SIGNOS, MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE

Quando a carta quer reescrever a derrota

Carta de Flávio Bolsonaro tenta disputar a memória da derrota e instituir uma imagem de autoridade 

Uma carta política não é apenas um conjunto de frases. É uma cena de enunciação: nela, palavras, imagens, emblemas e assinaturas procuram produzir uma posição diante do mundo. A carta divulgada por Flávio Bolsonaro após a eleição pode ser lida como uma tentativa de reorganizar simbolicamente o acontecimento da derrota e disputar quem terá autoridade para nomeá-lo. 

Na primeira versão, Flávio se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e atribuiu a derrota a uma fraude, sem apresentar provas, segundo as reportagens. O documento trazia um brasão histórico com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. Depois da repercussão, a autodenominação foi alterada para “líder do Brasil”, e o brasão foi substituído. Essas mudanças não são detalhes laterais: pertencem à própria história do signo. A carta foi publicada, interpretada e modificada. 

Crédito: Brazilian Government/Wikimedia Commons

A primeira formulação reivindica uma autoridade: “verdadeiro presidente eleito”. É um enunciado que tenta produzir aquilo que declara. Mas o ato de dizer não desfaz o resultado eleitoral; ele cria uma disputa entre a realidade institucional e a realidade discursiva proposta pelo enunciador. A derrota passa a ser nomeada como fraude, e a autoproclamação oferece ao público uma identidade alternativa para o candidato: não o derrotado, mas aquele que afirma ter sido privado de uma vitória legítima. 

A carta também mobiliza um emblema. O brasão costuma condensar Estado, história e autoridade numa imagem de reconhecimento imediato. Sua presença dá à declaração uma aparência oficial, enquanto a inscrição “Estados Unidos do Brazil” convoca um tempo anterior. Essa denominação foi usada na história republicana brasileira; “Brazil” também é, hoje, a forma inglesa do nome do país. As duas camadas coexistem no signo. 

No percurso interpretativo que proponho, a grafia com Z abre ainda um aceno ao universo anglófono e à imagem política dos Estados Unidos. Em relação à aproximação com Donald Trump, leio nesse conjunto um desejo de reconhecimento por uma autoridade estrangeira imaginada como protetora – quase uma figura paterna. Essa é uma interpretação dos signos em relação uns aos outros, não uma declaração literal de Flávio sobre sua vida íntima. A semiótica trabalha justamente com essa passagem: o signo não entrega sozinho uma intenção; ele produz interpretantes quando entra em relação com outros signos, com a memória e com a história de quem o lê. 

A saga do herói também ajuda a compreender a arquitetura dessa narrativa. O herói atravessa uma provação e retorna transformado, capaz de oferecer à comunidade algo aprendido no caminho. A derrota poderia constituir uma prova dessa natureza: confrontar o limite, elaborar a perda e decidir como continuar. Na carta, porém, a provação é rebatizada como fraude. Em vez de reconhecer publicamente a derrota como experiência, a narrativa reivindica outro lugar: o de vencedor verdadeiro, privado de sua vitória. 

É nesse ponto que tomo o arquétipo junguiano do puer aeternus, o menino eterno. Não como diagnóstico clínico, mas como chave para ler a posição encenada: o sujeito que precisa preservar a imagem de vencedor e que encontra dificuldade em transformar a contrariedade em experiência de amadurecimento. A imagem do menino que quebra o brinquedo e sai da brincadeira nomeia, aqui, uma estrutura narrativa: quando o jogo produz um resultado indesejado, tenta-se mudar o sentido do resultado ou abandonar a cena. 

A visita de Flávio ao pai, antes de deixar o Brasil, dá à narrativa uma dimensão intergeracional. As reportagens registram o encontro. Uma delas, citando aliados, relata que Jair Bolsonaro consolou o filho pela derrota e o incentivou a continuar na oposição. Não conhecemos o conteúdo integral da conversa; podemos, contudo, analisar a cena pública que foi narrada: consolo, amparo e continuidade política. 

