Psicanálise, colonialismo e a política da neutralidade
Psicanálise sob Ocupação, de Lara e Stephen Sheehi, questiona a suposta neutralidade da psicanálise diante da ocupação palestina. A obra mostra, a partir de relatos clínicos, como a violência política e as relações coloniais atravessam e estruturam o sofrimento psíquico
Em grande parte da tradição psicanalítica, parte-se da ideia de que existe um espaço interno relativamente protegido, no qual a fantasia pode se desenvolver segundo sua própria lógica, enquanto a realidade externa chega ao sujeito principalmente como algo que será transformado pelo trabalho psíquico. Em Psicanálise sob Ocupação, livro recém-lançado no Brasil pela Edições Inadequadas, Lara e Stephen Sheehi nos apresentam as limitações dessa lógica.
Logo no primeiro capítulo, Caesar Hakim, psicólogo em Belém, narra um episódio marcante: estava em sessão quando o exército israelense entrou na cidade, era possível ouvir os tiros e sentir o cheiro do gás. Mesmo fechando a janela, o cheiro continuou dentro da sala. Ele pergunta, meio a sério, meio brincando, se aquilo era cisão kleiniana ou dissociação, e conclui que talvez não fosse nem uma coisa nem outra. Talvez seja simplesmente o que significa clinicar na Palestina.
Reunindo material através de anos de conversas com clínicos palestinos, os autores interrogam pontos centrais da prática psicanalítica e apresentam a questão, ouvida da boca de Ussama, clínico em Ramalá: se o primeiro objetivo da psicanálise é tratar o sofrimento do paciente, “não deveria ela ser um mecanismo de mobilização social e política?”
A psicanálise contra o universalismo e a neutralidade
Ao tentar produzir respostas a essa importante questão, os autores recusam a ideia de uma psicanálise universal. Apoiados em Fanon, mostram como esse pretenso universalismo funciona: a “psique do colonizador” é apresentada como a psique universal e “saudável”, enquanto a do colonizado é lida como restrita e “primitiva”.
É nesse ponto que a crítica à neutralidade adquire centralidade e talvez represente uma das intervenções mais desconfortáveis dos autores no debate contemporâneo. Retomando Portuges, definem a neutralidade como uma técnica que “obscurece o reconhecimento e a elucidação do papel dos fatores ideologicamente construídos” na própria teoria do tratamento. O problema, portanto, reside na pretensão de falar a partir de um lugar que se apresenta como universal e desinteressado e que, por isso mesmo, oculta os compromissos que sustentam esse discurso. Ao longo da obra, essa crítica recai principalmente sobre abordagens liberais e universalistas que reivindicam estar fora da política, embora continuem reproduzindo, em sua teoria e em sua prática, a racionalidade colonial.
Há pontos de encontro claros entre o debate feito pelos autores e os argumentos de Robert Castel em O Psicanalismo. O sociólogo francês argumenta que o analista não é social ou politicamente neutro, e sim “neutralizável”. Essa neutralização se apoia menos em uma virtude técnica do que na posição de classe de quem exerce a clínica e em seu consenso silencioso com a ordem dominante. Nesse caso, a neutralidade serve para isentar o psicanalista de pensar sua responsabilidade social. Castel refere-se a uma psicanálise que separando-se das questões sociais, e, transformando problemas políticos em conflitos individuais e/ou psicológicos, trata como ciência aquilo que também é uma posição ideológica.
Psicanalistas brasileiros, em especial aqueles que se aventuraram a apresentar soluções diante do genocídio palestino, talvez se sintam diretamente interpelados por essa contundente crítica à neutralidade. Os Sheehi dedicam boa parte de sua argumentação a desmontar o que chamam de “inocência psicanalítica”: a crença de que existe um meio-termo possível entre colonizador e colonizado e de que bastaria compreender “os dois lados da moeda” para construir uma saída pela mediação e pelo diálogo.
Ao tratar a violência “como um subproduto ou consequência, e não como uma estrutura” essa perspectiva pressupõe que ambas as partes deveriam renunciar igualmente à violência, ignorando que ela nunca foi equivalente em escala, poder ou legitimidade. Desse modo, tomar a violência daqueles que resistem à ocupação como equiparável à dos colonizadores produz, na verdade, um apagamento da realidade da ocupação e da violência colonial e forja uma falsa simetria entre as duas posições.

