Parlamentares da extrema direita são pautados por acertos da campanha do Lula
Proibição das Bets, aumento do Bolsa Família e controvérsias em torno de Nossa Senhora Aparecida aquecem o debate nas redes de lideranças políticas evangélicas para disputar as narrativas da esquerda
Em uma campanha eleitoral, não importa apenas quem alcança mais pessoas. Há outra disputa acontecendo ao mesmo tempo: quem consegue colocar temas em circulação, definir os termos do debate e fazer o adversário responder.
Durante boa parte da eleição, essa foi uma vantagem importante da extrema direita nas redes que acompanhamos. Lideranças políticas e religiosas com grande capacidade de mobilização produziram temas, enquadramentos e antagonismos que transbordaram para o restante da disputa. Na reta final, porém, apareceu um movimento diferente: a campanha de Lula também conseguiu colocar assuntos na agenda aos quais algumas das principais vozes da extrema direita precisaram reagir.
É o que identificamos na nona edição do monitoramento Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. Pela primeira vez na série, lideranças da extrema direita tiveram alcance relevante respondendo diretamente a pautas e movimentos da campanha de Lula. Até então, a dinâmica observada era predominantemente inversa.
As respostas partiram de assuntos diferentes, mas revelam uma preocupação comum: disputar o sentido de pautas e acontecimentos que poderiam favorecer a campanha adversária. Em vez de ignorá-los, lideranças da extrema direita buscaram incorporá-los às suas próprias narrativas, atribuindo a Lula responsabilidade pelos problemas que denunciavam e reforçando a rejeição ao presidente como argumento eleitoral.
Nikolas Ferreira é um dos exemplos mais claros. Ao comentar medidas relacionadas às casas de apostas, procurou inverter o enquadramento da ação do governo e apresentar Lula como responsável pelo próprio problema que dizia combater. A reação é significativa porque ocorre diante de uma medida que permitia à campanha governista reivindicar uma resposta a um tema de forte apelo social. A disputa, portanto, deixa de ser apenas sobre as bets e passa a ser também sobre quem pode reivindicar politicamente seu enfrentamento.
Movimento semelhante aparece na reação de Magno Malta ao reajuste do Bolsa Família. Ao classificar a medida como tentativa de “comprar o voto do pobre”, o senador procura neutralizar um tema historicamente associado à base social de Lula e converter uma política de transferência de renda em evidência de oportunismo eleitoral. Mais do que contestar a medida, a narrativa disputa o significado político de seus possíveis efeitos às vésperas da votação.

As controvérsias em torno de Nossa Senhora Aparecida também entram nessa dinâmica. O episódio abriu uma nova frente de disputa em torno da relação das candidaturas com o eleitorado cristão e passou a exigir respostas de atores ligados à direita. Em temas diferentes, aparece assim um movimento semelhante: uma pauta ganha circulação e lideranças da extrema direita trabalham para reenquadrá-la antes que sua interpretação seja estabilizada pelo adversário.
O apelo de Eduardo Bolsonaro de que “voto nulo é voto no Lula” acrescenta outra dimensão a esse movimento. A mensagem já não se concentra apenas em promover Flávio Bolsonaro, mas em elevar o custo eleitoral de não votar nele. A rejeição a Lula passa a funcionar como argumento para mobilizar eleitores que poderiam optar pela abstenção ou pelo voto nulo.
Ao mesmo tempo, o monitoramento registra maior presença de lideranças da esquerda. O principal destaque é André Janones, com 3,74 milhões de interações em 100 publicações. Ele chegou ao quinto lugar no ranking geral, atrás apenas de Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Eduardo Bolsonaro. Benedita da Silva, Marina Silva e Henrique Vieira também aparecem entre os destaques.
Na esquerda evangélica, cresceram pedidos de voto, divulgação de eventos e chamadas para que seguidores ajudassem a distribuir conteúdos. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito formalizou apoio a Lula e alcançou 277 mil interações em uma publicação que questionava justamente a ideia de um “voto evangélico” homogêneo.
Esses movimentos, entretanto, não autorizam falar em uma inversão da correlação de forças nas redes. Alcance digital, mobilização religiosa e intenção de voto são fenômenos diferentes. Também não é possível concluir, a partir do monitoramento, que o crescimento da presença da esquerda tenha provocado as reações da extrema direita. O que os dados permitem observar é mais específico e, na reta final do primeiro turno, politicamente relevante: a disputa pela iniciativa ficou mais aberta.
A extrema direita segue produzindo conteúdos capazes de alcançar milhões de pessoas e continua demonstrando grande capacidade de impor seus próprios enquadramentos. Mas, pela primeira vez nesta série de monitoramento, algumas de suas principais lideranças também aparecem mobilizando suas audiências para responder diretamente a temas colocados em circulação pela campanha de Lula.
Uma campanha bem-sucedida nas redes não é apenas aquela que consegue fazer sua mensagem chegar ao maior número de pessoas. Também disputa sobre o que se fala, quais perguntas precisam ser respondidas e em quais termos os adversários precisam se posicionar.
Às vésperas do primeiro turno, a mudança observada não permite afirmar quem venceu essa disputa. Mostra, porém, que ela já não acontece apenas em uma direção. Quando quem estava acostumado a pautar o debate também precisa responder ao adversário, a disputa pela agenda passa a ser um elemento importante da própria corrida eleitoral.
Andréa Laís é assessora de Campanhas e pesquisadora da Casa Galileia, doutora em Ciências Sociais pela UFBA; Flávio Conrado é diretor de Campanhas da Casa Galileia, antropólogo e doutor em Sociologia e Antropologia pela UFRJ.

