LITERATURA

Paulo Lins: ‘as pessoas mais excluídas do meu tempo são os migrantes nordestinos e os negros’

Autor de livros como Cidade de Deus e Desde que o Samba é Samba é o sétimo entrevistado do especial do Le Monde Diplomatique Brasil

Com extensa produção em diversos gêneros literários e vasta experiência como roteirista, o escritor Paulo Lins – autor de um dos livros mais importantes da literatura brasileira contemporânea, Cidade de Deus – é o sétimo entrevistado do especial do Le Monde Diplomatique Brasil em comemoração ao Dia Nacional do Escritor (25 de julho).

Ao longo da entrevista, o carioca bordou o seu envolvimento com questões sociais, destacou a importância da filosofia em sua produção ficcional e celebrou a presença de mais mulheres e negros e negras no cenário literário brasileiro.

“A maior parte do que eu escrevi, tanto livro quanto roteiro de cinema, está muito ligada a temas sociais, como a periferia, a questão das pessoas pretas no Brasil, a discriminação e a criminalidade. Eu não consigo me libertar disso. Enquanto não existir equidade racial e social, esse tema vai se manter dentro de mim”, afirmou o autor.

Paulo Lins.
Crédito: Flávia Helena

Confira a entrevista na íntegra:

Qual tema é a sua grande obsessão como ficcionista? De que forma esse tema se relaciona com a sua vida fora da literatura?

Eu estava conversando com a minha companheira, que é escritora, e ela fala que eu sou bem realista. Como eu venho de uma vida política muito agitada, dentro do Partido dos Trabalhadores (PT), dentro do movimento negro, dentro das associações de moradores das comunidades onde eu morei, na Cidade de Deus, por exemplo, a minha infância foi toda marcada por uma questão política. Então, sou bastante ligado aos movimentos, às questões sociais e às pessoas excluídas. A maior parte do que eu escrevi, tanto livro quanto roteiro de cinema, está muito ligada a temas sociais, como a periferia, a questão das pessoas pretas no Brasil, a discriminação e a criminalidade. Eu não consigo me libertar disso. Enquanto não existir equidade racial e social, esse tema vai se manter dentro de mim.

Para escrever um bom livro, o enredo e a linguagem têm a mesma importância?

Para mim, a linguagem é mais importante. Você vai ter que trabalhar a linguagem. E como é que é trabalhada essa linguagem? Eu trabalho dialogando com as coisas que eu gosto, os livros que eu li. A literatura é isso, para todo mundo é assim.

Você só escreve porque você lê. Se você não lê, você não escreve. Então, a escrita criativa é um diálogo constante com aqueles livros que você leu, que você gosta da linguagem, da forma que foi escrita, da forma poética.

Agora, eu não estou só ligado na literatura. Eu trabalho com história, eu trabalho com sociologia, eu trabalho com filosofia. Às vezes, um assunto, um capítulo, um tema, um assunto, vem totalmente da filosofia.

Vem de Platão, vem de Aristóteles, vem de Nietzsche, vem de qualquer um. Às vezes, vem da história, do momento histórico do Brasil, do mundo, do Império Romano. Vem do Renascimento, vem do momento histórico que está na sua mente, na sua literatura.

E, às vezes, vem de uma reportagem, vem de uma coisa que aconteceu. Algo que pode ter acontecido com o seu vizinho ou com o seu amigo. É muito relativo, você tem que estar ligado em tudo.

Mas é esse diálogo constante com o que você leu. O primordial são os livros que eu li, que eu gostei, que eu gosto muito. E pode parecer muita pretensão, mas quero dialogar com escritores como o Machado de Assis. E até para “roubar” algo. Roubar do Machado, do Graciliano, do Maiakovski, do Tolstói, do Balzac, do Aristóteles, do Nietzsche, roubar de todo mundo. Escrever é roubar.

Qual livro você mais gosta de reler? Por quê?

São dois: A História da Loucura, do Michel Foucault, e Fogo Morto, do José Lins do Rego. A História da Loucura é algo que permite que você entenda o pensamento humano, a ideia humana da organização, do que é o certo, do que é o errado em cada sociedade, a concepção da ética, da moral, dos padrões. O louco está fora do padrão. O Michel Foucault explica isso de uma forma muito boa.

Já o José Lins do Rego foi uma coisa que, quando eu fui escrever Cidade de Deus, eu vi que a população que estava na favela não era só de pessoas afrodescendentes. Eu vi um Brasil da seca, dos migrantes nordestinos que estavam ali juntos – e alguns deles também racistas e, mesmo morando na mesma favela, faziam piadas, brincadeiras com os negros, coisa que hoje o povo negro não aceita mais.

Mas eu vi um pessoal chegando nessa favela. E o José Lins do Rego vai mostrar nesse livro o final do ciclo da cana-de-açúcar, quando as pessoas saem do Nordeste e vêm para cá, para o Sudeste.

