Padre Júlio Lancelotti: Profissão de fé (e coragem)

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Padre Júlio Lancelotti: Profissão de fé e coragem

por Taís Ilhéu
6 de julho de 2019
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De domingo à domingo, Júlio Lancelotti toca o sino de mesa às 7h da manhã e inicia a celebração na Paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em São Paulo. Na última segunda-feira de maio, a leitura do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João falava da perseguição aos primeiros cristãos e dos que os matavam acreditando estar prestando culto a Deus. Durante a homilia, padre Júlio adverte pouco mais de uma dúzia de fiéis que ocupam os bancos da capela sobre os falsos cristãos do nosso tempo, que julgam e condenam em nome de Deus. Quem conhece a trajetória do pároco – e um dos recentes processos que ele sofre na justiça – logo intui que ele se refere, entre outras pessoas, à que carrega a faixa presidencial do Brasil.

Júlio Lancelotti tem 34 de seus 70 anos de vida dedicados ao sacerdócio, mas a entrega à Igreja veio muito antes disso, ainda na infância. O gosto pela religião era tão grande que antes do dia amanhecer descia as escadas de casa, também no bairro da Mooca, com os sapatos na mão, para não acordar o pai, e corria para a missa do convento. Aprendeu a responder a missa em latim em uma semana. Ainda lembra saudosista do afeto que tinha por uma das irmãs do colégio religioso onde estudava, uma senhora quase cega, que usava óculos fundo de garrafa. Entre as tardes de lição e a limpeza das salas – que ele e os amigos faziam no lugar da freira idosa – se convenceu, pela primeira das três vezes, a ir para o seminário. Ainda menino, com seus doze ou treze anos, não aguentou a saudade de casa e voltou. Na segunda vez, já com o ginásio concluído, voltou para casa mais uma vez, mas agora rejeitado: na opinião dos agostinianos, Júlio era insolente, crítico e questionador demais.

Com um empurrãozinho do pai, decidiu que era hora de esquecer dessa história de virar padre e ir trabalhar. Com o curso de atendente de enfermagem que tinha tido tempo de concluir no seminário, foi trabalhar em um hospital. Depois, prestou concurso e entrou na área de assistência social, cuidando de crianças abandonadas. Em 1980, na ocasião de uma visita do papa João Paulo II ao Brasil, Dom Luciano Mendes de Almeida, que era muito próximo de Lancellotti por conta do trabalho social, o provocou: “O papa me perguntou quando é que vou te ordenar padre”. Voltou ao seminário em 1981 e, em 1985, foi ordenado padre por Dom Luciano.

Desde então, atuou na criação da Pastoral da Criança – inclusive na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – trabalhou com adolescentes em conflito com a lei, detentos de presídios masculinos e femininos, pacientes com HIV e no auxílio de moradores de rua por meio de Pastoral do Povo da Rua, trabalho ao qual hoje dedica a maior parte do seu tempo. Em resumo, segundo o próprio, “só confusão”. Se nunca mais ouviu críticas pela insolência dentro da Igreja? “Ah, ouvi. Mas eu continuei, por que o que eles vão falar pra mim? Não se junta com os pobres, fica longe?”

Linha de frente
Do fim da missa às 11h30, quando a paróquia fecha para o almoço, o padre e qualquer outro funcionário ou voluntário mal sentam para um café. “Tem dia que é pior ainda, mais lotado”, me advertiu um Thiago Aparecido Ferreira Soares naquela manhã, no meio tempo em que carregamos doações de roupas e desembrulhamos sabonetes para os kits de higiene. Mas para o voluntário – e amigo de longa data de Lancellotti – a correria já virou rotina. Vem religiosamente todos os dias ajudar na paróquia, mesmo trabalhando no período da madrugada. Ao lado do padre, serve café da manhã para os moradores em situação de rua, distribui roupas, varre o chão ou lava os banheiros. O que for preciso. Mas não reclama: segundo ele, desde que saiu das ruas decidiu que fará o que puder para ajudar quem está na mesma situação, assim como o padre fez por ele. “Protetor” de Lancelotti, como o padre mesmo o saudou quando chegou, já enfrentou situações muito mais difíceis do que carregar sacolas depois de uma noite mal dormida. “Eu e Padre Júlio já passamos por muitos conflitos juntos contra o governo, esses negócios do rapa. Toda entrevista que ele faz nunca deixa de falar de mim, ele diz ‘tem o meu amigo, Thiago, meu filho, a gente já brigou muito.’”

