefone, poucas horas depois de serem disponibilizadas na internet. Muito embora o ato tenha ocorrido em um posto de gasolina, e não no ambiente escolar, os adolescentes vestiam o uniforme do colégio e a direção decidiu puni-los com dezenas de advertências, deixando-os à beira da expulsão. “O regulamento estabelece que os alunos devem usar o uniforme de forma digna, e não faltar com o respeito à instituição”, fundamentaram os dirigentes. Já em um colégio religioso que passou pela mesma experiência, além de sofrer sanção semelhante, os estudantes foram obrigados a participar de um curso de educação sexual e de respeito à mulher.

Em outubro de 2008, o Observatório de Meios de Comunicação da Argentina – integrado pelo Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (Inadi), o Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer) e o Conselho Nacional da Mulher – se opôs publicamente à promoção de mensagens de texto (SMS) que “convidam a conhecer segredos íntimos das colegiais”. Segundo eles, isso constitui uma tendenciosa incitação “ao consumo do corpo de meninas e adolescentes”, que contraria as políticas de Estado contra a exploração e o tráfico de pessoas. Para o Inadi, os anúncios sugeriam “a representação de meninas e adolescentes menores de 18 anos de idade como objetos sexuais, divulgando a possibilidade de ter acesso a elas e conhecer seus segredos íntimos de maneira fácil”. A reclamação foi levada em consideração, e esse tipo de aviso desapareceu dos comerciais e da propaganda de massa.

Entretanto, os adolescentes que utilizam a lógica das telas para ser vistos estão construindo um novo código de conduta. Similar talvez, guardadas as proporções, ao boom da minissaia nos anos 1960, que remou contra a corrente dos critérios puritanos de sua época. Antes lúdicos que pornográficos, munidos de forte cultura tecnológica e nascidos sob o hábito de ser fotografados, inclusive quando estavam no útero de suas mães (quando as primeiras ecografias fizeram furor, em meados dos anos 1990), estes adolescentes “vivem” o fato de aparecer na internet com toda a naturalidade. Indiferentes ao preconceito adulto, seja de que ordem for, sua ilusão consiste em receber a maior quantidade de comentários de seus pares, com o mesmo prazer que pode sentir um caçador ou caçadora de autógrafos quando completa uma coleção com seus artistas preferidos. Não os preocupa o voyeurismo ansioso daqueles que gostam de consumir imagens de corpos jovens, e muito menos que alguém, sempre à espreita e aparentemente pronto a localizá-los e causar-lhes algum mal, se excite observando-os. Na realidade, nem sequer parecem dar-se conta dos excessos verbais, dos fanatismos, aplausos escritos e até da paixão que podem despertar em seus fotologs, blogs ou páginas pessoais.

Organizações não-governamentais dedicadas à proteção da infância, como a Missing Children, concordam com as autoridades policiais das grandes cidades em equiparar essa tendência com o delito de pornografia infantil. Na Argentina, seu argumento é reforçado pela recente reforma do artigo 128 da Lei de Delitos Informáticos (26.388) do Código Penal, que pune com até seis anos de prisão quem “publicar, divulgar ou distribuir imagem sobre atos sexuais ou mostrando os genitais de um menor de 18 anos”. Para aqueles que defendem o direito à expressão juvenil, estes alarmes fazem parte de um relato que desconfia, a priori, dos processos de transformação que vêm ocorrendo na cultura digital.

Vanguardistas em última instância, seu estilo está se multiplicando a uma velocidade exponencial. Com efeito, qualquer pessoa que “posta” uma imagem ou texto seu na internet deseja que tal material receba rapidamente muitos comentários. Para um número cada vez maior de pessoas, a internet está se convertendo no espaço de reconhecimento universal, onde elas podem ser vistas e comentadas, mesmo que apenas de passagem. As imagens, disponibilizadas sem qualquer edição, geram comentários fugazes ou profundos, a depender do impacto que causarem. Porém, os mais jovens não buscam originalidade, algo que consideram muito “anos 1970”, mas sim a multiplicação: quanto maior o número de pessoas que veja ou copie sua imagem, mais próximo estarão de atingir seu ideal privado, tipo de recompensa que satisfaz o narcisismo e a necessidade de se mostrar, típica da idade, e que não os assusta em absoluto. O adolescente internético busca construir seu carisma de maneira rápida e, no contexto imediato, o sexo e seu corpo em atitudes sensuais – sozinhos ou acompanhados – converteu-se em um dos paradigmas que assegura maior quantidade de visualizações à maior velocidade possível

