Quem lembrará dos nove de Paraisópolis? - Le Monde Diplomatique

Impunidade

Quem lembrará dos nove de Paraisópolis?

por Evandro Cruz Silva
5 de outubro de 2020
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É através da lembrança constante de vidas como as dos nove de Paraisópolis que podemos dar mais um importante passo na luta pelo direito universal à respiração, no eterno caminho contra a necropolítica que rouba o ar, a vida e a memória de nossos jovens pobres e negros.

Da esquerda para a direita: Gustavo Cruz Xavier, 14, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, e Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 (primeira fila); Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, e Gabriel Rogério de Moraes, 20 (segunda fila); Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23 (terceira fila)  – Reprodução.

 

“Olha, eu sou ignorante, mas o que eu sei é que acabou, a minha vida acabou. Eu fiz um pôster com a cara dele, do Dennys, pra todo dia que eu acordar eu ver a foto dele na sala. Mas não é a mesma coisa, não é porque a minha vida acabou.” Adriana Regina dos Santos, empregada doméstica durante toda vida, sustenta a entrevista com uma voz firme enquanto intercala, entre uma frase e outra, que é “ignorante”. A firmeza de sua voz só vacila, perdendo um pouco do ar, quando a mulher de 48 anos cita o nome de seu filho, Dennys Guilherme dos Santos Franco, morto na madrugada do dia primeiro de dezembro de 2019 em Paraisópolis, durante uma ação de cerco a um baile funk. Dennys, conta Adriana e Fernanda (irmã mais velha da vítima), era um garoto prestativo, que trabalhava e era querido por todos em seu bairro, elas contam ainda que ele apenas saía com a sua autorização e em todas as vezes voltava dentro do horário estipulado. Naquela noite, Dennys prometera à Fernanda que voltaria antes das cinco da manhã. Naquela ocasião, a promessa não foi cumprida.

Os bailes funks da periferia de São Paulo são geralmente realizados em ruas largas e a céu aberto. Nestas situações, os manuais de dispersão militar recomendam que ruas vicinais sejam desobstruídas para que a população possa correr e encerrar aglomeração. Contudo, durante aquela noite, a polícia militar de São Paulo fez com que sua operação encurralasse cerca de cinco mil pessoas em uma viela de pouco mais de 50 metros. Desde aquela madrugada de dezembro é possível encontrar na internet vídeos em que os agentes agridem os frequentadores entre as duas esquinas do baile e empurrando-os para dentro da viela.  Esta incursão foi feita pela polícia dentro da “Operação Pancadão” que aliam as Forças Táticas, as rondas feitas por moto e as patrulhas locais agindo sobre bailes funks. A presença dos policiais locais somava para o fato de que os agentes sabiam para onde mover a aglomeração, seja para dispersá-los, seja para prendê-los num espaço exíguo, como ocorreu.

Durante a operação, nove jovens entre 14 e 23 anos de idade foram mortos, são eles: Gustavo Cruz Xavier, 14, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, e Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16; Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, e Gabriel Rogério de Moraes, 20 ; Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23. A causa alegada para as mortes foi a de “asfixia mecânica indireta”. Um dia e meio após as mortes, o governador de São Paulo, João Dória, afirmou em entrevista que as operações em Paraisópolis continuariam, em frente ao palácio dos bandeirantes, o governador declarou à imprensa “A existência de um fato não inibirá as ações de segurança.”

Para que uma pessoa saudável morra de asfixia mecânica é preciso interromper, através de algum tipo de ação externa, a respiração de seu corpo por mais de 2 minutos. O primeiro efeito desta violência é a falta de ar no cérebro, fazendo com que a pessoa se sinta tonta e comece a ter alucinações. Depois, a falta de oxigênio no sangue diminui a pressão sanguínea, causando cansaço extremo, perda de coloração da pele, arroxeamento da boca, até que, por fim, ocorre o desmaio e o ritmo de batimento cardíaco diminui progressivamente. Este processo ocorreu para nove jovens pobres enquanto eles eram encurralados no meio de milhares de pessoas num beco. Enxergavam assim, num misto de pavor e violência, espremidos entre milhares de outros corpos, a violência que produzia o fim de suas vidas. Já na manhã do dia seguinte, as ruas de Paraisópolis eram tomadas por protestos que reivindicavam o esclarecimento dos reais responsáveis pelos assassinatos ocorridos durante o baile. Por uma coincidência mórbida, um processo parecido também ocasionou o assassinato de George Floyd devido o enforcamento realizado por um policial de Minessota-EUA e que desencadeou uma série de protestos antirracistas ao redor do mundo. Tanto lá, quanto cá, a polícia foi protagonista por roubar o respiro de vida de gerações negras e pobres.

Quase um ano depois do ocorrido, o caso corre o risco de ser arquivado e os policiais envolvidos absolvidos. Contra este esquecimento, mães e familiares dos jovens mortos durante a operação se juntaram ao Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo e, através de uma série de podcasts –  com pouco ar que lhes restaram – se reuniram para contar a vida dos 9 de Paraisópolis. Mantendo em voz a memória do ar roubado daqueles que, de uma madrugada para outra, perceberam que “a vida acabou”. É na contraposição da corrente genocida que mata os corpos e desaparece com as histórias que o podcast 1049 lançou a série “Os 9 de Paraisópolis”, uma série de seis entrevistas conduzidas pela pesquisadora Desireé Azevedo, via reuniões coletivas através de um aplicativo de chamadas de vídeo.

São histórias de pessoas humildes que fazem do testemunho de seus sofrimentos uma maneira organizar o trauma de uma violência inexplicável e um luto que precisa ser vivido em isolamento devido à pandemia de coronavírus, como comenta Reinaldo Cabral de Moraes, pai de Gabriel Rogério, outra das vítimas de Paraisópolis, num tom que parece dizer mais pra si mesmo do que para a entrevistadora: “A gente fica aqui em casa, e tudo lembra ele, o quarto dele tá aqui… o cheiro dele, eu até chamava a atenção antes, porque era muito tênis jogado pelo quarto, agora é o cheiro que eu mais gosto, o cheiro dele.” Os relatos também se destacam quando os interlocutores dizem expressamente da possibilidade de fazer com que o registro da memória de seus entes queridos uma ferramenta para alertar sobre a necessidade de responsabilização de seus assassinos, para que isso sirva de exemplo “Isso não pode ficar assim, ‘tragédia’ é eu derrubar um copo. Meu irmão foi morto, não tem sentido ninguém ser responsabilizado por isso.” como diz Fernanda, irmã de Dennys Guilherme, em determinado momento da entrevista.

Peça de suma importância para o registro da violência de Estado e registro que mistura sentimentos delicadeza, ternura, luto, humildade e vontade de luta, o registro continuado da memória das vítimas da violência policial é um ponto incontornável da resistência contra o genocídio. É através da lembrança constante de vidas como as dos nove de Paraisópolis que podemos dar mais um importante passo na luta pelo direito universal à respiração, no eterno caminho contra a necropolítica que rouba o ar, a vida e a memória de nossos jovens pobres e negros.



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