A comunidade psicanalítica brasileira, ao se entrincheirar na posição de condenação da violência “dos dois lados”, e na defesa do reconhecimento mútuo, só é capaz de apresentar a escuta como uma terceira via supostamente situada acima do conflito. O livro mostra, contudo, que essa posição, embora frequentemente tomada como um gesto de generosidade e equidistância, reforça a estrutura colonial ao apagar a assimetria que organiza a relação entre colonizador e colonizado.
Se a teoria nunca é produzida fora da história, também o sofrimento precisa ser compreendido a partir das condições que o tornam possível, razão pela qual Psicanálise sob Ocupação argumenta que o mal-estar palestino não se explica apenas pelos conflitos infantis, pela fantasia ou pela história familiar, mas também pelas formas de violência colonial que atravessam a constituição da vida psíquica.
A tese ganha concretude no caso de Samar, atendida por Caesar Hakim, cuja análise acompanha uma mulher que procura tratamento tomada pela angústia de morte após viver durante vinte anos em um casamento compulsório, ao mesmo tempo que reside ao lado do Muro do Apartheid, nas proximidades do Posto de Controle 300, que separa Belém de Jerusalém. O trabalho analítico não procura decidir se o Muro representa o confinamento doméstico ou a ocupação colonial, mas sustenta o ponto em que, nas palavras dos autores, “o interior encontra o mundo exterior” permitindo que a violência de gênero e a violência colonial se iluminem mutuamente.
Para além do trauma: o palestino como sujeito
Quando abordam o trauma, os autores recusam ao mesmo tempo o paradigma da vítima traumatizada e o da resiliência apolítica. Ambos esvaziam o sujeito palestino pois retiram dele seu mundo interno, política sexual e de gênero, condições materiais de existência e as dores “mundanas” que os caracterizam como sujeitos de desejo. A resiliência, categoria valorizada na saúde mental ocidental, é o caso mais revelador dessa operação. Quando o profissional mede a capacidade individual de suportar adversidades, deixa de perguntar contra o que aquela pessoa precisa resistir e nesse movimento, a pergunta troca de endereço e aquilo que produz o sofrimento sai de cena.
Para os autores, discursos sobre trauma, resiliência, normalização e direitos humanos funcionam com frequência como cobertura do colonialismo de assentamento, e profissionais da saúde mental colaboram nesse encobrimento, já que através deles a violência colonial perde o estatuto de problema político e passa a ser tratada como questão psicológica individual.
Os autores sustentam que esse processo alcança também a vida psíquica dos palestinos, através dos modos de pensar e de sentir moldados pela lógica da ocupação, que passam a operar dentro do próprio sujeito. Contra essa lógica, destacam o sumud, palavra árabe de difícil tradução que designa perseverança ou firmeza e, diferentemente da resiliência, descreve uma prática coletiva de resistência diante da ocupação.
Ao valorizar o sumud, os autores também interpelam pressupostos da própria psicanálise, criticam as teorias que elegem a autonomia individual como critério maior de saúde psíquica e mostram que, sob condições coloniais, a resistência coletiva pesa mais do que a independência pessoal. O livro inverte então o percurso habitual da produção de conhecimento ao qual estamos acostumados, visto que, em vez de aplicar teorias do Norte Global para explicar a experiência palestina, faz dessa experiência uma fonte capaz de transformar a teoria psicanalítica.
Ao final, o livro deixa dois conceitos frente a frente. De um lado, a neutralidade, descrita por Castel como recusa disfarçada de posição, de outro, o sumud, que os autores apresentam como prática coletiva diante da ocupação. Entre esses dois pólos não há terceira via, e é essa recusa que sustenta a crítica dos autores à psicanálise liberal, ficando aos leitores e psicanalistas brasileiros, acostumados a associar neutralidade a rigor técnico, a tarefa de reconhecer em qual desses dois pólos sua própria escuta vai se instalar.
Lucas Félix Novaes é Doutorando em Psicologia pela FFCLRP-USP, Mestre em Ciências do Envelhecimento pela Universidade São Judas Tadeu (USJT) e Especialista em Psicologia Clínica e Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Professor e membro do NDE do curso de Psicologia da Faculdade Nove de Julho