Militantes do exibicionismo

Na tela, aparecem duas adolescentes beijando-se ternamente. Uma delas tem lindos olhos verdes; os da segunda são redondos e escuros, como botões negros. O casal é famoso: trata-se de Cumbio, a blogueira adolescente mais popular da Argentina, e de sua namorada de 14 anos. As imagens desse beijo suave se reproduzem repetidamente ao longo das páginas eletrônicas, como uma bela e rara mostra de castidade na representação do amor sáfico. Que necessidade elas têm de multiplicar sua imagem amorosa até a saturação? São como atrizes de cinema que mostram o reverso da filmagem, mas, ao contrário da sétima arte, na qual o diretor escolhe a melhor tomada, aqui a repetição se torna a essência da mensagem: são militantes de uma escolha sexual.

Entrevistadas pelo autor deste artigo, em nenhum momento elas consideraram que alguém pudesse sentir-se excitado vendo suas fotos na internet. O tema nem sequer veio à tona na conversa, mas foi considerado pelo cronista depois, quando visitou seus fotologs. Na realidade, o motivo da entrevista era conhecer sua opinião acerca das garotas “atrevidas”, que exibem seu corpo na internet. Segundo Cumbio, fazê-lo “é um modo de buscar fama ou contenção. Existem outras maneiras de buscar amizade ou expressar amor, mas exibir-se demais é feio. Duro. Típico de alguém que não mede as consequências”, disse. Uma curiosa visão ambígua parece reger também o modo de ver o mundo da líder dos blogueiros argentinos, capaz de impor parâmetros de normalidade, como o fazem as grandes hegemonias morais da época:

“As garotas que se mostram necessitam chamar a atenção”, estigmatizou. “Nós temos muitas visitas e não necessitamos mostrar sequer um decote. Evidentemente, se o fazem, é porque gostam. Essas garotas saem assim, com tops e minissaias, porque são ousadas.”

“Antes, o pudor tinha relação com o espaço da intimidade. Hoje, essas barreiras se dissolveram completamente”, opina Sergio Balardini, psicólogo e membro do Programa de Estudos da Juventude da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Daniela Gutiérrez, especialista em educação e diretora do seminário Sociologia da Imagem na mesma instituição, concorda: “A foto divulgada na internet funciona como a carta, com uma lógica epistolar. É para o outro, mesmo que não se saiba quem é. Entretanto, diferentemente do exibicionista, o que prevalece nessas fotografias é a ilusão. Porque aqui, a modelo e quem a observa nunca estão juntos.

Essa é uma chave tecnológica. Há um deslocamento que funciona como metáfora, uma retórica da imagem. Por isso, é assombroso que gente estudiosa interprete essas imagens como se as garotas estivessem na frente delas, ao mesmo tempo em que as veem na internet. Aí, o que olha se encontra com seu próprio desejo. Por isso, basicamente, o que é preciso controlar é o prazer de quem olha, e não o corpo exibido”.

Porém, Gutiérrez também assinala outro aspecto importante: “Todos os dispositivos tecnológicos novos tiveram em seu início um momento de forte investimento libidinoso”. “Tanto a escrita, como a voz e a imagem, viveram seu momento quente.

O dispositivo se sexualiza, é demoníaco, perigoso. Este é um momento cultural novo, mas muito distante de ser uma vanguarda no aspecto sexual, porque a concretização da sexualidade está longe das imagens. Eles, os adolescentes, são protagonistas-chave desta época de reacomodação cultural e tecnológica.”

O estado das coisas

Enquanto a representação do corpo feminino encontra uma liberdade quase sem limites quando se destina ao uso publicitário, há uma tendência a proibir qualquer vislumbre de gosto expresso e confesso quando este se dirige para menores de 18 anos. Na internet, a presença de adolescentes mostrando seu corpo está na moda, mas não o fazem como o exibicionista do manual de psiquiatria: seu interesse em se mostrar é diferente. E a razão tem, claro, forte componente econômico: carentes, devido à idade, de outro valor de troca para capitalizar no mundo consumista de hoje, sabem que seu corpo é a melhor das mercadorias para intercambiar, e aí o expõem na vitrine on-line, dispostos a ver quanto vale na bolsa da circulação virtual.

