Os operários da IA em Camarões
Em Yaoundé, um pequeno exército de “microtrabalhadores” anota dados para plataformas internacionais de inteligência artificial, como Appen, Isahit e Scale AI (por meio da Remotasks). É um trabalho invisível, realizado sem contrato nem proteção social. O Estado, por sua vez, se movimenta para tributar os parcos rendimentos dessa mão de obra facilmente substituível
É tarde da noite em Ngoa Ékélé. Na penumbra de uma pequena lan house empoeirada, o rosto de Boris L.[1] é iluminado pela luz azulada de uma tela de segunda mão. Do lado de fora, o bairro universitário de Yaoundé mergulha na escuridão por causa de mais um dos apagões crônicos que são a marca registrada da Sociedade Camaronesa de Eletricidade (Socadel). Mas ali, graças a um velho gerador que ronca nos fundos do estabelecimento, a conexão com a internet continua funcionando. Há vários meses, o estudante passa boa parte de suas noites naquele lugar. Boris é o que se costuma chamar de “microtrabalhador”, um dos milhares de operadores invisíveis que, em Camarões e em outros países africanos, dão polimento ao espelho da inteligência artificial (IA) mundial em troca de uma remuneração miserável. Na Remotasks, plataforma da Scale AI, empresa norte-americana sediada em São Francisco e avaliada em US$ 29…