É aí que o provérbio de EjilaAsebora ganha força interpretativa: “O mais velho que ofender o mais novo será punido 12 vezes; o mais novo que ofender o mais velho será punido 1 vez”. Leio nessa diferença uma assimetria de responsabilidade: quanto maior a autoridade de quem ocupa o lugar de mais velho, maior sua obrigação de orientar. A função paterna, nessa chave, não é apenas proteger o filho da dor. É também ajudá-lo a encontrar medida diante do limite, suportar a adversidade e amadurecer na experiência da perda. 

A cena relatada permite perguntar se o amparo paterno, quando enfatiza a continuidade da disputa sem tornar visível um chamado à elaboração, conserva o filho no lugar de menino. O pai aparece como quem consola e incentiva; não como quem, na narrativa pública, convoca à aceitação do resultado e à passagem para uma posição adulta. Essa leitura não pretende reconstituir a intimidade familiar: examina o valor simbólico da cena tal como foi apresentada. 

Memória e ancestralidade, como categorias epistemológicas de terreiro, não são simples arquivos do passado. São modos de transmitir experiência, responsabilidade e orientação. A ancestralidade se faz nas pegadas: nos gestos que podem ser retomados por quem vem depois. Por isso, proponho a noção de ancestralizabilidade para nomear a possibilidade ética de uma trajetória se tornar referência compartilhável – não por autoproclamação, mas pela relação entre palavra, gesto e consequência. 

A carta tenta disputar a memória da derrota e instituir uma imagem de autoridade. O brasão convoca o passado; a autoproclamação reivindica o presente; a cena paterna situa essa disputa numa linhagem. Mas o legado não se decide apenas pelo nome que alguém atribui a si mesmo. Decide-se também pelas pegadas que deixa e pela maturidade que essas pegadas ensinam. Quando a contrariedade chega, que memória uma liderança escolhe construir – e que caminho deixa para quem vem depois? 

 

Bàbá Sidnei Nogueira é escritor, pesquisador e doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciado há 40 anos para Ṣàngó, é filho de Ìyálórìṣà Joesia Teles de Oyá e Ọ̀gá Plácido de Ògún. É membro consultivo da Cátedra de Sustentabilidade da Unesco (SOST) e autor de Intolerância religiosa, em edição revista e ampliada, além de outras obras. Sua trajetória reúne pesquisa, produção intelectual e atuação pública em torno das religiões de matriz africana, do racismo religioso, da ancestralidade e da liberdade religiosa. 

 

Fontes para conferência 

  • JOTA. “Flávio Bolsonaro se declara presidente eleito dos Estados Unidos do Brazil”. 28 out. 2026.
  • https://www.jota.info/eleicoes/eleicoes-2026/flavio-bolsonaro-se-declara-presidente-eleito-dos-estados-unidos-do-brazil
  • R7. “Flávio Bolsonaro usa brasão com ‘Estados Unidos do Brazil’ em carta e depois corrige”. 28 out. 2026.

https://noticias.r7.com/brasilia/flavio-bolsonaro-usa-brasao-com-estados-unidos-do-brazil-em-carta-e-depois-corrige-28102026/ 

  • UOL. “Da derrota à chegada a Miami: o roteiro da fuga de Flávio para os EUA”. 28 out. 2026.

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/28/linha-do-tempo-flavio-bolsonaro.ghtm 

  • IG. “Após fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil, Carlos visita o pai”. 28 out. 2026.

https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2026-10-28/apos-fuga-de-flavio-bolsonaro-do-brasil-carlos-visita-o-pai.html 

  • FUNAG. “Topônimos e gentílicos”, Manual de Revisão.

https://funag.gov.br/manual/index.php?title=Top%C3%B4nimos_e_gent%C3%ADlicos 

  • Arquivo Nacional. “Brasil”, Glossário de História Luso-Brasileira.

https://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes-glossario/9-verbetes-iniciados-em-b/39-brasil 

  • Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Parecer sobre a denominação oficial da República, com referência à Constituição de 1967.

https://www.ceesp.sp.gov.br/wp-content/uploads/2024/11/par-7-69-pro-587-69-s-maiara-c-augusto-w-augusto.pdf 

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