Uma dessas brigas do padre ganhou a imprensa e rendeu uma investigação no Ministério Público de São Paulo, em setembro de 2018. “Padre de merda”, foi o que ouviu de um dos guardas da GCM naquela manhã chuvosa, enquanto enfrentava gás de pimenta, balas de borracha e até socos ao lado dos moradores de rua. Eles se refugiaram no Centro Comunitário São Martinho de Lima, na Mooca, quando a guarda municipal apareceu e começou a levar os pertences de quem estava na rua, inclusive materiais recicláveis que vendiam para sobreviver. Câmeras de segurança registraram o momento em que a GCM invadiu também o centro e começou a agredir indistintamente quem estava lá dentro, de mulheres grávidas a idosos – e até o padre. “Jogaram gás de pimenta, me deram soco no estômago, cuspiram em mim, falaram coisas horríveis”. O revide de alguns moradores de rua foi atirar pedras contra os guardas.

Judicialmente, quem descasca todos esses pepinos – cinco, para ser mais precisa – é Juliana Hashimoto, advogada responsável pelos casos do padre e dos moradores em situação de rua há dois anos. Sobre o caso da GCM, ela conta que apesar de alguns guardas envolvidos nas agressões terem sido identificados, o processo não foi encerrado e nem os culpados punidos. Enquanto isso, um morador de rua continua respondendo a um processo por dano ao patrimônio, acusado de atirar um extintor de incêndio no carro da guarda durante o conflito. No entendimento de Juliana, a acusação é injusta.

Quando pergunto sobre um outro processo envolvendo seu nome, que ganhou novas páginas em abril deste ano, o padre suspira, e sobra para a advogada responder. “Quem pode te dar todas essas informações é a Juliana, porque eu fico cansado de falar sobre isso de novo”, mas logo emenda em um outro relato sobre o mesmo assunto. “Eu te contei do que aconteceu no Oba no domingo, Andréia?”, pergunta para a secretária da paróquia, absorta em preencher papéis. Mesmo com a positiva de Andréia, resolve me contar da ameaça que sofreu na saída do supermercado, depois que comprara, como de costume, sua sopa do almoço de domingo. “O senhor que é o padre lá de baixo, que defende os vagabundos? Nós vamos matar você”, afirmou uma senhora, moradora da Mooca, assim, sem meias palavras.

Não dá para dizer que Júlio Lancellotti é bem quisto por todos os mooquenses. Os discursos de ódio contra o padre se disseminaram principalmente nas redes sociais, em que recebeu ameaças de morte e ofensas de todos os tipos. A fonte da intolerância é sua atuação junto aos moradores de rua, já que comerciantes e moradores da região o acusam de ter atraído essas pessoas para o bairro por conta da assistência que ele presta. Isso além das especulações de que o padre mantém propositalmente essas pessoas em situação indigna, sob as mais mirabolantes teorias da conspiração de que ele lucra com isso. Até mesmo o chefe de gabinete da Prefeitura Regional da Mooca já chegou a acusar Lancellotti de invadir propriedades privadas na região.

Desde o ano passado, o Ministério Público de São Paulo investiga as ameaças virtuais ao pároco, depois de receber a representação de advogados e entidades de direitos humanos. As intimidações, no entanto, não cessaram – seja nas portas dos supermercados ou nas páginas do Facebook. Em abril deste ano, fotos da fachada de sua casa foram divulgadas na página “Portal da Mooca” da rede social. Com prints da publicação, o padre denunciou em seu perfil pessoal na mesma rede: “Estão postando fotos e endereço da minha residência com clara incitação à violência. Foram fotografar a minha casa, em ameaça, por ódio à população de rua e qualquer gesto em defesa dos pobres!”

