Qual será o peso da religião nas eleições presidenciais de 2026?
A fé funciona como uma ferramenta retórica variável que preenche lacunas quando temas econômicos ou sociais não são suficientes para diferenciar os candidatos
A presença da religião em eleições presidenciais não é algo novo na política brasileira. Ao menos desde 1989, a primeira eleição direta para presidente após 21 anos de ditadura civil-militar, candidatos e lideranças religiosas utilizam argumentos baseados na fé cristã para convencer o eleitorado. O evento mais simbólico daquele ano ocorreu no dia 15 de novembro. Do centro do gramado do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, diante de um público de cerca de 200 mil fiéis, o fundador da Igreja Universal, Edir Macedo, profetizou a vitória de Collor e demonizou Lula.
Jornais da época afirmam que Macedo e Collor conversaram dias antes da eleição em um encontro no Hotel Caesar Park, em Ipanema. O líder da Universal se ofereceu para rezar uma “missa evangélica” da vitória, caso Collor ganhasse. A celebração jamais foi realizada. Receoso diante do impacto social e político que provocaria, o candidato do PRN não permitiu o evento. É bom lembrar que, no início dos anos 90, o eleitorado evangélico somava apenas 10%.
Quatro anos depois, em 1994, o trágico fim do governo Collor traria dor de cabeça à Igreja Universal. Para se desfazer do legado negativo do ex-presidente, Macedo acionou o bispo Rodrigues, seu homem de confiança. Rodrigues então passou a declarar que os evangélicos haviam sido traídos por Collor. Não tardou, e a igreja reiniciou os ataques a Lula, em uma clara demonstração de apoio a Fernando Henrique Cardoso, eleito no primeiro turno. Já na disputa seguinte, em 1998, a Universal e o meio evangélico mantiveram relativa neutralidade na disputa presidencial. Os esforços foram centrados na ampliação das bancadas parlamentares. Ainda assim, nas páginas da Folha Universal foram publicadas críticas ao governo FHC e, pela primeira vez, elogios a Lula, oferecendo sinais de uma aproximação que aconteceria em 2002.
Porém, no primeiro turno de 2002, a Universal optou pelo presbiteriano Antony Garotinho, do PSB. Do lado petista, Lula argumentava em favor da aliança com a igreja de Macedo como um modo de ultrapassar as fronteiras da esquerda. No entanto, houve resistências internas do partido e de aliados da Igreja Católica, que viam com ressalvas a aproximação do PT com a Universal. Naquele segundo turno, o meio evangélico ficou dividido: enquanto a Universal apoiou Lula, a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular preferiram José Serra. Com a vitória do petista no segundo turno, 2002 ficou marcado como o início de uma aliança do PT com setores evangélicos que se repetiria em 2006 e seguiria até março de 2016. Às vésperas do impeachment, o PRB, partido da Universal, desembarcou do governo Dilma e, até o momento, não retornou ao polo petista.

O paradigma de 2010
Ainda que as eleições anteriormente tenham assistido à presença de temas e atores religiosos, o ano de 2010 foi paradigmático. Alguns analistas atribuem, erroneamente, a Jair Bolsonaro, em 2018, a entrada maciça da temática religiosa em eleições presidenciais. Porém, o fato é mais antigo. Foi pelas mãos de José Serra, do PSDB, que o assunto se tornou, pela primeira vez, agenda eleitoral e ocupou um lugar de destaque nos debates e nos discursos dos presidenciáveis. Para compreender as razões de tal feito, é preciso lembrar a conjuntura da época. O segundo mandato de Lula batia recordes de aprovação, cerca de 80% da população considerava o seu governo ótimo ou bom. Em um contexto de alta popularidade, era uma tarefa difícil para Serra antagonizar com a candidata governista Dilma Rousseff. Até mesmo as propagandas eleitorais do tucano buscavam associar a imagem dele à de Lula como o mais indicado para dar continuidade às políticas sociais do chamado “lulismo”.
Porém, a saída encontrada por Serra para se diferenciar de Dilma foi pela via religiosa. Valendo-se da publicação, no final de 2009, da terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, o PNDH-3, o tucano se utilizou das controvérsias acerca do aborto levantadas por líderes evangélicos e de declarações polêmicas de Dilma para antagonizar com sua rival. O documento mencionava o aborto como questão de saúde pública e direito das mulheres à gestão de seus corpos. Assim, o tema se tornou o principal assunto eleitoral. Pela primeira vez na história da Nova República o centro das discussões dos candidatos à Presidência não foi a redistribuição de renda, a inflação ou as políticas de segurança, de educação e de cultura. Em vez disso, a agenda eleitoral gravitou em torno da crença e dos predicados religiosos dos presidenciáveis, do apoio ou da condenação ao aborto.
