Os dentes dos pobres - Le Monde Diplomatique Brasil

GUERRA SOCIAL

Os dentes dos pobres

Edição 164 | França
por Olivier Cyran
1 de março de 2021
compartilhar
visualização

Segundo levantamentos em cursos pré-primários da França, um quarto dos filhos de operários tem cáries não cuidadas, contra apenas 4% dos filhos de executivos, disparidade que aumenta na idade adulta. Os pobres são condenados a dores atrozes, a dificuldades de mastigação ou a um sorriso murcho que sabota sua vida amorosa, social e profissional

Em 1970, um jovem dentista de Autun, bafejado pelos ventos do Maio de 68, se lançou em um projeto audacioso: abrir, em Saône-et-Loire, um consultório destinado aos pobres. Bernard Jeault conseguiu obter um empréstimo bancário e aliciar para a aventura quatro colegas, prontos como ele a trair o evangelho de sua profissão: a prática liberal e o sucesso material. Trabalhariam juntos, com o mesmo equipamento e por um valor modesto. Adeus vida de figurões convidados para os saraus do subprefeito: socialização dos cuidados e bons dentes para todos!

No entanto, a Ordem Nacional dos Cirurgiões-Dentistas velava por seus interesses. Hostis à ideia de um atendimento com vocação social e temendo que essa subversão do modelo sacrossanto do pequeno empresário dentista abrisse uma brecha capaz de abalar todo o sistema, os sabichões travaram contra Jeault uma longa e implacável guerra. Arruinado, depois proibido de exercer a profissão em represália a uma obra em que relatava seus desenganos com os “arrancadores de dentes”,1 o “dentista dos pobres” amargou o desemprego, a assistência social e uma velhice com dificuldades, antes de morrer, em julho de 2019.

Cinquenta anos após seu torpedeado projeto, as desigualdades de acesso aos serviços que ele esperava proporcionar continuam abissais. Os estragos podem ser observados desde a mais tenra idade. Segundo levantamentos de saúde escolar em cursos pré-primários da França, um quarto dos filhos de operários tem cáries não cuidadas, contra apenas 4% dos filhos de executivos,2 disparidade que aumenta na idade adulta. Estima-se que mais de um quarto dos casais de baixa renda não vai ao dentista por falta de meios. Como reconhecia o ministro da Saúde em 2011, “as desigualdades constatadas se traduzem, de um lado, por uma exposição desigual ao risco: os hábitos favoráveis à saúde bucodentária (escovação diária, exposição aos fluoretos, alimentação variada) são mais disseminados entre a população beneficiada por um melhor nível de educação e renda; de outro, um recurso também desigual aos tratamentos: os executivos consultam mais frequentemente o cirurgião-dentista que as categorias sociais pouco qualificadas”3.

Fraco consolo para os desfavorecidos do sistema francês, condenados a dores atrozes, a dificuldades de mastigação ou a um sorriso murcho que sabota sua vida amorosa, social e profissional: o fardo que carregam é largamente partilhado no mundo inteiro.

Embora afetem milhões de pessoas e gerem sofrimentos consideráveis, essas desigualdades são muitas vezes negadas ou minimizadas. Os próprios dentistas repisam de bom grado o refrão, ventilado nas campanhas preventivas, segundo o qual a saúde dentária é essencialmente um problema de responsabilidade individual. Para ter uma dentição sadia, cabe a cada um respeitar as regras de higiene preconizadas desde o berço, seguir um regime alimentar equilibrado, evitar os doces, o álcool, o fumo e as drogas, não se expor ao cassetete do policial nem ao punho do marido violento – levar, em suma, uma existência virtuosa e protegida. Do contrário, a culpa será sua se seus dentes se estragarem.

O sistema francês de cuidados dentários repousa em dois princípios: por um lado, a primazia do modelo liberal, que exige do profissional tirar o máximo de seu investimento; por outro, a organização de uma oferta de serviços de duas vias, na qual as intervenções reembolsadas a preço de “assistência social”, disponíveis para os pacientes modestos, rivalizam com as intervenções sem limite de preços, infinitamente mais lucrativas, como os implantes e as próteses. Entre o juramento que ele faz no primeiro dia de sua carreira – “Cuidarei do indigente e de quem quer que procure meus serviços” – e a tentação de privilegiar os clientes de alto valor agregado, o dentista se vê diante de um dilema que está pouco interessado em deslindar no interesse da saúde pública.

