ENTREVISTA

Outros mundos, sem dó

Há mais de uma década entre estradas e estúdios, Dinho Almeida fala sobre o processo criativo que sustenta a música como modo de vida

Na infância em Apucarana, no Paraná, quando ouvia o pai cantar as próprias canções em casa, Fernando Almeida não imaginava que aquela convivência com a música seria um terreno fértil para um meio de vida. Conheceu sua inclinação à arte cedo, quando se apropriou dos instrumentos tocando na Igreja e na adolescência, experimentando outros gêneros em bandas formadas com colegas do colégio.  Mas, como é comum àqueles cujas paixões são dificilmente reconhecidas como ofícios, cresceu cultivando sua prática musical em paralelo – enquanto investia em uma formação técnica em Edificações acreditando que ali estaria sua ocupação futura.

Na infância em Goiânia, quando ouvia o pai cantar as próprias canções em casa, Fernando Almeida não imaginava que aquela convivência com a música seria um terreno fértil para um meio de vida.
Crédito: Gabriel Rolim

Ao longo dos anos seguintes, na convergência dos bons ventos com uma generosa postura de entrega, esse cenário se transformaria. Hoje, ao lado de Benke Ferraz, Raphael Vaz e Ynaiã Benthroldo, Dinho é um dos rostos da Boogarins – uma das bandas de rock alternativo que mais circulam pelo país e que possibilitou aos seus integrantes uma vida entre estúdios e estradas mesmo em um cenário instável para a arte independente no Brasil. Em conversa com o Le Monde Diplomatique Brasil, Dinho Almeida fala sobre um processo criativo guiado pelo sensível e sobre as transformações – em nível pessoal e na trajetória da banda – vividas ao longo de mais de dez anos dedicados à música.

Desde cedo, as canções fizeram parte da vida de Dinho, em continuidade com a prática do pai. Mesmo nunca tendo trabalhado como músico, ele compunha as próprias cantigas e introduzia, na rotina dos filhos, uma relação atenta aos processos de criação. A importância dessa dinâmica se evidenciaria alguns anos depois, ao fim do colegial, quando Dinho – que já tocava em bandas desde os 14 anos – fundou, ao lado do também goiano Benke Ferraz, a Boogarins. O nome, sugerido por Benke, era inspirado pelo arbusto bogarim, espécie de origem asiática tradicionalmente associada à ideia de amor puro. Foi a partir dessa parceria, alimentada pela MTV e por nomes que passavam a aparecer na mídia graças às iniciativas de auto gravação caseira, que Dinho considerou a possibilidade de apostar numa vida dedicada à música: “Ele me deu a luz de que tinha muita gente criando banda, fazendo música. Sem saber exatamente se essa galera vivia disso, ele me chamou para fazer isso da vida. E eu fui duvidando. Só depois da pandemia, com o tempo que passamos sem show, passou o susto de anos achando que ia ter que voltar pra outro trampo.”

Àquela altura, a banda já acumulava uma trajetória sólida na qual se ancorar frente à instabilidade gerada pela interrupção dos shows: em 2020, a Boogarins havia lançado quatro álbuns de estúdio, realizado duas turnês internacionais e integrado o lineup de alguns dos principais festivais do circuito global, como Coachella, na Califórnia, Primavera Sound, em Barcelona, Rock in Rio – no Brasil e em Lisboa – e Lollapalooza. Em 2015, Manual, ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos rendeu ao grupo uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa.

“A música é ferramenta de sensibilidade. Eu consegui ver meu pai como um homem sensível pelas canções dele. Antes mesmo de virar a chave, quando eu trabalhava com outras coisas e fazia música quando dava, eu pensava: isso eu não posso perder. Esse portal de sensibilidade, de existência”, afirma Dinho. E o portal de sensibilidade seguiu aberto – entre as análises sobre o trabalho da Boogarins, uma espécie de sinestesia intrínseca às músicas é sempre apontada como um elemento de destaque. Mais do que um alinhamento à um gênero, linguagem ou referência, a postura dos músicos frente ao processo de criação parece se manifestar como a identidade primordial da banda. Defendendo essa porosidade à experiência, para Dinho, é natural que o mais mundano se torne a matéria de suas composições: “Pra mim, está no humano. Eu valorizo a inspiração, claro, mas pra mim é isso: está tudo rolando ao seu redor, o tempo todo. Se você se conecta com algum sentimento, cena, você vai conseguir fazer. E, na hora que isso vai pra uma canção, se transforma em uma imagem, abre uma porta pra outra pessoa se relacionar. Acho que foi assim que a nossa música tocou as pessoas, valorizando essa construção de símbolos e ideias maiores do que o que eu.”

Essa postura de escuta ao sensível, compartilhada e tensionada no convívio com os demais integrantes da banda, ajuda a compreender os territórios sonoros que atravessam a obra do Boogarins – entre o improviso, a deriva psicodélica e a construção de atmosferas oníricas. As Sessões de Cura e Libertação, série de seis experimentos audiovisuais realizados durante a pandemia e reunidos no YouTube, condensam esse gesto criativo: entre imagens lisérgicas e performances abertas, “chega e toca; o que sair, saiu.”

