ENTREVISTA

Percorrer a cidade pela noitada: Veraneio e o legado da discotecagem paulistana

Dinho e Jean Pereira, filho e neto de Seu Osvaldo, pioneiro da discotecagem no Brasil, falam sobre a cultura dos bailes e as relações que a música ainda cria em São Paulo

Em uma noite qualquer em São Paulo, é provável que ao menos uma dezena de espaços espalhados pela cidade estejam promovendo performances de DJs. Das baladas aos restaurantes, entre vernissages e lançamentos, a noitada paulistana é sonorizada pelos mais variados tipos de discotecagem, e essa história não é de hoje. Ela começa na década de 1950, quando Osvaldo Pereira, técnico de eletrônica e apaixonado por rádio, hoje com 92 anos, começou a construir seus próprios equipamentos de som para animar bailes na Vila Guilherme, na Zona Norte.

 

Em 1958, ele levou a experiência para o centro de São Paulo e criou a Orquestra Invisível Let’s Dance: era como os antigos bailes de gala, mas as cortinas se fechavam e, no lugar de uma banda, Osvaldo manipulava discos em uma vitrola com som amplificado pelo equipamento que ele tinha desenvolvido. O que na época foi chamado de “música mecânica” foi a fundação do que hoje conhecemos como o trabalho dos DJs. Quase 70 anos depois, seu filho Dinho Pereira e seu neto Jean Pereira continuam a animar pistas de dança com a Veraneio, dupla que leva adiante essa história familiar de discotecagem, do baile e das tradições da música negra em São Paulo.

 

Seu Osvaldo chegou a São Paulo na juventude, vindo de Muzambinho, Minas Gerais. Dinho conta que seu pai morava em uma região da cidade que ficou conhecida como Brejo Alegre, por conta da cantoria que embalava as noites da vizinhança. Ele também já é velho conhecido da noite paulistana: desde que aprendeu o ofício da família através de seu irmão, DJ Tadeu Pereira, se dedica à discotecagem. A ênfase de seu trabalho frequentemente foi o samba rock, também chamado de baile de nostalgia, estilo criado nas periferias de São Paulo misturando samba, soul e rock.

 

Jean entrou na pista logo que saiu do ensino médio, depois da pandemia. Ele cresceu entre os discos da casa do avô e sempre acompanhou o trabalho do pai e dos tios no samba rock. Parte de uma geração encantada pelas possibilidades criativas que o digital trouxe à discotecagem, ele começou a tocar com o pai em 2022, quando surgiu a Veraneio – o nome da festa é uma homenagem ao antigo carro do Seu Osvaldo, um Chevrolet Veraneio.

 

Em um café de frente para a praça da República, Jean e Dinho contam sobre a honra de carregar o legado da família e embalar as noites de São Paulo com uma mistura de ritmos que perpassam a história da música e da dança afro-paulistana. Falamos sobre a relação entre DJ e público, a importância dos bailes na formação de uma cultura preta em São Paulo e a capacidade da música de levar pessoas a conhecerem outras partes e histórias da cidade. Nas palavras de Jean, “a cidade se torna permeável a partir dos bailes”. Veraneio toca no Cine Joia no dia 3 de outubro, no show “Curumin canta Cassiano // 50 anos de Cuban Soul: 18 Kilates”.

Crédito: Jean e Dinho/Arquivo Pessoal

Claudia Assef – autora de Todo DJ já sambou: a história do disc-jóquei no Brasil, que tornou pública a história de Seu Osvaldo como primeiro DJ do país – fala sobre a importância do trabalho do seu Osvaldo de fazer uma performance de alto nível para quem tinha menor poder aquisitivo na década de 1960. Essa ainda é uma preocupação da Veraneio?

