RESENHA

Os arquivos do silêncio em ‘Onda Cabocla’, de Adriana Vieira Lomar

Onda Cabocla, em especial, interroga ao máximo os limites e as possibilidades da reconstrução parcial, pois uma regeneração total é humana e naturalmente inviável

Há romances que tratam a catástrofe como acontecimento e metáfora simultaneamente: algo que irrompe, destrói e exige reparo imediato, interna e externamente. Onda Cabocla (Editora Faria e Silva, 2026), de Adriana Vieira Lomar, interessa-se por outra temporalidade, a da devastação que permanece, se infiltra e rearranja lentamente a vida de uma comunidade e de uma família. Nesse sentido, o livro dialoga com o que Rob Nixon teorizou em Slow Violence and the Environmentalism of the Poor (2011): uma violência que ocorre gradualmente e fora de vista, uma destruição paulatina que se dispersa no tempo e no espaço, uma forma de desgaste que tipicamente não é vista como violência, já que esta é costumeiramente imaginada como um evento explosivo e espetacular que traz efeitos impactantes num dado momento.

Crédito: Divulgação

Terceiro romance da escritora carioca, autora também de Ambiguidades (Ebook Kindle, 2023), Corredor do Tempo (Patuá, 2023), finalista do Prêmio Jabuti 2024, e Ébano sobre os Canaviais (editado pela José Olympio, em 2023) vencedor do Prêmio Kindle de Literatura 2022 e semifinalista do Jabuti 2024, Onda Cabocla se passa em uma ilha na foz do rio Doce, a “última vila antes do mar”. O cenário de beleza exuberante, disputado por turistas e surfistas, abriga uma comunidade cuja aparente placidez convive com segredos, hierarquias e ressentimentos. A imagem dos ovos de tartaruga-marinha enterrados na areia, que um dia eclodem e lançam os filhotes a uma travessia incerta, condensa a lógica da obra: sob a superfície, algo já existe, mas precisará vir à tona, expor-se à vida.

A protagonista, Raquel, caçula de uma família de mulheres liderada por Dona Maloca, encontra na escrita uma forma de se aproximar do que a vida familiar e comunitária mantém em silêncio. “Agarro-me à escrita como os barcos ancorados e retomados ao mar”, afirma ela. A frase anuncia uma ambivalência central da narrativa: a linguagem como âncora e como partida, refúgio e exposição.

Nesse ponto, a noção de trauma formulada por Cathy Caruth em Unclaimed Experience (1996) nos ajuda a entender a dinâmica subjacente a cada personagem. Para a teórica, o trauma não se reduz ao incidente danoso em si, mas à sua repetição, exata e incessantemente, por meio dos atos inconscientes dos sobreviventes e contra as suas próprias vontades. Neste romance, o passado não é simplesmente lembrado: ele desloca percepções e condiciona vínculos por décadas. A escrita de Raquel não pode prometer ao leitor uma cura linear ou definitiva de qualquer um dos sujeitos que compartilham aquela realidade. Oferece, antes, um modo novo, às vezes incômodo, de habitar aquilo que não pôde ser inteiramente externalizado pelas vozes.

O mito de Filomela, violentada por Tereu, que lhe corta a língua para impedi-la de denunciar o agressor, ilumina essa dimensão. A violência sobre o corpo se prolonga como violência sobre a palavra. No romance, porém, a omissão do discurso falado não é apenas consequência de um trauma individual. É também efeito de relações de poder que definem o que pode ser narrado, por quem e sob quais condições.

Mais ainda, a omissão de eventos não é uma ausência casual de algo levado pelos dias que se sucedem, mas um produto de disputas de poder que comprimem e escondem fontes, arquivos e narrativas. Parece haver sempre uma fratura entre o que aconteceu e aquilo que se diz que aconteceu. A história da vila, assim como a da família de Raquel, é atravessada por versões incompletas, memórias não autorizadas ou inacessíveis e fatos que só ganham sentido quando chegam mais tarde.

