ARTIGO

Pixação em São Paulo: conflito, urbanidade e cidade em disputa

Por que a cidade de São Paulo, com suas configurações particulares, serviu de berço e impulso para a prática do pixo? O fenômeno pode nos dar pistas sobre a cultura anti-urbana que a cidade tem produzido

Entre o fluxo intenso de carros, as vias expressas, os viadutos e as pontes que cortam bairros inteiros, há uma cena típica e quase incontornável da cidade de São Paulo: cruzar grandes distâncias, de carro, trem ou ônibus, sendo inevitavelmente atravessado pela pixação que marca a paisagem. Instalada em muros, janelas, topo de prédios, empenas e nos mais variados suportes, a pixação certamente irá acompanhar o transeunte em algum trecho de seu deslocamento pela cidade. Não há como evitar, seu contato é compulsório.  

Crédito: Marco Gomes/Wikimedia Commons

  O tema da pixação costuma gerar debates inflamados. Em extremos opostos estão aqueles que vão classificar o pixo como vandalismo, sujeira e indicador da falha das políticas de educação e cultura; e, de outro lado, o grupo que atribui à pixação um status de expressão artística e busca traduzir sua legitimidade. 

Entre polêmicas e medidas de combate e erradicação da pixação adotadas pela prefeitura de São Paulo que se mantém por diferentes décadas e gestões há uma provação interessante a se fazer: e se nos perguntássemos não apenas o por que os pixadores pixam, mas por que a  cidade de São Paulo, com suas configurações particulares, serviu de berço e impulso para a prática do pixo? 

É essa inversão de perspectiva que orientou minha pesquisa sobre pixação em São Paulo. Em vez de olhar para o pixo como comportamento individual ou como um problema de segurança e conservação urbana, compreender a relação entre pixação e a forma como a cidade de São Paulo foi constituída e segue se produzindo pode trazer interessantes reflexões sobre a pixação, mas também sobre a compreensão de São Paulo a partir de outras lentes. A tentativa de compreender, ao menos em parte, o surgimento da pixação em São Paulo e seu fortalecimento ao longo do tempo pode nos dar pistas sobre o modelo de urbanidade que a cidade tem produzido.  

As cidades nascem a partir de uma busca pela diminuição das distâncias como forma de garantir acesso a relações mercantis mais fáceis e menos custosas. Elas existem, em sua própria vocação, porque indivíduos aceitam (e buscam) diminuir o espaço físico entre si. Essa proximidade geográfica – sua densidade – necessariamente  coloca pessoas diferentes para interagir, cooperar e se relacionar. A natureza da cidade é de um ambiente interacional que é capaz de promover densidade populacional e contato.  

A capacidade de proporcionar diversidade na interação entre seus habitantes e a multiplicação de contatos faz das cidades espaços potencialmente realizadores de urbanidade. A cidade, portanto, não é apenas o cenário onde as relações sociais acontecem, mas uma configuração espacial que participa ativamente de sua produção, favorecendo ou dificultando encontros, trocas e formas de convivência entre seus habitantes. O geógrafo Jacques Lévy explora o conceito de urbanidade como aquilo que constitui o urbano, resultado da combinação entre concentração, diversidade e facilidade de encontro entre pessoas e atividades em espaços próximos, condições para copresença, diversidade e interação. Assim, quanto mais uma cidade é capaz de reunir densidade e diversidade, por meio de seus atributos, maior seu grau de urbanidade. 

Nessa perspectiva podemos olhar para São Paulo e perceber como a cidade organiza o encontro, aproxima ou afasta, une ou segrega; e quais escolhas de organização de seu território favoreceram ou dificultaram a combinação entre densidade e diversidade. 

 

São Paulo: fragmentos e afastamento 

São Paulo é uma cidade que apresenta densidade e diversidade, mas sua forma de organização territorial produziu mecanismos persistentes de afastamento, regimes de espaços segregados e opção persistente pelo distanciamento, elementos que dificultam a realização da urbanidade e contribuem para a formação de uma cultura que rejeita a urbanidade, uma cultura anti-urbana. 