 

Dinho: É uma preocupação, tanto para Jean quanto para mim. Entendemos que circulamos em um lugar onde muitas vezes o ingresso não é acessível. Mas, por conta da relevância que herdamos e nos propomos a levar para frente, acho que é importante que as pessoas de todos os níveis possam acessar a Veraneio. Por conta da relevância da nossa história, por conta do meu pai e de quem veio depois deles, toda a nossa família, até chegar em nós. Por isso gosto tanto de tocar no Porta, um lugar que se abre para nós nas festas 0800 e mantém as portas abertas para todos.

 

É impressionante como existe um continuum muito presente na família, não são só vocês dois depois do Seu Osvaldo.

 

Dinho: Depois do meu pai, tenho tios na discotecagem, meu irmão mais velho [DJ Tadeu Pereira], que foi quem me ensinou, e uma série de DJs. Tem uma dinastia, realmente, todos executando essa função. Meu pai é o precursor disso, que na época não existia. Muitas vezes, nas entrevistas, as pessoas perguntam: “Mas como ele foi pensar nisso?” Não existia o termo DJ, não se tocava com dois toca-discos, nessa cena montada com fone de ouvido, nada disso. O molde que ele tinha eram os bailes de gala, que não eram acessíveis para a população de baixa renda. Ele se baseou nos bailes de orquestra e fez aquilo não pensando exatamente em “democratizar” o baile, mas simplesmente pelo amor à música, que foi tomando um formato de vanguarda e transformou a cena da noite que vivemos hoje. Ele dá o start de uma forma muito vanguardista, sem saber a proporção disso.

 

O que vocês sabem sobre os bailes que ele fazia ainda na Zona Norte, na década de 1950? Que tipo de música tocava, quem frequentava e como era a experiência desses bailes?

 

Dinho: Os bailes da Zona Norte, antes de vir para o Centro, começam na Vila Guilherme, onde ele passou a morar depois de vir de Minas Gerais. Nas casas, se faziam festas de calendário, como as festas juninas, principalmente, ligadas ao catolicismo. As festas de Santo Antônio, São Pedro e São João eram importantes para a população na época, tinham um sentido religioso muito forte. Meu pai me conta que naquele tempo ele ainda não tinha equipamento, então os vizinhos que tinham rádio vitrola emprestavam e ele passou a oferecer para as pessoas que ele ficasse tocando os discos para elas dançarem – foi assim que começou. Posteriormente, ele foi estudar eletrônica, se formou em rádio e TV, e efetivamente ganhou algum conhecimento para tocar em outros bairros, como Santana e Casa Verde. Essa atuação local foi criando particularidades a partir de cada lugar que ele ia tocar: algumas regiões gostavam mais de samba canção, outras de rumba… Ele foi formando um conceito musical que chamou a atenção, por isso passou a ser convidado para os bailes maiores. Essas festas foram o começo da socialização do povo preto, porque não existiam muitas opções de lazer, era só trabalhar. Foi como o futebol, momentos de encontro, mas através da música.

 

Como nesses quatro anos vocês desenvolveram o som de vocês?

 

Jean: Meu pai é DJ a vida inteira, mas para mim foram quatro anos em que saí do ensino médio, depois da pandemia, brevemente testei trabalhar como CLT mas não consegui e segui para a discotecagem, que começa junto com a minha vida adulta. Eu gostava de ir no meu avô ouvir os discos dele, mas a virada de chave aconteceu quando decidi fazer uma festa de aniversário para reunir uma galera com meu pai e meu avô. Isso mudou minha relação com a música, ver essa pesquisa como um trabalho, mas também uma relação de família. A Veraneio é um lugar de compartilhamento, contar a história do meu avô de um jeito musical, através do repertório dele, contar as histórias do tio Tadeu, do meu pai e a minha também. Interseccionamos isso tudo para fazer uma propriedade geral, que toca em mim e no meu pai. Entendi a discotecagem e depois entendi o peso da minha família sobre ela.

 

O que muda quando vocês viram uma dupla? O que define o som de vocês?

