Povo da Bielorrússia nas ruas contra fraude nas urnas

Eleições presidenciais

Povo da Bielorrússia nas ruas contra fraude nas urnas

Acervo Online | Bielorrússia
por Virgínio Gouveia
17 de agosto de 2020
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Especulam que se houver uma ofensiva do povo bielorrusso contra Lukashenko o Kremlin entrará em cena enviando apoio militar russo para defender o “presidente”

Na Bielorrússia, Alexander Lukashenko está no poder desde 1994 e no dia 9 de agosto teve sua suposta “6ª vitória” consecutiva nas eleições presidenciais. Desde então, o povo bielorrusso ocupa pacificamente as ruas do país, exigindo a sua renúncia e a real apresentação do resultado eleitoral, que está sob forte suspeita de fraude.

A política agressiva do “último ditador da Europa”, com seu forte aparelho militar, está fazendo jorrar sangue da população, com prisões arbitrárias, desaparecimento e mortes nas ruas da ex-república soviética.

A principal candidata da oposição, Svetlana Tikhnovskaya, nome que nutria entre os eleitores bielorrussos a potencialidade de vencer a disputa eleitoral, logo após o resultado das eleições ser divulgado foi obrigada a fugir para Vilnius, capital da Lithuânia, país que junto à Estônia e Lethônia é umas das três ex-repúblicas soviéticas dos Balcãs.

Sobre a particularidade que se passa na Bielorrússia é curioso notar que não há nas ruas do país figuras públicas dos Estados Unidos ou políticos internacionais de nações estrangeiras apoiando o povo como se fizeram presentes ativamente na Praça Maidan, em Kiev, na revolta ucraniana de 2014. Desse fato, denota-se que o povo bileorrusso está sozinho – sem ajuda de qualquer organização, instituição ou nações estrangeiras -, resistindo nas ruas a repressão violenta do governo e sem qualquer espécie de liderança que os represente.

O “presidente” bielorrusso substimou o povo sem mensurar as consequências de sua alavancada autoritária. A sua suposta “vitória esmagadora” com 80% dos votos é risoriamente fruto de uma manipulação absurda das urnas. Ora, há que se convir, nem na Rússia se manipula as urnas num nível tão descarado como esse. Não caiamos no autoengano oportunista eleitoreiro, em nenhum lugar do Leste Europeu, nem em qualquer outro lugar do planeta há processo eleitoral verdadeiramente democrático.

Afinal de contas, no mundo contemporâneo atual o termo “democracia” é usado como um verniz eufemista para manter e (re)produzir [a um preço cada vez mais alto] a mais-valia fruto da exploração da classe trabalhadora mundial. Por isso, não precisamos nos esforçar tanto para detectar que as eleições burguesas são – em maior ou menor medida – orquestradas pelo poder financeiro do capital.

Na Bielorrússia, a classe trabalhadora puxou uma greve generalizada em suas principais cidades. Nas mídias televisivas e nos jornais, como é de se esperar, estão tentando ludibriar os telespectadores na tentativa de pintar o desejo dos bielorrussos como sendo ideologia neo-nazi. Fruto da velha-barata-e-simplista lógica da política que encolhe todas as possibilidades do presente e do porvir numa lógica deficientemente bilateral. Nessa esteira, algumas organizações delirantes de esquerda saíam em defesa de Lukashenko por acreditarem que sua política econômica aplica-se tal como uma política anti-neoliberal de outrora.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e da Bielorrússia, Alexander Lukashenko. (Crédito: Divulgação/ Presidência da Rússia)

A questão mais importante do momento é medir a correlação de forças entre Lukashenko com o seu agressivo aparelho militar contra o povo bielorrusso desarmado nas ruas. A permanência de Lukashenko no poder interessa substancialmente a Moscou. A Bielorrússia é geograficamente situada entre a Rússia e a Polônia. Cabe recordar que a URSS foi invadida pelo exército nazista de Adolf Hitler, exatamente por ali, região onde hoje encontra-se a Bielorrússia.

Especulam-se na Rússia que, embora Vladimir Putin pareça ser um político muito mais habilidoso que seu vizinho, se houver uma ofensiva do povo bielorrusso contra Lukashenko o Kremlin entrará em cena enviando apoio militar russo para defender o “presidente”. Pois, no tabuleiro da geopolítica há um receio imensurável por parte do establishment russo, de que a “Bielorússia torne-se uma nova Ucrânia.”

Por outro lado, quanto mais elevado tornar-se o número de mortos, feridos, presos e desaparecidos, concomitantemente a isso, mais se eleva a ira dos povos, incluindo aqui o povo russo. Se, eventualmente, militares russos invadirem o ex-país soviético para massacrar o povo bielorrusso, esperamos que o povo russo se levante e lute ombro a ombro ao lado dos seus irmãos contra o autoritarismo reinante dessas nações e comecem a reconstruir um mundo sem ditadores.

 

Virgínio Gouveia é doutorando em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com estadia em andamento no Instituto de Filosofia de Moscou/ Rússia – Academia de Ciências da Rússia (Rossiyskaya Akademiya Nauk, Ran).

 



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