Nesse processo, muitas letras acabam convergindo para as ideias de sonho e transe, que se repetem sob diferentes imagens nas canções da Boogarins. Mas as frases abstratas, apontando com frequência para um certo estado de alteração, são só um dos elementos que corroboram com o estado onírico cultivado pela banda – seja pela lisergia dos primeiros discos, pelas experimentações ramificadas dos trabalhos seguintes ou pelas performances ao vivo, bastante dedicadas à uma confluência entre as luzes febris e sobreposição de diferentes texturas de som.  Torna-se, de qualquer forma, mais um desses portais de criatividade sinalizados por Dinho: “Quando o assunto é sonho, sonhar, as duas pessoas, quem fala e quem escuta, ficam num estado de criação, de imaginação. Acaba sendo, como qualquer transe também é, um exercício de criatividade do nosso inconsciente – que é só seu até que fica em jogo pros outros. Por isso a gente brinca com esse jeito de criar psicodélico. Mas quanto mais eu componho, mais eu percebo que como as coisas se dão aqui, no real da parada, é o que te faz criar. Essa é a condição pra eu botar palavra. Quando penso em composições, elas já vêm num canto melódico – e a melodia puxa o que te emociona, que é a vida, mesmo”, conta. “Depois que a gente mergulhou no improviso, aí já era. Vem da pulsão”.

Essa lógica atravessa também os trabalhos fora da banda. Além de assinar a maior parte das letras do Boogarins, Dinho mantém composições solo – algumas reunidas no projeto Águas Turvas (2023) – e parcerias com outros artistas, como o duo Guaxe, ao lado do carioca Pedro Bonifrate. Em todas essas frentes, a escrita segue orientada pelo som, mais do que pela palavra escrita no papel: “é mais criar, cantar e escrever do que escrever, cantar e criar. Tá mais na voz do que na mão”. Frases que surgem fora desse processo só sobrevivem se voltarem sozinhas, puxadas pela melodia. “Eu até crio frases passando pelos dias, mas eu não anoto. Se eu lembrar, é porque é bom.”

Com esse modo de criar ancorado na própria experiência e na melodia, Dinho se tornou uma figura veterana da música independente brasileira – e caminha à vontade nesse lugar. Tendo vivido cenários variados ao longo dos últimos anos – das turnês extensas ao isolamento, das mudanças de cidade à paternidade –, suas condições ideias de composição não reivindicam muito além do bloco de notas do celular, uma melodia que acompanhe as palavras e, para se manter inventivo, a alegria de fazer música. “Eu gosto mesmo é de ser feliz, se preciso de algo é dessa felicidade em estar colocando sentimento pra fora. Pra criar, é só você. Tem que estar sempre afiado. A única condição é saber que você consegue. Às vezes acho que até me falta amor-próprio pra buscar condições melhores de criação, mas eu vou no manual de guerrilha e sobrevivência, mesmo. Até hoje, isso só me ajudou: essa consciência de estar sempre pronto”, conta.

Para além dos processos de criação, essa mentalidade também contribuiu com a relação cultivada com os colegas de banda ao longo de toda a última década – caminhada que possibilitou que se tornassem, como descrito por Dinho, “engrenagens que se encaixam, que se respeitam, que giram juntas”. No Brasil, poucas bandas circulam tanto quanto a Boogarins –  e menos ainda iniciam suas trajetórias com turnês tão extensas quanto foi com a de As Plantas que Curam (2015), primeiro disco do grupo. “Turnê é uma entrega total pra banda. Muita gente fala que a gente deu sorte, mas foi entrega mesmo. Muito tempo, muitas viagens”, diz. “O Hans [Castro], que foi o primeiro baterista, acabou saindo da banda por isso, porque virou pai. Naquele momento não tinha como a gente dizer que a banda ia dar dinheiro ou um modo de sobrevivência pra ninguém. Ele lembra a gente que na primeira turnê a gente foi e não tinha data pra voltar. Era a primeira. O Benke tinha 20 anos.”

Muita coisa mudou desde lá: Dinho, assim como Benke e Ynaiã, também se tornou pai, e cada membro da banda tem sua casa em um lugar diferente do país. Frente à maturidade adquirida pela banda, todas as mudanças são bem-vindas. “No pós-pandemia, quando cada um cria sua vidinha e vai pra um canto… a gente começa a levar as viagens de um outro jeito. Menos tempo, tudo melhor organizado. Mudou. Mudou para melhor. Cansa muito, é doideira. Agora, com filho, é muito cruel. É diferente de tudo que a gente já viveu. Mas rola. É trabalho. É sempre melhor estar fazendo do que não estar fazendo”.

Se a vontade é seguir fazendo, os caminhos já parecem abertos. Neste ano, após o encerramento da turnê de Bacuri, quinto álbum de estúdio, o grupo volta à estrada com a turnê comemorativa dos dez anos de Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos. E o palco ganha ainda outra dimensão: “Se a gente não tá mais no dia a dia junto como antes… aí que o palco virou o lugar onde rola o ritual da amizade”, diz. “Não falo pra me vangloriar, mas a gente conseguiu contornar situações que poderiam ter sido muito ruins de um jeito muito tranquilo. Até quando eu estou fazendo coisas com outras pessoas, eu sei que eu só estou fazendo por causa da nossa caminhada junto. Tudo é visto com bons olhos, nada é chato demais. Se tem ruim, a gente conversa, se tem bom, a gente celebra. E faz música. Não consigo imaginar de outro jeito.”

Laura Portugal é jornalista.

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