Parte importante da história da formação urbana da cidade foi modelada em direção contrária à ideia de redução das distâncias e intensificação dos contatos. O afastamento foi sendo produzido a partir de escolhas concretas sobre a organização da cidade. Ao longo do processo de crescimento da metrópole, foram se consolidando a expansão territorial em um modelo de cidade espraiada, que logo abandonou um padrão de concentração geográfica densa, contígua e com espaços de uso misto para moradia e trabalho.  

Em 1905 a cidade já apresentava um modelo de extensão territorial que trocava densidade e compacidade pela presença de bairros descontínuos, monofuncionais e fragmentados resultantes da ação da iniciativa privada, do poder público e de suas elites.  Já em 1880 se formam os primeiros bairros exclusivamente residenciais, voltados para camadas mais abastadas da população, em terrenos mais afastados das vilas operárias e em uma configuração de baixa densidade. Exemplo disso é o bairro de Cerqueira César com seu maior expoente sendo a Avenida Paulista. 

Acompanhado do processo de espalhamento territorial, São Paulo contou com a combinação de alguns elementos que modificaram progressivamente a configuração da cidade. Estes elementos, conceituados como elementos dispersores, estimularam a produção de uma urbanidade frouxa na cidade. Entre eles estão a perda da multifuncionalidade do centro, uma legislação urbana aplicada em caráter de exceção, a formação dos bairros-jardim e, posteriormente, a escolha do automóvel como principal modal de deslocamento. Esses elementos atuaram em processos articulados, mobilizados por diferentes agentes, que alteraram progressivamente a forma de ocupação e circulação pela cidade, deixando marcas profundas que ainda perduram estrutural e culturalmente.  

A perda da multifuncionalidade do centro, o primeiro dos elementos a ser implementado, transformou o centro da cidade em um espaço semi exclusivo para comércio, negócios e atividades financeiras. Essa transformação teve consequências que ultrapassaram os limites do próprio centro, influenciando novas áreas da cidade a se consolidarem a partir da lógica de especialização, com funções e públicos cada vez mais específicos e menos diversos. O modesto mercado imobiliário entre 1879 e 1890 encontrou no esvaziamento da ideia de moradia no centro algo nobre, uma oportunidade para explorar o potencial em diferentes territórios da cidade, mais afastadas e ainda intocadas, e destiná-las a habitações exclusivas para setores mais abastados. 

O surgimento dos primeiros bairros exclusivamente residenciais voltados para as elites foi acompanhado da adoção da legislação urbana aplicada em caráter de exceção, ou com seu próprio ordenamento jurídico diferenciado do restante da cidade, como leis que garantiam que construções deveriam seguir afastamentos em relação à rua e em relação às construções vizinhas. O objetivo era claro: preservar os grandes terrenos compostos por casas unifamiliares do restante da cidade em um modelo de bairro autossegregado, com baixa densidade e diversidade a partir de garantias legais para sua existência e preservação a ser cristalizada. 

Os bairros-jardim aprofundaram essa lógica. A valorização de áreas residenciais de baixa densidade e destinadas a determinados grupos sociais introduziu uma concepção de cidade baseada na distância que passou a ser também um atributo valorizado: morar longe, em espaços mais exclusivos e menos densos, significava afastar-se de determinadas populações, atividades e formas de vida urbana. A expansão territorial, nesse sentido, esteve associada também a processos de autossegregação e à valorização de espaços socialmente seletivos, desprezando o potencial da diversidade. 

Por fim, a consolidação do automóvel como principal forma de deslocamento alterou profundamente a relação dos habitantes com o território e o fragmentou. Os carros possibilitaram atravessar grandes distâncias entre pontos cada vez mais afastados, reduzindo a necessidade de proximidade física entre moradia, trabalho, comércio e lazer. A cidade passou a ser percorrida por deslocamentos que conectam pontos distantes sem produzir contato ou uso dos espaços públicos e compartilhados. O espaço se fragmentou em diversos pontos e criou condições para a proliferação de espaços privados em detrimento dos espaços públicos.  

