O IMPACTO DAS BETS SOBRE AS FAMÍLIAS É "DEVASTADOR"

Quando a esperança virou aposta?

Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?

Nunca foi tão fácil apostar. Um celular, alguns cliques, o jogo está aberto: na fila do pão, no ônibus lotado, às três da manhã com a luz do quarto apagada.

Propaganda no intervalo do jornal, influenciador fazendo dancinha com o logo da casa de aposta, programa de auditório que sorteia prêmio, camisa do time com o nome da bet estampado no peito e ações publicitárias no meio do maior evento esportivo do mundo. Em poucos anos, as bets tomaram a paisagem brasileira com uma velocidade que quase não deixou espaço para pergunta. Apostar deixou de parecer exceção. Tornou-se parte da rotina.

Os números só confirmam o que a rua já anuncia. Em artigo publicado no Estadão em junho passado, o economista Pedro Fernando Nery mostrou uma coisa difícil de digerir: as famílias brasileiras já gastam mais com bets do que com livros, cinema e música. Gastam mais com bets do que com frutas, legumes e verduras. Isso não é só economia. É um retrato do que estamos priorizando, e, mais do que isso, dos ambientes que estamos montando, tijolo por tijolo, para as pessoas viverem dentro.

Essa naturalização tem custo. A cientista política Esther Solano vem documentando isso em suas pesquisas, e a palavra que ela usa não é por acaso: o impacto das bets sobre as famílias é “devastador”.

A perda financeira dói, claro. Mas o dano mais persistente é outro, e é mais silencioso. Angústia, ansiedade, depressão: essas coisas deixam de atingir só quem aposta e passam a reorganizar a vida de todo mundo em volta. Solano descreve o processo como uma bomba lançada no meio da sala de casa.

Nas pesquisas com adolescentes, ela encontrou jovens apostando durante a aula, como quem checa o WhatsApp. Banalizado. Nas comunidades mais vulneráveis, as dívidas alimentam brigas, fazem circular empréstimo informal com juros que ninguém anota no papel, empurram situações de violência para um grau novo. Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?

O que Esther Solano descreve, porém, vai além de uma sequência de consequências. É um mecanismo. A perda financeira alimenta a ansiedade. A ansiedade estreita o repertório de escolhas. Decisões tomadas sob maior sofrimento tendem a produzir novas perdas. O circuito passa a se alimentar de si mesmo.

Forma-se uma espiral. E espirais têm uma característica inquietante: quanto mais se alimentam de si mesmas, mais parecem obedecer a uma força própria.

Mas será que essa gravidade é inevitável?

De longe, parece que sim. Uma espiral descendente vista de perto transmite a impressão de coisa viva, com vontade própria. A ciência oferece uma perspectiva menos fatalista. Espirais não têm direção própria: elas seguem a direção das condições que as alimentam. Se certos ambientes empurram pra ciclos de perda, outros podem empurrar pra ciclos de fortalecimento. A pergunta de verdade, então, não é só como interromper a queda. É como criar condições para que outra trajetória comece a fazer sentido.

É aqui que a ciência do florescimento humano oferece uma contribuição que vale a pena levar a sério. Barbara Fredrickson mostrou em sua Teoria da Ampliação e Construção, que emoções positivas não são só o resultado de quem já está bem. Elas ajudam a construir o bem-estar. Quando uma pessoa sente segurança, pertencimento, esperança, conexão, o repertório dela amplia. Ela enxerga possibilidades que antes não via, fortalece vínculos, toma decisões menos desesperadas, desenvolve recursos pra aguentar o tranco da próxima adversidade. Esses recursos vão se acumulando, e escolhas mais saudáveis passam a ser mais prováveis. Fredrickson chama isso de espiral ascendente.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

As bets prometem dinheiro. Para muitas pessoas, porém, o que elas oferecem é outra coisa: uma promessa de esperança. Só que não é a esperança construída devagar, com reconstrução de vida, com vínculo, com possibilidade concreta de transformação. É uma esperança-atalho: a expectativa de que um único acontecimento possa resolver aquilo que anos de dificuldade produziram. Atalhos quase nunca constroem recursos. Apenas adiam o encontro com a realidade.

Por isso o enfrentamento das bets não pode parar no controle da oferta.

Regular plataformas, segurar propaganda e proteger público vulnerável: tudo isso é necessário. Mas não basta. A pergunta que sobra é outra, e é mais incômoda: o que faz uma promessa tão improvável parecer, na hora do aperto, emocionalmente convincente?

Se a espiral de baixo se alimenta de vulnerabilidade, a espiral de cima nasce de recurso. Às vezes basta um tio que senta do lado e diz “vamos ver isso juntos” para que a mão não vá sozinha ao celular. Às vezes é uma oficina no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) que faz a pessoa perceber que existiam três saídas onde ela só enxergava uma. Às vezes, e isso não é romantismo, é simplesmente ter um lugar no bairro onde alguém sabe o seu nome. Pequenas mudanças de contexto, sustentadas ao longo do tempo, tornam escolhas saudáveis mais prováveis.

Uma coisa que quase ninguém discute no debate público é justamente isso. A gente passa horas discutindo como impedir que as pessoas apostem. Quase nenhum minuto em como construir ambientes nos quais apostar deixe de parecer a melhor alternativa disponível. E é aí que a conversa deixa de ser só sobre bets. Vira conversa sobre bem-estar e sobre florescimento.

Florescimento não é ausência de sofrimento. Seria uma definição triste. É a presença de condições que permitem às pessoas desenvolver capacidades, fortalecer vínculos, cultivar uma esperança realista, construir sentido pra própria vida. Essas condições não brotam do chão. São produzidas por escolhas culturais, educacionais, econômicas e políticas.

Toda sociedade exerce uma força sobre quem vive nela. A gente já sabe muito bem como se constrói um ambiente que naturaliza a infelicidade, empurrando o cidadão pra dívida, para o isolamento, para o adoecimento. Estamos construindo vários, em tempo real.

O que ainda não decidimos é se vamos levar a sério o outro lado: escola que ensina a lidar com dinheiro, posto de saúde que identifica a angústia antes da crise, quadra, praça, vizinhança e vínculos autênticos. Se fomos capazes de normalizar, em poucos anos, uma cultura que transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio, também somos capazes de fortalecer outra lógica. Uma que invista em educação financeira desde a escola, em saúde mental como política de Estado, em esporte, cultura, convivência, família, comunidade.

O antídoto de verdade para gravidade das bets não é só impedir alguém de apostar. É construir ambientes que ampliem recursos psicológicos, sociais e econômicos, pra que a esperança deixe de depender do acaso e volte a ser construída pelas relações, pelas oportunidades e pelas escolhas que efetivamente estão ao alcance. Democratizar a felicidade talvez seja exatamente isso.

O florescimento nunca foi produzido só pelas escolhas individuais. Nunca foi. Ele também é consequência dos ambientes que a gente decide (ou consegue) construir, das oportunidades que a gente oferece (ou consegue acessar), das condições que a gente torna possíveis para que pessoas, famílias e comunidades possam florescer.

Toda sociedade faz apostas sobre o próprio futuro. Algumas naturalizam o acaso e alimentam vícios que empobrecem o florescimento humano. Outras cultivam virtudes e investem, pacientemente, na construção das condições que tornam a felicidade mais possível.

 

Rodrigo de Aquino é comunicólogo e executivo na área do bem-estar, felicidade e entretenimento com impacto social. É embaixador em São Paulo da ONG Doe Sentimentos Positivos, Climate Reality Leadership Corp 22 e fundador do Instituto DignaMente.

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