RESENHA

‘Paralelo 11’: os selvagens somos nós

O livro de Sandra Gondinho, Paralelo 11 (Ed. Faria e Silva, 2026), aborda um dos acontecimentos mais vergonhosos e revoltantes da nossa história: o massacre contra a nação indígena Panderj, conhecidos pelos ocidentais como Cinta-Larga, ocorrido em 1963, entre os estados de Rondônia e Mato Grosso 

Crédito: Divulgação

O célebre historiador Edward Gibbons escreveu que a história é um quadro de crimes e perversidades do gênero humano. Nada mais verdadeiro. Quando olhamos para a história da América Latina (Abya Yala) e da Amazônia em particular, notamos a onipresença da violência em toda sua história: etnocídio, ecocídio, epistemicídio, dominação violenta dos fortes sobre os fracos, guerra de todos contra todos, patrimonialismo, familismo, personalismo, opressão das oligarquias locais sobre o cidadão comum, entre tantos outros. Falar sobre esses acontecimentos que determinaram aquilo que somos enquanto sociedade é um dever tanto para as ciências humanas quanto para a literatura. A boa ficção deve revelar aquilo que o senso comum vigente e os poderes constituídos teimam em ignorar. 

Digo isso porque o livro de Sandra Gondinho, Paralelo 11 (Ed. Faria e Silva, 2026), aborda um dos acontecimentos mais vergonhosos e revoltantes da nossa história: o massacre contra a nação indígena Panderj, conhecidos pelos ocidentais como Cinta-Larga, ocorrido em 1963, entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Pelo menos três mil e quinhentos indígenas morreram, envenenados ou executados a tiros e golpes de facão, além de estupros e torturas. A matança ocorreu a mando de empresários interessados em roubar-lhes a terra. Até hoje ninguém foi punido. 

Paralelo 11 narra a trajetória de Alma, uma nordestina que sofre de depressão pela morte do filho pequeno e migra para a Amazônia junto ao marido Firmino para tentar uma vida melhor. Submetida a rotina de exploração, humilhação e violência dentro do seringal, ela aos poucos perde a fé de que a vida na floresta profunda tenha algum sentido. O casal, ao lado de outros serigueiros, são escravizados pelo Coronel Tenório, empresário que usa a exploração do seringal como pano de fundo para se apropriar da rica terra indígena. O auge da brutalidade ocorre quando o Coronel ordena a invasão do território dos indígenas e um massacre inominável é consumado. 

A forma escolhida por Godinho para o livro é acertada. Narrado em primeira pessoa por Alma e intercalado por trechos dos diários do Padre Jonas, ambos os personagens questionam o problema do mal no mundo e a brutalidade dos ditos civilizados contra os supostos selvagens. O estilo é marcado por uma prosa delicada, poética, contemplativa, pontuada pelas explosões de violência desse mundo cruel que é o nosso. Em vários momentos lembrei de Terence Marlick e seu jeito filosófico de produzir seus filmes. 

Paralelo 11 é uma obra complexa, multifacetada, podendo ser analisada sob vários prismas. O problema do mal no mundo e a falta ou omissão de uma divindade para impedir tanta barbárie. O luto pela morte de um filho. A questão de gênero, onde meninas indígenas são jogadas naquele mundo e sujeitas a todo tipo de abusos, bem como as mulheres dos seringueiros, forçadas a se prostituírem para quitar as dívidas com seringalistas. A mentalidade de colônia que predomina no Brasil profundo e a forma como o nosso país sempre tratou os povos originários, o meio ambiente e a Amazônia, como um lugar bárbaro a ser conquistado e explorado a todo custo. A leitura lembrou-me da obra Servidão Humana na Selva, do sociólogo Carlos Teixeira, ao mostrar como milhares de seres humanos, seduzidos pela melhora de vida, migraram do nordeste para o norte e se tornaram escravos eternos de um complexo econômico cruel. 

O livro de Sandra Gondinho jamais perderá a atualidade pelas questões que trata. Hoje, quando vivenciamos as mudanças climáticas, a devastação ambiental avançando sobre a região e os abusos sofridos pelas populações tradicionais, temos um romance histórico para jogar luz sobre aquilo que nossa civilização teima em esconder ou minimizar: de que ela foi construída sobre os escombros de homens, mulheres, animais, plantas e rios para satisfazer nosso ímpeto de acumulação e domínio. 

 

Ricardo Kaate Lime é Manaura, doutor em ciências sociais pela UNESP, vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus (2022) e autor de O Fim de Todas as Coisas (Porto de Lenha, 2021) e A Lança de Anhangá (Cachalote, 2024).

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