Perspectivas para as eleições nos Estados Unidos
Eleições devem ser uma dura resposta às guerras e perseguições empreendidas pelo governo de Donald Trump
A onda que se forma: por que Trump vai perder
Nesta terça-feira, dia 3, os norte-americanos vão às urnas para as eleições de meio de mandato presidencial, chamadas por eles de midterms. O resultado do pleito caminha para ser uma dura resposta ao segundo governo de Donald Trump e suas políticas de guerras, literais ou tarifárias, e perseguições de todo tipo.
Apesar de falarmos em dia de eleição, seria mais correto falarmos em mês eleitoral. Isso porque há semanas os votos já vêm sendo coletados pessoalmente, em 37 estados e em Washington (DC), ou pelos correios, de acordo com as regras definidas por cada estado.
Nessas eleições, são renovadas as 435 vagas da Câmara dos Representantes, com os deputados tendo mandatos de dois anos, e 35 dos 100 senadores do país, que têm mandatos de seis anos. Também é nesse pleito que 36 governadores e os ocupantes de diversos outros cargos estaduais são escolhidos, incluído aí o posto estadual de Secretary of State (Secretário de Estado), equivalente parcial aos nossos TREs na tarefa de tocar as eleições naquele local.

Esses temas, no entanto, têm funcionado bem menos neste ciclo do que no anterior. Sobre isso, o brasileiro já sabe que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é uma figura bastante impopular fora de seu país. Menos sabido, contudo, é o quanto a esta altura ele se tornou uma figura extremamente impopular em seu próprio país. Ainda que a impopularidade crescente tenha dezenas de razões, a maior parte delas gira em torno de questões econômicas. A inflação permanece insistentemente acima da meta prevista e os preços dos combustíveis já superaram os praticados no governo de Joe Biden. Além disso, o Megaprojeto Fiscal que, para cortar impostos de empresas e financiar gastos com as Forças Armadas e a fiscalização de fronteiras, excluiu mais de 5 milhões de pessoas dos programas de auxílio alimentar (food stamps) ao mesmo tempo em que cortou subsídios dos planos de saúde da população de baixa renda, forçando a um aumento das mensalidades, que muitos não conseguiram mais pagar.
Para se ter uma ideia, cientistas políticos norte-americanos consideram aquilo que chamam de “Linha Bush” (nível de aprovação de 32%) como sendo o recorde de impopularidade entre os presidentes do país. Esse número tem um simbolismo e significa que nesse ponto o presidente já perdeu o apoio de todo o eleitorado independente e mesmo moderado do país. Pois, nas últimas semanas Trump tem se aproximado perigosamente dessa linha e, em breve, pode passar a ser detentor do recorde que nenhum presidente jamais quis ter. Pela média das pesquisas do Silver Bulletin, a popularidade dele estaria agora em 37%, mas por uma pesquisa da CNN, publicada no dia 21 de outubro, Trump já teria chegado à Linha Bush. Ele estaria com 32% de aprovação e 67% de desaprovação (saldo de -35%).
Há algumas semanas, mas provavelmente tarde demais, os Republicanos entraram em modo desespero com Trump prometendo de tudo: cheques de US$ 90 para idosos e promessas de cheques de US$ 5.000 e US$ 8 bilhões para agricultores, caso os republicanos vençam. Isso sem falar da promessa de pagar US$ 1 milhão caso alguém denuncie qualquer caso de fraude, desde que essa denúncia levasse a prisão e condenação de alguém, sem dizer de onde o dinheiro sairia.
Ao mesmo tempo os órgãos do governo Trump têm tentado atrapalhar ao máximo o acesso dos eleitores às urnas. Isso ocorre de diversas formas, como a presença de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, em locais de votação durante as primárias na Califórnia e no Texas; o Departamento de Justiça solicitando que os estados forneçam dados detalhados de eleitores sem apresentar justificativa, pedido que foi negado, por exemplo, pelo Arizona.
Isso sem falar em Elon Musk, que mais uma vez gasta uma fortuna, desta vez US$ 500 milhões, tentando empurrar candidatos republicanos, especialmente no Texas, estado que veremos em detalhes mais adiante. Desta vez nada disso parece surtir efeito.
