Quão colonizados nós somos? - Le Monde Diplomatique

EUROCENTRISMO

Quão colonizados nós somos?

por Bruno Oliveira
14 de outubro de 2020
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A imposição da Europa sobre o restante do planeta também acontece como um movimento de colonização das mentalidades

O colonialismo e o escravismo foram as formas mais violentas de imposição de uma ordem global cujo centro de poder foi a Europa. Política e economicamente, a Europa não é o único poder de influência global atualmente, mas a visão de mundo que predomina ainda é a que foi exportada nos últimos cinco séculos. Ocorre que, livres do controle direto, fomos ensinados/obrigados a mamar no Velho Continente e aprendemos a domesticar nossos pensamentos dentro da eurocentricidade.

A imposição da Europa sobre o restante do planeta também acontece como um movimento de colonização das mentalidades. Essa colonização das mentes se dá em detrimento do resto. Brasileiros são crias desse processo de homogeneização mental que escanteia, ataca ou apaga culturas, línguas e formas de pensar cuja origem não é a Europa.

(Crédito: Sandro Gonzalez/Unsplash)

Os expansionistas cristãos europeus não toleravam a diferença. Isso acarretou na ruína dos povos não brancos, não cristãos e cujas formas de pensar não faziam referência aos gentios de além-mar que se consideravam mestres da história, da civilização e do progresso. Após a colonização territorial, todas as outras formas de colonialismo encontraram espaço para serem impostas.

Uma vez que nosso país é obra do colonialismo europeu, resta perguntar: quão colonizado nós somos? Negros e brancos, e todas as cores derivadas desse entrelaçamento historicamente violento possuem uma origem que está além das Américas. O colonialismo português foi responsável pela redução dos povos originários para uma situação de minoria em número, poder e representação na sociedade brasileira. Na relação entre os três continentes e seus mais variados povos, somente os brancos conseguiram impor sua visão de mundo e, por isso, o Brasil nasce dentro de um projeto eurocêntrico.

Se pensarmos que o processo de colonização do páis é também seu processo de formação e, mais, se o colonialismo é um sistema de imposição e naturalização de diferenças, onde quem é considerado inferior pelo opressor pode até mesmo aceitar sua inferioridade (seres mentalmente colonizados),[i] nós somos esse produto.

A língua é um dos mais claros dados da nossa colonização. Introduzir uma língua prevê a introdução de formas de pensar, de conceitos pertencentes a linguagem e de toda a cultura que uma língua carrega consigo. Além disso, as línguas estão intimamente ligadas à história do povo que a utiliza. Na história brasileira existe um silêncio linguístico. O que ocorreu com as línguas dos povos não europeus que fizeram parte do processo de colonização/construção do Brasil?

Não falamos macuxi, tucano ou akwén. Até falamos, mas não pensamos que essas línguas são parte do Brasil. Também não falamos yorubá ou kimbundu. O pouco que restou de línguas indígenas e africanas em nosso cotidiano foi apropriado pelos falantes de português. O contrário não ocorreu, pois a violência colonial foi também destruidora de culturas e línguas. Só uma língua parece constituir a brasilidade, o português.

A imposição da língua portuguesa foi acompanhada por processos violentos, sejam eles físicos, psicológicos ou epistemológicos. Os genocídios cometidos e a duradoura escravidão são fatos que não podem ser separados da diminuição ou desaparecimento das culturas indígenas e de origem africana. Desse modo, ao pensar a formação do Brasil não se pode descartar que sua estruturação é eurocêntrica e que formas de pensar, falar e existir não europeias, quando existem, são renegadas.

Ao longo de nossa história, a língua portuguesa acompanhou os propósitos racistas do colonialismo. Não foi em línguas indígenas ou africanas que conceitos racistas que justificavam a escravidão foram desenvolvidos. As línguas imperiais da Europa conseguiram desenvolver um rico arsenal teórico para inventar e justificar sua supremacia.