Questões de humanidade
Júlio culpa a crescente onda conservadora pela intolerância na sociedade de uma forma geral e até entre os fiéis. “Hoje o descolamento com a área social é muito maior. O pessoal tá ligado nessa linha mais fundamentalista, mais religiosa”. Pergunto pela atuação do Papa Francisco, que no mesmo instante salta na timeline do Facebook que ele gira distraidamente com o mouse enquanto conversamos. “Você viu essa foto Andréia? O papa abraçando o Raoni? Que foto linda, comovente! O Brasil quer matar os índios e o papa tá abraçando o Raoni”, exclama enquanto digita lentamente uma mensagem em seu perfil: ‘Viva o Papa Francisco, Viva RAONI, vivam os povos originários!”

Sobre o impacto de Francisco nas estruturas conservadoras da Igreja, no entanto, não é tão otimista “O Francisco não tem uma incidência na base, porque foram muito anos de neoconservadorismo. O Francisco está há 6 anos, o papa João Paulo ficou 27”. Segundo ele, tanto João Paulo II quanto Bento XVI fizeram um papado no caminho oposto ao que Francisco tenta fazer – anos contra a teologia da libertação e a luta social. Mas, segundo ele, a Igreja foi e sempre será um território de tensões e contrastes, que uma hora ou outra se revelam.

B.O.
“Padre Júlio, o que foi que aconteceu?”, conta ter ouvido a voz de Dom Odilo do outro lado da linha, sentado exatamente no mesmo lugar onde conversávamos. Em tom de risada, relembra que questionou em relação a quê, qual era o B.O. da vez. O B.O. da vez era a foto que circulava na internet do sábado anterior, 27 de julho de 2015, em que Júlio Lancellotti, ao lado do pastor evangélico José Barbosa Junior, lavava e beijava os pés da transexual Viviany Beleboni. Diante da represália do bispo, o padre afirmou que precisava usar de misericórdia para com a mulher, que era de muita fé e havia se emocionado com seu gesto. Afinal, estava também diante de Deus. “Não estamos sozinhos diante de Deus, vamos ver que repercussão isso terá”, ouviu como resposta.

No dia da foto, Júlio estava reunido com representantes de diversas outras religiões no Largo do Arouche, no ato em memória às vítimas de transfobia. Foi uma das raras ocasiões em que Viviany saiu de casa naquele ano, em função das diversas ameaças e agressões que vinha sofrendo desde junho do mesmo ano, quando desfilou crucificada na Parada Gay de São Paulo, em uma manifestação pelo fim da transfobia.

Apesar da represália, o padre voltou a repetir o gesto no ano seguinte, durante a Via Sacra do Povo da Rua. Na praça da Sé, ele interrompeu a procissão para falar com Sheila, uma transexual que acompanhava a caminhada. Depois de pedir perdão aos “irmãos e irmãs que são maltratados pela sua maneira de ser”, se ajoelhou e pediu beijou os pés da mulher.

Foi a indignação de Júlio diante da intolerância e do preconceito que o colocaram como réu em um único dentre os seis processos em que está envolvido. O autor da acusação, Jair Bolsonaro, à época ainda era deputado, mas já muito bem cotado como candidato à presidência e despontava em pesquisas prévias. No vídeo que chegou até ele, em 2017, o padre afirmava em uma homilia que “aparecer nas pesquisas que uma pessoa homofóbica, violenta como o Bolsonaro é seguida por tanta gente no Brasil é vergonhoso”. Em uma entrevista posterior, afirmou que não podia deixar de alertar a comunidade que a “homofobia, machismo, racismo e todas essas posições são inadequadas para a humanização da vida”. E quem pensa que agora que o deputado subiu a rampa do palácio do planalto e vestiu a faixa presidencial Júlio Lancellotti passou a medir as palavras está muito enganado: “Vê se o Bolsonaro dá um abraço no Raoni? Ele não quer saber dos índios”, pontua enquanto compartilha a foto de Francisco e Raoni em sua timeline com a legenda “Aí sim”.

 

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