Desde 2010, os republicanos conseguem dominar a política norte-americana. Naquele período, dois anos após Barack Obama ser eleito para o primeiro mandato, os republicanos ganharam seis assentos no Senado e 63 vagas na Câmara dos Representantes. Desde então, o Partido Republicano controlou a Câmara por doze e o Senado por dez dos últimos dezesseis anos. Mas foi no nível estadual, que teria sido completamente ignorado por Obama, que as perdas foram mais duradouras. Naquele ano, os democratas perderam seis governos estaduais e o controle de vinte casas legislativas nos estados (assembleias ou senados estaduais). Um baque do qual não conseguiram se recuperar até os dias atuais.
A depender das proporções da onda que é esperada para este ano, os democratas têm a oportunidade, que costuma aparecer apenas uma vez por geração, de reverter esse quadro. Entre as casas legislativas que podem mudar de mãos este ano estão a assembleia de Minnesota, o senado da Pensilvânia e as duas casas legislativas de Alasca, Arizona, Michigan e Wisconsin.
A esta altura, as chances de os republicanos perderem a Câmara dos Representantes passam dos 95%. Os democratas precisam conquistar apenas quatro novos assentos e pelas previsões mais pessimistas eles conseguirão pelo menos dez cadeiras, podendo chegar ao triplo disso, se a aparente onda realmente se materializar.
Além disso, por ordem de Trump, vários estados redesenharam os distritos para tirar os assentos dos poucos deputados democratas desses estados. Isso porque nos Estados Unidos (e a depender da próxima Reforma Política isso poderá ocorrer também no Brasil) o desenho dos distritos quase sempre determina qual partido fica com a vaga. Para tirar esses distritos das mãos de deputados democratas, foi preciso distribuir seus eleitores entre distritos com maioria republicana. Assim, passou a ter mais distritos com maioria do eleitorado simpática ao Partido Republicano, mas com uma margem menor de vantagem republicana em cada um deles. O problema dos republicanos é que essas margens menores tendem a não ser suficientes para resistir em um ano de onda, como este parece ser e o efeito pode sair de culatra.
Nos dois estados em que mais distritos foram redesenhados – Texas e Flórida –, os legisladores republicanos refizeram os mapas supondo que os latinos, especialmente homens, que votaram em Trump e nos republicanos em 2024 passariam a votar com eles sempre. Não passou pela cabeça deles que isso poderia ter sido um evento específico motivado pela impopularidade do ex-presidente Joe Biden e de sua vice, Kamala Harris, ou que dois anos de atuação violenta por parte do ICE – com prisão e deportação de centenas de milhares de latinos, incluindo dezenas de cidadãos norte-americanos, e até homicídios praticados por agentes em diferentes estados – não provocariam nenhum efeito.
Um outro grupo cujo comportamento deverá ser decisivo para determinar o domínio da Câmara é o eleitorado rural. Talvez o eleitorado tradicionalmente o mais fiel ao Partido Republicano, agricultores e pecuaristas norte-americanos estão entre as maiores vítimas tanto das guerras tarifárias quanto da guerra propriamente dita com o Irã. As pesquisas demonstram que esse eleitorado está muito insatisfeito com a perda de mercados externos, além de questões como os preços do diesel e dos fertilizantes, porém há dúvidas se eles realmente votarão com base em fatores econômicos ou, como de costume, com base em questões ideológicas. A resposta a esta pergunta pode determinar o controle da Câmara e do Senado e por quanto tempo esse controle deve durar.
O Senado em jogo e uma nova esquerda religiosa nos EUA
Enquanto a vitória na Câmara está basicamente selada, o Senado ainda está em disputa. Há ainda por volta de 30% de chances de os republicanos manterem o controle. Atualmente, o partido de Trump tem 53 dos 100 senadores. Os democratas e independentes que geralmente votam com eles contam com 47 assentos. Como nos Estados Unidos cabe ao vice-presidente da República desempatar, quando necessário, as votações do Senado, os democratas e independentes que os apoiem precisam conquistar pelo menos quatro cadeiras, além de manter todas as atualmente ocupadas.