O resultado desses processos foi a formação gradual de uma cidade mais extensa geograficamente, fragmentada e especializada. É essa cidade da valorização do afastamento por muros, grades, condomínios fechados e enclaves que constituiu a materialidade para o pixo. 

A pixação, como conhecemos hoje com seu aspecto característico, nasce em São Paulo em meados da década de 1980, e se firma como uma prática organizada de inscrição de codinomes em estruturas da paisagem da cidade em uma estética particular. A estética do pixo paulistano, o tag reto, é marcado por traços alongados, verticais e angulares. Se distingue das formas que o pixo assume em outras capitais do país ou do exterior.  

A produção da pixação envolve sociabilidade e espacialidades que desafiam os modelos de encontro e uso do espaço que a urbanidade da cidade estimula. Seus autores interagem, se deslocam, capturam e usufruem do espaço urbano de forma expandida. 

Os pixadores se encontram nos chamados points, espaços de sociabilidade historicamente importantes para o movimento que são estabelecidos no espaço público, geralmente em praças ou ruas. Ali conversam, trocam experiências, conhecem integrantes da comunidade, contam histórias de rolês e trocam as famosas folhinhas, reproduções em papel de suas assinaturas. 

A circulação pela cidade também é ampliada. Antes de uma pixação despontar em um muro, há a necessidade de se fazer a escolha do lugar e ela demandará observação atenta, circulação em um se perder na cidade, avaliação dos riscos, deslocamento a pé. Um movimento de deriva que rompe com a lógica dos deslocamentos fechados de ponto a ponto. 

É, no entanto, a materialização final da pixação na paisagem da cidade sua forma de maior impacto. As letras grafadas com sua estética de difícil leitura são ainda assim capazes de comunicar muito bem seu conteúdo, que mais do que o sentido literal das palavras escritas traz em si a representação da presença de seu autor.  A cidade pode estimular o afastamento, se fragmentar em territórios de autossegregação,desmontar espaços públicos. Pode construir barreiras físicas e simbólicas. Pode organizar deslocamentos que permitem passar rapidamente por lugares sem jamais estabelecer interação. Mas o pixo atravessa essas fronteiras, ele nega o afastamento, estabelecendo contato, e de forma compulsória.  

A pixação traz a representação da presença do pixador para os lugares e paisagens mais improváveis do território. Ela é a voz, ou o grito, que desafia a urbanidade frouxa. Talvez por isso a pixação incomode tanto. Porque ela não está rabiscando a cidade. Ela está escrevendo uma pergunta sobre São Paulo. 

Quem ocupa e como ocupa seus espaços? Quem pode deixar sua marca? Quem tem direito de produzir sua paisagem? E, sobretudo, que cidade estamos vivenciando entre muros, grades, carros e afastamentos? 

Olhar para o pixo dessa maneira não exige gostar dele. Exige reconhecer que, por trás das letras que parecem indecifráveis, existe uma cidade inteira falando sobre si mesma. 

E talvez o primeiro passo para compreender São Paulo seja justamente aprender a escutá-la. 

 

Juliana Westmann Del Poente é graduada em Gestão de Políticas Públicas e mestra pelo IEB-USP com a dissertação “Pixação em São Paulo: conflitos, urbanidade e cidade em disputa”. Explora estudos sobre a cidade e se arrisca como cineasta estreante. 

 

POENTE, Juliana Westmann Del. Pixação em São Paulo: conflitos, urbanidade e cidade em disputa. 2024. Dissertação (Mestrado em Culturas e Identidades Brasileiras) – Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. doi:10.11606/D.31.2024.tde-19022025-144327.  

Leia mais sobre o tema: