Para onde caminha a direita americana sob Donald Trump?
A reconfiguração da direita nos Estados Unidos tornou-se um dos fenômenos políticos mais influentes do cenário global contemporâneo. Mais do que a ascensão de uma liderança específica, o trumpismo representa a formação de novas alianças sociais, culturais e ideológicas que vêm remodelando o conservadorismo norte-americano e irradiando impactos para outras democracias
A direita americana que se consolida sob a batuta de Donald Trump não pode mais ser compreendida como uma seita homogênea, movida apenas por fervor ideológico ou culto à personalidade. A pesquisa Beyond MAGA: A Profile of the Trump Coalition, realizada pelo instituto More in Common, com mais de 10 mil eleitores entrevistados entre 2025 e início de 2026, mostra que Trump governa e vence sustentado por uma coalizão ampla, diversa e tensionada internamente, unificada menos por um projeto positivo comum e mais por antagonismos compartilhados.
Antes de avançar, é preciso esclarecer o que significa MAGA. A sigla, originada do slogan Make America Great Again, ultrapassou a condição de palavra de ordem eleitoral e se transformou em um marcador político-cultural. MAGA não designa apenas apoio a Trump, mas uma visão de mundo que combina nacionalismo, desconfiança das elites institucionais, prioridade à ordem e à segurança, rejeição ao progressismo cultural e uma estética permanente de confronto. A pesquisa, no entanto, desmonta uma ideia difundida no debate público: MAGA não abarca todo o trumpismo. Trata-se de um núcleo identitário específico dentro de uma coalizão muito mais ampla.
Uma coalizão, não um culto
O dado mais simbólico do estudo é que apenas 38% dos eleitores de Trump dizem que “ser MAGA”, uma parte importante de sua identidade. Isso desmonta a ideia de que o trumpismo, em sua totalidade, constitui um movimento identitário fechado. O eleitorado se distribui em quatro grandes blocos: MAGA hardliners (29%), o núcleo mais radical e mobilizado; republicanos tradicionais ou moderados (30%), que formam a espinha dorsal da coalizão; conservadores anti-woke (21%), altamente politizados no campo cultural; e a direita relutante (20%), decisiva eleitoralmente, mas pouco entusiasmada e mais pragmática.
Essa composição revela que Trump não governa apenas para uma base militante. Ele articula interesses econômicos, ressentimentos culturais, visões morais tradicionais e uma percepção difusa de declínio nacional. O elemento aglutinador não é uma doutrina fechada, mas a sensação de que os Estados Unidos atravessam uma crise profunda, material, moral e simbólica. Como observam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, democracias entram em zonas de risco quando lideranças conseguem transformar frustrações difusas em identidades políticas duráveis, mesmo sem oferecer soluções estruturais claras.
O eixo anti-woke como cola ideológica
Se há um fio condutor que atravessa quase toda essa direita, ele se chama rejeição ao woke. Segundo a pesquisa, 75% dos eleitores de Trump veem o movimento woke como uma ameaça direta. Entre os MAGA hardliners e os conservadores anti-woke, esse percentual ultrapassa 90%. Mesmo entre os republicanos tradicionais e a direita relutante, a crítica ao progressismo cultural é majoritária.
O “woke” funciona como um significante amplo. Ele agrega desde pautas de gênero e raça até críticas à mídia, à universidade, ao sistema educacional e às elites culturais. Para essa direita, o problema não é apenas político, mas civilizacional. 76% dos eleitores de Trump afirmam que “a esquerda woke arruinou a educação, as notícias e o entretenimento nos Estados Unidos”. Jason Stanley ajuda a compreender esse mecanismo ao mostrar como movimentos autoritários constroem inimigos morais difusos, capazes de unificar grupos distintos por meio do medo e da indignação.
Quem é essa direita socialmente
Os MAGA hardliners formam o grupo mais coeso e ideologizado. Tendem a ser mais velhos, menos escolarizados e mais religiosos. 74% afirmam que apoiar Trump faz parte de viver sua fé, e 94% acreditam que Deus salvou Trump de um atentado para que ele “fizesse a América grande novamente”. Para esse segmento, política e transcendência se misturam, e a disputa com a esquerda assume contornos morais, quase escatológicos. An
A reconfiguração da direita nos Estados Unidos tornou-se um dos fenômenos políticos mais influentes do cenário global contemporâneo. Mais do que a ascensão de uma liderança específica, o trumpismo representa a formação de novas alianças sociais, culturais e ideológicas que vêm remodelando o conservadorismo norte-americano e irradiando impactos para outras democracias
ne Applebaum descreve esse tipo de adesão como uma forma de pertencimento identitário que substitui instituições tradicionais em crise.