O não dito adquire, assim, uma espessura política, social e íntima. Não diz respeito apenas ao que uma personagem não consegue contar, mas também às estruturas que tornam certas dores ilegíveis e incompartilháveis. A violência doméstica, a precariedade do trabalho feminino, a ausência-presença de um pai e a desigualdade que atravessa a comunidade não aparecem como temas isolados. Compõem um mesmo regime de visibilidade, no qual nem todas as experiências encontram condições para ser reconhecidas, ou, quando as encontram, o fazem de modo parcial.

A outra grande devastação da narrativa ocorre no plano ambiental como um espelho do sofrimento individual, afinal, todos pertencem àquela natureza. A ilha tem comprometidas as condições materiais de existência: a relação com a água, com o alimento, com o trabalho e com o próprio território. A referência nos remete imediatamente às tragédias de Mariana e Brumadinho, embora o livro não se limite a evocá-las como pano de fundo, apenas recorre a esse tipo de acontecimento como um marco do irreparável.

A contaminação opera continuamente, e a autora usa um dos seus principais recursos estilísticos para torná-la palpável, perceptível ao leitor pelas cores (especialmente o tom de laranja), pelos elementos naturais atingidos, da vaca Filó aos peixes e à profusão de “algas que crescem na beira e se alimentam do ódio das águas impuras” e pelas carências dos moradores. Seus efeitos não se esgotam no instante do desastre; se tornam o cotidiano alterado na forma de pesca proibida, água de galão, doenças e uma indenização insuficiente unindo as dimensões sociais e ambientais.

Na segunda parte, intitulada “O exílio”, o deslocamento de Raquel para Madri abre outra camada da narrativa pessoal da jovem. A bolsa de estudos promete distância do vivido. Contudo, como sugere o título de uma das obras mais emblemáticas de Hilda Hilst, Tu não te moves de ti (1980), quem parte leva consigo a bagagem de tudo o que a memória abarca.

Em Os versos satânicos, de Salman Rushdie, o narrador explicita a posição de um exilado: “É um paradoxo infindável: olhar para a frente olhando sempre para trás.” A passagem de Raquel pela Europa não apaga a origem; torna-a mais nítida. A distância permite perceber o que a proximidade obscurecia, sem oferecer, no entanto, uma posição externa definitiva. O passado continua a agir, agora sob outra luz.

E, nesse deslocamento, compõe-se outro paralelo que conecta os mundos de Raquel. O quadro Guernica, de Pablo Picasso, que contempla no Museu Reina Sofía, condensa o massacre dirigido contra uma população civil e a desarticulação de um mundo conhecido. Não há intenção aparente de equiparar guerra e desastre ambiental, contudo, é incontornável a emergência de uma questão crucial: o que acontece quando o entorno conhecido, o espaço habitado, é destruído e os sobreviventes precisam lidar com a estrangeiridade na própria terra?

Na última parte, “Os sonhos e o rio”, o romance acentua o plano onírico e simbólico, tema caro a Adriana Vieira Lomar, que já havia desafiado as fronteiras do real e do imaginário em Corredor do Tempo, trabalhando com seu interlocutor as dimensões espirituais que prescindem de uma determinada religião ou expressão de fé.

Em seus textos, a autora explora como, quando a linguagem racional chega ao limite, sonho e símbolo podem abrir outros caminhos de elaboração, quando a linguagem racional chega ao limite, sonho e símbolo abrem outros caminhos de elaboração. A natureza e o surreal, longe de constituir um cenário passivo, participam constantemente dessa rede de significações. Rios, neblina, fetos que ainda não nasceram e mulheres de corpos divididos tomam a palavra ou alguma forma de ação. Os atos não resolvem a catástrofe, porém sugerem que os territórios e essências se fundem compondo história, memória e direito à fala.

Onda Cabocla, em especial, interroga ao máximo os limites e as possibilidades da reconstrução parcial, pois uma regeneração total é humana e naturalmente inviável. Desse modo, se não é possível restituir o tempo perdido nem garantir o retorno a um estado anterior por meio de uma postura resiliente, resta a tarefa, amiúde incompleta, de encontrar formas de continuidade em meio ao irreversível. Nem que para isso tenhamos que “imitar uma tartaruga-marinha cascuda, dura na queda”.

 

Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colaboradora em diversos jornais brasileiros, faz parte da Assessor Pool da English PEN e participa das atividades da Fundación PROA de Buenos Aires.

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