Sem dúvida, a atração do ganho tem aí seu papel. Não é por acaso que, no jargão dos especialistas europeus em evasão fiscal, “o investidor privado que cruza a fronteira com seu dinheiro escuso para aplicá-lo em um ambiente fiscal mais favorável é conhecido como dentista belga4 – uma homenagem à profissão, não à bandeira. A sede de euros acentua a repugnância por aqueles que não os têm. No fim de 2018, o Defensor dos Direitos (uma autoridade independente francesa de defesa dos direitos dos cidadãos) conclamou as plataformas de marcação de consultas on-line, como a Doctolib, a bloquear em seus sites menções abertamente discriminatórias feitas por numerosos dentistas, como “os beneficiários da CMU (Cobertura Médica Universal) não serão aceitos no consultório”. A recusa de cuidados – aos beneficiários da CMU, mas também aos pobres em geral, crianças, idosos e deficientes – é moeda corrente na profissão, ainda que em geral disfarçada.

Mas, embora os dentistas endossem o primeiro papel nesse sistema de triagem, nem por isso foram seus criadores. É a nomenclatura dos pagamentos editada pelos poderes públicos que, pondo em concorrência serviços gratuitos e serviços lucrativos, incita-os a negligenciar os primeiros para melhor se consagrar aos segundos. “Se você me pede um orçamento bucodentário, serão 23 euros, isto é, uma ninharia”, explica-nos um profissional aborrecido com sua profissão. “Assim, posso resolver o caso em quinze minutos ou decidir trabalhar a sério e gastar 45. Se fizer isso várias vezes ao dia, vou acabar na miséria.” Acabrunhado de trabalho e consciente de sua missão, ele próprio mal consegue pagar suas contas e ganhar a vida. Ao contrário, um colega menos escrupuloso, que despacha uma limpeza de dentes em dez minutos cronometrados – quando seriam necessários trinta, no mínimo – ganha confortavelmente a sua. Como resume nosso interlocutor, “os que cuidam de você de qualquer jeito ou inventam um pretexto para não cuidar são os mais bem-sucedidos”.

A esse respeito, a reforma chamada de “o resto a custo zero”, em vigor desde janeiro de 2020, não mudou fundamentalmente o sistema. Se ela permite que o plano de saúde pague integralmente algumas próteses de baixo custo (e os planos de saúde se aproveitaram disso para aumentar seus preços), deixa intacta a lógica de negligência e rentabilidade que rege o dispositivo. Sim, existem profissionais heroicos que não medem esforços para cuidar da melhor maneira possível de quem os procura, com risco de burn-out, mas não é certo que sejam os mais numerosos entre os 42 mil dentistas instalados na França – dos quais 35 mil são particulares.

Reconhecer o direito de cada um de ter dentes que mordam, tornar público o serviço, pagar aos dentistas salários que lhes permitam exercer sua arte sem se preocupar com o ganho ou com o financiamento da piscina de bolinhas em sua segunda residência: o projeto imaginado por Bernard Jeault há meio século merece sem dúvida uma segunda oportunidade. Por enquanto, a única utopia que parece capaz de abalar o sacrossanto modelo liberal se mostra ainda mais mercantil que este último. Com efeito, nos termos de uma lei de desregulamentação adotada em 2009 sob a égide de Roselyne Bachelot, então ministra da Saúde, clínicas odontológicas de baixo custo foram surgindo às centenas. Dentego, Dentimad, Dentifree, Dentalvie, Dentymed, Dentasmile… Apesar dos nomes, que evocam um concurso de onomástica publicitária, seriam “associações sem fins lucrativos”, que não deveriam render nada. Mas as liberalidades proporcionadas pela lei lhes permitem superar isso.

Crédito: Unsplash

Como prova, o escândalo Dentexia, nome da rede de clínicas que faliu em 2016 depois de arruinar e mutilar com maior ou menor gravidade cerca de 3 mil pacientes. Seu fundador, Pascal Steichen, foi o primeiro a aproveitar a oportunidade oferecida pelo legislador. Com diploma de Escola de Comércio e autor de um manual de “marketing prático do agente imobiliário”, esse aventureiro esperto não sabe nada de odontologia, mas isso pouco importa, pois a lei autoriza qualquer um a entrar no jogo. Para se livrar da proibição de ter lucro, ele montou empresas de fachada que faturavam pesadamente para a matriz serviços mais ou menos fictícios, bem como próteses e implantes comprados na Turquia.5 Trabalhadores obstinados, seus empregados perseguiam objetivos inatingíveis enquanto iam destroçando bocas. A religião do lucro absolvia qualquer procedimento, inclusive arrancar dentes sãos a fim de substituí-los por próteses colocadas às pressas e mal fixadas. Suas vítimas desdentadas padeceram um inferno que durou dois anos, durante os quais os mais desesperados conseguiriam se organizar em grupo e movimentar céus e terras para tratar de suas restaurações6.