Ou, no dizer do irmão de Cumbio, Rubén Vívero, gerente de conteúdos e produtor de televisão: “Esses adolescentes estão flertando com a prostituição, mas sem ter a necessidade de exercê-la. Eles sabem que seu corpo tem um valor de troca. Sabem que compensa mostrar-se. Estão muito conscientes de que o sexo tem um valor e o aproveitam. O virtual e o real formam parte de um mesmo mundo. Como o que acontece no mundo virtual é o que lhes acontece no real, quando muitos os observam, esses jovens saem ganhando”.

Na Argentina, as relações sexuais juvenis são um terreno escorregadio que coloca em apuros tanto os psicólogos como educadores e juristas, imersos num dilema que os impede de aplicar sequer a lei nacional vigente (25.673). Sancionada em 2003, instituiu o Programa Nacional de Saúde Sexual e Procriação Responsável, estabelecendo o ensino obrigatório da educação sexual em todos os estabelecimentos educacionais, estatais ou privados, desde o nível inicial ao superior. Até meados de 2009, sua implementação concreta não era clara. Muito menos como ela geraria nas escolas o clima mental propício para poder falar do tema. “Sem vontade política nas altas esferas, nem a Lei de Saúde Sexual nem o programa podem garantir uma política séria”, declarou a deputada kirchnerista Ana Suppa.

Nesse estado de coisas, a falta de uma linha de pensamento franca e madura tende a gerar uma ânsia de controle da vida privada dos jovens que oscila entre o laissez-faire e a mania persecutória. Para alguns, a capacidade de dar e receber carinho de forma responsável seria a atitude que melhor articularia os intercâmbios pessoais. Mas, quando é perpassado pelo medo, o imaginário coletivo sempre se dissolve, cai em infantilismo ou paranoia, e a sociedade tende a buscar autoritariamente a probidade, aquilo que venha a colocar ordem na caótica intimidade dos vínculos. A cor do amor, esse tom tênue, não tem muita afinidade com o horizonte que a tela da internet oferece atualmente. Dessa forma, a capacidade de gerar amor responsável e afeto parece muito distante. Nada condenável, nos tempos de Aids, de insegurança coletiva e de individualismo desmedido. E, entretanto, o fato de os adolescentes quererem divulgar sua vida na internet continua sendo um ato de celebração. Ritual sem graça, sexo frio, paliativo, ante a indiferença que sentem por parte da sociedade ou o mero gesto de uma peculiar e solitária liberdade de expressão, mostrar-se hoje em dia desse modo lhes parece ser a única chave para serem aceitos. Talvez o que sua atitude descontraída acaba finalmente pondo à prova – e daí, o incômodo que provoca – é o estado em que se encontra o reconhecimento do erotismo em cada um daqueles que os observam.

 

*Alejandro Margulis é jornalista.



Artigos Relacionados

MERCADO

O governo Lula e a “política” do mercado financeiro

Online | Brasil
por Pedro Lange Netto Machado
NEGLIGÊNCIA

Os Yanomami são um paradigma ético mundial

Online | Brasil
por Jelson Oliveira
APAGÃO JORNALÍSTICO

O escândalo da Americanas: bom jornalismo é ruim para os negócios

Online | Brasil
por Luís Humberto Carrijo
GENOCÍDIO

Extermínio do povo Yanomami e repercussões no direito penal internacional

Online | Brasil
por Sylvia Helena Steiner e Flávio de Leão Bastos Pereira
EDUCAÇÃO

A violência da extrema direita contra professores

Online | Brasil
por Fernando Penna e Renata Aquino
CONJUNTURA POLÍTICA

Pensando o 8 de Janeiro

Online | Brasil
por Coletivo Desmedida do Possível
CONJUNTURA POLÍTICA

Brasil como laboratório da insurreição fascista - II

Online | Brasil
por Augusto Jobim do Amaral
CONJUNTURA POLÍTICA

Brasil como laboratório da insurreição fascista – I

Online | Brasil
por Augusto Jobim do Amaral