Por que fui ao Salão do Livro de Havana - Le Monde Diplomatique

POLÊMICA

Por que fui ao Salão do Livro de Havana

por Ignacio Ramonet
1 de abril de 2002
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O anticastrismo primário é o liberalismo dos imbecisIgnacio Ramonet

Há mais de quarenta anos, os Estados Unidos impõem a Cuba um boicote comercial devastador, que impede um desenvolvimento econômico normal e acarreta conseqüências trágicas para os moradores da ilha. Washington ainda conduz uma guerra ideológica constante contra Havana, por meio das potentes Rádio Martí e TV Martí, instaladas na Flórida, que inundam Cuba com uma propaganda dos tempos da guerra fria… Além de tudo isso, várias organizações terroristas, hostis ao regime cubano, estão estabelecidas na Flórida, onde têm campos de treinamento, e enviam periodicamente comandos à ilha, com a cumplicidade passiva norte-americana, para cometerem atentados.

Há quatro décadas, portanto, Cuba enfrenta várias formas de agressão por parte dos Estados Unidos. Apesar desse contexto de guerra latente, esse pequeno país, cioso de sua soberania, obteve resultados absolutamente excepcionais em matéria de desenvolvimento humano: abolição do racismo, emancipação da mulher, erradicação do analfabetismo, redução drástica da mortalidade infantil, elevação do nível cultural da população… Em matéria de educação, saúde e esporte, o país alcançou resultados que o colocam no grupo de países de melhor desempenho1.

É possível falar em Gulag?

O regime mudou bastante. O país é, atualmente, muito mais aberto que há dez anos

No plano das liberdades, as coisas estão longe de serem satisfatórias, como Le Monde Diplomatique nunca deixou de mostrar2. Em seu último relatório sobre Cuba, a Anistia Internacional3 constata que “pelo menos 13 pessoas, consideradas como presas por divergência de opinião, continuam por trás das grades no final de 2000”. É um fato grave (ainda que a Anistia Internacional destaque que “o boicote dos Estados Unidos continua” e reconheça que “essa medida reforça as dificuldades que enfrenta o país e contribui, entre outras coisas, para agravar as condições carcerárias”), mas bastante distante do “gulag” que normalmente se divulga. O relatório não faz menção a tortura, nem a “desaparecimentos”, nem a assassinatos. Nem um único caso. Isso, apesar de continuarem sendo impunemente assassinados, nas “democracias” latino-americanas – Guatemala, Honduras, Haiti e mesmo o México e o Brasil – sindicalistas, opositores de esquerda, jornalistas4, padres e prefeitos… A isso deve-se acrescentar, nesses países citados, a violação constante dos direitos econômicos, sociais e culturais, a mortalidade infantil, o analfabetismo, os sem-teto, as favelas, as crianças-mendigos, a droga, a delinqüência… A consulta aos relatórios da Anistia Internacional sobre esses países faz o leitor ficar de cabelos em pé.

Dez anos de abertura

“Democracia” tem significado, no Ocidente, privatização selvagem, delapidação do Estado, aniquilamento da criação cultural, máfias, redes de delinqüentes…

Após o colapso da União Soviética e dos regimes autoritários do Leste europeu – países com os quais Cuba mantinha o essencial de seu comércio exterior – muitos cientistas políticos previam uma rápida desintegração do regime cubano. Isso significa não compreender a verdadeira natureza desse regime, que, antes de tudo, é a principal garantia da independência nacional. Aliás, o regime mudou bastante, abandonando por completo alguns dos principais objetivos da velha ortodoxia socialista. Foram modificadas as leis sobre a agricultura, foi reconhecida a empresa privada, foi incentivado o turismo (com conseqüências negativas, como o aumento da prostituição), multiplicaram-se as empresas de capital misto, foi dinamizada a vida cultural… Cuba é, atualmente um país infinitamente mais aberto do que era há dez anos.

Havana deixou, há muito tempo, de exportar a revolução, e todos os países latino-americanos reataram relações diplomáticas. Nesse sentido, a viagem de João Paulo II, em 1998, significou um marco. Na ocasião, o papa pediu “que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba”. Também o rei de Espanha visitou a ilha e se encontrou com Fidel Castro. Embora alguns ativistas sejam, às vezes, agredidos e detidos, os principais dissidentes estão em liberdade e recebem, muito oficialmente, a maioria dos dirigentes estrangeiros que visitam a ilha. Até os adversários mais raivosos reconhecem que “os tempos mudaram: os cubanos criticam tudo, os estrangeiros estão por toda parte. Às vezes encontra-se um dissidente residente no país, e ele fala… 5