Os atores que hoje disputam o mercado do low-cost garantem que não têm nada em comum com a Dentexia. As poucas queixas apresentadas contra eles até agora parecem lhes dar razão, mas a exploração comercial sob a insígnia “sem fins lucrativos” é o pilar dessa indústria. Os dois fundadores da Dentego, líder do mercado, descobriram sua vocação na Paris School of Business, onde, por 30 mil euros, a pessoa aprende a se tornar “o executivo de amanhã”. Aguardando seu processo atrás das grades, Steichen será lembrado como o pioneiro de um sistema que fez escola – ao contrário de Bernard Jeault.

 

*Olivier Cyran, jornalista, é autor de Sur les dents. Ce qu’elles disent de nous et de la guerre sociale [Sobre os dentes. O que eles dizem de nós e da guerra social], La Découverte, Paris, 2021.

 

1 Bernard Jeault, Le Mal à la racine, dentistes ou arracheurs de dents [A raiz do mal: dentistas ou arrancadores de dentes], Odilon-Média, Paris, 1995.

2 Números da Direction de la Recherche, des Études, de l’Évaluation et des Statistiques (DREES), citados por Sylvie Azogui-Levy e Marie-Laure Boy-Lefèvre, “Inégalités d’accès aux soins dentaires” [Desigualdades de acesso aos cuidados dentários], Après Demain, n.42, Paris, 2017.

3 “Les inégalités de santé bucco-dentaire” [Desigualdades de saúde bucodentária], Ministério da Saúde, Paris, 21 abr. 2011.

4 Michel Maus, Tout le monde le fait! La fraude fiscale en Belgique [Todo mundo faz isso! A fraude fiscal na Bélgica], Corporate Copyright, Saint-Gilles (Bélgica), 2012.

5 Guillaume Lamy, “Le passé trouble du dentiste low-cost” [O passado nebuloso do dentista low-cost], Lyon Capitale, 28 nov. 2012. Cf. também Christine Daniel, Philippe Paris e Patricia Vienne, “L’association Dentexia, des centres de santé dentaire en liquidation judiciaire depuis mars 2016: impacts sanitaires sur les patients et propositions” [A empresa Dentexia, clínicas odontológicas em liquidação judiciária a partir de março de 2016: impactos sanitários sobre os pacientes e propostas], Inspection Générale des Affaires Sociales, Paris, jul. 2016.

6 Dois membros fundadores do Colletif contre Dentexia, Christine Teilhol e Abdel Aouacheria, criaram depois uma associação de usuários de cuidados odontológicos, a Dent Bleue (www.ladentbleue.org).



Artigos Relacionados

CIDADES DO AMANHÃ

Mudanças climáticas: lutar contra quem?

por Rodrigo Faria G. Iacovini e Victor H. Argentino de M. Vieira
Guilhotina

Guilhotina #135 – Tiago Muniz Cavalcanti

CÂNONE DA LITERATURA PELA MARGEM

Exposição apresenta o projeto literário da escritora Carolina Maria de Jesus

Online | Brasil
por Bianca Pyl
GRITO DOS EXCLUÍDOS – III

A moradia é a porta de entrada para todos os outros direitos

Online | Brasil
por Graça Xavier
GRITO DOS EXCLUÍDOS – II

Bolsonaro e o golpe

Online | Brasil
por Frei Betto
GRITO DOS EXCLUÍDOS – I

Mais 590 mil mortes, consciência ética e lutas contra o bolsonarismo em São Paulo

Online | Brasil
por Samantha Freitas
FRATURAS EXPOSTAS PELA PANDEMIA

Saúde: inovar é preciso, produzir também

Online | Brasil
por Alexandre Padilha e Jandira Feghali
MEIO AMBIENTE

A geopolítica do negacionismo climático

Online | Mundo
por Luiz Enrique Vieira de Souza, Estevão Bosco e Marcelo Fetz