Os conservadores anti-woke são mais escolarizados e economicamente estáveis. Enxergam Trump menos como um messias e mais como um instrumento eficaz para conter o avanço progressista nas escolas, empresas e instituições culturais. Já os republicanos tradicionais veem em Trump um líder funcional, capaz de garantir fronteiras, crescimento econômico e estabilidade, mesmo discordando de seu estilo pessoal. A direita relutante, por fim, vota de forma transacional. Apenas 41% desse grupo dizem manter confiança plena no voto em Trump, e muitos o veem como “o menos pior” diante da alternativa democrata.
A juventude conservadora e o novo tradicionalismo
Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito aos jovens. Entre eleitores de Trump da Geração Z e millennials, emerge um novo tradicionalismo, que combina conservadorismo moral, crítica ao liberalismo cultural e desconfiança das instituições democráticas. 26% dos jovens trumpistas acreditam que o homem deve liderar e a mulher deve seguir, mais que o dobro do percentual entre jovens não trumpistas. 49% afirmam que a cultura americana precisa de mais masculinidade, e 43% consideram que ser religioso hoje é mais rebelde do que ser ateu.
Mais preocupante, quase 48% desses jovens aceitariam que Trump ignorasse decisões da Suprema Corte se isso ajudasse a “consertar a América”. Wendy Brown ajuda a interpretar esse fenômeno ao mostrar como crises do neoliberalismo produzem sujeitos politicamente disponíveis para soluções autoritárias travestidas de ordem moral.
Religião, mundo e inimigos
A religião opera como eixo estruturante apenas em parte da coalizão, mas sua influência simbólica se espalha. Mesmo entre eleitores menos religiosos, há uma leitura moralizada da política. 75% dos eleitores de Trump acreditam que os valores morais do país estão em declínio, e 87% veem imigração, crime e pobreza urbana como sinais de uma crise nacional.
A esquerda é percebida não apenas como adversária política, mas como grupo que despreza “pessoas como eles”. Apenas 21% dos eleitores de Trump acreditam que políticos democratas os respeitam, enquanto 84% dizem se sentir respeitados por Trump. Arlie Hochschild descreve esse sentimento como a experiência de ser “estranho em sua própria terra”, uma chave essencial para compreender a lealdade emocional ao líder.
Impactos diretos no Brasil
Os efeitos do trumpismo não se limitam ao território americano. O Brasil, historicamente, tende a importar repertórios ideológicos, linguagens políticas e estratégias discursivas produzidas nos Estados Unidos, sobretudo no campo da direita. Não se trata de cópia mecânica, mas de adaptação.
O eixo anti-woke já opera no Brasil como categoria agregadora. Ele permite unir liberais econômicos, conservadores morais, setores religiosos e populistas digitais em torno de inimigos comuns como universidades, imprensa, artistas, professores e movimentos identitários. Como mostra Camila Rocha, essa convergência é fundamental para a construção de ecossistemas de direita no país.
A centralidade da religião como legitimadora política também encontra terreno fértil no Brasil, especialmente no campo evangélico. Assim como entre os MAGA hardliners, a política passa a ser vivida como missão moral. Isso reduz o espaço para negociação e transforma adversários em ameaças existenciais.
Outro impacto relevante é a normalização da erosão institucional. Quando parte significativa de uma base aceita flexibilizar regras em nome de uma suposta salvação nacional, cria-se um ambiente propício para ataques a tribunais, órgãos de controle e imprensa. Lilia Schwarcz e Leonardo Avritzer mostram como essa lógica encontra ecos profundos na história política brasileira.
Considerações finais
A direita americana sob Donald Trump não caminha para a homogeneização, mas para a consolidação de uma coalizão de guerra cultural, sustentada por ressentimentos compartilhados, rejeição ao progressismo e desconfiança das instituições. Ao mesmo tempo, carrega tensões internas entre pragmatismo e radicalização, entre ordem institucional e tentação autoritária.
Compreender essa dinâmica é essencial não apenas para entender os Estados Unidos, mas para antecipar movimentos da direita no Brasil e em outras democracias periféricas. O trumpismo não é apenas um fenômeno eleitoral. É um laboratório político cujos efeitos já atravessam fronteiras.
Marcio Ferreira é jornalista, Mestre em Sociologia e Doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ/UCAM