Sem fórmula mágica

Estes ex-combatentes da Guerra Fria decidiram criticar a participação de personalidades francesas no Salão

As chancelarias ocidentais, por seu lado, souberam tirar a lição do desastre da transição nos países do Leste europeu. O colapso humanitário da Rússia e dos outros países do Leste, e as guerras étnicas dos Bálcãs e do Cáucaso, com centenas de milhares de mortos, vieram lembrar que o Ocidente não tem uma fórmula mágica que garanta a passagem bem-sucedida para a democracia. Democracia essa que vem sendo objeto de decepção em muitos países e que se traduziu, por ocasião da globalização mundial, pela privatização selvagem, pela dilapidação do patrimônio do Estado, pela destruição do setor público, pela aniquilação da criação cultural, pelo surgimento de máfias e redes de delinqüentes, pelo empobrecimento generalizado…

No dia 11 de setembro de 2001, Fidel Castro apressou-se em denunciar os atentados e manifestar sua solidariedade ao povo norte-americano. Não se opôs à instalação de um campo de detenção para os prisioneiros da Al Qaida na base militar de Guantanamo. Por seu lado, George W. Bush não incluiu Cuba entre os países do “eixo do Mal”.

Embora afetadas pelo injusto boicote comercial, as relações cubano-norte-americanas evoluíram, durante os dois mandatos do presidente William Clinton, num sentido mais construtivo. Já existem vôos diretos entre os Estados Unidos e Cuba, que permitem aos imigrantes cubanos visitarem suas famílias. Também é permitida a esses imigrantes uma remessa mensal em dinheiro, a partir dos Estados Unidos, para seus familiares. E até turistas norte-americanos visitam o país aos milhares6… É óbvio que Washington aposta numa transição pacífica, em Cuba, temendo uma desestabilização brutal que implicaria na saída de centenas de milhares de boat people para a Flórida, cujo equilíbrio demográfico seria abalado…

Dezenas de personalidades norte-americanas (senadores, deputados, professores, cientistas, jornalistas, religiosos) chegam constantemente a Havana. Jesse Jackson, Ted Turner, Francis Ford Coppola, Robert Redford e Jane Fonda visitam freqüentemente a ilha. No último mês de fevereiro, o cineasta Oliver Stone passou várias semanas no país acompanhando Fidel Castro, sobre quem está fazendo um documentário. E poderia ser citada a passagem por Cuba de dezenas de personalidades latino-americanas e européias (principalmente, italianas, francesas, espanholas e portuguesas). Tudo isso é considerado normal.

Inquisidores preguiçosos

Fidel confirmou que não existe mais “modelo” em política, e que não há quem saiba dizer com precisão, hoje, o significado de socialismo

Exceto para um grupo aparentemente minúsculo de estrategistas de salão, inconsoláveis em seu saudosismo do anticomunismo de antigamente, e irritados por terem erroneamente previsto, dez anos atrás, a queda “inevitável” do regime cubano. Desconhecendo o novo contexto geopolítico, esses ex-combatentes da guerra fria decidiram criticar a participação de personalidades francesas (em particular, a minha) no Salão do Livro de Havana.

Baseando-se num artigo repleto de erros do jornal Libération7, sem verificarem a informação8, vários inquisidores preguiçosos9 demonstraram, uma vez mais, que, como os papagaios, a imprensa repete a imprensa…

No contexto de sua nova política de divulgar livros não-ortodoxos10, o Instituto do Livro de Cuba solicitou a publicação de meu livro Propagandes silencieuses11. Por que não deveria eu aceitar? Quem teve a paciência de o ler, sabe que não irá agradar ao poder, seja ele qual for12. Concebido de acordo com o espírito subversivo dos mestres da Escola de Frankfurt (Adorno, Benjamin, Marcuse), ele propõe uma caixa de ferramentas conceituais que permita às pessoas defenderem-se contra qualquer manipulação dos espíritos, venha ela da direita ou da esquerda13.

Debate em Havana

Seguiu-se ao lançamento do livro, em Havana, um debate franco e aberto com intelectuais, jornalistas e estudantes, não somente na presença de Fidel Castro14, mas de duas importantes personalidades norte-americanas, os prêmios Nobel de Economia Robert Mundell e Joseph Stiglitz.