Não se trata de reverter o uso do português. Essa possibilidade já se tornou inviável fazem muitos séculos. Ademais, o português existe hoje como uma língua brasileira. Mas, apesar da linguagem ter sido extensamente utilizada para propósitos colonialistas, a língua pode ser uma ferramenta de integração por meio de trocas culturais. Mas essa troca só pode ocorrer se as culturas em contato estiverem em pé de igualdade.

Foi ao longo de séculos que a episteme europeia produziu uma extensa bibliografia sobre os povos ao redor do mundo, inclusive em português. Tais saberes não favoreciam ou eram partilhados com os objetos de estudo destituídos de humanidade. Os escritos atrelados ao colonialismo desconsideravam as línguas, culturas e visão de mundo dos povos estudados. Esses escritos entendiam o não europeu como despossuído dos dados civilizacionais que validavam a crença na superioridade europeia.[ii]

Nas últimas décadas, após todos os séculos de inumeráveis e maciços danos causados aos povos não ocidentais, fica evidente que os povos brancos não possuem a singularidade na criação do saber e na solução dos problemas que eles criaram.

Uma busca pelas línguas, culturas e formas de pensar que ainda existem no Brasil e que não fazem parte da episteme ocidental pode nos ensinar novas formas de existir em um planeta que se desfaz sobre a forma de existir imposta por povos ocidentais. Recuperar o que foi suprimido enriquece a ciência, a pluralidade do Brasil e fornece elementos para construir uma ecologia de saberes onde se torna possível a construção de formas de pensar alternativas e contra-hegemônicas.

O imperialismo e o colonialismo dos últimos cinco séculos foram causadores de exclusão e extinção de línguas, culturas e epistemes. É necessário que reconheçamos a possibilidade da comunicação entre diferentes línguas e ideias ainda presentes nos diferentes povos que formam o país. Isso torna possível as trocas de diferentes saberes, práticas sociais e cria possibilidades das línguas se enriquecerem mutuamente.

Conhecer e criar espaços de trocas com formas de pensar que estão fora da episteme eurocêntrica levará, também, a uma reescrita da história do Brasil, respeitando a perspectiva e experiência dos grupos que foram excluídos. Isso não seria nada mais, nada menos, do que uma forma de descolonizar uma história eurocentrada.

O formato de dominação direta do colonialismo pode ter acabado. Mas a sua obra persiste, seja em formas neocoloniais em nossa política, relações sociais e economia ou em nossas mentes colonizadas pela episteme europeia. O silêncio das línguas que outrora existiam no Brasil são provas de um longo período racista de eliminação e supressão dos povos originários e africanos.

Atualmente, percebe-se como lógicas de acumulação e extração europeias justificam a ruína dos trabalhadores e do meio ambiente. Colocado dessa maneira, fica evidente a barbaridade desse mundo eurocêntrico. Porém, a força da episteme europeia está em fechar nossos olhos e ouvidos e nos ensinar a considerar que a existência fora da eurocentricidade é sinônimo de barbárie e atraso.

Se não conseguirmos ouvir aqueles e aquelas que sobreviveram e sobrevivem aos séculos de colonialismo e seu legado, ou seja, os/as que podem nos oferecer outra visão de mundo, estaremos a proteger o legado do colonialismo no Brasil, onde saberes, culturas, línguas e pensamentos de origem não europeia são excluídos. Se assim, continuar, serão destruídos e o processo poderá ser irreversível, uma vez que muito já foi perdido na história brasileira por causa das práticas violentas do colonialismo.

 

Bruno Ribeiro Oliveira é mestre em História de África pela Universidade de Lisboa e doutorando do Programa de História e Artes da Universidade de Granada.

 

[i] BOAVENTURA, de Sousa Santos. Epistemologies of the South and the future. From the European South, n.1, 2016, p.18.

[ii] TOSCANO, Alberto. “By contraries execute all things”. Figures of the savage in European philosophy. Radical Philosophy, n.2 v.4, 2019, p.12.



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