E na Rocinha, por exemplo, há muitos nordestinos. Então, as pessoas mais excluídas do meu tempo são os migrantes nordestinos e os negros. Essa coisa que todo mundo sabe que foi o Brasil, a escravização, essas coisas todas.

Qual obra literária foi essencial para que você se tornasse um leitor? E um escritor?

O livro que me tornou leitor foi Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), que me mostrou que posso mudar a minha vida, que posso crescer, voar mais alto, andar mais rápido, ir para onde eu quiser. Isso me pegou.

Agora, escritor, eu comecei pela poesia. Comecei fazendo samba, então fui bastante influenciado por Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Beto sem Braço, Luiz Melodia, Caetano, Chico.

Mas na prosa, fico com Crime e Castigo, do Dostoiévski. Queria falar um brasileiro, mas pelo amor de Deus, aquele livro é muito bom. “Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na Travessa S, ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.”. Já começa assim, é genial.

Em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Na atualidade, o que os autores e as autoras mais têm a celebrar no país? E com o que eles e elas devem se preocupar?

Desde o final do século passado apareceram várias escritoras. Isso é algo que devemos celebrar, porque até então a literatura era dominada por homens. E também passamos a ter a presença de escritores afrodescendentes, homens e mulheres, no mercado, inclusive alguns bem conhecidos.

Eu acho isso muito importante, assim como a presença de vários estudantes universitários em todas as áreas, negros e negras.

A gente que veio da política, a gente sempre achou que o que daria equidade racial e social seria a verdadeira educação. Isso é fundamental, assim como ter escritores negros e escritoras negras emais mulheres escrevendo.

Já em relação às preocupações, lembro que o Paulo Leminski dizia que a única coisa que pode olhar a filosofia cara a cara é a poesia. E isso tem a ver com sempre trabalhar com a verdade humana.

O que é a poesia? O que é a filosofia? O que sempre foi tudo dentro da literatura? Podemos passar por todas as etapas do mundo, percorrer vários momentos da humanidade e constatar que a literatura vai ser literatura hoje, amanhã e sempre. Mesmo você escrevendo sobre uma coisa determinada, dentro dessa coisa determinada, você tem que ter uma verdade filosófica, uma verdade humana, porque senão o seu livro não vai prosseguir, não vai atravessar os tempos.

É por isso que a gente lê Dostoievski e parece ter sido escrito hoje. A gente lê Shakespeare e fica com essa mesma sensação. Porque são autores que trabalharam com a verdade humana, que é a poesia, é a filosofia. O mundo já passou por duas guerras mundiais, por processos de escravização, pelo Império Romano, pela inquisição, enfim, momentos em que o mundo foi muito violento, mas a filosofia e a poesia continuam aí.

É por isso que você, vivendo no século XXI, pode ler muito do que foi produzido nos séculos XVIII e XIX, como Machado de Assis, por exemplo, e vai perceber que ainda é atual. Então, não é só você pegar e trabalhar num momento histórico. Você vai trabalhar dentro daquele momento histórico, por exemplo, a questão da violência que eu trabalhei, mas ali tem que ter uma verdade que vai atravessar os tempos, para que o ser humano, daqui a quatro ou cinco mil anos, continue a entender o que você quer dizer, porque é uma verdade humana.

Em sua opinião, qual escritor ou escritora merece maior atenção de leitores, leitoras, editoras e da crítica especializada no Brasil?

O Lima Barreto (1881-1922). Sua obra está ligada a fatos históricos e faz uma profunda análise da sociedade carioca do seu tempo. Foi um dos escritores que eu me inspirei para escrever Desde que o Samba é Samba e Cidade de Deus.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu no meio literário? E o pior?

O melhor conselho foi o do Roberto Schwarz, que me falou para colocar sentimento na minha escrita. E o pior conselho foi de uma pessoa que disse que eu deveria fazer uma coisa de vanguarda e nomear os meus personagens com números, como um, dois, três e quatro, num texto sem parágrafos nem nada. Foi numa época em que estava forte a discussão sobre vanguarda e parecia que tudo que você escrevesse deveria vir acompanhado dessa ideia.

O que move sua escrita?

Eu tenho uma necessidade de escrever. Às vezes, eu estou de férias, e vem uma coisa na cabeça, de forma espontânea mesmo, e eu tento escrever. É uma necessidade, eu não sei se é biológica, mas é uma necessidade.

Eu vivo de escrever há muitos anos, mas, mesmo se eu não vivesse de escrever, eu escreveria. É uma necessidade de me comunicar com o futuro e com o passado, uma necessidade de ajudar as pessoas a entenderem o que é o Brasil. Para a gente não repetir os mesmos erros. Para a gente aprender com o que já foi escrito.

Sobre o autor

Paulo Lins é poeta, romancista, roteirista e professor licenciado em Língua Portuguesa e Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor de livros como Cidade de Deus (adaptado para o cinema com quatro indicações para o Oscar), Desde que o Samba é Samba e Dois Amores.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas

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