Miscelânea - Resenhas - Le Monde Diplomatique

RESENHAS

Miscelânea – Resenhas

3 de maio de 2021
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TRILOGIA DO REENCONTRO

Botho Strauss, Temporal

miscelânea

Não é preciso conhecer o teatro alemão e sua história para apreender a melancolia de Trilogia do reencontro, peça de Botho Strauss escrita em 1976 e encenada pela primeira vez em 1977, em Hamburgo. No texto, publicado pela editora Temporal com tradução de Alice do Vale, amigos se encontram no vernissage de uma associação artística, menos interessados nas obras expostas que em si próprios; tentativas de conversas, inícios falhados, assuntos tão intrigantes quanto queda capilar se acumulam em quadros rápidos que não evoluem, à semelhança da relação entre diversos personagens. A aparição silenciosa de um dos membros do conselho da associação – único acontecimento da peça – ameaça agitar esse estado de limbo, mas a perturbação é temporária.

Se tal fragmentação e estagnação

não nos são estranhas nos dias atuais, seja nos espetáculos chamados “pós-dramáticos”, em nossa subjetividade ou ainda em determinadas discussões políticas, a recuperação do contexto da escrita de Trilogia do reencontro adiciona camadas de complexidade a essa prostração. No esclarecedor prefácio à edição brasileira, o professor da Udesc Stephan A. Baumgärtel descreve a frustração da jovem burguesia cujos sonhos revolucionários de 1968 se dissolveram e, ao retomar a história recente do teatro alemão, atenta para o reflexo na cena dessa geração: um teatro sem narrativa, com personagens sem profundidade psicológica, numa peça que pode ser lida como despolitizante. Baumgärtel também apresenta a trajetória e o pensamento de Strauss – autor alemão importante, vencedor do prestigiado prêmio Georg Büchner em seu país, amplamente encenado por lá –, o que permite um entendimento mais amplo de Trilogia.

Vale observar ainda que, ao dedicar quase trinta notas ao final do volume às referências das artes plásticas citadas na peça, a edição acaba provocando uma reflexão sobre outros discursos que podem permear o texto de Strauss; se a pintura em questão na exposição da associação artística é a realista, com suas possibilidades várias de representação da realidade, que tipo de conversa Strauss está estabelecendo com a mimese?

 

[Mariana Delfini] Jornalista e tradutora.

A DEMOCRACIA RESISTE: O BRASIL DE 2018 A 2020

Liszt Vieira, Garamond

Acabo de concluir a leitura do livro de Liszt Vieira, uma coletânea de cinquenta artigos publicados na Carta Maior entre 2018 e 2020. Saio da última página com a sensação de que tenho em mãos um texto que pode ser lido em duas perspectivas distintas. A primeira, mais óbvia, é como crônica de nossa tragédia contemporânea. Está tudo registrado com precisão jornalística: as reformas neoliberais que destruíram o contrato social instituído pela Constituição de 1988, a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições, os desdobramentos sociais e políticos da pandemia, a destruição da tradição da política externa brasileira. O trabalho de Liszt é incontornável para o leitor interessado em conhecer a factualidade da crise democrática que começou a se abater sobre o Brasil em meados da década de 2010.

Na outra chave, autor e texto se confundem e o livro deixa de ser crônica para se tornar testemunho. Liszt é um dos arquitetos da democracia brasileira, que começou a ser construída no final da década de 1970. Ativista em defesa do meio ambiente e dos direitos das minorias quando essas agendas ainda engatinhavam, ele faz parte da geração que teve a juventude roubada pela ditadura militar.

Liszt foi observador atento do governo de Michel Temer, que destruiu as estruturas de proteção social do Estado brasileiro fundadas na década de 1930. Nem a ditadura militar conseguiu chegar tão longe. Os governos tucanos na década de 1990 tampouco. Temer conseguiu fazer em dois anos o que a direita brasileira não faz em quase noventa anos. Depois, a situação só fez piorar e os desdobramentos da vitória de Bolsonaro para a democracia estão aí para o mundo inteiro ver.

Na maturidade, Liszt está tendo o desprazer de testemunhar a derrocada da democracia que viu nascer. Mas se engana quem acha que, por isso, seu texto é melancólico e triste. De modo algum. É inspirador, analítico, um convite à resistência. Nasci no final da década de 1980. Sou da geração que herdou a democracia construída pela geração de Liszt. Tomo a prosa do professor como um chamado à responsabilidade. Defender a democracia é dever de todos nós, e a compreensão é o primeiro ato de resistência. Ler esse livro é um gesto político.

 

[Rodrigo Perez] Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia.

 

Novas narrativas da web

Sites e projetos que merecem seu tempo

 

Operação Vingança

Esse é o apelido das operações que a polícia do Rio de Janeiro realiza nas favelas após a morte de algum policial. O especial feito pelo MediaLab.UFRJ e a Agência Autônoma, em parceria com Redes da Maré, Fogo Cruzado, Pista News, Witness e Rede LAVITS, foi inspirado em metodologias da arquitetura forense e mostra com mapas, vídeos, fotos e investigação jornalística como helicópteros levam terror aos moradores, não raro realizando disparos e jogando bombas do alto, perto de escolas, atingindo inocentes. O trabalho contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Fundação Ford.

https://documental.xyz/intervencao

 

A olho nu

Nos Estados Unidos, o Unjustice Watch (Observatório da Injustiça, numa tradução livre), junto com o canal Buzzfeed, publicou o resultado de uma pesquisa que mostrava policiais e seus posts no Facebook considerados racistas, xenófobos ou preconceituosos. A ideia era que, ao revelar como os policiais se comportam nas redes, ficasse mais claro que essas questões não são individuais, mas prática recorrente em toda a corporação, derrubando a “teoria da maçã podre”. Toda a base de dados está aberta, e você pode buscar comentários feitos nas redes pelos policiais com filtros como cidade, faixa salarial, se está na ativa ou na reserva. Como seria uma pesquisa dessa com os policiais brasileiros?

www.plainviewproject.org

 

Artes e emoções

O Google fez um experimento: perguntou a 1.300 pessoas quais emoções eram disparadas ao observarem 1.500 pinturas. Com base nos resultados, criaram um atlas das emoções que foram causadas por elas: mistério, desejo, tédio, amor, raiva, confusão e nojo são algumas das 25 categorias pelas quais se pode navegar no site interativo. Foi realizado com a ajuda de cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e pretende ser usado para auxiliar no estudo das emoções humanas. Experimente se você também percebe as sensações em cada quadro.

https://artsexperiments.withgoogle.com/art-emotions-map/

 

[Andre Deak] Sócio do Liquid Media Lab, professor de Jornalismo e Cinema da ESPM, mestre em Teoria da Comunicação pela ECA-USP e doutorando em Design na FAU-USP.



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