Em condições normais seria uma tarefa difícil. O mapa dos estados elegendo senadores este ano favorece muito os republicanos. No entanto, a rejeição a Trump e ao seu partido fez com que chegássemos ao fim de semana que antecede a eleição com disputas acirradas em pelo menos dez estados atualmente controlados pelo partido do presidente.
Além da tradicional disputa entre os dois partidos que dominam a política norte-americana, o pleito deste ano traz também dois novos fenômenos dignos de atenção. O primeiro e um dos pontos mais interessantes da eleição é o retorno de uma esquerda, ou centro-esquerda, religiosa. O primeiro exemplo disso já havia aparecido em 2020, quando o pastor negro Raphael Warnock se elegeu senador pela Georgia. Agora, outros dois pastores podem se juntar a ele. Eles se destacam pelas citações bíblicas, como, por exemplo, as palavras de Jesus com relação aos pobres e aos excluídos.
No Texas, o estado mais disputado na eleição, o deputado estadual James Talarico é um seminarista presbiteriano que defende o amor ao próximo, critica a desigualdade de renda e o Partido Democrata por falhar em proteger a classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, defende a manutenção da exploração de petróleo em seu estado.
Enquanto isso, no Kansas, Adam Hamilton aparece como outro exemplo de pastor capaz de ser competitivo mesmo em estados conservadores. Mais centrista que os dois anteriores, Hamilton pertence à Igreja Metodista Unida e enfatiza um “Evangelho Social”, focado em temas como ampliação do acesso à saúde, enfrentamento do custo de vida e compaixão por comunidades marginalizadas, incluindo pessoas trans. Kansas não elege um democrata senador desde 1930, mas se essa fórmula der certo lá e no Texas, assim como deu na Georgia, podem servir de exemplo para os democratas de outros estados e até para partidos de outros países, como o Brasil, que tenham semelhanças demográficas com os Estados Unidos.
O segundo fenômeno que se desenha é na verdade uma comprovação do quanto a imagem do Partido Democrata se encontra degradada perante o norte-americano médio. Em quatro estados tradicionalmente republicanos – Nebraska, Montana, Dakota do Sul e Idaho –, a principal aposta do partido não são candidatos da própria legenda, mas, sim, candidaturas oficialmente independentes. Não houve pesquisas sobre o desempenho do independente Todd Achilles em Idaho, mas nos outros três casos esses candidatos aparecem bastante competitivos. As plataformas desses postulantes não são diferentes daquela dos democratas em vários campos como economia e trabalho, mas o eleitorado não está disposto a prestar atenção a essas propostas quando elas vêm de alguém que carregue o peso de ser filiado ao partido e apareça com a letra “D” ao lado do nome na cédula. Isso deveria servir como um lembrete para a direção partidária de que, independentemente do que ocorrer em 2026, o partido tem muito trabalho pela frente se quiser construir uma maioria estável e duradoura.
Vamos analisar a seguir os estados em que a disputa para o Senado será travada:
Estados já com senadores democratas
Georgia
No início do ciclo eleitoral acreditou-se que a campanha para o Senado na Georgia seria das mais disputadas do país. A gestão Trump, contudo, facilitou em muito a vida do senador democrata Jon Ossoff, que caminha para derrotar por ampla margem o deputado republicano Mike Collins.
Minnesota
Os democratas dificilmente terão êxito em conquistar o controle do Senado se não preservarem as cadeiras de Minnesota e Michigan. Em condições normais, Minnesota não deveria estar nesta lista, mas o governador do estado, Tim Walz, acabou levando a culpa por desvios bilionários na assistência social local descobertos recentemente e isso claramente vem atrapalhando a candidatura da vice-governadora, Peggy Flanagan, ao Senado. Sua oponente, Michele Tafoya, é uma ex-locutora de futebol americano que tem conseguido se manter bem distante de Trump, mas ainda assim, em um ano de onda como este, a tendência é que Flanagan consiga se eleger.