 

Jean: O que muda quando a gente se junta é a ideia de montar uma ampla proposta musical concebida. Destrinchar os gêneros pelos quais passamos: começa no soul e passa para música brasileira – sambalanço, samba-jazz – mas só cai nisso porque temos uma tradição do samba rock na família. O que gostamos de tocar em comum, que às vezes não tem espaço no baile de samba rock do meu pai ou que eu não via nas pistas, era uma música brasileira que tenta destrinchar essa fonte. O samba-rock é chamado de baile de nostalgia, porque tem uma relação muito clara com a pista: os daqui dançam e dançam de tal maneira. A música que não toca no baile de nostalgia tradicional às vezes era a que eu ouvia com meu pai e me emocionava, pensando: isso é Veraneio. Conforme o tempo foi passando, também fomos expandindo um pouco, com uma pesquisa no reggae e no new wave, uma música para dançar, mas também muito sentimental, que toca nesse lugar de algo que meu pai ouvia e hoje eu ouço muito.

 

Rola nas redes a impressão de que hoje “todo mundo quer ser DJ, ninguém quer dançar”. Vocês sentem que existe hoje uma valorização maior da figura do DJ do que da própria cultura de baile? O que isso significa?

 

Dinho: Eu vejo as duas coisas. Como tocamos em um formato em que estamos quase no meio da pista, com a galera, vejo muito a coisa do hype, gente que está lá pela selfie, que não vai dançar; mas também ouço do público ter mudado a noite de alguém, ter chamado muito a atenção de uma pessoa enquanto ela estava se divertindo. As duas coisas acontecem em qualquer lugar que vamos tocar. O Porta é um lugar em que conseguimos nos expressar muito bem, quebrar esse hype, fazer uma festa acontecer, porque a festa gratuita reúne todas as tribos, e acho essa mudança bem interessante. É legal quebrar esse hype, conseguir trazer as pessoas para dançar, envolver e ouvir.

 

Jean: A profissão de DJ estar em alta tem a ver com alguns dos produtores terem entrado em alta e com o próprio mundo digital, que dá um acesso mais fácil a essas criações musicais modernas, que são muito divertidas e têm muita influência nessa geração. Acho que a relação do DJ com a pista de dança não é sempre necessária, no sentido de fazer dançar, porque sinto que, ainda que em um lugar tenha muita gente que não está dançando, eles estão ouvindo. A música pode estar embalando a conversa; ou a conversa pode estar sendo criada pela música; ou só embalando o silêncio, um momento de introspecção, de contemplação. Eu acho bonito ter momentos contemplativos socialmente. Quem vai estar dançando é quem realmente chegou num ponto em que o corpo está respondendo ao som. Então acho legal também esse lugar do DJ que vem para ouvir e contemplar, por mais que a Veraneio tenha fama de fazer a galera dançar.

 

Dinho: Tem um contraponto que eu observo, que são os listening bars, bares de degustação tanto do cardápio quanto do ouvir. Só que é muito interessante, porque quando esse conceito chega ao Brasil, esses bares ganham uma pista. Não era para ter pista, é um restaurante, mas às vezes a música que você leva não cabe no espaço, eles querem dançar.

 

O que o baile black produziu como espaço de sociabilidade para a população negra em São Paulo? O que ainda existe dessa função hoje?

 

Jean: Acho que os bailes tiveram essa função, mas também que essa importância existe por uma assimilação e uma ressaca do que estava acontecendo no movimento negro nos Estados Unidos, como o black is beautiful e o black ball; pela assimilação de figuras como Malcolm X e Martin Luther King, da luta antirracista. Quando isso vem para o Brasil também vem fortemente o empoderamento da beleza negra, mas todo esse lugar foi bagunçado pelo mito da democracia racial no Brasil, que deixa essa discussão confusa na cabeça da população negra. Dada essa falta de reconhecimento, o baile tem esse objetivo.

