ENTREVISTA

Paulliny Tort: ‘Dentro e fora da literatura, meu olhar acaba me levando para o mundo natural’

Autora de Os imortais é a quarta entrevistada do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor

A quarta entrevistada do especial em comemoração ao Dia Nacional do Escritor, celebrado em 25 de julho, é Paulliny Tort. Nascida em Brasília (DF), a autora acaba de publicar um dos livros brasileiros mais originais dos últimos anos: Os imortais (Fósforo), obra que é ambientada na pré-história e reconstrói um mundo anterior à linguagem tal como a conhecemos.

Erva brava (Fósforo), seu primeiro livro de contos, foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e finalista do prêmio Jabuti 2022. Estreou na literatura em 2016, com o romance Allegro ma non troppo (Oito e Meio), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura.

Ao longo da entrevista, a escritora fala sobre temas como as dificuldades enfrentadas por ficcionistas no Brasil e a sua paixão pelas ciências da natureza. Confira na íntegra:

Os imortais é um dos livros mais originais da literatura brasileira nos últimos anos, tanto no que se refere à linguagem quanto no que diz respeito ao enredo. Como surgiu a ideia para escrevê-lo? Quais foram os principais desafios?

O Homem foi o primeiro personagem a aparecer para mim, na cena da caça aos javalis. A partir dele, fui conhecendo os outros personagens e os caminhos da narrativa. Ele foi meu cicerone. O principal desafio foi pagar as contas enquanto passava a maior parte das minhas horas com ele nesse mundo maravilhoso. Há países que subsidiam fortemente seus escritores, governos e sociedades que entendem a literatura como produto nacional, mas acho que aqui ainda não alcançamos isso. Em geral, criadores brasileiros precisam de um grau extra de perseverança.

Como foi o período de pesquisa literária e científica para escrever Os imortais? O que mais a encantou ao longo desse processo?

Como já disse em algumas entrevistas, não fiz pesquisa especificamente para o livro, mas venho de uma longa relação de paixão e curiosidade com as ciências da natureza, graças ao que passei por alguns cursos, como engenharia florestal e biologia, e mais recentemente pude realizar um estágio em primatologia. Também não houve pesquisa literária voltada para Os imortais, apenas li o que gosto de ler.

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?

Dentro e fora da literatura, meu olhar acaba me levando para o mundo natural, que nos dá tudo e que tratamos como se coisa fosse, mas que é feito de existências cheias de sensibilidade e independentes de nós. Embora também sejamos naturais, frequentemente nos esquecemos disso. Talvez eu olhe para esse elo, para o que ainda existe dele. E para o que dele se perdeu.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

Quase nunca releio, porque há muitos livros pela frente, mas uma obra de consulta são as Metamorfoses, do Ovídio. É um livro que concentra duas das minhas predileções: literatura antiga e narrativas breves.

Foto: Divulgação

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse uma leitora? E uma escritora?

Sou leitora desde os quatro anos de idade, os livros estão nas minhas memórias mais remotas, então nunca houve uma chave que virou de “não leitora” para “leitora”. Há fotos minhas ainda bebê com livros nas mãos. E embora o fôlego e a vontade de publicar tenham surgido mais tarde, escrevo desde muito jovem também. Por isso, não reconheço esses marcos, esses pontos de virada. De Fernando Pessoa a Cora Coralina, de Sófocles a Saramago, muitos autores me inspiraram e inspiram a escrever. Até os livros de que não gostamos nos mostram alguma coisa interessante sobre a escrita.

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?

Celebramos as leitoras e os leitores de ficção, sempre. São eles que fazem com que existam editoras, livrarias e críticos interessados nas imaginações dos escritores. Sobre as preocupações, precisamos de mais incentivo à criação, com editais sérios, bem pensados. Compra garantida de livros publicados, estipêndios estatais e pagamento de direitos de empréstimo em bibliotecas são exemplos de políticas públicas já aplicadas em outros países com efeitos reais sobre a produção literária.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?

O poeta paraense Max Martins. Caminho de Marahu, publicado em 1983, é uma joia.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?

Desaconselho todos os conselhos. É uma contradição, eu sei, mas acredito que o melhor conselho é o da sua cabeça. Se você errar, pelo menos o erro será seu. Ninguém pode andar com os nossos passos. Crescer é tomar consciência disso, do poder que temos sobre nossas escolhas.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.

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