Michigan
Quando o médico Abdul El-Sayed, diretor de Saúde do condado de Wayne (onde fica Detroit), venceu a primária democrata muitos analistas afirmaram que ele poderia ser progressista demais para um estado que alternou entre Trump e Biden nas últimas eleições. Realmente, a disputa para o Senado contra o republicano Mike Rogers parece apertada, mas, em um ano de provável onda, El-Sayed provavelmente será eleito e se tornará o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos.
Estados com atuais senadores republicanos
Carolina do Norte
O estado quase sempre vota em republicanos para presidente – a exceção foi Obama e apenas em 2008. Os dois atuais senadores do estado também são republicanos, mas com hábito de eleger democratas para cargos estaduais. O atual governador e o anterior são democratas. Aliás, o ex-governador Roy Cooper (D) é favorito absoluto para vencer a disputa. O pleito seria mais apertado se o atual ocupante da cadeira, Thom Tillis (R), não tivesse desistido da reeleição, mas Tillis desagradou Donald Trump, que prometeu derrotá-lo nas primárias do Partido Republicano caso ele não desistisse. Agora, o candidato republicano Michael Whatley aparece cerca de 10 pontos atrás de Cooper na média das pesquisas de opinião. Cooper vai vencer com facilidade, garantindo o primeiro dos quatro assentos necessários para obter a maioria.
Ohio
Até recentemente Ohio ocupava posição semelhante àquela que Minas Gerais e Amazonas ocupam nas eleições presidenciais. Votava no mesmo vencedor do país. Recentemente, contudo, o estado fez uma guinada à direita e uma das vítimas dessa mudança foi o ex-senador democrata Sherrod Brown, que após três mandatos consecutivos foi derrotado em 2024, na mesma eleição que levou Trump de volta ao poder. Porém, junto com Trump, JD Vance foi eleito vice-presidente. E é essa vaga que era de Vance que Brown disputa agora em condições bem diferentes. Brown é progressista, mas sua preocupação principal sempre foram as questões econômicas e trabalhistas e não culturais. Exatamente por isso, após Ohio ter sofrido economicamente com as decisões de Trump, ele se tornou favorito para derrotar o republicano Jon Husted, envolvido, mas não formalmente acusado, no maior escândalo de suborno já visto no estado.
Texas
O atual senador pelo Texas, John Cornyn, foi derrotado nas primárias pelo desafiante Ken Paxton. O pecado de Cornyn foi ter votado com o governo Trump quase sempre, sendo que Trump exige fidelidade absolutamente canina de seus seguidores. Se tivesse sido confirmado, é possível que este assento nem estivesse entre os mais disputados da eleição, mas foi aí que a eleição texana ficou interessante. Isso porque a qualidade dos candidatos importa e, apesar de Cornyn ser um senador mediano, o candidato escolhido por Trump dificilmente poderia ser pior. Conhecido no estado por diversos escândalos de corrupção, tendo chegado, inclusive, a enfrentar um processo de impeachment na assembleia estadual, Paxton ainda passou o réveillon de 2025 em Dubai, acompanhado de sua amante e de dois fugitivos federais. Meses depois sua esposa pediu divórcio alegando adultério como motivação. Curiosamente, a isso se soma a vitória na primária democrata do religioso e já citado James Talarico.
Esta não é a primeira vez em que a eleição para senador fica disputada no Texas. Em 2018, o atual senador Ted Cruz venceu o desafiante democrata Beto O’Rourke por uma diferença de apenas 2,6%. A diferença é que desta vez Talarico aparece na frente em todas as pesquisas.
Kansas
O senador Roger Marshall (R) disputa a reeleição e deveria ter uma eleição fácil em um estado como esse. No entanto, ele encontrou pelo caminho o também já citado Adam Hamilton. Kansas não elege um democrata senador desde 1930, mas as pesquisas apontam uma pequena vantagem para Hamilton.