 

Acho bonito que na época do meu avô eles faziam piqueniques, bailes de fim de ano e celebrações que começam em casa, no lugar da família, mas também se prolongam para o social. Tinham grandes bailes de Natal, de Páscoa, encontros que deixam palpável seu poder de rede e comunicação. Criava-se um senso de comunidade: quem é o pessoal da Zona Sul, quem é o pessoal da Zona Norte? No baile deles, o que geralmente toca? Entra no campo de pertencimento na cidade de São Paulo, de não ter um espaço só. A cidade se torna permeável a partir de bailes, ouço histórias de gente que conheceu certa região por causa do baile. É sobre percorrer a cidade pela cartografia dos bailes.

 

Além de criar possibilidades de circulação, sair só da periferia ou só do centro, de uma rotina que cerceia, ganhamos dimensão de espaço expandido. Hoje, vejo isso ainda mais. Todo pretinho jovem vai para outras zonas, curtir um som em um lugar novo. Quem curte funk, por exemplo, conhece as outras quebradas por conta do baile. Quem curte reggae conhece lugares distantes como Cotia e Bauru. Acho isso muito bonito, criar conexões na cidade, fazer uma cartografia, conhecer uma outra cidade através do baile.

 

O que mudou na geografia da discoteca de São Paulo desde então? Como vocês percebem esse ambiente onde vocês tocam hoje?

 

Jean: Para mim, mudou no sentido de acessar ainda mais zonas de São Paulo, que eu sempre gostei de percorrer. Sempre gostei muito de andar pela região central. Meu pai me trazia para cá desde criança: eu andava de skate, ia à Galeria do Rock, vinha na Virada Cultural. A partir do momento em que passo não só a trabalhar aqui, mas a voltar sempre para esses lados, crio não apenas afetos individuais com o lugar, mas também uma rede. Para mim, isso também passa por essa vontade de percorrer bairros, visitar outros lugares e conhecer espaços que são verdadeiras jóias da cidade. Acho que, nesse sentido, a educação dos meus pais foi muito importante, mas vejo amigos que ficavam restritos a certa zona e que, por conta da Veraneio, foram a um lugar onde nunca tinham ido. Acho isso bonito, porque expande a relação com a cidade e também as relações sociais, tanto para quem está chegando a esses lugares quanto para mim, que passo a circular mais.

 

Dinho: Vejo um movimento de contrafluxo, as coisas se descentralizando, o que é importantíssimo e queremos desenvolver mais. Ainda não colocamos em prática, mas eu acredito que temos uma estrada para percorrer nesse sentido, que traduz um pouco do que o Jean está falando.

 

Quais são os projetos de futuro de vocês para a Veraneio?

 

Jean: Queremos interseccionar com algo educacional, que tange à pesquisa e ao compartilhamento de conhecimento. Dizendo de forma mais prática, temos como perspectiva poder conversar de um ponto de vista historiográfico e pensar a cultura preta de São Paulo, a partir dos bailes pretos. Tem gente na academia pensando a São Paulo negra, até além daqui, no sudeste, a relação dos bailes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, que tiveram uma densidade preta principalmente nas décadas de 1970 e 1980. Queremos juntar gente para falar mais disso e aprender junto. Criar uma experiência de discotecagem comentada ou um grupo de estudos para misturar material bibliográfico com o discográfico e outras formas de contar essa história.

 

Outra perspectiva legal é tentar aproximar o meio da “música” da discotecagem. Os dois falam de música, de pesquisa, de produção, os dois têm muita criação, são só campos de trabalho diferentes. Uma perspectiva para a nossa festa é aproximar mais artistas de banda, autores e instrumentistas, para estar junto e discotecar, entender que a performance é um happening tal qual uma discotecagem, que é algo efêmero, único, é um acontecimento. Queremos tentar aproximar mais esse momento musical de performance.

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