O que se viu em seguida foi uma onda de usos políticos da religião, e vice-versa. Enquanto Serra assumiu uma postura combativa, direcionando ataques a Dilma e Marina, as duas candidatas buscavam se defender. Dilma temia perder votos por posicionamentos do passado; já Marina tentava se desvencilhar da pecha de evangélica e do teto eleitoral que esse rótulo trazia. A religião dominou o debate nas eleições de 2010. Desde então, se tornou um tema de interesse das campanhas e dos analistas políticos. Os institutos de pesquisa, que até aquele ano perguntavam apenas ocasionalmente a religião dos entrevistados, passaram a incluir a pergunta de modo obrigatório em seus questionários, possibilitando o estudo mais sistematizado da relação entre religião e voto.
Em 2026, como fica?
Não cabe aos sociólogos e cientistas políticos fazerem exercícios de futurologia. Contudo, é possível aprender com o passado e compreender padrões de comportamento, incluindo o comportamento eleitoral e as estratégias de campanha. Ao analisar as eleições anteriores, observa-se que o tema da religião surgiu como uma maneira de Serra se opor a um governo bem avaliado. Ora, se não há grandes questões nacionais a serem debatidas, se a população está contente com os rumos do país e do governo, não existe margem para as candidaturas de oposição se apresentarem como uma alternativa eleitoral viável. Esse é o primeiro ensinamento: para germinarem temas religiosos em eleições presidenciais, é preciso que o terreno esteja propício e que o governo que disputa a reeleição seja bem avaliado pela maioria da população. Assim, uma das saídas para a oposição é usar a religião como retórica eleitoral.
Isso não quer dizer que os temas religiosos não existam em outras conjunturas eleitorais, mas sim que eles “pegam menos”. Em 2014, o volume dos usos religiosos nas campanhas foi menor em comparação a 2010 devido à avaliação intermediária do governo Dilma, pouco abaixo de 40% de ótimo e bom. Assim, o centro do debate não girou em torno da religião, como em 2010. O mote do debate naquele ano foi a corrupção. Assim, não era necessário que a oposição recorresse à religião como a única tábua de salvação.
Já em 2018, outro momento de intenso uso religioso nas campanhas, o descontentamento generalizado da população com o governo Michel Temer, considerado ruim ou péssimo por cerca de 80% dos eleitores, inviabilizou o candidato governista Henrique Meirelles (MDB). Isso colaborou para que os dois polos daquela conjuntura fossem Bolsonaro e o PT, na figura de Fernando Haddad, dada a prisão de Lula. Desse modo, a segunda lição que podemos aprender é que governos muito mal avaliados também oferecem um solo fértil para que assuntos religiosos germinem. Ainda que haja divergências quanto às soluções, os problemas já estão postos. Além disso, o sucesso do segundo mandato de Lula impôs uma agenda de políticas de longo prazo, incluindo o Bolsa Família e os programas de acesso estudantil e demais políticas redistributivas. Dificilmente um candidato se opõe a tais políticas de forte apelo social. Os debates giram em torno da expansão, da destinação de recursos e da nomenclatura dos programas, sem grandes desavenças a respeito da implementação, ou não, dessas políticas sociais.
Portanto, os dois extremos – avaliação positiva próxima a 80% ou avaliação negativa próxima a 80% do eleitorado – indicam momentos propícios à maior presença da religião em eleições presidenciais por meio de discursos, manifestações de apoio de religiosos e circulação social desses assuntos. Também é preciso mencionar que a centro-direita, desde 2010, aprendeu que a religião tem o poder de ativar parte do eleitorado fiel ao lulismo, um tema que merece outro momento para discussão. Em suma, a resposta para a questão posta no título deste texto – “Qual será o peso da religião nas eleições de 2026?” – é: depende. Depende da conjuntura de aprovação ou desaprovação do governo Lula. Caso a popularidade fique em torno de 50%, como está nos levantamentos atuais, a tendência é que ela “pegue menos”, não sendo a “pedra de toque” eleitoral em 2026. Nesse caso, resta saber qual tema ocupará a posição de agenda eleitoral em seu lugar.
Alexandre Landim é doutor em Sociologia. Prof. de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Autor do livro O Deus das urnas: Evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil (2026, Ed. Telha – no prelo).