Alasca
Apesar de sempre votar em candidatos republicanos para presidente, a ideologia predominante no Alasca é mais libertária do que conservadora. Desde 2002, o estado adotou o voto preferencial para todos os principais cargos. Nele o eleitor aponta, em uma mesma cédula, sua primeira, segunda e terceira opções de preferência. Esse sistema eleitoral prioriza candidaturas moderadas e com ele a agora candidata democrata ao Senado, Mary Peltola (D), já foi eleita em 2022 e 2024 para ser a única deputada federal do estado. Nativa americana e defensora da exploração de petróleo em seu estado, Peltola enfrenta o atual senador Dan S. Sullivan (R) com chances reais de vitória.
Iowa
Outro estado muito atingido economicamente pelas políticas trumpistas e onde os temas econômicos se impuseram no debate eleitoral deste ano. Iowa é um estado predominantemente rural, produtor de milho e soja, que viu a demanda internacional por essas commodities encolher. Os republicanos controlam atualmente todos os cargos federais, mas a partir de janeiro existe a possibilidade real de o estado ter um senador, três dos quatro deputados federais e o governador democratas. Na disputa ao Senado, o deputado estadual Josh Turek (D), que foi atleta paralímpico com direito a uma medalha de ouro no basquete, e a candidata republicana Ashley Hinson aparecem quase sempre empatados, mas Turek pode ser ajudado pelo favoritismo do candidato democrata ao governo estadual, Rob Sand (D), como veremos mais adiante.
Maine
Susan Collins é uma sobrevivente. Mais longeva senadora republicana da história, ela está no quinto mandato e é o último exemplo de senador republicano pela região da Nova Inglaterra. Ela tenta manter uma imagem de moderada, ainda que seus votos frequentemente não condizam com seu discurso, capaz de levar grandes recursos orçamentários para o estado, em razão da sua antiguidade no posto. Em 2020, ela se reelegeu mesmo com a derrota de Trump, contrariando as pesquisas de opinião. Maine é dos estados mais afetados pela guerra comercial com o Canadá e que vota nos democratas para presidente. Então, essa deveria ser uma vitória tranquila para o partido, mas Collins já demonstrou ser capaz de sobreviver a movimentos e ondas que afetem o restante do país e exatamente por isso os analistas são especialmente cuidadosos em fazer previsões para essa disputa. Nas pesquisas, o democrata Troy Jackson, um lenhador do norte do estado, aparece sempre na frente, mas por uma margem pequena.
Os independentes
Nebraska
Outro estado onde o atual senador Pete Ricketts (R) deveria ser reeleito com facilidade, mas o independente Dan Osborn, apoiado pelo eleitorado democrata do estado, concorre pela segunda eleição consecutiva. Havia uma candidata democrata na disputa, Cindy Burbank, mas ela abriu mão da candidatura para ajudar Osborn.
Dakota do Sul
O ex-governador e atual senador Mike Rounds (R) é o favorito à reeleição, mas aqui também, graças às políticas de Trump, um candidato independente, Brian Bengs, apoiado pelos democratas, tem aparecido estranhamente próximo em algumas pesquisas e, se a onda prevista for da magnitude de um maremoto, pode surpreender. Aqui também havia um candidato democrata registrado que desistiu da disputa para tentar ajudar a emplacar um independente.
Montana
Montana é outro estado com um eleitorado mais libertário do que conservador. Apesar de nunca votarem em democratas para presidente, tiveram um senador filiado ao partido até 2024. Para este ano, o atual senador Steve Daines (R) teria sido o favorito à reeleição, mas, em uma jogada ensaiada, ele desistiu no horário limite para o registro de candidatura, deixando seu escolhido para sucessor, Kurt Alme, como candidato único na primária do Partido Republicano.
Seu principal adversário na disputa é o ex-reitor da Universidade de Montana, Seth Bodnar, que decidiu concorrer como independente e aparece empatado com Alme nas pesquisas. Curiosamente, o principal obstáculo no caminho de Bodnar é a candidata democrata no estado, Alani Bankhead. Ao contrário do que ocorreu em Nebraska e na Dakota do Sul, ela se recusou a desistir da candidatura. Em levantamentos recentes, Bankhead aparece com algo entre 10% e 15% das intenções de voto, enquanto Alme e Bodnar aparecem acima dos 30%, com vantagem para o republicano.