Durante esse debate, lembrei, entre outras coisas, que “a União Soviética perdeu a guerra fria por nocaute” e que, dessa derrota flagrante, devia ser tirada a seguinte lição: “Um regime sem democracia e uma economia sem mercado levam à catástrofe.” Fidel Castro confirmou que atualmente não existe mais um “modelo” em política e que, nos dias de hoje, não é possível dizer que alguém saiba com precisão o significado de “socialismo” 15. Aliás, ele acrescentou que se é um fato que a contestação à globalização liberal é legítima, é também necessário condenar radicalmente qualquer recurso à violência…

Mais de um milhão de pessoas visitaram o Salão do Livro de Havana (que, no seu gênero, é o mais freqüentado do mundo) e cinco milhões de livros foram divulgados nesse pequeno país em que a leitura é uma paixão. Foram realizadas centenas de debates sobre os assuntos mais diversos. As editoras francesas puderam divulgar livros de escritores críticos com relação ao regime (Cabrera Infante, Reinaldo Arenas, Jesus Diaz, José Triana, Raul Rivero etc.) 16. Nenhum livro foi censurado pelas autoridades. O que confirma, uma vez mais, que o anticastrismo primário é o liberalismo dos imbecis… (Trad.: Jô Amado)

1Relatório sobre o Desenvolvimento Humano, Nações Unidas, 2001.
2Ler, entre outros, os artigos “Entre o orgulho e o tédio”, de François Barthélémy, Le Monde Diplomatique, setembro de 2001, “Miser sur l?Eglise pour sauver la révolution cubaine?”, de Janette Habel, Le Monde Diplomatique, fevereiro de 1997, e “Le ?bon? discours d?opposition”, de Lisandro Otero, Le Monde Diplomatique, agosto de 1994.
3Cuba, Relatório Anual de 2001, Anistia Internacional, Londres, 30 de maio de 2001.
4O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) revela, em seu relatório anual, que 55 jornalistas foram assassinados no mundo em 2001. Nenhum deles em Cuba.
5Libération, 25 de fevereiro de 2002.
6Le Monde, 1º de fevereiro de 2002.
7Escrito por um novato que acabava de descobrir Cuba e que, de maneira bastante óbvia, não tem o domínio da língua espanhola, o artigo acumula banalidades e estereótipos; denomina Fidel Castro lider máximo, expressão inventada pela CIA e jamais utilizada pelos cubanos; menciona propagandas silenciosas sem ter visto uma única linha; ignora que o jornal Granma não sai aos domingos etc…
8Com base em informações de segunda mão, não verificadas, o jornalista Jean-Michel Caroît, do Monde (17 de fevereiro de 2002), que não se encontrava em Havana, faz – a partir de São Domingos – uma descrição das minhas atividades em Cuba, apresenta-me, equivocadamente, como “um dos organizadores do Forum Social Mundial de Porto Alegre” e inventa uma conversa imaginária entre Fidel Castro e eu sobre Porto Alegre…
9Laurent Joffrin, no Nouvel Observateur, 21 de fevereiro de 2002; Philippe Sollers no Journal du Dimanche, 24 de fevereiro de 2002; Alain-Gérard Slama na France Culture, 1º de março de 2002; Alain Finkelkraut, e novamente Laurent Joffrin, na France Culture, 2 de março de 2002; e François Reynaert no Nouvel Observateur, 28 de fevereiro de 2002. Esses senhores foram os arautos deslumbrados da globalização liberal. Alguns não chegaram a decolar, pois perderam a hora do despertar-cidadão que significaram, por exemplo, o Attac, Seattle, Porto Alegre…
10Ler, de Françoise Barthélémy, “Entre o orgulho e o tédio”, Le Monde Diplomatique, setembro de 2001.
11Editora Galilée, Paris, 2000. Com mais de 20 mil exemplares vendidos na França, o livro já foi traduzido – além de Cuba – em Portugal, no Brasil, na Itália, na Grécia, na Alemanha, na Coréia do Sul, nos Estados Unidos e na Austrália.
12O livro até tem uma crítica ao regime cubano (págs. 193 a 195).
13Pascal Bruckner, um ex-“novo filósofo” que, naturalmente, se tornou um “velho reacionário”, dedicou a Propagandes silencieuses nada menos que dois dos dez capítulos de seu novo livro Misère de la Prospérité (ed. Grasset, 2002). Ou seja: ao tentar destruí-lo, foi forçado a citá-lo.
14Houve quem me criticasse por essa proximidade com Fidel Castro, mas uma semana mais tarde, em Berna, eu participava de um debate público sobre a globalização ao lado do vice-presidente e ministro das Finanças da Confederação Helvética (Suíça), Pascal Couchepin. Teria eu, nesse meio-tempo, me tornado o “álibi dos grandes bancos suíços” (ler Le Temps, 22 de fevereiro de 2002, e Le Courrier de Genève, 23 de fevereiro de 2002)?
15Na ocasião, Fidel revelou que durante o último encontro do Forum de São Paulo – grupo que reúne

Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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