Paz agora - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Paz agora

por Ignacio Ramonet
1 de abril de 2002
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Há, entre israelenses e palestinos, uma maioria de cidadãos que deseja avançar rumo à paz e à reconciliação. Mas os sabotadores da paz mergulham a região numa engrenagem homicidaIgnacio Ramonet

A paz, uma paz total, em todos os territórios, a totalidade dos territórios. Proposto no mês de fevereiro pelo príncipe Abdallah e aprovado por unanimidade pela reunião de cúpula árabe em Beirute, no dia 26 de março de 2002, o plano saudita tinha o mérito de ser simples. Israel recuaria para suas fronteiras de 4 de junho de 1967, a Síria recuperaria as colinas de Golan, o Estado palestino seria criado na Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, e, por seu lado, os vinte e dois países da Liga Árabe reatariam relações diplomáticas completas com Israel, estabelecendo vínculos comerciais normais e se empenhando em garantir a segurança de suas fronteiras1.

Um recuo total em nome de uma paz total. Essa límpida equação desencadeou um interesse apaixonado nas chancelarias internacionais. E, no entanto, não é uma proposta nova: o princípio de trocar a paz pelos territórios consta das Resoluções 242 (de 1967) e 338 (de 1973), adotadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foi também com base nesse postulado que foram conduzidas as negociações da Conferência de Madri, em 1991, e assinado o acordo de Oslo – agora desfeito – entre israelenses e palestinos. As negociações de Camp David, em julho de 2000, pouco antes de explodir a segunda Intifada, e em seguida as de Taba2, que ficaram conhecidas como “última chance”, em janeiro de 2001, também se basearam no princípio de trocar as terras pela paz.

O esgotamento da violência

Os crimes cometidos pelo Exército durante a ocupação das cidades da Cisjordânia deterioraram a imagem de Israel, indignando, inclusive, os próprios israelenses

Se nada tem de original, por que, então, essa iniciativa saudita suscitaria tamanha esperança? Porque surge num momento excepcional. Quando, simultaneamente, três dinâmicas parecem esgotar-se.

Quais seriam essas dinâmicas? Em primeiro lugar, a estratégia da violência adotada pelo general Sharon para deter os palestinos, obrigando-os a aceitar, em nome do conceito religioso da “Grande Israel”, a colonização definitiva3 de uma parte dos territórios internacionalmente reconhecidos como pertencentes à Palestina. O uso exagerado da força, com a adoção de meios de combate desproporcionais (navios de guerra, caças-bombardeiros F16, helicópteros, blindados, tanques pesados), contra uma população amplamente desarmada, não produziu os efeitos desejados pelo general Sharon e seu Estado-Maior. Ocorreu o contrário. Nunca os israelenses tiveram tantas perdas de vidas humanas4; nunca a insegurança – inclusive dentro do território israelense – foi tão grande.

Além disso, os crimes cometidos pelo Exército durante a ocupação das cidades da Cisjordânia deterioraram a imagem de Israel, em escala internacional, indignando, inclusive, os próprios israelenses5. No dia 12 de março, por exemplo, a organização B?Tselem divulgou a seguinte declaração: “Em cada cidade ou campo de refugiados onde entraram, os soldados israelenses fizeram sempre a mesma coisa: atiraram a esmo, matando civis inocentes, destruíram propositalmente a canalização de água potável, as infra-estruturas de energia elétrica e telefones, invadiram e saquearam casas particulares, atiraram em ambulâncias e impediram os feridos de serem socorridos…” Dentro do próprio exército, o número de corajosos oficiais que dizem “não” a esse tipo de comportamento e à ocupação da Palestina não pára de crescer6. E, por fim, pesquisas de opinião pública confirmam que 60% dos israelenses são favoráveis à evacuação de algumas colônias, 63% aprovam a criação de um Estado palestino e 67% se dizem insatisfeitos com o general Sharon7.

Os EUA em cena

Uma vez mais, pareciam reunidas as condições que permitiriam avançar rumo ao fim do conflito. Com a respiração suspensa, os povos da região esperavam por um milagre

A segunda dinâmica à beira da exaustão é a resistência dos palestinos. Embora não o queira reconhecer, a população não agüenta mais. Os golpes recebidos foram consideráveis, inúmeros dirigentes de organizações armadas foram liquidados, vítimas de “execuções planejadas”, e a infra-estrutura do embrião de Estado palestino está em ruínas. Esse desespero disseminado alimenta a estratégia criminosa dos atentados suicidas contra civis em Israel, que chocam a opinião pública internacional e mantêm uma parte dos cidadãos israelenses na dependência de Ariel Sharon. Os dirigentes palestinos que ainda defendem o terrorismo continuam ignorando o caráter democrático de uma sociedade israelense que tem a liberdade de escolher seus governantes. Quanto mais for vítima de ataques terroristas, mais ela tenderá a elegê-los entre os mais intransigentes. Já é tempo que cresça, dentro da sociedade palestina, um movimento pacifista forte, que possa aliar-se ao movimento pacifista israelense. É esse o sentido da iniciativa de Yasser Abed Rabbo e Yossi Beilin (leia, nesta edição, o artigo escrito por ambos). Todas as pesquisas o confirmam: há, em ambos os povos, uma maioria de cidadãos que deseja avançar, rumo à paz e à reconciliação.

Finalmente, a terceira dinâmica que se esgota é a da parcialidade dos Estados Unidos em favor de Israel. O vice-presidente Richard Cheney pôde avaliar, durante sua recente visita aos países árabes da região, como a atitude de Washington é objeto de críticas radicais, a ponto de trazer de volta o povo às ruas. O que também impede a criação da indispensável aliança que deveria preceder uma nova grande ofensiva contra o Iraque…

Uma vez mais, pareciam reunidas as condições que permitiriam avançar rumo ao fim do conflito. Com a respiração suspensa, os povos da região esperavam por um milagre. Mas os sabotadores da paz estavam à espreita, na sombra… Optando por uma ofensiva em grande escala contra a Autoridade Palestina e todas as suas instituições, como resposta a um atentado suicida perpetrado pelo Hamas – contra o qual não foi realizado qualquer ataque por parte de Israel -, o governo do general Ariel Sharon decidiu, com o apoio norte-americano, pulverizar qualquer esperança de paz, mergulhar seu país e a Palestina numa engrenagem homicida e arrastar a região para a guerra. (Trad.: Jô Amado)

1Atualmente, o Egito e a Jordânia são os únicos países árabes que assinaram um tratado de paz com Israel.
2Le Monde diplomatique, setembro de 2001.
3Desde que o general Sharon foi eleito primeiro-ministro – momento a partir do qual não pararam os confrontos entre israelenses e palestinos – a colonização judia de Gaza e da Cisjordânia prosseguiu. Contrariando as recomendações do Relatório Mitchell, que exigia a suspensão imediata da construção de colônias, 34 novas colônias foram criadas depois de fevereiro de 2001. Fonte: International Herald Tribune, 20 de março de 2002.
4Quando Sharon se elegeu, em fevereiro de 2001, a Intifada provocara a morte de 50 israelenses; no final de março de 2002, esse número já passa

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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