Governos estaduais
As disputas estaduais pelo Executivo, embora menos observadas de fora, podem ter consequências igualmente duradouras. Em pelo menos três estados em que o Partido Democrata já governa, a vitória vem com muito mais folga do que as disputas para o Senado desses mesmos estados. Em Minnesota, a senadora Amy Klobuchar, uma das mais populares do país, decidiu trocar o Senado pelo governo estadual e será eleita sem dificuldades para o novo posto. Em Michigan, a secretária de Estado do estado Jocelyn Benson deve derrotar com facilidade o republicano John James, que já tentou, e perdeu, duas vezes ser eleito senador. E no Maine, a democrata Hannah Pingree deve derrotar com facilidade o republicano Bobby Charles, um advogado que prometeu implantar políticas trumpistas no estado.
Em um ano como este, essas vitórias são uma obrigação, mas também entre os governos estaduais há disputas em que os democratas podem conquistar estados hoje comandados por republicanos. Na Georgia, o governador Brian Kemp (R) não pode concorrer à reeleição, e a disputa entre a ex-prefeita de Atlanta Keisha Lance Bottoms, pelos democratas, e o bilionário republicano Rick Jackson está empatada nas pesquisas – caso eleita, Lance Bottoms será a primeira mulher negra governadora no país.
Em Ohio, pela primeira vez em vinte anos os democratas podem conquistar o governo estadual: a médica Amy Acton, que chefiou o Departamento de Saúde do estado durante a pandemia de Covid-19, lidera as pesquisas em disputa apertada contra o empresário do setor farmacêutico Vivek Ramaswamy, próximo de Trump. A campanha foi marcada pelo baixo nível em comerciais do republicano, que, no entanto, parecem ter se voltado contra ele.
Em Iowa, o atual auditor do estado Rob Sand (D) lidera as pesquisas e pode ser o primeiro democrata eleito governador também em vinte anos, derrotando o empresário Zach Lahn – Trump apoiou outro candidato na primária republicana, mas o grau de insatisfação entre os iowanos foi tamanho que o favorito do presidente, Randy Feenstra, foi derrotado dentro do próprio partido. No Alasca, regido pelo mesmo sistema de voto preferencial da disputa senatorial, o deputado estadual Jonathan Kreiss-Tompkins concorre contra três republicanos (a trumpista Bernadette Wilson, o ex-prefeito de Anchorage Dave Bronson e o ex-procurador-geral do estado Treg Taylor) com chances reais de ser o primeiro democrata eleito governador em 28 anos. E no Texas, a empolgação é tanta que até a quarta reeleição do governador Greg Abbott (R) pode estar em risco: as pesquisas mostram a desafiante Gina Hinojosa desconfortavelmente próxima, e os democratas sonham não com uma, mas com duas vitórias históricas no segundo estado mais populoso do país – as últimas vezes que elegeram senador ou governador pelo Texas foram, respectivamente, em 1988 e 1990.
Nevada fecha o quadro e aponta para 2028. Sem disputa para o Senado neste ano, o estado tem o atual governador, o republicano Joe Lombardo, concorrendo à reeleição contra o procurador-geral do estado, o democrata Aaron Ford, com os dois empatados nas pesquisas. O estado foi bastante afetado pelas políticas de Trump, que, além da perseguição aos latinos (31% da população estadual), também provocaram queda no turismo internacional, sobretudo canadense, para Las Vegas, cuja região metropolitana concentra mais de 70% da população e do PIB estaduais. Nevada é politicamente bastante volátil, geralmente – mas nem sempre – votando naquele que é eleito presidente da República. Portanto, controlar seu governo e sua Secretaria de Estado pode fazer diferença na eleição presidencial de 2028, o mesmo valendo para a Georgia e eventualmente até para Ohio. Assim como aconteceu em 2006, quando o presidente ainda era Bush, com Trump em 2018 e com Biden em 2022, estas eleições podem ser o prenúncio daquilo que virá depois.
Juliano Machado Pires, doutor em Ciência Política (IESP/UERJ), com período como pesquisador visitante na Universidade Georgetown (Washington-DC), é assessor de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Liderança do PT na Câmara.

